Conversei com a cantora e compositora pernambucana Karina Buhr sobre o lançamento de seu novo álbum, Desmanche, em uma entrevista feita para a edição de novembro da revista da UBC – que pode ser conferida também no site deles.
Percussão protagonista
Em seu quarto álbum, Desmanche, a cantora e compositora Karina Buhr canta o peso dos tambores e da situação política no Brasil de 2019
Karina Buhr é sucinta quando pergunto quais as principais inspirações para seu quarto álbum, o recém-lançado Desmanche: “Os tambores e o Brasil”. A explicação vem da situação que nosso país vem passando, às trevas dos novos governos, e da velha paixão de Karina pela percussão, colocada em primeiro plano neste seu quarto álbum. “A ideia foi quebrar totalmente com o que vinha fazendo. Mudei completamente a formação da banda e o modo de gravar, foi uma ruptura”, explica.
Desmanche marca a volta da percussão como elemento central em sua composição.
Meu instrumento é o ritmo, todas as músicas que faço partem daí. Nos outros meus três discos solo os tambores foram tirados no momento dos arranjos, embora a ideia rítmica tenha sido mantida. Alguma coisa no espírito que ia pra um lado mais rock fazia isso acontecer naturalmente. Dessa vez resolvi mudar isso e não só manter as percussões nos arranjos finais, como trazer ela de volta comigo pro palco e tirar a bateria. A percussão sempre foi um elemento central nas minhas composições, mesmo não quando não estão aparentes.
Desmanche é um disco político em vários níveis, não apenas no sentido de um disco de protesto.
Sim, na poesia dele tem a violência do estado racista, o descaso com a moradia da população e o respeito ao chão embaixo dos pés. Em “A Casa Caiu” falo de movimentos por moradia e também do crime de Brumadinho, “Sangue Frio” fala da violência do Estado, “Temperos Destruidores” é sobre as das guerras do mundo “por tempero e deuses”, “Lama” fala da realidade de uma cidade, Recife, de festa e violência. Mas também tem um lado manso, que acho que é o ponto de sobrevivência, um banho num rio de uma outra dimensão, coração transposto e não um leito de rio, “Vida Boa é a do Atrasado” é leve, uma brincadeira, “Chão de Estrelas” fala de festa, tem um mistura de tensão e calma.
Qual o papel da cultura e da música especificamente para enfrentar o desmanche cultural que os atuais governos estão implementando no Brasil?
Acho que a música, qualquer tipo de arte tem o poder de levar a gente pra dentro, de tirar da realidade e ao mesmo tempo de dar forças pra enfrentá-la e também instigar as pessoas pra troca de ideia e pra ação. No momento em que pessoas estão juntas num show, falam sobre letras e músicas e filmes uma potência enorme é gerada e mudanças significativas acontecem. Por mais que isso por si só não resolva nada, mexe como mentes, com ideias, move as coisas. É difícil falar sobre isso no Brasil porque vivemos um apartheid e a música não tem como ficar fora desse contexto. Tem música que é considerada melhor, tem passinho e funk criminalizados, Rennan da Penha preso por fazer girar cultura, diversão e dinheiro na favela. É assunto que não cabe numa resposta de entrevista.
Ambos no hemifério norte, cada qual em um continente, Cadão Volpato e Thomas Pappon criam seu primeiro projeto conjunto pós-Fellini, batizado apenas com seus sobrenomes. Volpato & Pappon começou há cinco anos com Thomas, que já está em Londres há quase três décadas, brincando com samples e os dividindo com Cadão, que ainda morava em São Paulo, num processo parecido com o do disco mais recente do Fellini, Amanhã é Tarde, de 2002. De lá para cá, compuseram cinco canções e nesse meio tempo, Cadão mudou-se para Nova York, tornando a dupla central do clássico grupo indie paulistano ausente de seu país no momento mais bizarro de sua história. E é assim, exilados do Brasil, que lançam, nas plataformas digitais, seu primeiro EP, batizado ironicamente com o título de uma das faixas, “Eles Ressuscitarão”. Bati um papo com os dois por email sobre este novo projeto.
Como este Volpato & Pappon começou?
Cadão – Acho que foi em 2015. A ideia do Thomas era fazer algo diferente do Fellini, mais experimental.
Thomas – Há 4 anos, voltei a fazer música aqui em casa, em Londres, comecei a brincar com um sample do Quarteto em Cy. Achei que podia servir para algo tipo Fellini, e o Cadão topou fazer letra e voz. Ele estava em Sao Paulo. Mandei a música, ele fez a letra, gravou a voz num iPhone ouvindo a música no fone de ouvido, e me mandou a voz. Eu mixei, acrescentei umas coisas.
Cadão – Começamos com… “Dinheiro” – claro, tudo foi sempre uma mera questão de…. Ele me mandou a música, eu fiz a letra e gravei no celular. Mandei de volta e ele fez o trabalho todo. Simples assim.
Thomas – Fizemos quatro canções em quatro anos. Nesse ano, achei que estava na hora de lançar isso de algum jeito, e que, para um EP, precisávamos de mais uma música.
Cadão – Lembro que a sensação foi sempre mais ou menos a mesma ao receber as músicas ao longo dos anos – a última, “Tudo tem seu tempo”, chegou aqui em Nova York em maio de 2019, e foi a que mais demorou para sair – e é a de que gosto mais no momento -: espanto. O Thomas sempre me surpreende.
Thomas – Insisti com o Cadão, que nesse meio tempo se mudara para Nova York, para retomar uma musica que a gente havia abandonado. Assim, rolou ‘Tudo Tem Seu Tempo’. Et voilà.
Cadão – Acho que os arranjos que ele fez para as cinco músicas são notáveis, estão em outro patamar da evolução de um talento que sempre admirei muito. E ele também sabe ser engraçado e devotado à ideia, toques naturais do Fellini.
A composição remota inspirou a criação?
Thomas – Acho que sim. O ‘Amanhã é Tarde’ foi criado assim, funcionou bem. A diferença é que, naquela vez, o Cadão veio a Londres pra gravar as vozes aqui em casa. Dessa vez foi tudo remoto.
Cadão – Não a distância, mas a composição em si. Porque sempre foi assim: a música primeiro, depois a letra. A música dita o que ela quer – e às vezes ela é uma tirana. O importante é que o barato de compor em dupla continua intacto.
O fato de vocês serem brasileiros exilados deste Brasil do final dos anos 10 influenciou no projeto?
Thomas – Difícil ser categórico nessa resposta. Será que a distância influencia? No caso do Cadão, o ‘exílio’ foi recente. Eu estou há 28 anos fora do Brasil, mas tenho fortes laços emocionais e culturais com o país. E em música, tudo o que faço é pensado como MPB. É onde enquadro Fellini, The Gilbertos e Pappon & Volpato. Por outro lado, sim, os dois ouvem bandas e artistas de fora. O Cadão curte Patti Smith, Bob Dylan, adora os poetas beat – deve ter sido uma das razões para curtir a ideia de morar em Nova York. E tudo isso tá no EP.
Cadão – Bom, eu estou em Nova York há dez meses, o Thomas já perdeu a conta do tempo em que está na Europa. Mas para mim o tempo tem passado como um jato – “O tempo envelhece depressa”, segundo o Antonio Tabucchi. Minha impressão é de estar longe há anos. Então, acho que “exílio” pode ser um definidor, porque muita coisa ficou para trás, incluindo um país. Note que uma das músicas já fala de Nova York. Outra (“Dinheiro”), parece não ter um país. Outra (“Eles Ressuscitarão”), recorda velhos verões. Outra diz: “Eu sempre estive longe”. E assim por diante. Tudo é muito sincero, podes crer.
Há planos de fazer shows?
Cadão – Não me parece que eles ressuscitarão. No entanto, quem sabe o cara não vem a Nova York e a gente arruma alguma coisa aqui, na raça, como fizemos em 1990 – e como está na música “Nova York 90”? Amanhã nunca se sabe.
Thomas – Não pra tocar essas musicas, elas são meio ‘intocáveis’. Mas outro dia consideramos— e curtimos — a ideia de fazer um show numa livraria em Nova York, e outro num cafe aqui em Londres. Em duo: voz e violão. Tocando musicas do Fellini. O saco é ter de ir atrás para agitar essas coisas.
Em mais uma colaboração para a revista Trip, conversei com o mestre tincoã Mateus Aleluia às vésperas do lançamento de mais um álbum solo e de ter um documentário falando sobre sua trajetória (Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, previsto para dezembro), além de trazer em primeira mão o clipe da música “Confiança”, poema de Agostinho Neto, “o patrono da liberdade angolana, o primeiro presidente de Angola livre”, que ele mesmo musicou. Saca lá.
O disco novo da Grimes, Miss_Anthrop0cene, só sai no ano que vem, mas ela aproveita o fim de ano pra esquentar ainda mais as expectativas e lança mais um novo single, “My Name is Dark”:
É a melhor música do disco novo que ela mostrou até agora (além de “We Appreciate Power“, “Violence” e “So Heavy I Fell Through the Earth“). O mais curioso é que as músicas que ela mostrou até aqui não diferem tanto do seu trabalho anterior, que ela diz odiar atualmente. Vai entender…
No soberbo Thanks for the Dance, Adam Cohen, filho do mestre Leonard, revive seu pai, morto em 2016, em forma de puro sentimento, num álbum póstumo vivo, cheio de vida e sobre a maravilha de estar vivo.
Neste vídeo produzido pelo pessoal do Blogothèque para o canal do velho Leonard, Adam conta como foi criar este último disco de seu pai a partir de instruções do próprio, com participações de Feist, Damien Rice, entre outros.
Discaço.
Fui convidado para participar de um papo sobre a vinda da Patti Smith para o Brasil dentro do podcast Rádio Companhia, da editora Companhia das Letras, que publica os livros da cantora e compositora norte-americana, que ainda contou com a apresentação de Mariana Figueiredo, mediação de Diana Passy e a participação de Camila von Holdefer, tradutora do livro O Ano do Macaco e Max Santos, responsável pelos eventos da editora. O programa ainda conta com a íntegra, em inglês, do papo que Patti Smith participou no Sesc Pompéia.
A revista inglesa Far Out desenterrou uma pérola: a única vez em que Bob Dylan cantou uma música dos Beatles num show.
Pipo Pegoraro está mudando de ares. Depois de seu terceiro disco solo, Mergulhar Mergulhei, o guitarrista saiu do grupo Aláfia e começou a enveredar mais a sério pela música instrumental: “Acredito que minha música sempre dialogou com a música instrumental, pois sempre procurei conceber os arranjos das bases – falando de canção – de um modo a contemplar as ligas sonoras que podem agregar desdobramentos para sopros, cordas, sessões ritmas, polifonias, etc.”, ele me explica, antecipando o segundo álbum, sem voz, que já tem data de lançamento marcada para o primeiro dia do ano que vem. Antropocósmico foi produzido por ele mesmo ao lado de uma banda composta por Beto Montag no vibrafone, Daniel Pinheiro na bateria, Ricardo Braga nas percussões e Vitor Fão no trombone, além do próprio Pipo na guitarra. “Minha vida mudou bastante desde o meu último álbum e acho que isso faz parte de como penso, faço e escuto música hoje”, explica, citando, como referências musicais os próprios discos que produziu, como os de Xênia França, Filipe Catto e do próprio Aláfia, “eles me ‘acordam’ para vários fluxos musicais e me orientam para a minha própria sonoridade. Sou muito mais ligado em sintetizadores e agregados do que antigamente”, conta – embora sejam perceptíveis influências de jazz funk, hip hop instrumental, trip hop e até chillwave. Ele antecipa o single “Montanha”, penúltima faixa do novo disco, que será lançada nesta sexta-feira nas plataformas digitas, em primeira mão para o Trabalho Sujo.
O canadense Dan Bejar prepara o terreno para mais um disco de seu projeto solo, Destroyer. Depois do ótimo Ken, lançado no ano retrasado, ele anuncia o lançamento de Have We Met, seu décimo terceiro álbum (se contarmos o cassete de Ideas of Songs, lançado em 1997), com inspiração em filmes adolescentes dos anos 80, para o último dia de janeiro do ano que vem. Integrante do coletivo The New Pornographers, ele antecipa o disco com dois clipes, “Crimson Tide”, lançado no mês passado, e “It Just Doesn’t Happen”, que saiu esta semana:
O disco já está em pré-venda e sua capa e ordem das músicas vêm abaixo.
“Crimson Tide”
“Kinda Dark”
“It Just Doesn’t Happen”
“The Television Music Supervisor”
“The Raven”
“Cue Synthesizer”
“University Hill”
“Have We Met”
“The Man In Black’s Blues”
“foolssong”
O jovem Baco Exu do Blues está prestes a encerrar sua trilogia de entidades depois de gravar um disco em duas semanas na Toca do Bandido. Inspirado no deus do vinho que batiza seu primeiro prenome, o disco ainda sem nome conta com participações de Duda Beat, BK, Kiko Dinucci, Ney Matogrosso e Hamilton de Holanda, além de ter uma faixa de dez minutos chamada “Exu is King” em que ele ameaça “matar o seu Messias”, em seu disco mais político. Conversei com ele num papo para a revista Trip – confere aí.










