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Criolo lança “Boca de Lobo”, em que põe o dedo em várias feridas destes dias apocalípticos que vivemos no país num clipe que vê os bichos escrotos da política destruírem paisagens conhecidas de São Paulo.

A faixa abre com uma citação de Waly Salomão, cada verso da música é uma pedrada, até o refrão que desmonta “1 Por Amor, 2 Por Dinheiro” dos Racionais:

“Agora, entre meu ser e o ser alheio, a linha de fronteira se rompeu”

Aonde a pele preta possa incomodar
Um litro de Pinho Sol pra um preto rodar
Pegar tuberculose na cadeia faz chorar
Aqui a lei dá exemplo: mais um preto pra matar
Colei num mercadinho dum bairro que se diz “pá”
Só foi meu pai encostar pros radin’, tudin’ inflamar
Meu coroa é folgado das Barra do Ceará
Tem um lirismo bom lá, louco pra trabalhar
Num toque de tela, um mundo à sua mão
E no porão da alma, uma escada pra solidão
Via satélite, via satélite
15% é Google, o resto é Deep Web
A guerra do tráfico, perdendo vários ente
Plano de saúde de pobre, fi, é não ficar doente
Está por vir, um louco está por vir
Shinigami, deus da morte, um louco está por vir
Véio, preto, cabelo crespo
Made in Favela é aforismo pra respeito
Mondubim, Messejana, Grajaú, aqui é sem fama
Nos ensinamentos de Oxalá, isso é bacana
Na porta do cursinho, sim, docim de campana
LSD, me envolver, tem a manha
Diz que é contra o tráfico e adora todas as crianças
Só te vejo na biqueira, o ativista da semana

La La Land é o caralho
SP é Glorialândia
Novo herói da Disney
Craquinho, da Cracolândia
Máfia é máfia e o argumento é mandar grana
Em pleno carnaval, fazer nevar em Copacabana
Um por rancor, dois por dinheiro, três por dinheiro, quatro por dinheiro
Cinco por ódio, seis por desespero, sete pra quebrar a tua cabeça num bueiro
Enquanto isso a elite aplaude seus heróis
Pacote de Seven Boys

Nem Pablo Escobar, nem Pablo Neruda
Já faz tempo que São Paulo borda a morte na minha nuca
A pauta dessa mesa “coroné” manda anotar
Esse ano tem massacre pior que de Carajá
Ponto 40 rasga aço de arrombar
Só não mata mais que a frieza do teu olhar
Feito rosa de sal topázio
És minha flecha de cravo
Um coração que cai rasgado nas duna do Ceará
Albert Camus, Dalai Lama
A nós ração humana, Spock, pinça vulcana
Clarice já disse, o verbo é falha e a discrepância
É que o diamante de Miami vem com sangue de Ruanda
Poder economicon, cocaine no helicopteron
Salário de um professor: microscópico
Feito papito de papel próprio
Letra com sangue do olho de Hórus
É que a industria da desgraça pro governo é um bom negócio
Vende mais remédio, vende mais consórcio
Vende até a mãe, dependendo do negócio
Montesquieu padece, lotearam a sua fé
Rap não é um prato aonde cê estica que cê qué
É a caspa do capeta, é o medo que alimenta a besta
Se três poder vira balcão, governo vira biqueira
Olhe, essa é a máquina de matar pobre!
No Brasil, quem tem opinião, morre!

La La Land é o caralho
SP é Glorialândia
Novo herói da Disney
Craquinho, da Cracolândia
Máfia é máfia e o argumento é mandar grana
Em pleno carnaval, fazer nevar em Copacabana
Um por rancor, dois por dinheiro, três por dinheiro, quatro por dinheiro, cinco por ódio, seis por desespero, sete pra quebrar a tua cabeça num bueiro
Enquanto isso a elite aplaude seus heróis
Pacote de Seven Boys

Essa semana promete…

#NósSim

largodabatata

Que movimento maravilhoso. Que data linda. Que exemplo histórico. Quanta organização. O ato puxado pelas mulheres neste sábado dia 29 de setembro de 2018 em dezenas de cidades pelo Brasil reuniu centenas de milhares de brasileiros de todas as cores, tamanhos, gêneros e ideologias num mesmo coro contra a intolerância, a truculência, a agressividade e a tensão que dominam nossos dias desde o início desta década – e pode ter começado a encerrar esta fase deprimente que o país vive desde aqueles nada saudosos dias descontrolados de junho de 2013.

O candidato líder das pesquisas, o inominado Ele a quem o Não se dirigia, conseguiu seu primeiro feito histórico que não é digno de vergonha ou constrangimento: uniu as forças progressistas brasileiras em um mesmo cenário e num mesmo coro, dando voz a sentimentos que não tinham eco nesta época de bolhas digitais em que todos querem gritar mais alto. E apesar da firmeza na insistência do “não”, do pulso firme em não arredar pé e da sempre escandalosa gritaria da torcida do outro time, não se viu nenhum gesto violento, nenhuma truculência, nenhuma agressão.

E isso é mérito feminino. O fato deste grande ato ter vindo das mulheres mudou completamente a cara da discussão e nossos cenhos, sempre fechados a cada novo e surreal acontecimento político em 2018, puderam relaxar. No lugar das expressões tensas e da fisionomia preocupada surgia um sorriso, um brilho no olhar, um suspiro aliviado. No início temia-se que trogloditas da ultradireita pudessem aproveitar da gigantesca reunião para disseminar o medo e o terror. Mas todos estavam a postos caso eles aparecessem – e seriam claramente expostos como os brucutus que provocam este cenário turbulento.

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A primeira coisa que todos percebiam logo ao chegar no Largo da Batata, em São Paulo, ou em qualquer outro ponto de partida do ato em várias cidades do país, era a extrema diversidade de público. Estavam lá gente de todos os credos, cores, preferências, ideologias, idades e classes sociais. Famílias, casais, mulheres grávidas, crianças, idosos, grupos de amigos e conhecidos – todos levantando a bandeira da esperança, da tolerância, da paz e do amor. E, principalmente, vários partidos: bandeiras de quase todos os candidatos à presidência (além de nomes que pleiteiam cargos estaduais) foram erguidas ao lado umas das outras sem nenhum embate, nenhuma discussão – nem sequer um muxoxo ou esgar. Em pouco tempo, todos estavam à vontade, cantarolando e batucando juntos, mas sem perder o foco e a seriedade do momento político.

E quando aquele mar de gente gritava “ele não”, o principal timbre era feminino. Afinal, esta vitória não é apenas feminista – mas feminina. Não temos medida exata de como a força das mulheres está revertendo esta onda reacionária que assola o planeta – mas é inegável seu protagonismo. O futuro deve agradecer a todas as minas e manas que decididas, marcharam contra a perturbação masculina que quer que o mundo volte para o século passado, atropelando conquistas e valores humanistas apenas no grito e no soco. Esta atitude dantesca é uma clara reação aos progressos sociais conquistados nas últimas décadas, não apenas no Brasil.

E não apenas femininos. As vozes das mulheres ecoavam sentimentos presos nas gargantas de negros, gays, pobres, pessoas com necessidades especiais, imigrantes, miseráveis, famintos e tantos outros que compõem a imensa maioria da população do planeta e são chamados de forma quase jocosa pelo establishment branco, rico, hetero e sexagenário de “minorias”.

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Acompanhei a concentração do #EleNão no Largo da Batata e sua dispersão depois na Paulista – não pude seguir a emocionante subida da Avenida Rebouças para assistir à Ana Frango Elétrico no Centro Cultural São Paulo (e digo que valeu a pena, mas perdi o show do Marcelo Callado) – e nos dois momentos me veio um sentimento oposto ao de exclusão e divisão que nos faz parar de falar com amigos, desamigar conhecidos do Facebook ou desistir de dialogar com pessoas que antes pareciam razoáveis. Em vez de nos sentir isolados e acuados, nos sentimos parte de uma coisa só, uma senhora festa, um enorme carnaval – sem brigas, sem álcool, sem nada forçado. Cada um que estava ali pode voltar a se sentir parte deste enorme coletivo que chamamos de país – e ver que a dita cisão que separa o Brasil em dois grupos, a tão propalada polarização pregada pela Globo e pelo Facebook, é artificial e serve interesses específicos. Sabemos gostar uns dos outros e podemos conviver numa boa desde que haja tolerância e respeito. Se isso não acontecer, já sabemos dizer não.

E lá pelo meio do ato esquecíamos da vil figura que nos motivou a nos reunir neste sábado histórico. Tanto o “ele” quanto o “não” se dissolveram na coletividade positiva do #NósSim. Vamos lá.

porcasborboletas-centrodaterra

O grupo mineiro Porcas Borboletas apresenta um desdobramento de seu disco mais recente, Momento Íntimo, em única apresentação no palco do Centro da Terra, na próxima segunda-feira, dia 1° de outubro. Banheiro Químico parte dos dilemas do homem moderno apresentados no disco do ano passado para se aprofundar num aspecto ainda mais épico desta questão – “sondar a beleza deste ícone da modernidade”, como diz o vocalista Danislau. Para isso, a banda formada por Danislau TB (voz), Enzo Banzo (voz e guitarra), Moita Matos (guitarra), Chelo Lion (baixo), Ricardo Ramos (Synth e MPC) e Pedro Gongom (bateria), convidou nomes de peso para participar da única apresentação, como Tulipa Ruiz, Luiz Chagas, Nath Calan e Rafael “Chicão” Montorfano, além de iluminação de Gabriela Luiza e a trupe da Panamá Filmes. Conversei com Danislau e Enzo sobre o que eles irão aprontar nesta segunda.

O que é Banheiro Químico?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/porcas-borboletas-o-que-e-banheiro-quimico

Como este espetáculo se relaciona com o disco mais recente de vocês?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/porcas-borboletas-como-este-espetaculo-se-relaciona-com-o-disco-mais-recente-de-voces

Qual a diferença de apresentar este show num teatro?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/porcas-borboletas-qual-a-diferenca-de-apresentar-este-show-num-teatro

Como esse espetáculo pode se refletir nos próximos passos da banda?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/porcas-borboletas-como-esse-espetaculo-pode-se-refletir-nos-proximos-passos-da-banda

dylan

O décimo-quarto volume da série pirata de Bob Dylan – More Blood, More Tracks – apronfunda-se no clássico que ele lançou no início de 1975. O disco Blood on the Tracks é considerado uma das principais obras do mestre da canção justamente por, mais uma vez, elevar o nível das composições nas canções pop que dominavam a paisagem musical de seu tempo. Ríspido registro sobre o fim de um relacionamento, o disco foi gravado em duas sessões em dois estúdios diferentes – em quatro dias de setembro de 1974 e dois de dezembro daquele mesmo ano. A caixa de 6 discos – que também será lançada em versão reduzida em LP duplo e CD simples – já está em pré-venda e traz a íntegra destas sessões, trazendo os rascunhos musicais de todas as canções do álbum, desde suas primeiras versões apenas com Dylan, violão e gaita, até versões apenas com um contrabaixo elétrico e com a banda na íntegra, formada por Tony Brown (baixo), Chris Weber (guitarra), Kevin Odegard (guitarra), Peter Ostroushko (bandolim), Gregg Inhofer (teclados), Billy Peterson (baixo) e Bill Berg (bateria). A caixa será lançada no dia 2 de novembro e a gravadora Sony já antecipou o primeiro take da primeira gravação feita para o disco, a pesada “If You See Her, Say Hello”. Logo abaixo, a capa do disco e a íntegra do que virá na versão deluxe com seis CDs.

bob-dylan-blood-bootleg-series

Disco 1

A & R Studios, Nova York – 16 de setembro de 1974

“If You See Her, Say Hello (Take 1)”
“If You See Her, Say Hello (Take 2)”
“You’re a Big Girl Now (Take 1)”
“You’re a Big Girl Now (Take 2)”
“Simple Twist of Fate (Take 1)”
“Simple Twist of Fate (Take 2)”
“You’re a Big Girl Now (Take 3)”
“Up to Me (Rehearsal)”
“Up to Me (Take 1)”
“Lily, Rosemary and the Jack of Hearts (Take 1)”
“Lily, Rosemary and the Jack of Hearts (Take 2)”

Disco 2

A & R Studios, Nova York – 16 de setembro de 1974

“Simple Twist of Fate (Take 1A)”
“Simple Twist of Fate (Take 2A)”
“Simple Twist of Fate (Take 3A)”
“Call Letter Blues (Take 1)”
“Meet Me in the Morning (Take 1)”
“Call Letter Blues (Take 2)”
“Idiot Wind (Take 1)”
“Idiot Wind (Take 1, Remake)”
“Idiot Wind (Take 3 with insert)”
“Idiot Wind (Take 5)”
“Idiot Wind (Take 6)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Rehearsal and Take 1)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 2)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 3)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 4)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 5)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 6)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 6, Remake)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 7)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 8)”

Disco 3

A & R Studios, Nova York – 16 de setembro de 1974

“Tangled Up in Blue (Take 1)”

A & R Studios, Nova York – 17 de setembro de 1974

“You’re a Big Girl Now (Take 1, Remake)”
“You’re a Big Girl Now (Take 2, Remake)”
“Tangled Up in Blue (Rehearsal)”
“Tangled Up in Blue (Take 2, Remake)”
“Spanish is the Loving Tongue (Take 1)”
“Call Letter Blues (Rehearsal)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 1, Remake)”
“Shelter From The Storm (Take 1)”
“Buckets of Rain (Take 1)”
“Tangled Up in Blue (Take 3, Remake)”
“Buckets of Rain (Take 2)”
“Shelter From The Storm (Take 2)”
“Shelter From The Storm (Take 3)”
“Shelter From The Storm (Take 4)”

Disco 4

A & R Studios, Nova York – 17 de setembro de 1974

“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 1, Remake 2)”
“You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (Take 2, Remake 2)”

A & R Studios, Nova York – 18 de setembro de 1974

“Buckets of Rain (Take 1, Remake)”
“Buckets of Rain (Take 2, Remake)”
“Buckets of Rain (Take 3, Remake)”
“Buckets of Rain (Take 4, Remake)”

A & R Studios, Nova York – 19 de setyembro de 1974

“Up to Me (Take 1, Remake)”
“Up to Me (Take 2, Remake)”
“Buckets of Rain (Take 1, Remake 2)”
“Buckets of Rain (Take 2, Remake 2)”
“Buckets of Rain (Take 3, Remake 2)”
“Buckets of Rain (Take 4, Remake 2)”
“If You See Her, Say Hello (Take 1, Remake)”
“Up to Me (Take 1, Remake 2)”
“Up to Me (Take 2, Remake 2)”
“Up to Me (Take 3, Remake 2)”
“Buckets of Rain (Rehearsal)”
“Meet Me in the Morning (Take 1, Remake)
“Meet Me in the Morning (Take 2, Remake)
“Buckets of Rain (Take 5, Remake 2)”

Disco 5

A & R Studios, Nova York – 19 de setembro de 1974

“Tangled Up in Blue (Rehearsal and Take 1, Remake 2)”
“Tangled Up in Blue (Take 2, Remake 2)”
“Tangled Up in Blue (Take 3, Remake 2)”
“Simple Twist of Fate (Take 2, Remake)”
“Simple Twist of Fate (Take 3, Remake)”
“Up to Me (Rehearsal and Take 1, Remake 3)”
“Up to Me (Take 2, Remake 3)”
“Idiot Wind (Rehearsal and Takes 1-3, Remake)”
“Idiot Wind (Take 4, Remake)”
“Idiot Wind (Take 4, Remake)”
“You’re a Big Girl Now (Take 1, Remake 2)”
“Meet Me in the Morning (Take 1, Remake 2)”
“Meet Me in the Morning (Takes 2-3, Remake 2)”

Disco 6

A & R Studios, Nova York – 19 de setembro de 1974

“You’re a Big Girl Now (Takes 3-6, Remake 2)”
“Tangled Up in Blue (Rehearsal and Takes 1-2, Remake 3)”
“Tangled Up in Blue (Take 3, Remake 3)”

Sound 80 Studio, Minneapolis – 27 de dezembro de 1974

“Idiot Wind”
“You’re a Big Girl Now”

Sound 80 Studio, Minneapolis – 30 de dezembro de 1974

“Tangled Up in Blue”
“Lily, Rosemary and the Jack of Hearts”
“If You See Her, Say Hello”

foradacasinha2018

Mais uma primavera, mais um Fora da Casinha. A tradição aos poucos se estabelece quando o velho compadre Mancha – o dono da Casa do Mancha, reduto infalível da música independente em São Paulo – fecha a escalação de seu festival em mais um novo lugar, desta vez na Casa Híbrida, pertinho do metrô Sumaré (depois de passar pelo Centro Cultural Rio Verde, pela Unibes Cultural e pelo Largo da Batata). E, mais uma vez, ele anuncia as atrações da edição do ano em primeira mão aqui no Trabalho Sujo: dia 6 de outubro, véspera da eleição, ele reúne em três palcos diferentes novíssimos nomes, como Goldenloki, Yma, Dingo Bells, Molho Negro, Juliano Gauche, Terno Rei, Garotas Suecas, Betina, Bruno Bruni, Laura Lavieri, OZU, Strobo, além do paraninfo Mauricio Pereira. A discotecagem desta vez não fica apenas comigo e com o Danilo Cabral (que, tradicionalmente, abrimos o festival) e ainda conta com as presenças de Joyce Guillarducci (Cansei do Mainstream), Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) e Alex Corrêa (Caverna).

“Mesmo relativamente novo, o festival me faz perceber melhor onde nosso trabalho deságua”, me explica Mancha por email. “Artistas que tocaram no primeiro ano como Boogarins, O Terno, Carne Doce são nomes que hoje se fortaleceram no mainstream, alicerçados por uma estrutura independente/alternativa de mercado da qual faço parte. Ou seja, nosso caminho tem uma coerência mercadológica, está crescendo e com isso ajudando a solidificar um nicho de economia criativa extremamente importante. E o melhor de tudo, sem perder suas características iniciais ou precisar fazer concessões incompatíveis. Uma renovada da fé no poder de transformação da arte, imprescindível pro momento que vivemos.”

Os ingressos já estão à venda e o primeiro lote custa 50 reais. A arte do poster é da Sefora Rios.

Ozu na manha

Foto: Mariana Harder (divulgação)

Foto: Mariana Harder (divulgação)

Se a volta dos anos 90 já aconteceu ou ainda vai acontecer é uma discussão em aberto, uma vez que a última década do século passado não apenas abrigou diversos nichos estéticos como começou a misturá-los – e as tentativas de ressuscitar a vibe daquele período em inúmeros acontecimentos artísticos (discos, filmes, festas, livros, programas de TV, quadrinhos e até na própria internet, revisitada como um fim e não um meio) não criaram volume a ponto de mexer com o inconsciente coletivo de forma considerável como aconteceu com os anos 70 durante os anos 90 ou os anos 80 na primeira década do século. O grupo paulistano Ozu é um destes inúmeros novos acontecimentos culturais que bebem diretamente daquele período – e não está muito interessado propriamente em soar retrô.

Lançando seu primeiro álbum na próxima quarta no Sesc Pinheiros (mais informações aqui), Inner sucede dois outros trabalhos que pavimentaram sua jornada de forma bem precisa. Tanto The DownBeat Sessions Vol. 1, lançado no ano passado, quanto The Lo-Fi Sessions, no início do ano, apontavam para o trip hop e soul eletrônico inglês do fim do século passado, embora o líder da banda, o tecladista Francisco Cabral, aponte para a corrente oriental do gênero. “Acho que DJ Krush, DJ Kensei, DJ Yas e Kemuri Productions são as influências mais marcantes”, ele explica por email, reforçando outros nomes influenciados por esta cena, “existe um pessoal por aí que vem seguindo essa onda noventista também que gostamos muito como Nymano, Eevee, Unseen Village…”

O grupo é um sexteto mas a origem de suas canções começa nos samples. “São a primeira idéia pra uma música nova”, continua Cabral. “Geralmente, se já não for o caso do sample a bateria e o baixo vem em seguida. O processo básico é construir bases ou beats para adicionar melodias e linhas de voz no final. Isso tudo feito, a banda toca a composição para os ajustes finais”. E faz o contraponto com a banda ao vivo: “O show foge um pouco das repetições do hip hop e abre mais espaço para variações e improvisos criando uma atmosfera um pouco mais pro jazz. Apenas alguns timbres bem pontuais são sampleados, o resto fica bem orgânico mesmo.”

Mahmundi astral

mahmundi

Depois de um dos discos de estreias mais festejados desta década, a cantora e compositora carioca Mahmundi conseguiu dar uma continuidade à altura de seu primeiro disco ao lançar o ótimo Para Dias Ruins no inicio do semestre. Mantendo o clima pra cima do primeiro disco, ela conseguiu melhorar ainda mais o astral e deixar o sol entrar neste turbulento 2018 com um disco delicado e dançante, sensível e pop, suave e com uma ótima vibe. É um processo natural do trabalho dela, que começou fora dos palcos, trabalhando como técnica no Circo Voador, e aos poucos foi mostrando seu pop eletrônico quase timidamente no Soundcloud há seis anos, quando a chamei para participar do elenco de 2012 do saudoso Prata da Casa do Sesc Pompeia, quando fui curador daquela programação. É neste mesmo palco que ela se apresenta nesta sexta-feira, mostrando o novo disco pela primeira vez ao vivo, e aproveitei para trocar uma ideia com ela sobre os processos que a trouxeram até aqui.

Como foi o processo de composição e gravação deste disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-foi-o-processo-de-composicao-e-gravacao-deste-disco

O que veio primeiro: a vibe das canções ou o título do disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-o-que-veio-primeiro-a-vibe-das-cancoes-ou-o-titulo-do-disco

Faz sentido se pensar em álbum ainda em 2018?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-faz-sentido-se-pensar-em-album-ainda-em-2018

Como mudou sua carreira do disco anterior até este?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-mudou-sua-carreira-do-disco-anterior-ate-este

Como é este disco ao vivo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-e-este-disco-ao-vivo

Este ano perdemos o Miranda. Queria que você falasse da influência dele no seu trabalho.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-queria-que-voce-falasse-da-influencia-do-miranda-no-seu-trabalho

Você acompanhou a evolução da cena independente brasileira bem de perto. O que melhorou bastante e o que ainda pode melhorar?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-voce-ve-a-evolucao-da-cena-independente-brasileira

Quais são seus próximos passos, uma vez que este disco foi lançado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-quais-sao-seus-proximos-passos-uma-vez-que-este-disco-foi-lancado

Can via Oruã

Foto: Karin Santa Rosa

Foto: Karin Santa Rosa

Lê Almeida segue explorando os rumos do próximo disco de sua nova banda, Oruã, e entrega em primeira mão para o Trabalho Sujo sua ótima versão para “Mother Sky”, do grupo alemão Can. “Já faz um tempo que tamos gravando o nosso segundo disco, Romã, e em meio a shows e sessões de gravação no Escritório começamos a gravar esses covers. O primeiro deles é ‘Mother Sky’ do Can, que já tocamos em alguns shows e quase sempre não funciona muito, até pessoas próximas dizem que não entendem muito bem, porém na nossa gravação acho que conseguimos soar o tanto pesado e agressivo que queríamos”, explica o herói do indie fluminense, que abre seu Escritório mais uma vez para comemorar o aniversário do baterista Phill neste sábado (mais informações aqui), quando lançam oficialmente sua versão do grupo kraut.

E Lê já anuncia que outra versão vem aí. “O próximo cover que vamos lançar vai sair num split em tributo ao Charlie Brown Jr. junto com a Marianaa, um conjunto amigo nosso lá de Campo dos Goytacazes”. Vamos ver.

Foto: Gal Oppido (Divulgação)

Foto: Gal Oppido (Divulgação)

Quatro anos separam o lançamento dos discos mais recentes do percussionista Guilherme Kastrup – quatro discos e uma Elza. Quando lançou Kastrupismo, em 2014, ele era um nome conhecido principalmente entre músicos e instrumentistas, mas a partir do ano seguinte, quando dirigiu o disco Mulher do Fim do Mundo, que reativou a carreira de Elza Soares, ele tornou-se um nome mais conhecido, fazendo com que seu próximo disco ficasse num futuro distante. Desde então, excursionou com a musa do samba pelo Brasil e no exterior, gravou um novo álbum de Elza reunindo jovens artistas mais uma vez e finalmente teve tempo para lançar seu novo trabalho, Ponto de Mutação, que começa a existir a partir desta sexta, quando o primeiro single, “Reaction”, chega às plataformas digitais. Mas o músico antecipou a faixa, que, como o disco, tem fortes conotações políticas (além de samples de Noam Chomksy e Malcolm X), em primeira mão para o Trabalho Sujo – o disco será lançado dia 12 de outubro e ele apresenta o show de lançamento dia 17 de outubro, no Sesc Pompéia.

“É um disco bem diferente do Kastrupismo – talvez eles se assemelhem pela busca da construção de uma música imagética, que provoque a construção de um filme na cabeça do ouvinte. Mas as cenas que Ponto de Mutação evoca já tem outro espírito”, ele me explica por email. “Como reflexo dos nossos tempos turbulentos, a sonoridade é muito mais densa e intensa. É majoritariamente instrumental, como o anterior, mas usa muito mais a palavra, seja ela cantada, falada ou sampleada.”

“O princípio do processo criativo foram sessões de improviso livre, sem nenhuma regra ou briefing, com alguns grandes parceiros como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Coelho. Música livre e espontânea. Somente depois dessa fase é que peguei esse material bruto e comecei a selecionar e editar”, ele continua. “Em meio a esse processo, ganhei de presente da Arícia Mess o livro O Ponto de Mutação, do físico Fritjof Capra, que mexeu muito comigo, e me abriu uma nova forma de olhar para tudo isso que estamos vivendo. Como gosto muito da ideia de que um álbum seja como um filme, com enredo, princípio meio e fim, usei a inspiração do livro para desenhar um ‘mapa’ que ilustra o caos social de nossos dias e a curva de ascensão para uma nova era. Esse mapa serviu de esqueleto para que eu esculpisse as composições a partir desse roteiro. Nesse sentido, é um álbum temático. O tema é a transformação da nossa civilização e a prece esperançosa para que essa seja uma virada para fase mais iluminada. Que a força do feminino nos ajude a sair dessa decadência do sistema capitalista, machista-branco e hétero-dominante… Axé!”, ora o percussionista, antes de citar o I-Ching: “Ao termino de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação. A luz que fora banida ressurge…”

“Reaction é a primeira faixa do disco, e dentro do roteiro que falei acima, retrata esse momento de caos e decadência do sistema capitalista atual – na voz do pensador Noam Chomsky sampleada do filme Réquiem para o Sonho Americano”, ele continua. “Ela foi naturalmente escolhida como single pois, além de ser a introdução para o nosso enredo, tem uma sonoridade intensa gerada pelos modulares do pernambucano Rodrigo Coelho e os violoncelos de Jonas Moncaio.” A capa do disco, abaixo, também em primeira mão para o Trabalho Sujo, foi feita em conjunto´pelo diretor de arte do disco, Vinicius Leonel.

kastrup-pontodemutacao

Ele continua falando sobre o single, desta vez com ênfase no clipe. “Foi o resultado do feliz encontro com o cineasta carioca Christian Caselli, que concebeu e editou minuciosamente o clipe a partir de imagens de arquivo, muitas delas de nosso jornalismo alternativo e ativista, além das imagens do próprio filme, cedidas gentilmente pela produtora PFPictures e pelo próprio Chomsky – que me respondeu pessoalmente ao e-mail em menos de 24 horas, confirmando a lenda de que responde a todos os e-mails que recebe! O trecho que escolhi foi um que Chomsky fala dos ciclos viciosos de poder, onde as grandes corporações financiam os políticos que, por sua vez, criam leis que guinam o fluxo financeiro todo de volta às corporações, e conclui com o recado importantíssimo: ‘Se não houver reação popular, é isso que vai continuar acontecendo’. Penso que esse trecho tem uma ligação direta com os últimos fatos políticos no Brasil, e qualquer semelhança com o golpe de 2016, de contornos fascistas em 2018, não são mera coincidência! Achei que era importante trazer esse recado para a nossa realidade.”

Peço para ele me contar sobre a importância de seu trabalho com Elza Soares durante a realização deste novo disco. “A Mulher do Fim do Mundo foi uma experiência espiritual. Me senti o tempo todo envolto e empurrado por energias poderosas. Costumo dizer que eu entrei no furacão Elza – e nada é igual ao que era antes! Foi muito especial conviver com ela, como artista gigante e pessoa maravilhosa que é, e ainda ter a oportunidade de aprofundar a relação com esse grupo do Rômulo Fróes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Kiko Dinucci, especialmente, com quem fizemos também o Deus é Mulher, e que considero alguns dos maiores artistas dos nossos tempos. Além de tudo isso, adentrei muito mais de perto às questões dos movimentos negro e feminista, que Elza é uma grande porta-voz. Toda essa pororoca artística desse encontro provocou um turbilhão que virou minha vida de ponta a cabeça.”

Aproveito para lhe perguntar sobre o mercado independente brasileiro de música: “É um dos maiores do mundo. A produção é gigantesca e nós ainda somos um dos povos que mais consomem a própria música. As grandes questões ainda são a formação de público e o repasse do rendimento que essa música gera. Acho que estamos crescendo e nos profissionalizando em nossas redes, e temos bons exemplos disso como a Tulipa Ruiz, a Liniker e o Criolo, entre tantos outros que formaram e consolidaram seus públicos sem o suporte das grandes gravadoras. Ainda temos muito a crescer, pois o mercado é enorme, mas entendo que estamos caminhando bem nesse setor. Talvez o maior desafio seja contornar novamente o intermédio usurpador das majors, que migraram para as redes de streaming, e agora repassam ainda menos do que repassavam pela vendagem de discos. Acredito que havendo repasse justo de dividendos, a música independente é totalmente autossustentável.”

Outra questão específica relacionada ao seu trabalho é o fato de ele ser majoritariamente instrumental. “O Brasil é muito concentrado na canção. A canção aqui é uma entidade soberana! Novamente o problema maior é a formação de público. É conseguir furar o bloqueio das grandes mídias, das rádios e TVs, e chegar a quem tem real interesse, e formar um público novo que não consegue o acesso – se antes por falta de informação, agora por excesso dela. Já houve épocas em que atenção a música instrumental no Brasil foi muito grande. Na minha adolescência, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti, por exemplo, lotavam grandes palcos como o Parque Lage e o Circo Voador. Agora, temos bandas como o Bixiga 70 que rejuvenesceram o seu público e abrem novas picadas nesse caminho. Esse mundo é dos persistentes e apaixonados. Continuamos seguindo. Persistentes e apaixonados.”

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Lana Del Rey lança mais uma música nova – a mágica “Venice Bitch” tem nove minutos e a música mais etérea que ela já gravou – e anuncia que seu próximo disco, agora batizado de Norman Fucking Rockwell, sairá no início de 2019. Produzido pelo mesmo Jack Antonoff que fez 1989 e Reputation de Taylor Swift, Melodrama de Lorde e Masseduction, de St. Vincent, a faixa segue a linha da música que lançou na semana passada, “Mariners Apartment Complex“, que aos poucos retira Lana do mood dos anos 50, mas desta vez a traz para os anos 70, com blips sintéticos retrô e uma atmosfera ainda mais hipnótica que a faixa anterior. É uma das melhores músicas de Lana, embora demore pra você perceber isso.