Sem alarde, o grupo indie norte-americano lança o épico psicodélico “Timebends”, uma viagem perfeita, com teclados, pianos e guitarras numa deliciosa jam interminável e clipe dirigido pelo próprio Bradford Cox, vocalista e principal compositor da banda.
Que banda!
Em seu terceiro disco, batizado apenas com seu sobrenome, o cantor e compositor norte-americano Michael Kiwanuka se consolida como um mestre em ascensão – ele mistura doses graves e pesadas de teclados, guitarras e baixos de forma a jogar suas canções para o território do jazz funk sem necessariamente deixá-las de soar soul, como se Marvin Gaye e Gil Scott-Heron pudessem habitar os mesmos cérebro e coração. Discaço – seu melhor disco e sério candidato a disco do ano.
A banda californiana Rage Against the Machine acaba de anunciar em sua conta no Instagram que voltará a fazer shows no ano que vem usando a já épica foto de Susana Hidalgo do recente levante chileno.
Entre as datas, duas em Índio, na Califórnia, com a distância de uma semana – ou seja: headliner do Coachella 2020.
Segundo single lançado com clipe dirigido por Paul Thomas Anderson neste ano, “Now I’m In It”, música nova das Haim, é mais taciturna e pensativa que “Summer Girl” e volta à atmosfera sintética oitentista tão cara ao trio de irmãs, que parecia ter ficado para atrás no single anterior. Ainda sem previsão de lançamento de disco, a nova canção faz parte de um período de transição da banda, em que seguem sendo produzidas pela dupla Rostam Batmanglij e Ariel Rechtshaid, mas que, como a canção anterior, tem o dedo da própria Danielle Haim assinando a produção musical.
Kevin Parker ligou as máquinas de seu Tane Impala e anunciou que seu quarto álbum, batizado The Slow Rush, chega em 2020 – mostrando tanto esta ótima capa (acima) como um vídeo com cenas das gravações para dar um gostinho do que vem por aí…
Courtney Barnett reaparece fazendo uma versão para “Keep On” de seus conterrâneos de gravadora Loose Tooth. A versão, mais molenga e sossegada que a original, faz parte da coletânea Milk on Milk, organizada pela gravadora australiana Milk!, em que artistas do selo tocam músicas uns dos outros.
“Você pode dizer que eu sou um branco velho – eu sou um branco velho”, canta Neil Young logo no início da longeva “She Showed Me Love”, uma das peças centrais de seu recém-lançado Colorado, mais um disco que o velho guitarrista lança ao lado de sua eterna banda de apoio Crazy Horse. O tema do disco é a preocupação do cantor e compositor canadense com o meio ambiente, progressista como sempre, embora ele mantenha-se conservador naquilo que saiba fazer melhor: longos épicos elétricos conduzidos por guitarras sujas e resmungos com sua voz característica. Mesmo com momentos delicados – como a bela “Green is Blue”, o doce trem ao final de “Eternity”, o sussurro de “I Do” e o afago em George Harrison ao copiar “Behind That Locked Door” em sua “Rainbow of Colors” -, são os emaranhados de microfonia em longas travessias que marcam mais este disco do velho Neil, seguindo a linha dos trabalhos anteriores com o Crazy Horse, como Americana e Psychedelic Pill, de 2012. A principal mudança neste Colorado é a saída de Frank “Poncho” Sampedro, que largou a estrada para curtir a vida no Havaí, e a entrada do filho pródigo Nils Lofgren, que largou o Crazy Horse ainda no início dos anos 70 e é mais conhecido por sua carreira na E Street Band de de Bruce Springsteen. Não muda nada, mas pra que mudar?
“Think of Me”
“She Showed Me Love”
“Olden Days”
“Help Me Lose My Mind”
“Green Is Blue”
“Shut It Down”
“Milky Way”
“Eternity”
“Rainbow of Colors”
“I Do”
Fiquei sabendo há pouco sobre a morte de Nick Tosches, que passou para o outro lado no último dia 20, três dias antes de completar 70 anos. O jornalista norte-americano ficou conhecido por escrever sobre música mas levou sua pena para outras tantas paragens. Traduzi parte de seu ótimo Country: The Twisted Roots Of Rock ‘n’ Roll, lançado em 1977, um de seus ótimos livros sobre os primeiros anos do rock’n’roll (a biografia de Jerry Lee Lewis Hellfire, que ele publicou em 1982, é outro deles), que a editora Conrad editou como o pequeno Criaturas Flamejantes, um dos poucos livros da ótima coleção Iê-Iê-Iê, bem como o entrevistei para a Ilustrada há 13 anos sobre seu ótimo A Última Casa de Ópio – e a inspiradora entrevista foi uma desculpa para ele divagar sobre a arte que compartilho com ele: a literatura de não-ficção que também chamamos de jornalismo.
Americano narra tempo esquecido das casas de ópio
Nick Tosches critica mundo massacrado pelo consumismo desenfreado a partir de metáfora do fim das tradições
Livro mescla reportagem jornalística com ficção para falar do modo de vida pós-industrial que destruiu o prazer de ser humano
A milenar arte de se desprender da realidade num luxuoso clube reservado parece ser o delírio mais narcisista da história ou um convite para a completa alienação social, mas nas mãos do escritor norte-americano Nick Tosches se tornou a melhor metáfora para um tempo humano que passou. Assim é A Última Casa de Ópio, curto relato sobre a procura por uma perdida tradição sagrada que funciona como um testamento para um mundo massacrado pelo século 20.
Mais do que uma simples apologia a um hábito lendário que o vazio abarrotado de nossa época tornou tabu, A Última Casa é um libelo individualista com a força juvenil de um Thoureau ou Hakim Bey, mas com sarcasmo e desprezo sábio por tudo aquilo que, apesar de parecer nobre, é supérfluo: a alta cozinha, o culto fresco-intelectual ao vinho, a globalização e o tráfico internacional de drogas como recalques diferentes de um detrator modo de vida pós-industrial que destruiu o sabor de ser humano. Tosches conversou com a Folha sobre este assunto.
A Última Casa de Ópio é, ao mesmo tempo, um romance, uma reportagem e um artigo, com momentos que podem ser verdadeiros ou falsos, além de uma narrativa que é pura digressão.
Verdade. Ficção. Lenda. Literatura. Jornalismo. São categorias, marcas. Nós amamos categorias, amamos marcas. Elas nos impedem de termos de perceber por conta própria. Mas, no fim das contas, dá no mesmo. No caso de A Última Casa de Ópio, direi que tudo é verdade: a verdade da experiência, a verdade do meu coração.
À medida em que você guia o leitor pelo livro, você também descreve a destruição de um velho mundo pelo modo de vida consumista da sociedade ocidental. Que outros prazeres foram esquecidos além do ópio?
Perdemos o maior prazer de todos que é o prazer de sermos nós mesmos. O amor pelo dinheiro, se tornar um rato numa cultura guiada pelo consumo destes tempos, faz de nós fraudes. Quando passamos a maior parte de nossas horas acordados num trabalho, fingindo que gostamos do trabalho, fingindo que gostamos de nosso chefe, fingindo que estamos interessados no nosso trabalho, então o fingimento se torna um estilo de vida. Nós nos tornamos o que T.S. Eliot chamava de “homens ocos”. Quase tudo o que consumimos, quase tudo o que compramos é placebo. Esses produtos de uma cultura consumista vazia é que são as verdadeiras drogas perigosas. Nossa “guerra contra as drogas” deveria ser contra essas coisas.
Vivemos em dias em que até a crítica musical é considerada uma arte.
“Arte” é uma palavra besta. Há muito tempo, homens pintavam imagens em cavernas. Hoje, as chamamos de arte. Para eles, era magia. Agora não temos quase nenhuma magia e tudo é chamado de arte. O pior cantor de música pop é agora um “artista”. De novo, “arte” se torna uma categoria sem significado.
Como as pessoas podem sair da segurança e do conforto da vida diária e voltar a gostar do risco?
Tendo a força e a coragem para não ligar para nada, percebendo que este é o mundo dos aristocratas e não o seu, percebendo que o dom imenso e belo de respirar vivos é tudo o que temos.
Você acha que espiritualidade, drogas e expansão de conhecimento estão conectadas umas às outras ou isso é mais uma bobagem new age?
As drogas não tornam ninguém espiritual. Mas a espiritualidade pode melhorar as coisas. Tudo, das drogas à consciência da brisa no ar. Mas o ópio tem uma certa magia. É uma vergonha podermos comprar toda a heroína que quisermos e ser tão difícil achar ópio. Mais uma vez, isso é culpa de nossa cultura consumista: ópio vale mais dinheiro quando se torna heroína. E também, hoje em dia, todo mundo quer o ritmo rápido da vida. Ópio é uma lenta e luxuosa sedução. Eu posso andar 20 minutos de onde moro e comprar armas, heroína, crack. Mas eu não acho ópio de verdade. Eu não posso nem fumar um cigarro no bar. É ridículo.
E assim começa Criaturas Flamejantes:
“Palavras como realismo, neoclassicismo, minimalismo e Dada são caprichos intelectuais, termos inventados para descrever estéticas. Cada uma delas tem uma definição de fácil aprendizado, uma origem clara e precisa. Leia a palavra Dada e lembre-se que, sim, Tzara a inventou, em 1916, para chocar o mundo. Quer dizer “cavalo de pau” em francês.
Mas palavras como juke, jazz, honky-tonk ou rock-and-roll são indefiníveis. Nenhuma delas foi inventada para o propósito da arte. Cada uma parece ter sua própria alma, de onde a arte evoluiu, como uma obscura e primitiva palavra mágica. Negros veteranos dizem que pararam de tocar o blues porque era a música do demônio. Pastores brancos berram contra a propensão ao pecado do rock-and-roll. E não é impossível que a palavra juke, encontrada originalmente entre os negros da Flórida e do litoral da Geórgia, no final do século XIX, tenha a mesma origem que a palavra dzug em úlof, que significa levar uma vida depravada.”
Livraço, vale muito à pena.
Os dois Beatles remanescentes Ringo Starr e Paul McCartney se reencontraram no estúdio ao regravar uma das últimas músicas compostas por John Lennon. “Grow Old with Me” foi lançada no primeiro disco póstumo de John, Milk and Honey, e quase foi o single de apresentação do terceiro volume da coletânea Anthology, nos anos 90, mas o grupo não chegou a uma definição a tempo do lançamento e por isto esta volume foi o único lançado sem um single gravado nos anos 90 – o primeiro volume trouxe “Free as a Bird” e o segundo “Real Love”. Quase dezoito anos após a morte de George Harrison, a dupla retoma a canção no novo disco de Ringo, What’s My Name, lançado nesta sexta-feira.
A faixa traz Ringo nos vocais, Paul no baixo e vocal de apoio, Joe Walsh, dos Eagles, na guitarra, e o lyric vídeo acima traz a caligrafia original de John Lennon.
“I got my shit together meeting Christ and reading Marx”, canta o bardo canadense Leonard Cohen na faixa de abertura de seu primeiro disco póstumo, “Happens to the Heart”. Como de praxe no repertório do mestre, a faixa equilibra-se entre a sobriedade e a sombra, dando o tom de Thanks for the Dance, disco conduzido por seu filho, Adam Cohen, a partir de sobras de estúdio do último disco gravado pelo pai, You Want it Darker, lançado meses após sua morte, em 2016.
O disco já havia sido anunciado com a faixa “The Goal” (abaixo) e Adam convidou alguns pupilos do pai para reunir-se em sua homenagem e com isso ele conseguiu Feist, Beck, Damien Rice, Bryce Dessner (do National), entre outros, colaborassem com o disco – que já está em pré-venda e deverá ser lançado no dia 22 do mês que vem.
A capa e o nome das faixas de Thanks for the Dance vêm a seguir:
“Happens to the Heart”
“Moving On”
“The Night of Santiago”
“Thanks for the Dance”
“It’s Torn”
“The Goal”
“Puppets”
“The Hills”
“Listen to the Hummingbird”













