O humor inglês fica um tanto sem graça com a partida do lendário Monty Python Terry Jones.
Ninguém esperava por essa: o Radiohead acaba de lançar sua própria biblioteca pública, mastigando todo seu conteúdo online de bandeja para os fãs. E não estou falando só de discos e clipes – o grupo reuniu num mesmo acervo online inúmeros shows, produtos de marketing e camisetas de diferentes fases (que começarão a ser vendidas online no dia 4 de fevereiro), gravações raras, entrevistas e conteúdo digital que criaram nestas décadas de atividade, como os curtas da série The Most Gigantic Lying Mouth of All Time, o disco de remixes e o aplicativo que fizeram para o disco The King of Limbs, transmissões feitas pela internet e um acervo digital para seus próprios sites, labirintos online que faziam os fãs se perder semanas online antes do lançamento de novos discos.
https://t.co/Gk4BUXwjsg has always been infuriatingly uninformative and unpredictable. We have now, predictably, made it incredibly informative.
We present: the RADIOHEAD PUBLIC LIBRARY. pic.twitter.com/H7Ft6lNuuN
— Radiohead (@radiohead) January 20, 2020
“O Radiohead.com sempre foi irritantemente desinformativo e imprevisível”, disseram em suas redes sociais ao anunciar a biblioteca, “agora nós, de forma previsível, o tornamos incrivelmente informativo”. O Radiohead foi a banda que melhor soube utilizar a internet para divulgar seu trabalho, avançando diferentes fases de sua carreira pelas fronteiras digitais conhecidas, moldando-se às mudanças que aconteciam na internet. Desde os boatos que Kid A teria sido vazado na internet três meses antes de seu lançamento pela própria banda até o lançamento repentino de In Rainbows, que permitia que o público baixasse o disco pagando o preço que quisesse (inclusive nada), passando por apagões em mídias sociais e um disco distribuído via torrent. A biblioteca vem consolidar esta vanguarda do grupo, organizando sua história de forma didática e cutucando essa época bizarra que vivemos ao levantar as bandeiras da biblioteca – numa época em que o estudo e o intelectualismo parece que são falhas de caráter -, da gratuidade – você tem todo o conteúdo livre para desfrutar, sem pagar nada – e do serviço público. O site ainda permite que se crie uma carteira intransferível de sócio da biblioteca – muito foda. Já fez a sua? Faça aqui.
Se você não viu O Barato de Iacanga, documentário sobre as mitológicas edições do maior festival hippie que já aconteceu no Brasil, pare tudo que está fazendo e assista agora – tem no Netflix, corre enquanto é tempo. Mas se você já assistiu ao filme, sabe que um dos pontos máximos é a inesperada e antológica participação de João Gilberto na terceira edição do Festival de Águas Claras, que o maior nome da história da música brasileira considerava um de seus melhores shows. O mais legal é descobrir que esse show está inteirinho no YouTube, aumenta o volume…
Rastilho, segundo disco solo de Kiko Dinucci, é uma bordoada sonora, seja na forma que ele desce a mão no violão, seja no canto triste que entoa mensagens diretas, muitas vezes mesmo sem letra. Resgatando o jeito rude e ríspido de tocar o instrumento que o consagrou nos primeiros discos do Metá Metá e do Passo Torto, ele agora o isola para ser ouvido sem nenhum outro acompanhamento senão as melodias vocais. Acústico e pesado, Rastilho transforma o violão de Kiko em uma arma de fogo verbal, disparando canções que atravessam o coração – de diferentes formas. São lamentos instrumentais (“Exu Odara”) e cantos de terreiro (“Olodé”, “Foi Batendo o Pé Na Terra”), crônicas de quebrada (“Febre de Rato” e “Veneno”, com Ogi, quando o rapper e cantora Juçara Marçal se engalfinham numa introdução à Tom Zé) e sambas de roda (“Foi Batendo o Pé Na Terra”, “Tambú e Candongueiro” que já havia gravado com o Grupo Afromacarrônico, “Vida Mansa”, eternizada por Cyro Monteiro), quase sempre acompanhado pelo luxuoso coro feminino composto por Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e pela própria Juçara. Rastilho até cria um gênero novo ao misturar a sonoridade de filmes de velho oeste à rispidez do agreste nordestino (“Marquito”, o duelo de gritos, sussurros e rosnados entre Kiko e Ava Rocha em “Dadá” ou o vôo noturno de Juçara em “Gaba”) O ponto central do disco é sua última faixa, que batiza o disco e sintetiza as duas naturezas de seu título – a peça do violão e o pavio da pólvora -, que acaba solta um pesado presságio sobre o Brasil de 2020: “Vamos explodir”, seja lá o quê. Vamos. Ah vamos.
“Queima
Deixa arder
Virar cinza
Fumaça
A praça derreteu
A noite não findou
O temporal mal começou
Deixa o sol nascer
Quando ele quiser
A lava escorrer até o último sinal de vida
Abraçado à morte sem saber
O moribundos dançam
As moscas já nos cobrem
Ninguém pode parar
Nem fé, amor ou sorte
Vamos explodir”
Figura crucial na vida cultural mineira, Marcelo Dolabela havia sofrido um AVC há cerca de um ano e nos deixou neste sábado. Poeta, artista multimídia, escritor, músico e ativista cultural mineiro, ele é mais conhecido por ser autor do clássico ABZ do Rock Brasileiro, uma das primeiras enciclopédias sobre o pop brasileiro, lançada em 1987, por integrar bandas cruciais no underground de Belo Horizonte, sua cidade natal, como Divergência Socialista e Sexo Explícito, e por roteirizar documentários como Uakti – Oficina Instrumental e Arnaldo Batista: Maldito Popular Brasileiro. Abaixo, uma entrevista de 1997 com este herói desconhecido da cena artística nacional.
Obrigado Marcelo.
Entrevistei, para a revista Trip, a jornalista Roberta Martinelli, o produtor Décio 7 e as cantoras Letrux e Luedji Luna sobre o espetáculo Acorda Amor, que apresentam canções de resistência da história da música brasileira ao lado de Maria Gadu, Xênia França e Liniker Barros e que agora virou disco – e também antecipamos a capa do disco, que será lançado no dia 28 de janeiro. Confere lá.
“A vida só começou”, canta o cantor e compositor paulista Bruno Schiavo no single “Califórnia”, que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. Gravado por Negro Leo e por Ana Frango Elétrico (com quem compôs “Tem Certeza?” de seu disco mais recente), Bruno está prestes a lançar seu primeiro disco solo, depois de passar pelo grupo Eueueu, que descreve como “um power trio entre a canção e o improviso de garagem baseado no ideal de horizontalidade em voga em 2013”, que montou ao lado de Daniel Scandurra e Chico França (autor da ótima “Promessas e Previsões”, lançada por Ana, no ano passado).
No novo trabalho, o foco é a canção pop. “De modo geral, esse primeiro trabalho é metade uma compilação entre o que fiz nos últimos dez anos, metade escrito no calor das gravações. Dá pra entender cada faixa como uma descoberta a seu modo, um álbum feito todo de começos”, me explica. “O disco teria uma definição específica ou pessoal de pop, possivelmente um metapop que envolve gradações de curiosidade do ouvido, exemplos: o quanto a escuta pôde ser ampliada em meio ao mainstream dos anos 90 e 2000; desde o pop de invenção dos Beatles; a partir de uma procura específica música popular brasileira adentro; do choque multicultural do download e da obsessão musical que ele democratizou. Um pop que passa pela noção de que estranhar intervalos, dissonâncias, contratempos e em seguida assimilá-los é um processo tão ou mais fundador da experiência quanto a repetição; que acredita na dialética entre tais modos como lugar privilegiado de investigação. Processo de composição tendente ao zero, ao utópico do presente imediato do improviso na canção, sem recurso a gênero, baseado na desmontagem da própria gestualidade musical afetada pelo pop, cujos resquícios são selecionados, mantidos e valorizados. Como numa investigação retroativa do ouvido programado: deixei iscas de superfície, especialmente melódicas e na sonoridade geral, e iscas de profundidade, que vão se apresentando nas escutas sucessivas, daí principalmente nas harmonias e nas letras.”
Gravado a partir de 2018 no estúdio Rockit!, o disco foi conduzido pelo mesmo Eduardo Manso que ajudou Ava Rocha a moldar seu Trança – e isso acabou aproximando ainda mais Bruno da cena carioca, trazendo um time pesado desses artistas para o álbum. “Além de uma percepção de estilo totalmente imune a quaisquer desvios mais caretas meus, Manso tem uma noção inacreditável da função do ‘inaudível’ numa faixa, do lugar fundamental de não-evidência”, ele continua. “O incrível Trança de Ava Rocha cuja direção musical foi dele e de Negro Leo habitava minha imaginação sonora nesse período inicial das gravações. Convidei muito honradamente músicos que observava de perto há anos, admiração e afinidades só cresciam: Thomas Harres, Marcelo Callado e Antônio Neves tocam bateria; Felipe Zenicola e Pedro Dantas, baixo; Thiago Nassif, o próprio Manso e Marcos Campello, guitarras; Chicão, piano e sintetizadores; Nana Carneiro, Raquel Dimantas, Ana Frango Elétrico e Ava Rocha participam em coros. Luxo total, maior presente da vida. Vários amigos também estiveram próximos, ouvindo, comentando, discutindo, me recebendo no Rio, ajudando na produção em geral, da capa, imagens de divulgação e clipe.”
“Califórnia” é mais do que uma boa amostra de seu trabalho como uma introdução perfeita para o disco, um fio da meada que puxa para um universo tão estranho quanto pop, que mistura camadas de ruídos sonoros a melodias assobiáveis e letras contemplativas – e reconstruídas (“Amores Incríveis” é minha favorita). “O olhar pelo lado mortificante da rotina por si só propõe um distanciamento das coisas do mundo que, então, podem reaparecer tão objetivas e frias no plano da linguagem a ponto de exigirem do sujeito um ato de reconexão, de refundação de sentidos. Penso nas ‘superfícies plásticas coloridas desiludindo no sol’ do refrão de ‘Amores Incríveis’, uma canção só superficialmente alegre. A ironia, inapreensível de primeira pra muitos, é um produto da desconfiança na naturalidade dos gestos gastos, dos vícios do comportamento apesar de suas repetidas manifestações. O teatro que revela uma verdade ou a emulação da sinceridade parecem efeitos complementares em mão dupla que podem ambos engendrarem deslocamentos ‘desejantes’. Por esse caminho, não existe afirmação da vida sem trazer à baila negativa a transparência de segunda ordem. Há correspondências evidentes entre escalas, estilos, gêneros musicais cristalizados e afetos-padrão, ou seja, encontros que são o material incontornável da canção. Seria possível uma história da música popular enquanto provocação astuciosa a esse absolutismo sentimental, irmão mais velho da parte anestesiada do ouvido?”
Pergunto sobre as referências musicais para esse disco e a resposta é tão difusa – e passageira – quanto as próprias canções, embora dê uma bela medida do que pode ser ouvido. “Sou fascinado por gravações caseiras de versões demo de compositores que gosto, Cobain, Macalé, Lennon, Michael Jackson. Minha primeira aquisição fonográfica consciente – com muitas aspas – foi Dangerous. A segunda, Mamonas. Os Mutantes e os desdobramentos de Rita Lee e Arnaldo Baptista foram irreversíveis junto com João Gilberto na adolescência; o Gilberto Gil da apresentação na USP e do Luminoso; Low de Bowie, a estranheza pop ali. Noel Rosa e Assis Valente, Duke Ellington, Nina Simone e todos os songbooks da Ella Fitzgerald, Djavan, Björk, Lupicínio, Radiohead, Super Diamono, Antena 1. Essa pergunta sempre evoca um palimpsesto perigoso, essa é uma lista hoje, só, e hoje também posso trocar com a diversidade da minha geração, o que certamente é o melhor de tudo.”
E já que o assunto é geração, pergunto sobre a influência desta cena carioca da última década, em constante reinvenção, tão presente no disco, e ele aponta para o selo Quintavant. “O conhecimento da cena musical carioca em torno da noite e do selo Quintavant me causou espanto: avanços intensos do free jazz ao ruído, sempre permeado por uma grave consciência minimalista e por uma ética técnica sem engessamento. O que é muito incrível, acompanhado por uma crítica forte e ao mesmo tempo generosa como a de Bernardo Oliveira. Algo que com certeza merece um aprofundamento histórico e cuja influência ainda não sabemos como medir, mas com certeza será profunda.”
O grupo goiano Boogarins toca mais uma vez ao vivo na clássica rádio indie norte-americana KEXP.
Letrux fechou 2019 registrando uma versão hi-fi de seu Em Noite de Climão ao vivo quando apresentou-se no dia 28 de setembro do ano passado no Auditório Ibirapuera – o resultado captura a intensidade dramática do universo imaginado por Letícia Novaes em seu primeiro disco solo.
Have We Met, o novo disco do alter ego de Dan Bejar, Destroyer, sairá no último dia deste mês – e ele mostra mais uma de suas canções, depois de apresentar “It Doesn’t Just Happen” e “Crimson Tide” no ano passado, criando uma boa atmosfera de expectativa para o novo disco. “Cue Synthesizer” mantém a atmosfera anos 80 dos dois primeiros singles, mas pesa a mão e soa ainda mais pop.










