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Jornalismo

Três é demais

Quando foi anunciado que Lana Del Rey, Ariana Grande e Miley Cyrus fariam uma colaboração para a trilha sonora do remake de As Panteras, havia uma enorme sensação de balaio de gatos, algo como se a faixa fosse apenas uma desculpa para colocar três cantoras que são propriamente semelhantes num mesmo patamar.

Na prática, é exatamente isso o que acontece, mas tudo tem uma função específica aí. O principal recorte da música – que é boa, mas esquecível – é que Ariana Grande seria a principal cantora pop da atualidade, uma vez que ela é a figura central do clipe, que canta o refrão e que carrega o comunicador com o qual As Panteras ficam sabendo de suas missões. Miley Cyrus entra mais uma vez para mexer em sua marca pública – depois de passar um ano se fazendo de boa moça, ela volta agora fantasiada de boxer, esmurrando agressividade. Mas o que me chamou a atenção foi a inclusão de Lana Del Rey neste time (bem como todo o alarde ao redor de seu novo álbum, como se ele não fosse exatamente o que Lana tem feito nos últimos anos). Em vez de ela surgir diva do pop botando todo mundo pra dançar – o que seria bem estranho da parte dela -, sua parte desacelera o tempo da música para encaixar-se em seu universo hipnótico em câmera lenta. É a única parte da música realmente interessante – pena que é quase no fim e que logo acaba.

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“Quando a gente quer sair de um disco para o outro, mas sair mesmo – ir de uma visão e abordagem à outra bem diferente –, às vezes leva tempo”, me conta a cantora e compositora pernambucana Lulina sobre seu novo disco, Desfaz de Conta, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira. “Muita coisa que compus nos dois anos seguintes ao lançamento de Pantim, de 2013, tinha mais a ver com o Pantim do que com uma nova direção. Gosto de sair de um campo gravitacional musical e ficar perdida, flutuando, até ser puxada a outra situação que eu nem sabia que existia. E nesse trajeto, produzo e lanço meus discos caseiros, que são experimentos que desenham esse caminho de aprendizado e dão pistas de pra onde estou indo, mesmo que a rota mude repentinamente. Às vezes, esse caminho parece uma areia movediça, onde é preciso ter paciência com as frustrações. E de repente, a coisa vira uma pista de decolagem.”

Desfaz de Conta – que ela antecipa capa, feita pelo coletivo Bloco Gráfico, e nome das músicas em primeira mão para o Trabalho Sujo, abaixo – é, portanto, o primeiro disco de Lulina em seis anos, justo ela que é conhecida pela proficiência musical e que, anos antes de gravar seu primeiro álbum (Cristalina, que completa dez anos em 2019), lançava CD-Rs com versões caseiras de músicas que compunha de forma exponencial. O disco é um salto em relação aos trabalhos anteriores, principalmente pela agilidade que ela conseguiu no estúdio – onde mostrou as músicas pela primeira vez aos músicos que a acompanharam, também pela primeira vez.

O processo que culminou no novo disco – que já tem dois singles lançados, “Quem é Quem” e “O Que é o Que” – começou em 2014 mas passou a ganhar forma há dois anos, quando ela passou a dividir as composições com o amigo Ronaldo Evangelista e levou cerca de 40 canções para o produtor Maurício Tagliari começar o trabalho do zero. “Foi quando o Maurício sugeriu os músicos que deveriam dar forma a essas novas canções e colocou um desafio: não usar bateria em hipótese alguma, só percussão”, ela continua. Tivemos “um primeiro encontro com Thomas Harres e Gabriel Bubu pra ouvir juntos as gravações caseiras e dividir as primeiras impressões de arranjos possíveis. E o segundo encontro já foi em estúdio pra gravar, um mês depois, criando no improviso, sem nunca termos tocado juntos. Não fizemos mais do que dois ou três takes de cada canção, mas a maioria foi de primeira mesmo, um processo leve e divertido. Em quatro noites e um horário de almoço tínhamos o disco pronto”, ela lembra, falando das gravações que começaram no fim do ano passado. Além de Thomas e Bubu, o disco ainda conta com percussões de Igor Caracas, guitarras do próprio Maurício, synths e pianos de Dudu Tsuda, além de parceiros como Maurício Pereira, Guizado, Paulo Freire e Missionário José.

“Já admirava todos eles eu e há tempos queria inventar algo junto, mas foi o Maurício que coordenou essas combinações”, ela continua. “Para descobrir como seria essa formação ao vivo, fiz uma série de experimentos em shows chamados Onde é Onde, um na Casa Plana, outro no Centro da Terra e um último no CCSP. Em cada um, testei formatos inusitados, misturei músicos diferentes, improvisei arranjos novos. Comecei com três músicos me acompanhando, depois quatro, depois cinco. Espero fazer um show de lançamento com todos eles juntos, mas enquanto isso, experimento essas mutações, que são divertidas.”

Quando pergunto sobre o tema central do novo disco ela sai pela tangente. “Tem um tema central que costura diversos outros temas, mas explicar isso tira um pouco da graça, não? Acho que o nome do disco já dá uma pista. Além do mais, como diz a letra de uma das canções: ‘tudo o que se conta tem que dar um desconto, pois quem conta faz parte do conto'”, desconversa. “Tem só uma curiosidade que eu queria mencionar: boa parte das canções foram compostas durante ou após um banho quente – e isso é outra pista”, diverte-se.

E mesmo sem ter lançado o disco direito, ela já está com fome criativa: “Já tô com vontade de gravar um novo disco caseiro!”

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“O Que é O Que”
“N”
“Cantor Pop dos Sonhos”
“Sina ou Sinal”
“Cansada de Alegria”
“Banheiros Produtivos”
“Tudo Se Desfaz de Conta”
“Vuco-Vuco”
“Carne Burro”
“Tem Coisa Aqui”
“Toda Solidão”
“Quem é Quem”
“Spoiler da Vida (Mayday)”
“Sorriso”

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O Popload Festival deste ano sofreu uma baixa considerável, ao anunciar que o grupo Beirut não viria mais participar da edição 2019 do evento, mas sacou um substituto inusitado e inesperado: o grupo paulistano Cansei de Ser Sexy, que desde 2014 não se apresenta mais ao vivo. A banda era dada como morta, embora a vocalista Lovefoxxx tenha dito ao site O Grito que “a banda nunca acabou. Nunca anunciamos um fim. Só pausamos o babado. Cada uma de nós foi viver um pouco sua vida, criar alguma raiz, porque passamos muitos anos viajando sem parar de tocar. As meninas moram hoje em Los Angeles, eu vivi um tempo nos EUA, voltei ao Brasil e agora estou construindo minha casa no litoral de Santa Catarina. Depois que paramos eu fui estudar construção sustentável natural. Hoje estou envolvida com agrofloresta. A ideia de voltar com a banda sempre existiu, mas foi ficando bem complicada por causa da vida de cada uma mesmo. Agora vai dar certo. Estamos muito felizes com o convite do Popload Festival”.

O Cansei de Ser Sexy começou como uma brincadeira entre amigas, capitaneada pelo produtor, compositor e baterista do grupo, o herói do underground paulistano Adriano Cintra, e deu tão certo que foi parar nos palcos dos principais festivais do mundo. Também foi um dos primeiros grupos brasileiros a saber utilizar a internet para divulgar seu trabalho, mas implodiu após um desentendimento sério com seu antigo empresário seguido da saída do próprio Adriano. O grupo ainda continuou na ativa por alguns anos e esvaiu-se sem dar notícia nem ser percebido – até anunciar esta volta cinco anos depois.

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Depois de algum suspense online, o boato tornou-se realidade no fim de semana: o Supergrass havia voltado. Uma das melhores bandas do britpop, o grupo liderado por Gaz Coombes voltou a se apresentar como atração supresa no festival Pilton Party, organizado pelos mesmos criadores do festival Glastonbury. Um setlist enxuto, mas que contou com os principais clássicos da banda:

O show de sexta passada consolidou a formação (agora o grupo é oficialmente um quarteto, com Gaz na guitarra, Danny Goffey na bateria, Mick Quinn no baixo e Rob Coombes nos teclados) e foi o primeiro de uma turnê de volta que será formalizada em 2020 mas ainda contou com um segundo show em 2019 em Oslo, na Noruega, segunda passada. A partir de fevereiro do ano que vem o grupo começa uma turnê que passa por cidades da Europa e dos Estados Unidos (e os ingressos começam a vender nesta sexta-feira).

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A volta do grupo também traz uma caixa reunindo toda sua discografia, com seis álbuns em CD e vinil picture, quatro CDs que incluem shows ao vivo, participações em programas de rádio e shows acústicos, dois CDs com remixes, lados B e raridades, um CD com demos, sobras de gravação e outras raridades, além de um single com remixes feitos em 2020 para “Caught by the Fuzz” e “Richard III”, quatro pôsteres, oito bottons e um livro de 52 páginas. A caixa, batizada de Supergrass: The Strange Ones 1994-2008, começará a ser vendida em janeiro do ano que vem e também terá uma versão reduzida em um álbum duplo, com os melhores momentos da banda.

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E para fechar com chave de ouro essa notícia, o grupo também transformou “Next to You”, do Police, em uma pedrada, indicando que talvez tenhamos músicas novas (ou, pelo menos, novas gravações) nesta volta do grupo.

Bem-vindos de volta! Tomara que colem no Brasil.

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A carioca Ana Frango Elétrico, autora de um dos grandes discos do ano passado, Mormaço Queima, está prestes a lançar seu segundo álbum, Little Electric Chicken Heart (que ela chama pela sigla, LECH), nesta quinta-feira. O novo álbum é mais lapidado e arredondado que o seu pontiagudo e estridente disco de estreia, como dá para perceber a partir do primeiro single, “Tem Certeza?”, lançado na semana passada.

“É uma extensão do Mormaço, mas mais consciente dos sujeitos de fala e da narrativa sonora”, ela me explica na entrevista abaixo, “o Mormaço é o disco de uma anticantora e o Little Electric traz um pouco de mim como cantora e intérprete”. Ela mostra a capa do disco (acima) e o nome das músicas (abaixo) em primeira mão para o Trabalho Sujo e aproveitei para bater um papo sobre esta nova fase de sua carreira.

“Saudade”
“Promessas e Previsões”
“Se No Cinema”
“Tem Certeza?”
“Chocolate”
“Vinheta”
“Torturadores”
“Devia Ter Ficado Menos”
“Caspa”

danieljohnston

“True Love Will Find You in the End” – que triste notícia.

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Bacurau não é só um filme. Engendrado por uma década pela dupla pernambucana Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ele ocupa o espaço de duas horas em uma tela audiovisual para contar uma tensa saga de vingança e violência, mas isso é uma camuflagem. O que ele propõe ao espectador é muito mais importante que a história que está contando – como Kleber já havia feito em seus dois filmes anteriores, O Som ao Redor e Aquarius, só que desta vez com muito mais eficácia. Cada detalhe, cada frase, cada referência funciona como um gatilho para que o espectador faça uma série de questionamentos sobre o que realmente está assistindo. O contexto brasileiro é essencial para que se sinta todo seu efeito.

Olhando de fora (e o filme começa assim), Bacurau é ficção científica. Por mais que envolva-se com inúmeros outros gêneros pelo percurso, sua abertura mirando o espaço e mostrando a curvatura do planeta, conversa com a abertura de todos os Guerra nas Estrelas e o desfecho de 2001 (além de provocar o terraplanismo), enquanto uma canção de Caetano Veloso cantada por Gal Costa sublinha as intenções a se ver com um objeto não-identificado. A localização temporal (“daqui a alguns anos…”, como no início do curta Recife Frio, que Kleber lançou em 2009) e as aparições dos drones em forma de discos voadores de filmes dos anos 50 só reforçam a prateleira em que os diretores colocam seu filme, embora pelo resto da história pouco nos faz lembrar de que estamos olhando para o futuro (e quando o faz, faz gelar a alma).

Acompanhamos a volta de Teresa (Bárbara Colen) para sua cidade-natal, a minúscula vila que batiza o filme. Ela e outros personagens nos servem como guias para conhecer a população local: heterogênea, peculiar e intimamente ligada à cultura, como o filme nos lembra com frequência. É uma vila que, se muito, ultrapassa a centena de moradores e certamente não chega ao milhar – não dá nem para se referir como cidade, embora hospede um microcosmo universal. Mas, como explica o pai de Teresa, Plínio (Wilson Rabelo), logo no funeral que inicia o filme, são pessoas que vivem suas próprias histórias como querem e as levam para todos os lados do mundo – e que orgulham-se de sua honestidade. A apresentação de Bacurau e seus habitantes é lenta e arrastada, como a rotina numa cidade daquele tamanho, e mostra personagens que são alegorias e amálgamas de personalidades estranhas, curiosas e conhecidas de qualquer brasileiro, desenhando uma estranha desordem que permite que aquele lugar sobreviva.

Entre eles e o que chamamos de realidade há o prefeito do município, Tony Júnior (Thardelly Lima), um dos poucos vínculos da vila com o mundo exterior. A forma como a população (des)trata o prefeito é sintomática do principal paralelo que o filme quer estabelecer com o Brasil: a separação de classes. Bacurau não é só uma vila, um estado ou uma região inteira do Brasil – é toda uma parte da população vista pela outra como mão de obra e fonte de diversão (muitas vezes, ao mesmo tempo, como na cena em que o prefeito, cruel e indiferente, leva uma pessoa embora). Isolada do resto do mundo – o termo “Brasil do Sul” é pronunciado apenas uma vez, logo no início, e não sabemos se é uma realidade geopolítica ou à forma como se referem à região -, Bacurau depende de uma série de recursos de fora – da água trazida para a cidade por um caminhão-pipa a doações feitas por políticos com motivos eleitoreiros – que incluem até remédios tarja preta. É uma alegoria, mas é muito real – a cena do caminhão de livros é especialmente crua e cruel.

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A rotina da cidade é atravessada por uma série de assassinatos que mudam o enredo do filme. A entrada de novos personagens – e novos idiomas – em sua história faz com que o ar rural e o aceno à ficção científica ceda a uma avalanche de referências a filmes de ação, filmes sobre cangaceiros, road movies, filmes de guerra, filmes de terror e até filmes de super-herói. Os diretores desfilam sua paleta de referências ao nos apresentar ao grupo antagonista da pequena Bacurau, nos levando finalmente ao confronto final – e à catarse do público.

É nesta parte que conhecemos Lunga, de Silvero Pereira. Personagem central na história, Lunga só surge de fato em seu terceiro ato e converge um anti-herói específico da história do Brasil, atualizado para o século atual. Lunga é Lampião e Zumbi, Madame Satã e o Bandido da Luz Vermelha, um Antonio Conselheiro da guerrilha, de unhas pintadas, anéis e maquiagem, que é referido pela primeira vez no filme pelo pronome feminino. Pronto para entrar na mitologia do cinema brasileiro, ele não é o único protetor da pequena Bacurau (é a união da própria vila – aliada ao já clássico “poderoso psicotrópico” – que a torna resistente, como a aldeia gaulesa dos quadrinhos de Asterix), mas sua presença paira por todo o filme como uma ameaça – e quando ela surge, torna-se gloriosa. Um personagem naturalmente clássico, exuberante e ameaçador como uma lenda do folclore brasileiro, nascido de uma interpretação que pede pelo menos um filme a mais só sobre sua importância. Pelo menos.

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A tensão imprevisível que sobrevoa cada um dos minutos do filme à primeira vista torna-se ainda mais profunda à segunda vez que o filme é assistido, pois ela vai para além da própria história. Na primeira vez, entramos ingênuos em todo aquele universo, tateando personagens e cenários como se cada degrau pudesse abrir um alçapão. À segunda vez, tornamo-nos cúmplices de seus agentes – primeiro da cidadezinha, depois dos forasteiros e finalmente do povo da cidade.

A sensação incômoda que encerra o filme atinge muito mais profundamente o espectador que os criticados finais das duas produções anteriores de Kleber (que eu, pessoalmente, nem considero tão problemáticos assim). A náusea, o desnorteamento e a esperança que se alternam durante todo o filme concentram-se na mesma sensação no minuto em que o filme termina e o estranho sentimento que nos deixa boquiabertos ou extasiados após a sessão vem com a constatação de nossa letargia e falta de dinâmica política, que passa a ser instigada pela provocação intensa que atravessa suas horas. E perdura.

Assim, cada cena, cada personagem, cada fala, cresce exponencialmente na memória – e Kleber e Juliano deixaram pistas e pistas (algumas até inconscientes, como o número da distância na placa que localiza Bacurau no mapa) espalhadas pelo filme. Como comentei na abertura do Vida Fodona mais recente, pegue apenas o exemplo de “Bichos da Noite”, música de Sérgio Ricardo escolhida para o cortejo fúnebre que abre a história. A canção foi originalmente composta para uma peça de Joaquim Cardozo, poeta e dramaturgo pernambucano que começou tardiamente a vida artística, lançando seu primeiro livro de poemas aos 50 anos de idade, época em que passou a escrever suas peças. “Bichos da Noite” foi escrita para a primeira peça de Cardozo, O Coronel De Macambira, antes de Sérgio Ricardo ser chamado para compor a trilha sonora de dois clássicos brasileiros que ecoam em Bacurau, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber Rocha. Cardozo, antes de se assumir poeta, era engenheiro civil e foi o responsável por transformar em cálculos matemáticos boa parte dos devaneios arquitetônicos de Oscar Niemeyer – incluindo aí parte de Brasília e especificamente o Palácio do Planalto. Numa única canção, que menciona nominalmente o título do filme, Kleber e Juliano plantam referências ao Cinema Novo, ao governo federal, à cultura pernambucana, à construção de Brasília, à paisagem nordestina.

Dezenas de outros exemplos surgem durante todo o filme: de uma escola chamada João Carpinteiro (traduza o nome para o inglês e temos uma das principais referências cinematográficas do filme) à singela foto de Sônia Braga e Lia de Itamaracá juntas ainda jovens, passando pela estranha substância ingerida pelos habitantes da vila, pelo destino do infame prefeito, pelo final dos invasores. Tudo tem pista, tudo tem subtexto, tudo vai para além da história. Isso tudo num filme que une sexo, nudez, drogas, palavrões, tiros, perseguição e uma exaltação à cultura e às ciências humanas (à culinária, à música, à dança, à museologia, à televisão, ao teatro, às letras), tornando-o potencialmente tão grande quanto Cidade de Deus e Tropa de Elite antes dele (e, de alguma forma, antevendo, como os dois, a década que veremos no futuro?).

Bacurau é um vírus e quem sintoniza-se em sua frequência sai do cinema infectado – pedindo mais. Como um vírus, sua principal função é a replicação – e aí o filme tem um caráter de meme, repetindo-se como uma ideia que, depois de plantada na cabeça do espectador, perdura por horas, dias. Em pouco tempo o filme estará online e nas bancas de camelô pelo Brasil todo e sua narrativa flerta com uma situação que todo brasileiro pode se identificar. Sua sobrevida vai para além do universo ficcional e encontra-se com o Brasil de 2019 quase como um desafio, como se o futuro e o filme – o principal acontecimento cultural de 2019 até agora – nos perguntasse: vai deixar assim, é?

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O filósofo eslavo fala sobre ideologia em sua análise sobre o ótimo They Live, um dos melhores filmes de John Carpenter: “Você vê a ditadura na democracia, a ordem invisível que sustenta sua liberdade aparente”.

A cena acima é um trecho do filme O Guia Pervertido do Cinema, conduzido pelo filósofo e dirigido por Sophie Fiennes em 2006.

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No lindo forrozinho “Meu Primeiro Amor”, primeiro single de seu próximo álbum, O Céu é Velho Há Muito Tempo (que será lançado no dia 18 de outubro), o baiano Lucas Santtana convida a pernambucana Duda Beat para tentam conciliar as metades separadas do Brasil, uma discreta balada que torna-se um manifesto apaixonadamente político (citando nominalmente Lula) e com os gêneros espertamente trocados entre os dois vocais.

Siba à espreita

Foto: José de Holanda

Foto: José de Holanda

“Quanta violência dá pra fingir que não há?”, nos questiona o jovem mestre Siba Veloso, que saca de sua capanga mais uma obra-prima: Coruja Muda, sucessor (e “disco irmão”, como ele me diz na entrevista abaixo) do forte De Baile Solto, até então seu disco mais contundente, que está sendo lançado nesta sexta-feira. Sua força permanece categórica, mas o disco soa mais macio e fluido que seu antecessor, principalmente pelo trançado cada vez mais firme entre sua guitarra de tons africanos e o andamento manhoso das tradições pernambucanas – e quando bate mais forte, musicalmente, requebra pro lado, dando um sorriso acanalhado que não surgia no disco anterior. “O Baile nasce da perplexidade”, me explica, enquanto “Coruja já nasce na consequência daquilo tudo”.

É um disco vivo e feito pra dançar, mas que pisca cúmplice para o ouvinte seus duplos sentidos, suas analogias animais e seus pés arrastando no chão. Comparando gente e bicho em quase toda sua extensão, recupera-se do susto antevisto com a ascensão do autoritarismo para comentá-lo de forma mais aguda, mas sem cara feia. “Só é gente quem se diz”, Coruja Muda parece resumir-se no título de uma de suas canções centrais, que de alguma forma conversa com uma cena que parece menor do recente fenômeno cinematográfico Bacurau, quando uma personagem ouve a resposta quando pergunta como se chamam os nascidos naquela cidade fictícia. Bati um papo com ele sobre o novo disco e não pude deixar de perguntar se ele havia visto o filme de seu conterrâneo Kleber Mendonça Filho: “Não vi e adorei”, respondeu com um sorriso no rosto. Logo depois ele comenta o disco faixa a faixa.

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“Coruja Muda” – “Foi inspirada em um áudio de Fábio Trummer solicitando ao fotógrafo José de Holanda as condições meteorológicas perfeitas para uma foto a ser feita. Discorre sobre o que por ventura venha a ser uma parte de minha parte bicho nessa história toda. Quem canta no final a voz da Coruja é Chico César e o Pajé é Mestre Nico.”
“Só é Gente Quem Se Diz” – “A música se divide em duas partes. A primeira é uma embolada em décimas, a segunda um arremedo irreconhecível de axé. A bicharada deita e rola superando a humanidade, em coerência e dignidade, ao longo da letra.”
“Tamanqueiro” – “É uma carta real, escrita em ritmo de embolada, com o objetivo de encomendar um tamanco para uso diário. É verdade esse bilête. Na parte instrumental em que o tamanco é fabricado, escuta-se Arto Lindsay, Edgar, Rafael dos Santos e Dustan Gallas trabalhando com dedicação.”
“Daqui Pracolá” – “Fauna e flora de minhas vivências de infância no agreste pernambucano brincam de vida e lutam de morte. Tive essa sorte de ter família com lastro forte no interior, natureza fofinha não é muito a minha…”
“O Que Não Há” – “Dou um passo em direção ao verso não metrificado, embora não chegue longe. Tem muito mais influência das longas canções de Franco com a banda OK Jazz nos anos 70 do que seria capaz de esconder. Fala da violência muda da classe média brasileira.”
“Azda (Vem Batendo Asa)” – “É um atestado definitivo da cara de pau e falta de noção deste poeta em se meter a fazer uma versão de um clássico da música congolesa que sempre o assombrou pela beleza. Antes de desistir descobri que a música era na verdade um jingle de Franco para uma loja da Volkswagen em kinshasa. Nada é tão sério assim, afinal de contas. ”
“Barato Pesado” – “É um frevo abolerado ou o contrário. Panfleto místico de exortação à conversão imediata e absolutamente necessária a qualquer forma de culto à vida e à alegria do presente. Hino da festa como elemento básico de exaltação religiosa.”
“Tempo Bom Redondin” – “É correria inútil contra o tempo que a tudo atravessa. Hino à preguiça e atualização da cansada tese de que não vale a pena levar nada tão a sério. Quem toca synth nela é Dustan Gallas.”
“Carcará de Gaiola” – “Tem bicho que não foi feito pra gaiola. Quando está preso, carrega muitos pra dentro consigo. Não consegui evitar o Baque Solto, nem nesse disco. Na orquestra, Galego do Trombone, Roberto Manoel e Maestro Minuto, da Fuloresta.”
“Meu Time” – “É a segunda faixa extra do disco. Tá aí porque cresceu muito com as versões e os anos de estrada e pra provar que não sou oportunista. Fiquei calado na Copa e relancei a faixa fora de época mais uma vez.”
“Toda vez que eu dou um passo / O mundo sai do lugar (Slight Return)” – “É a versão atualizada desta música que sou obrigado a tocar mesmo quando não quero. Atravessou todas as mutações que meu trabalho sofreu desde que ela existe. É a música que fecha os shows também.”