O produtor e MC inglês Tricky, um dos pais do trip hop, nem bem lançou sua autobiografia no final do ano passado (de onde saiu a singela foto que ilustra este post) e já anuncia um 2020 cheio, começando com o primeiro single de um novo EP, chamado apenas de 20.20. “Lonely Dancer” traz vocais de Anika e é seu primeiro lançamento musical após a tragédia que lhe arruinou no ano passado, quando perdeu Mazy Mina, de 24 anos, filha que tinha com a vocalista Martina Topley-Bird e que nasceu no mesmo ano em que lançou seu primeiro álbum, Maxinquaye.
O EP será lançado no início de março pelo próprio selo de Tricky, que agora mora em Berlim, False Idols – e já está em pré-venda. Após este lançamento, ele volta a fazer shows.
A gravadora XL está aproveitando o aniversário do último disco de Gil Scott-Heron, I’m New Here, para levantar uma série de homenagens a este ícone da música negra. A primeira delas foi o lançamento de uma edição expandida deste próprio álbum, que vem agora em uma versão dupla em vinil e traz duas faixas inéditas (uma versão para “Handsome Johnny” de Richie Havens e uma música inédita chamada “King Henry IV”), além de versões alternativas para músicas do disco original.
O disco também ganhou uma nova versão ao passar pelas mãos do baterista e produtor norte-americano Makaya McCraven, que reuniu alguns cobras de Chicago, sua cidade-natal, para recriar pela terceira vez o disco de 2010, transformando-o em We’re New Again: A Reimagining by Makaya McCraven. Ao lado dos bambas Jeff Parker, Brandee Younger, Junius Paul e Ben Lamar Gay, ele trouxe um calor setentista que a gravação original, mais europeia, parecia carecer.
Não custa lembrar que I’m New Here já tinha passado por um processo de recriação no ano seguinte ao seu lançamento, quando o produtor Jamie XX o remixou a pedido do produtor original do disco, o dono da gravadora XL Richard Russell, transformando-o em We’re New Here, lançando meses antes da morte de Scott-Heron, no dia 27 de maio de 2011. O tratamento de Jamie, como era de se esperar, jogava a linguagem musical de Gil ainda mais para a eletrônica inglesa, misturando elementos de dubstep, house e garage à musicalidade do mago norte-americano.
Mas o filé destes lançamentos é o documentário Who Is Gil Scott-Heron?, feito pela dupla inglesa Iain Forsyth e Jane Pollard (diretores do filme 20,000 Days on Earth, de Nick Cave), que entrevistou uma série de amigos, parentes e fãs próximos do poeta pioneiro do rap para mostrar sua profundidade emocional e a importância de sua presença na música moderna.
Duvido você não chorar na hora em que ele começar a cantar “Winter in America”.
O líder do Pavement, Stephen Malkmus, foi convidado para tocar uma música de seu próximo disco solo num vídeo pro o La Blogothèque e, apenas ao violão, mostrou a bela “Brainwashed” bem sossegado…
Malkmus lança seu Traditional Techniques no início do próximo mês (o disco já está em pré-venda) e ele já havia mostrado uma de suas músicas, “Xian Man”, no início do ano.
A capa e o nome das músicas do disco vêm abaixo.
“Acc Kirtan”
“Xian Man”
“The Greatest Own in Legal History”
“Cash Up”
“Shadowbanned”
“What Kind of Person”
“Flowin’ Robes”
“Brainwashed”
“Signal Western”
“Amberjack”
E não custa lembrar que o Pavement volta a tocar junto esse ano, pelo menos no festival Primavera. Imagina se eles voltam ao Brasil…
Além da inevitável provocação à paranoia privatizante e antiintelectual que acompanha a escalada da extrema direita ao topo do poder no mundo, a biblioteca pública online que o Radiohead abriu no começo do ano também é uma ótima oportunidade autobiográfica para o grupo, que pode usá-la como uma forma de tornar todo seu acervo disponível gratuitamente para todos na internet. Nesta sexta-feira, o grupo incluiu pra três itens em sua coleção, versões de músicas já conhecidas lançadas em épocas diferentes e que ainda não estavam em suas plataformas de streaming. O primeiro deles, uma versão estendida para a glacial “Treefingers”, peça central do inóspito Kid A, o disco mais ousado do grupo, lançado no ano 2000:
Outra versão que apareceu nesta sexta foi porta de entrada para muitos que não conheciam o grupo ainda nos anos 90, quando o remix feito por Nellee Hooper para “Talk Show Host” apareceu na trilha sonora do clássico teen Romeu + Julieta, que lançou a carreira do cineasta australiano Baz Luhrmann em 1996:
Fechando a trinca de novas aquisições, vem o remix de “The Gloaming” feito pelo produtor da banda Nigel Godrich no ano de lançamento do disco Hail to the Thief, em 2003, e o batizou de (The 33.33333 Remix) devido à duração do remix:
Nada mal.
Das quatro vezes que Andy Gill veio ao Brasil, apenas uma delas não fez show com o Gang of Four e sim com… o Legião Urbana! Num show tributo ao grupo criado pro Renato Russo, seus integrantes remanescentes Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá resolveram homenagear suas origens e seu fanatismo adolescente trazendo um dos ícones que moldaram o pensamento estético da banda em seus primeiros dias, justamente o recém-falecido guitarrista do Gang of Four. Gill foi um dos convidados do show MTV Ao Vivo – Tributo à Legião Urbana, que aconteceu em 2012, com o ator Wagner Moura fazendo as vezes do vocalista original.
Andy subiu para tocar duas músicas com o grupo, que durante estes números contou com o paralama Bi Ribeiro no baixo. A primeira delas, uma versão para “Damaged Goods” do Gang of Four com o próprio Dado nos vocais tinha um clima mais de karaokê com amigos para realizar um sonho juvenil, mesmo com o guitarrista inglês mostrando serviço. Na segunda música, resolveram embarcar na música do Legião que o grupo escolheu para mostrar a influência do grupo inglês na banda brasiliense, a balada gótica “Ainda é Cedo”. O vídeo abaixo tem uma qualidade melhor que o de cima – e traz o show na íntegra (e dá pra entender a treta de Dado com alguém na plateia).
Mas podiam ter tocado “A Dança” também, né?
Publiquei outro dia o áudio com a íntegra do primeiro show que Chico Science e a Nação Zumbi fizeram no festival de jazz suíço em Montreux, em 1995, e esbarrei com todo o primeiro show que Gilberto Gil havia feito no festival, em 1978, um dos meus registros ao vivo favoritos de todos os tempos. O show foi a primeira noite brasileira do festival e ainda teve participações de nomes como Ave Sangria, A Cor do Som e Airto Moreira. Mas o que me deixou de queixo caído foi que não era só o áudio do show – que inclusive foi lançado oficialmente por Gil, naquele mesmo ano, mas sua versão em vídeo. Que noite! Gil talvez no auge de sua carreira escudado por uma banda formada por conterrâneos de primeríssima linha: Pepeu Gomes na guitarra, Jorge Gomes na bateria, Rubens Silva no baixo, Maurício Carvalho (o Mu, do A Cor do Som) e o percussionista Djalma Correa. Que delírio!
“Chuck Berry Fields Forevers”
“Chororô”
“São João, Xangô Menino”
“Respeita Januário”
“Ela”
“Bat Macumba”/”Exaltação à Mangueira”
“Procissão”/”Atrás do Trio Elétrico”/”Mamãe Eu Quero”
O único problema é que o vídeo não registra a jam session do final do show, quando o A Cor do Som subiu ao palco ao lado de Ivinho, guitarrista do Ave Sangria, e Patrick Moraz, tecladista do Yes, para conduzir a elétrica “Triolê” ao lado da bandaça de Gil. Pelo menos esse momento tá no disco!
O produtor australiano e maníaco por sintetizadores Mike Katz, mais conhecido por Harvey Sutherland, dá início aos trabalhos em 2020 com a deliciosa “Superego”, um convite instrumental a uma discoteca minimalista. Aumenta o som!
Volto a colaborar com a Ilustrada da Folha de S. Paulo depois de cinco anos e publico uma entrevista que fiz em 2018 com o guitarrista do Gang of Four, Andy Gill, morto no início do mês, quando ele falou sobre a abordagem política das letras de sua banda, sobre a nova onda de extrema direita que assola o mundo (“os conservadores estavam preocupados com a ascensão do nacionalismo que poderia tomar seus votos, então resolveram que era melhor abraçar alguma destas filosofias. Não se faz esse tipo de escolha…”), sobre o estado do jornalismo atual e sobre a possibilidade de não conseguir visto para tocar nos EUA devido às letras de seu grupo – dá pra ler a entrevista toda aqui.
Um vídeo do Film Theory explica como Marty McFly foi salvo várias vezes da morte nas duas sequências de De Volta para o Futuro graças à interferência arbitrária de Doc Brown na linha do tempo.
Briga de Família, o terceiro disco do carioca Pedro Dias Carneiro com o nome de Vovô Bebê, sintetiza uma linguagem pop que atravessa a nova cena carioca, que funde as síncopes e tempos tortos a frases escrachadamente cariocas, misturando apuradíssimos sensos artístico e de rua. São canções de métricas desafiadoras e melodias inusitadas, compassos estranhos superpostos enquanto os arranjos variam drasticamente de instrumentos cirurgicamente colocados a torrentes de notas misturadas a ruídos escritos em partitura, aos poucos traçando uma genealogia que mistura Lira Paulistana, pós-tropicalismo e os primeiros discos do Pato Fu. Além de sua banda (um noneto!) incluir nomes como Ana Frango Elétrico e Guilherme Lírio, PDC ainda enche o disco de participações especiais: de Luís Capucho a Luiza Brina, transformando o disco num entra e sai de gente, timbres e sonoridades que são reunidas pelo dueto quase central de Pedro com Ana e pelo carioquês arrastado que se espalha por todo o disco (explicitado no delicioso reggae “Saparada”), que mistura um humor preguiçoso com uma sensação de desconfiança que pode descambar para o pânico, sintetizado na letra de “Good Vibe Bad Trip”. Equilibrando-se neste precipício, Vovô Bebê convida o ouvinte a entrar num labirinto de espelhos carioca, mas não para encontrar uma saída e sim um lugar tranquilo pra ficar e apreciar o caos.










