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Autoras do disco considerado “o pior de todos os tempos”, as três irmãs voltam à ativa para um show de rock naïf – escrevi sobre elas no meu blog no UOL.

“Precisamos gravá-las enquanto elas ainda estão quentes!”, empolgava-se, segundo a lenda, Austin Wiggin, o pai de um grupo de três irmãs que ele achava que se tornaria um grande sucesso no auge do rock clássico, final dos dos anos 60. Sem o menor tino comercial – muito menos musical -, ele colocou suas filhas para tocar na marra sem se preocupar em ensinar música para elas e depois de anos de treino levou as Shaggs para gravar o disco Philosophy of the World, considerado o pior disco de todos os tempos. Tosco e completamente torto, o disco é uma obra de arte naïf da era elétrica e, fadado ao desaparecimento, construiu, posteriormente, uma reputação e um legado incrivelmente bizarros, que permitiram que a banda voltasse à ativa para participar da quinta edição do festival organizado pelo grupo Wilco, o Solid Sound, que acontece entre os dias 23 e 25 de junho deste ano.

“Philosophy of the World é o disco mais impressionantemente terrível e maravilhosamente doentio que ouvi em eras”, assim a escritora Debra Rae Cohen apresentava a obra máxima das Shaggs ao público da revista Rolling Stone norte-americana em 1980, mais de uma década após o lançamento original do disco. “Como uma família Trapp lobotomizada (em referência à família cantora do filme A Noviça Rebelde), as Shaggs berram letras de cartões de festa num uníssono feliz quase sem graça junto a frases ostensivas de melodia enquanto batem suas pequenas guitarras como se fossem alguém preocupados com o zíper. A baterista bate decididamente ao ritmo de outra inspiração, como se ela tivesse que acertar toda vez que música as outras estão tocando – errando todas as vezes”.

Não é exagero. O disco que as irmãs Helen, Betty e Dorothy – também conhecida como Dot – Wiggin gravaram no dia 9 de março de 1969 é uma tortuosa e quase infantil tentativa de fazer música pop sem a menor noção musical. Perto das três Shaggs, os primeiros punks eram músicos virtuosos. As Shaggs não tinham a menor noção de nada: ritmo, sincronia, conjunto, composição, interpretação – nada. O disco parece ter sido feito por crianças que pegaram instrumentos pela primeira vez na vida e, entendendo minimamente como cada um deles funciona, gravaram as primeiras ideias que vieram em suas cabeças, sem combinar nada umas com as outras.

De certa forma, era exatamente isso que acontecia. O pai das meninas transformou-as em um grupo por uma profecia de sua mãe, que leu a mão do jovem Austin Wiggin e disse que ele casaria com uma loira, que teria dois filhos depois que ela morresse e que suas filhas, juntas, seriam um grupo musical de sucesso. Como as duas primeiras previsões aconteceram, Austin preferiu não esperar o acaso e forçou suas filhas a terem uma banda. “Ele era teimoso e podia ser temperamental. Ele nos dirigia. Nós obedecíamos. Fizemos o melhor que podíamos”, contou Dot ao escritor Irwin Chusid, autor do livro Songs in the Key of Z: The Curious Universe of Outsider Music. E arrumou um lugar para as meninas tocarem ao vivo toda semana.

A tiragem inicial do disco, de mil cópias, foi quase inteiramente roubada em um assalto a um depósito de discos e as cem cópias restantes frustraram o sonho de sucesso que o pai tinha para suas filhas. No entanto algo improvável aconteceu: o disco se tornaria um item colecionável por fãs de música estranha, uma nova categoria de ouvintes que surgia entre os anos 60 e 70, buscando discos horríveis e mal gravados que seus autores achavam que poderiam fazer sucesso. Um destes principais colecionadores era o radialista Barry Hansen, que apresentava o programa que levava seu apelido, Dr. Demento, que passou a tocar músicas das Shaggs em seu programa. Em um deles, Demento recebeu Frank Zappa como convidado, que pediu para tocar várias faixas do disco Philosophy of the World, que ele considerava “melhor que os Beatles”.

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O estranho culto às Shaggs via a tosqueira das meninas como um ponto positivo. Não importava que a música soasse pueril ou que não tivesse nenhuma relação com a forma tradicional de se fazer música. As Shaggs eram punks além dos punks pois não sabiam nada sobre música e mesmo assim foram lá e gravaram um disco. E a bizarrice, por esse ponto de vista, levava o instinto primitivo das garotas para outras praias musicais, como a música atonal, o folk experimental, o free jazz. Foi a esta luz que o grupo country NRBQ convenceu sua gravadora, Rounder, a relançar o disco no início dos anos 80, além de um segundo disco, Shaggs’ Own Thing, a partir de gravações que a banda fez em 1975. A reverência ao “pior disco de todos os tempos” ultrapassou a ironia e Philosophy of the World ganhou o status atual, de disco cult e influente, mesmo que sua influência seja mais conceitual que prática. O crítico Lester Bangs imortalizou a frase de Zappa ao colocá-la como título do texto que escreveu sobre as garotas no jornal Village Voice, em 1981: “As irmãs Wiggins – um antipower trio – não apenas redefinem a arte, como têm um coerente Weltanschauung em seu primeiro disco, Philosophy of the World.”

Por isso não é uma surpresa que a volta das Shaggs em 2017, quase cinquenta anos após o lançamento do disco que lhes deu fama, não seja a primeira vez. A banda foi recriada em 1999, quando o grupo NRBQ fez seu aniversário de 30 anos, em Nova York. Dois anos depois, o disco Better than the Beatles foi lançado em tributo ao grupo. A baterista Helen morreu em 2006 e Dot lançou seu primeiro disco solo em 2013, pela gravadora Alternative Tentacles, do fundador dos Dead Kennedys, Jello Biafra. As Shaggs foram citadas em filmes como As Vantagens de Ser Invisível, Empire Records, Ken Park e na série Gilmore Girls, além de Philosophy of the World estar em quinto lugar na lista dos 50 melhores discos de Kurt Cobain, como ele escreveu em seus Diários – a história da banda virou até peça de teatro na Broadway. Philosophy of the World, inclusive, foi relançado em vinil no ano passado numa edição limitada da caprichosa gravadora Light in the Attic.

Além das Shaggs, o festival Solid Sound terá duas apresentações do próprio Wilco, além de shows do Television, Kurt Vile & the Violators, Kevin Morby, entre outros, além de projetos paralelos da banda que faz a curadoria do festival, como Tweedy, The Autumn Defense, On Fillmore e o Nels Cline Four. Os ingressos já estão à venda no site do evento.

Nick Mason e Roger Waters, em evento de lançamento da exposição Pink Floyd: Their Mortal Remains

Nick Mason e Roger Waters, em evento de lançamento da exposição Pink Floyd: Their Mortal Remains

Em uma entrevista coletiva para falar sobre a nova exposição inspirada no Pink Floyd, o baterista Nick Mason e o baixista Roger Waters deram a entender que podem fazer um último show da banda no festival de Glastonbury – falei sobre essa possibilidade no meu blog no UOL.

Embora David Gilmour tenha matado o Pink Floyd logo após o lançamento do disco Endless River em 2014, os três integrantes remanescentes do grupo estão trabalhando juntos num projeto com o nome da banda. A exposição The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains deve estrear ainda este semestre em Londres, reunindo toda espécie de material sobre a banda com a curadoria do guitarrista, do baixista Roger Waters e do baterista Nick Mason. É a primeira vez que os três se reúnem desde o show que fizeram juntos ao tecladista Rick Wright no evento Live 8, em 2005, três anos antes da morte de Wright. Mas agora dois integrantes da formação original da banda cogitam a possibilidade de voltar aos palcos com o nome que lhes deu fama.

“Seria legal acrescentar algumas coisas à lista. Eu nunca toquei em Glastonbury. Seria divertido, mas não acho que seja muito provável”, disse o baterista Nick Mason em um evento realizado para divulgar a exposição na semana passada, em Londres. Waters, que também esteve no evento e já tocou no festival como artista solo, completou a declaração do amigo baterista. “Eu toquei em Glastonbury uma vez. Acho que estava muito frio. Mas tinha muita gente, eles pareciam muito felizes eu gostei. Sim, eu tocaria lá de novo.”

A declaração dos dois colide de frente com as intenções do guitarrista, dono dos direitos do uso do nome da banda após uma exaustiva disputa judicial com Roger Waters, com quem tem uma relação complicada. Em entrevista ao jornal inglês Telegraph em 2015, Gilmour comentou sobre ter encerrado as atividades do Pink Floyd e sua relação com Waters. “Eu não me iludiria a não apreciar os ótimos momentos que tivemos juntos. Ao cantar ‘Us and Them’, eu penso como a música é brilhante e relevante, e eu não escrevi nem a letra nem a música. Ainda amo poder tocá-la. Eu não quero fazer mais isso com o resto destes caras. Rick morreu. Roger e eu não nos damos particularmente bem. Ainda conversamos. É melhor do que já foi. Mas não funcionaria. As pessoas mudam. Roger e eu nos superamos um ao outro e acho que seria impossível que nós trabalhássemos juntos de uma forma realista.”

A exposição Pink Floyd: Their Mortal Remains estreia dia 13 de maio, no V&A Museum, em Londres

A exposição Pink Floyd: Their Mortal Remains estreia dia 13 de maio, no V&A Museum, em Londres

Mas o fato é que Gilmour e Waters vêm trabalhando juntos na exposição The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains, que estreia no museu londrino Victoria and Albert no dia 13 de maio até outubro deste ano e já está com ingressos à venda. Inspirada no sucesso da exposição de David Bowie, a exposição reúne 350 itens usados pela própria banda, que vão desde instrumentos e equipamentos de som, a itens pessoais, manuscritos de letras e até a vara de bambu que surrava os integrantes da banda quando eles ainda eram crianças, na escola (pois até os anos 50, professores ingleses podiam repreender fisicamente seus alunos). O dia do lançamento da exposição coincide com o lançamento do primeiro single da banda, “Arnold Layne”, dos tempos em que o grupo era liderado pelo visionário psicodélico Syd Barrett, que só gravou o primeiro disco com a banda e morreu em 2006.

A última vez que os integrantes da fase clássica do Pink Floyd tocaram juntos, em 2005 (David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Rick Wright)

A última vez que os integrantes da fase clássica do Pink Floyd tocaram juntos, em 2005 (David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason e Rick Wright)

A relação tensa entre os integrantes da banda já foi bem pior, mesmo antes do grupo terminar no início dos anos 80, quando Waters, que então via-se como o líder e principal compositor do Pink Floyd, demitiu o tecladista Rick Wright do último disco que gravou com o nome da banda, The Final Cut, de 1983. Nos anos 80, quando Gilmour, Wright e Mason ganharam na justiça o direito de usar o nome Pink Floyd sem a permissão Waters, a relação ficou ainda pior, principalmente porque Waters continuava fazendo shows com o mesmo material que o grupo também fazia ao vivo. Os quatro voltaram a se conversar no novo século, quando Waters participou de um show do Pink Floyd em 2005, tocando juntos pela última vez numa aparição surpresa no festival Live 8.

E nunca foi segredo nenhum que o dono do festival Glastonbury, Michael Eavis, sempre quis ter o Pink Floyd na história do evento. Será?

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Contei o que já sabemos sobre a continuação do épico de monstros e robôs gigantes de Guillermo Del Toro no meu blog no UOL.

Um dos grandes filmes de ação de 2013, Pacific Rim também foi mais um exercício de nerdismo em grande escala por parte do diretor mexicano Guillermo Del Toro, colocando monstros para lutar contra robôs gigantes em diferentes cidades ao redor do Oceano Pacífico, onde estava localizada a falha geológica que batiza o filme (que, no Brasil, foi batizado de forma indecifrável como Círculo de Fogo). Apesar de contar uma história com começo, meio e fim, o filme original sempre veio associado à ideia de uma continuação – e talvez tornar-se uma franquia. E depois de muitas especulações sobre este segundo filme, eis que este mês de fevereiro trouxe uma série de novidades em relação ao segundo volume da história.

A principal delas é a que o personagem vivido por John Boyega é mesmo o filho do personagem de Idris Elba no primeiro filme. A revelação veio na forma de um tweet de Boyega, o Finn do Episódio VII de Guerra nas Estrelas, que havia sido confirmado no elenco do filme no meio do ano passado.

Mais do que revelar a primeira imagem oficial do filme, o texto da publicação era bem claro: “Eu sou Pentecost, 2018”, numa referência ao sobrenome do protagonista que, no clássico trailer original, avisava que estava “cancelando o apocalipse!”. O parentesco, no entanto, não diz respeito apenas aos personagens dos dois filmes, mas, principalmente, em relação à distância entre as duas histórias. Até então não sabíamos quanto tempo havia se passado entre os dois filmes e mesmo se ambos se passavam com o mesmo grupo de personagens.

O tweet também oficializou o título do novo filme, que não se chamará Pacific Rim 2 ou mesmo Pacific Rim: Maelstrom, como era especulado anteriormente. O nome oficial da continuação do filme é Pacific Rim: Uprising e seu logotipo foi revelado nesta sexta-feira na conta do Instagram do diretor novato Steven S. DeKnight.

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A tradução para “maelstrom” varia entre “turbilhão” e “redemoinho”, dando tanto a ideia de intensidade e velocidade como a de algo acontecendo embaixo d’água. “Uprising”, por sua vez, pode significar tanto “revolta”, “levante” e “insurreição” quanto “renascimento”. O que dá uma dica do que virá por aí: a falha sob o Pacífico não pode ser fechada e os kaiju – a forma como os monstros são referidos no universo de Pacific Rim – irão voltar.

A própria escalação de DeKnight para a direção é outra grande mudança nos rumos do filme, mas Del Toro segue como produtor, dando pitacos na história que criou. DeKnight é conhecido pelas diferentes séries Spartacus, do canal norte-americano Starz, e por ter pego a segunda temporada do Demolidor da Marvel depois da saída de Drew Goddard, mas nunca dirigiu um filme. E ao que tudo indica, depois do novo Pacific Rim, ele volta para a televisão, para dirigir a primeira temporada de outro personagem da Marvel, o Justiceiro.

Do elenco original, foram confirmadas as participações de Rinko Kikuchi, de volta ao papel de Mako Mori, e dos dois principais cientistas do filme, o Dr. Hermann Gottlieb vivido por Burn Gorman e o Dr. Newton Geiszler, de Charlie Day. Este, inclusive, pode ser o motivo do levante do título, uma vez que ele pode entrar na mente de um kaiju, uma espécie cuja consciência é coletiva, como uma colmeia de abelhas. Não há referências sobre a volta de Clifton Collins Jr. como o operador Tendo Choi ou de Ron Perlman como Hannibal Chau, embora a ausência de Charlie Hunnam, um dos principais atores do primeiro filme, já tenha sido confirmada, por questões de agenda do ator.

O novo Pacific Rim já está sendo filmado na Austrália e deve estrear só no ano que vem – a data exata de lançamento nos Estados Unidos é dia 23 de fevereiro de 2018.

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Genndy Tartakovsky ressuscita seu Samurai Jack para uma última e definitiva temporada – escrevi sobre o novo clássico lá no meu blog no UOL.

A criação mais radical de Genndy Tartakovsky parece que finalmente vai encontrar seu destino. Depois de anos vagando como a possibilidade de se transformar em um longa, a conclusão do épico marcial Samurai Jack finalmente acontece a partir do mês que vem, quando a quinta temporada do desenho animado encerra a saga de seu personagem-título. Serão dez episódios que resolvem uma série de questões que as quatro primeiras temporadas haviam deixado em aberto, além do drama principal de Jack. A nova temporada estreia no dia 11 de março, no canal norte-americano Adult Swim.

Samurai Jack é um samurai atirado num futuro após matar um mago vilão, Aku, seu principal nêmese. Vivendo numa época completamente diferente da sua, resta a Jack matar robôs enviados por Aku para destrui-lo. A nova temporada apresenta Jack cinquenta anos no futuro, sem envelhecer (efeito colateral das viagens no tempo), de barba e familiarizado com armas de fogo. Eis seu primeiro trailer:

Tartakovsky, cujas principais criações são os clássicos desenhos Laboratório de Dexter e Meninas Superpoderosas, além da série de longas de animação Hotel Transilvânia, decidiu retomar o desenho porque sempre que participava de eventos em escolas e universidades, ele era questionado sobre o final de Samurai Jack, cujas quatro primeiras temporadas aconteceram entre 2001 e 2004. Em entrevista à revista Empire, o artista disse que a conclusão exibida este ano é o final que ele sempre quis contar e que quebrou a cabeça nos últimos oito anos para transformar em um longa de animação. “É algo que sempre quis fazer em animação, na verdade, por muito tempo. É muito desafiador, mas se fizermos direito, vai deixar as pessoas às lágrimas.”

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The-Office

Veja lá no meu blog no UOL, plantas de locais de trabalho de séries como The Office, Mad Men, Brooklyn Nine-Nine e Silicon Valley, entre outros.

Os funcionários da empresa Drawbotics, que cria soluções digitais para o mercado imobiliário nos EUA, resolveram gastar seu tempo livre recriando escritórios clássicos de novas séries de TV em plantas tridimensionais. O resultado é uma visão panorâmica que nunca conseguimos ter dos cenários de séries como The Office, Mad Men, Brooklyn Nine-Nine, Parks & Recration, entre outros.

Silicon-Valley

Mad-Men

Brooklyn-Nine-nine

Parks-and-Recreation

Tem outros escritórios lá no blog da empresa.

Mítico disco do Television, Marquee Moon continua como um segredo escondido quatro décadas após seu lançamento, completas nesta terça-feira. Escrevi sobre o disco no meu blog no UOL.

Há 40 anos, o Television encerrava uma era e iniciava outra com seu clássico Marquee Moon

Entre os anos 60 e 70, a maior cidade dos Estados Unidos havia se tornado o inferno na terra. A especulação imobiliária, uma crise fiscal inédita e o braço dado dos políticos com as grandes corporações haviam sacrificado vizinhanças inteiras, transformando Nova York em uma cidade violenta e destruída. Um antro decadente que empilhava seus pobres nas periferias e transformava o metrô num centro nervoso da insegurança que espalhava-se por suas ruas, abandonadas pelo poder público – “Bem-vindo à cidade do medo”, dizia um panfleto que recepcionava os turistas da época. Era o cenário que inspiraria distopias como os filmes Fuga de Nova York, Blade Runner e Warriors – Guerreiros da Noite e daria origem a movimentos culturais que redefiniriam a cultura ocidental do final do século passado, como o hip hop, a cultura gay e, claro, o punk rock. Mas no coração deste último, especificamente na espelunca que viu nascer o movimento urbano que salvou o rock da autoindulgência, havia um palácio de luz que unia toda a importância do rock até o meio dos anos 70 transformando-se em um farol para a criatividade de artistas nas décadas seguintes. Estas qualidades tornaram-no uma das obras mais importantes da história da música popular, embora Marquee Moon, o disco de estreia da banda Television, lançado há exatos 40 anos, seja passado de geração em geração como um segredo bem guardado.

Mas não há segredo algum. Num álbum esplendoroso com parcas oito canções somando menos de cinquenta minutos, Tom Verlaine conduz seu pequeno exército de instrumentistas reunindo lições aprendidas no jazz experimental, no folk e no rock clássico que abririam o rumo para artistas que redefiniriam a música nos anos seguintes a partir da grande transformação provocada pelo punk. Não é exagero dizer que Marquee Moon é o primeiro disco de rock alternativo, aquele que cogita uma nova relação com a música produzida a partir do casamento de guitarras, baixo e bateria com o ímpeto adolescente de se fazer percebido. O disco de 1977 não apenas consolida o arquétipo da banda nova-iorquina que reúne predecessores como o Velvet Underground, os Modern Lovers e os New York Dolls, contemporâneos como Patti Smith e os Talking Heads e sucessores como o Sonic Youth e os Strokes. Ele também abre possibilidades novas e improváveis para um gênero musical entusiasmado com o próprio virtuosismo que fucionariam como alicercespara carreiras inteiras de grupos como Joy Division, R.E.M., Pixies, Echo & the Bunnymen, Wilco e Radiohead.

Foi Tom Verlaine que descobriu o CBGB’s. Thomas Miller era um moleque de Nova Jérsei que havia se mudado para Nova York para reinventar-se como artista seguindo os passos de Dylan dez anos antes – trocando, como Dylan, seu sobrenome original por o de um escritor clássico, o poeta simbolista francês Paul Verlaine. Sua formação musical havia começado no jazz quando era aprendera a tocar saxofone quando era criança, mas foi “19th Nervous Breakdown” dos Rolling Stones que o fez abraçar a guitarra elétrica. Músico dedicado, Verlaine vinha na contramão do gênero que ajudaria a colocar no mapa. Sua principal ligação com o punk clássico não era musical e sim autoral – foi sua convicção em tocar do jeito que queria que o levou a bater na porta do bar de Hilly Kristal, um bar de motoqueiros que só tocava rock tradicional, pedindo para que lhe cedesse o palco para sua nova banda.

O Television era a segunda versão da banda que Verlaine havia fundado com seu conterrâneo Richard Meyers, com quem havia fugido para Nova York. Como Tom, Richard mudara seu sobrenome para Hell e em Nova York começaram a tocar como Neon Boys, ao lado do baterista Billy Ficca, que conheceram na cidade. Tom queria um segundo guitarrista para alternar solos de guitarra, enquanto Hell segurava um baixo tão impreciso e sem compromisso como a personalidade que reinventava com seu novo sobrenome. Foi Hell o primeiro daquela turma a usar roupas rasgadas, pendurar alfinetes, medalhas e broches aleatórios em casacos do exército com furos de bala, coturnos com solas descolando, calças jeans remendadas. Seu visual é a assumida inspiração do inglês Malcolm McLaren – que à época tentava recriar o New York Dolls atrelando-o ao imaginário comunista – para a cara não apenas do Sex Pistols mas de todo o punk inglês. Depois de tentar nomes como o futuro Dee Dee Ramone e Chris Stein (que formaria o Blondie em seguida) para a vaga de segundo guitarrista, Tom encontrou seu músico em Richard Lloyd, amigo da banda que viu a primeira formação dos Neon Boys surgir.

A obsessão da banda em tocar bem a colocou em ensaios contínuos que duravam até seis horas todos os dias da semana à exceção do domingo. Foi esta necessidade de tocar que levou Verlaine ao CBGB’s, um bar cujos gêneros musicais apreciados – country, bluegrass e blues – eram representados em sua sigla de batismo. A banda não queria apenas fazer um show e sim um lugar em que pudessem tocar com frequência para treinar. Quando apresentaram-se pela primeira vez em março de 1974, o grupo já havia construído uma reputação no underground nova-iorquino a ponto de levar os habitués de casas noturnas como o Max’s Kansas City e do Mercers Arts Center a visitar aquele novo lugar no East Village. A terceira apresentação do Television, em abril, trouxe Patti Smith e Lenny Kaye pela primeira vez ao local, onde tocariam a primeira vez com o Patti Smtih Group meses depois. Depois era a vez dos Ramones, dos Stilletos que mais tarde se tornariam o Blondie e dos Talking Heads. Estava formada a base do punk nova-iorquino, que, a partir de 1975, começaria a materializar-se em disco – primeiro veio o seminal Horses de Patti Smith no final daquele ano, seguido do explosivo primeiro dos Ramones, no ano seguinte.

O Television, no entanto, demoraria para sair do papel. A perseverança da banda rumo a uma musicalidade exímia havia transformado o show do grupo em um transe absoluto movido por guitarras. Verlaine e Lloyd alternavam-se nos papéis de guitarristas base e solo e reinventavam aos poucos o papel do instrumento na história do rock. Assim solos de guitarra não eram meras exibições de virtuosismo nem demonstrações de força. Havia uma dramaticidade parente do blues e do folk nos solos dos dois guitarristas, mas que traziam aquele sentimento para a cidade grande, para a noite em uma metrópole. Achados e perdidos ao mesmo tempo, o cruzamento daquelas duas guitarras bebiam da escola dos Rolling Stones, de Jimi Hendrix, do Pink Floyd e do Grateful Dead ao mesmo tempo em que enveredavam pelos altos improvisos de jazzistas como Miles Davis, Albert Ayler e Ornette Coleman. A obsessão pela técnica fez Verlaine expulsar Hell, cada vez mais problemático, da banda e em seu lugar veio Fred Smith, que havia acabado de formar o Blondie, mas que era fã de ir em todos os shows do Television.

A demora em lançar o primeiro disco não era descaso das gravadoras e sim capricho de Verlaine. A banda foi cortejada ainda em 1974 pela gravadora inglesa Island, que colocou-os no estúdio com Brian Eno, que produziu “Friction”, “Venus”, “Prove It” e “Marquee Moon”, mas o guitarrista não ficou satisfeito com o som da produção, considerando-o frio. A gravadora Arista tentou contratar a banda no ano seguinte, mas só em 1976 que o grupo assinaria o contrato para seu primeiro disco, desta vez com a Elektra. A gravadora atendeu a exigência de Verlaine para produzir seu primeiro disco, mesmo nunca tendo produzido nenhum outro disco na vida, e deixou-o contratar o engenheiro de som que quisesse. Verlaine e Lloyd escolheram Andy Johns, que já havia trabalhado com o Humble Pie, o Free, Jethro Tull e o Led Zeppelin, especificamente pelo som de guitarras que havia tirado no disco Goat’s Head Soup, dos Rolling Stones.

Gravado em setembro de 1976 nos estúdios A&R em Nova York, Marquee Moon não demorou para ser concluído, mesmo com a banda tendo tempo à vontade para passar no estúdio. Mas o grupo estava tão afiado devido a anos de shows e ensaios ininterruptos que algumas músicas, inclusive a emblemática faixa-título, com seus solos magistrais e mais de dez minutos de duração, foram gravadas ao vivo, sem superpor instrumentos ou refazer determinadas partes. O próprio Billy Ficca achou que estivessem apenas ensaiando a canção quando a gravaram, que o co-produtor Johns tentou regravar – mas Verlaine não deixou.

O disco foi lançado no dia 7 de fevereiro de 1977 com a banda estampando a capa com uma foto tirada por Robert Mapplethorpe. Mas a imagem foi manipulada posteriormente numa máquina de Xerox, quando Richard Lloyd levou a foto para fazer cópias e espalhá-las pela cidade. As cópias originalmente seriam em preto e branco, mas o operador tirou uma versão colorida e Lloyd gostou do resultado artificial das tonalidades. Pediu para o garoto tirar mais cópias enquanto mexia nos controles da máquina de olhos fechados. Entre as várias fotos de cores saturadas uma delas foi parar na capa do disco.

A capa parece contradizer o conteúdo. Marquee Moon é uma viagem romântica e beat por uma cidade decadente, Verlaine contrapondo seus solos com vocais quase falados, por vezes gritados, pouco cantados, que descreviam “olhos como telescópios” e uma “Broadway medieval”, como se os prédios espelhados fossem paredões geológicos de uma nova era, fria e quase robótica, essencialmente desumana. Verlaine age como o bardo desta nova era, arauto de uma transformação brutal mas comodista, violenta a ponto de não provocar reação. As guitarras costuram uma paisagem vertiginosa como as torres do então recém-inaugurado World Trade Center, obelisco gêmeo de uma nova era faraônica, mas cheias de detalhes barrocos e ornamentos mouriscos, como plantas que atravessam o concreto.

E do moquifo que deu origem ao punk, do sovaco elétrico da boemia nova-iorquina, surgia um disco épico e heróico, mas ao mesmo tempo introspectivo e existencialista, que questionava não apenas o niilismo da cidade que viu aquele novo movimento cultural nascer mas também o próprio papel do rock nesta nova fase. Consciente de sua importância, Marquee Moon é o divisor de águas que encerra a fase clássica do rock e abre o novo testamento pós-punk, mas sem precisar tripudiar ou negar o passado. E mesmo assim segue à miúda, em segredo, quase como um código que vai sendo transferido de geração em geração.

Stranger Things 2!

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Novo trailer do seriado Stranger Things, exibido no comercial da transmissão da final de futebol americano nos EUA, traz novidades sobre o mundo invertido e anuncia data de estreia – falei mais disso lá no meu blog no UOL.

Com um trailer com meio minuto de duração exibido nos comerciais da final do campeonato de futebol americano nos EUA neste domingo, a série Stranger Things deu pistas importantes sobre sua segunda temporada. Olha só:

Eleven está de volta, o mundo invertido está ainda mais presente, há um novo monstro e as fantasias de Caça-Fantasmas usadas pelos meninos têm uma explicação: a nova temporada será disponibilizada na íntegra no Dia das Bruxas deste ano, dia 31 de outubro. É sintomático principalmente pelo fato da série ter inventado a fantasia de Halloween mais popular do ano passado – justamente a da personagem vivida pela atriz Millie Bobby Brown.

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A primeira imagem divulgada da segunda temporada de Stranger Things chama os Caça-Fantasmas à ativa – falei mais sobre isso no meu blog no UOL.

Depois de muito mistério finalmente teremos mais pistas sobre a segunda temporada de Stranger Things neste domingo, quando acontece a final do campeonato de futebol americano, o famoso Super Bowl. A transmissão é conhecida pois vários comerciais de TV ganham atenção global pelo simples fato de que este jogo é um dos programas de TV mais assistidos nos EUA.

E a imagem acima, trazida em primeira mão pela Entertainment Weekly, mostra parte do elenco infantil – o Mike de Finn Wolfhard, o Dustin de Gaten Matarazzo e o Lucas de Caleb McLaughlin (Lucas) – vestidos com o uniforme dos Caça-Fantasmas em uma festa de Halloween da escola. A imagem mexe tanto com as referências aos anos 80 que ajudaram a impulsionar a fama do seriado quanto resume a primeira temporada ao transformá-los nos caçadores de fantasmas de uma pequena cidade do interior dos EUA. Mas a fantasia não é gratuita, repare ao fundo: é dia das bruxas.

O pouco que se sabe sobre a nova temporada do seriado produzido e escrito pelos irmãos Duffer é que ele terá uma cara de continuação, como se fosse a sequência de um filme, e se passará em 1984, um ano após os incidentes da primeira temporada. No elenco duas presenças mais conhecidas de outros papéis também estão entre os atores por terem feito sucesso também nos anos 80: Paul Reiser é mais conhecido como o marido da série Mad About You, sucesso nos 90, mas também atuou no filme Aliens, dirigido por James Cameron. Já Sean Astin é mais reconhecido por viver Samwise Gamgee nos filmes O Senhor dos Anéis mas também é o jovem Mikey Walsh, dos Goonies.

Sobre a história da nova safra de episódios, o produtor Shawn Levy já deu declarações falando que a nova temporada ser “maior e mais sombria”. E esta semana ele também anunciou o que pode ser um dos slogans da nova série, algo como “o Demogorgon foi destruído mas o mal não foi”.

Chico vive!

chicoscience

Vinte anos após sua morte, o legado de Chico Science está mais vivo do que nunca. Escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

“Modernizar o passado é uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enchem a imaginação de domínio
São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade
Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os Panteras Negras
Lampião, sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”

Não importa o que poderia ter acontecido com Chico Science se ele não tivesse morrido vinte anos atrás no trágico acidente daquele 2 de fevereiro, um dia de domingo, entre Olinda e Recife. Todas as hipóteses cogitadas são meros exercícios de imaginação e o personagem criado por Francisco França para sublinhar sua mensagem poderia seguir destinos bem diferentes, como cada um de nós, independentemente de sua vontade. O que importa é o que Chico Science fez enquanto esteve vivo, sua marca emblemática nos rumos da música – e da cultura – brasileira desde que entrou no imaginário mental do Brasil. Ele hoje é mais importante do que nunca.

Pois vivemos num mundo – e num país – antevisto por Chico em sua versão brasileira do cyberpunk. O movimento de ficção científica criado pelos escritores William Gibson e Bruce Sterling nos anos 80 cogitava um futuro próximo completamente distante do futuro Jetsons imaginado pela geração anterior. A crise ambiental, a superpopulação, as megalópoles e, claro, a presença do computador e da internet como sistema nervoso de um planeta decadente, tornava a aurora do século 21 sombria e aquela distopia unia obras que adubaram o inconsciente coletivo vindo de diferentes artistas em diferentes mídias – do Akira de Katsuhiro Otomo ao Blade Runner de Ridley Scott, passando pelo Tron da Disney, o Incal de Jodorowsky e o Robocop de Paul Verhoeven -, criava uma realidade totalitária e alienante como a que vivemos hoje. Uma mistura do 1984 de George Orwell com o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley embebedida pela internet e por dispositivos de vigilância portáteis (nossos celulares).

O mangue beat, criado no Recife por Chico Science, sua Nação Zumbi, e pelo Mundo Livre S/A de Fred Zero Quatro, trazia este futuro para o sol de rachar da linha do Equador. O cyberpunk era urbano, sombrio, meio gótico, meio romântico (impossível não notar a semelhança entre o movimento musical liderado pelo Duran Duran – o New Romantic – com o marco-zero do cyberpunk – Neuromancer). O mangue beat era diurno, à praia, pés na areia – e na lama -, o horizonte é o mar. Ao criar um personagem que funcionava como um narrador daquele novo universo, Chico Science conectava a distopia cyberpunk ao terceiro-mundismo sonoro que une o reggae ao bhangra, o raï ao hip hop. Plugava o Brasil à aldeia global de Marshall McLuhan antes mesmo da ascensão da web – e pela cultura da favela global, de países subdesenvolvidos.

Conheci Chico um pouco antes de ele tornar-se um nome nacional, quando a importância do movimento que puxava a partir do Recife ganhava reconhecimento em todo o país, mas ainda nas entranhas, no meio independente que outrora conhecíamos como underground. Estava começando minha carreira no jornalismo quando pude entrevistá-lo pouco antes do lançamento de seu primeiro CD, lançado pela Sony. A gravadora havia o contratado ao lado de sua Nação Zumbi sem nem entender direito o que estava acontecendo e a prova disso é que a primeira vez que os encontrei foi no camarim da boate Pachá, em Campinas, quando o grupo pernambucano foi escalado para abrir o show da banda de eurodance Culture Beat, cujo hit robótico e sem alma “Mr. Vain” era o extremo oposto do groove vivo, intenso e de protesto puxado por Chico. A banda divertia-se com o choque dos extremos, enquanto Chico ficava tentando entender quem era o público que estava assistindo àqueles dois shows tão diferentes.

Era uma característica que pude perceber nele das outras vezes que nos encontramos – ele sempre estava tentando entender algo que não entendia. Buscava o contexto, tornava-se aluno. Gostava de conversar e de contar histórias, mas, diferente da maioria dos artistas, também gostava de ouvi-las. Arregalava os olhos e arqueava as sobrancelhas, concordando com a conversa enquanto ouvia.

Depois botava aquilo tudo pra fora. Ao colocar os óculos escuros, tirar a camisa, botar o chapéu e abrir o sorriso de lado, Chico virava o arquetípico mangue boy, criava o b-boy nordestino cujo semblante hoje é tão forte quanto os de Bob Marley, Che Guevara e Raul Seixas – um personagem que certamente foi influenciado pelos de Angeli, repare. A partir deste púlpito, narrava sagas de vida e morte pelo sertão, crônicas violentas nas favelas, dias de preguiça na praia. E aos poucos redesenhava um país de contrastes, que já havia sido desenhado pelos modernistas nos anos 20 e pelos tropicalistas dos anos 60. Repensava a Casa Grande e a Senzala com um satélite na cabeça, contextualizava globalmente os tristes trópicos.

Chico viu, há mais de vinte anos, o país que vivemos hoje. As caricaturas dos contrastes, a truculência no traquejo social, a violência sob a superfície fanfarrona, o sorriso aberto que fecha-se num segundo em uma carranca. Suas letras são alegorias que usam arquétipos e ícones estabelecidos para falar sério em frases de efeito cujo significado vai além do mero slogan. É só prestar atenção. “Há fronteiras nos jardins da razão”, “em cada morro uma história diferente que a polícia mata gente inocente”, “cerebral, é assim que tem que ser”, “o de cima sobe e o debaixo desce”, “no caminho é que se vê a praia melhor pra ficar”, “é o povo na arte, é arte no povo e não o povo na arte de quem faz arte com o povo”.

Líder de uma banda de protesto para dançar, Chico Science foi ele mesmo a antena cravada no mangue, no caso, o Brasil. O impacto de sua breve passagem por nossas vidas não deve ser lembrado apenas com tristeza ou saudade, mas pela importância e força representadas nos poucos anos que viveu conosco durante os anos 90. Sua influência é presente, contínua. Chico está vivo.

(O diretor Rian Johnson mostra o início do próximo filme em sua conta no Instagram)

(O diretor Rian Johnson mostra o início do próximo filme em sua conta no Instagram)

Junte os dois títulos dos episódios mais recentes de Guerra nas Estrelas e temos uma frase – falei sobre o significado disso no meu blog no UOL.

As especulações correm soltas desde que a Lucasfilm anunciou o título do Episódio VIII de Guerra nas Estrelas, que estreia no final deste ano. O nome The Last Jedi, em inglês, não entrega nem gênero nem quantidade de Jedi – palavra que, na mitologia da série, não tem a letra “s” em seu plural – que podem estar sendo mencionados no título? Das quatro variações possíveis – O Último Jedi, A Última Jedi, Os Últimos Jedi e As Últimas Jedi – só a a última não parece fazer sentido. As três primeiras são possíveis e apontam primeiro para Luke Skywalker, depois para Rey (que ainda não sabemos o sobrenome) e finalmente para os dois juntos.

Se o último Jedi for mesmo Luke, isso significa que nenhum novo personagem poderia ser o protagonista que batiza o novo filme. Muitos apostam nessa hipótese e usam como referência o letreiro do O Despertar da Força, que menciona literalmente Luke como sendo “o último Jedi”. É um bom argumento.

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Mas a referência a Luke como tal acontece antes dos fatos de O Despertar da Força – portanto, antes de um possível renascimento Jedi que é um dos grandes mistérios do Episódio VII. Quem despertou? Rey quando encostou no sabre de luz que foi de Darth Vader? Ou Finn, o primeiro stormtrooper rebelde? Ou talvez até mesmo Kylo Ren, possa estar voltando para o lado certo da Força? Quem sabe o despertar aconteceu com os três?

Mas alguns fãs perceberam a possibilidade dos dois títulos dos novos episódios indicarem algo em conjunto – e aí novamente esbarramos com uma questão de tradução. O Despertar da Força é uma adaptação – e não uma tradução literal – do título original do sétimo episódio, The Force Awakens. A tradução correta deveria ser A Força Desperta – ou A Força Acorda. Desta forma, quando colocamos os nomes dos episódios VII e VIII lado a lado, vemos mais do que dois títulos e sim uma frase completa:

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“A Força desperta o último Jedi”

Ou “A Força acorda a última Jedi” ou “…os últimos Jedi”, você entendeu. Ao transformar os dois títulos em uma frase, o argumento que firma Luke como sendo o último Jedi perde um pouco a força (hehe) e pode incluir a própria Rey – ou outro novo personagem além do irmão da general Leia – como o possível personagem que batiza o novo filme. E abre a especulação inclusive para que o terceiro filme possa ter um título que complemente ainda mais a frase, fazendo os três filmes da terceira trilogia serem reunidos por uma única mensagem. Sei lá, A Força Desperta o Último Jedi Para Sempre ou A Força Desperta o Último Jedi Antes do Fim – use sua imaginação (Star Wars: Forever ou Star Wars: Before the End são títulos brega, mas teriam um grande impacto, diz aí). Ou seu humor, como alguns têm feito online:

https://twitter.com/outstarwalker/status/824238111722967045?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E824238111722967045&ref_url=https%3A%2F%2Fmatias.blogosfera.uol.com.br%2F2017%2F01%2F28%2Fthe-force-awakens-the-last-jedi-e-uma-frase%2F

“A Força desperta o último Jedi de seu cochilo”

A cor vermelha do logo da série no novo filme também é um mistério: é a primeira vez que o nome Star Wars não aparece pintado de amarelo.

Outra especulação que corre a internet diz respeito especificamente ao letreiro de abertura do novo filme, pois o ele começaria exatamente no ponto em que o filme anterior terminou – com Rey finalmente encontrando Luke Skywalker. Se isso for verdade, o que restaria para ser contado no clássico letreiro de abertura, uma vez que ele sempre narra fatos que aconteceram meses entre os diferentes filmes da série?

Em todo caso, é demais poder estar vivenciando o desenrolar desta história novamente com empolgação. Parece até que os episódios I, II e III nunca existiram!