“Alumiô” reúne Bixiga 70 e Luiza Lian, duas forças complementares da música paulistana nesta década, em um mesmo single e um mesmo show no início do mês que vem – antecipei este encontro em mais uma matéria para a revista Trip.
Equilíbrio de Forças
Luiza Lian e Bixiga 70 lançam trabalho juntos no início de dezembro, com direito a single e show
A admiração mútua já existia, mas uma colaboração entre a big band Bixiga 70 e a cantora e compositora Luiza Lian parecia improvável. Até que a convivência pelos bastidores da música fizeram que eles se encontrassem pessoalmente e decidissem experimentar algo juntos – o resultado é a canção “Alumiô”, primeira parceria entre os dois artistas que será lançada como single no início de dezembro, acompanhado de um show conjunto no Cine Joia, em São Paulo, no dia 8 do próximo mês.
“Alumiô” flagra o cruzamento de dois dos principais nomes da cena musical paulistana desta década, que pareciam trilhar caminhos paralelos e distintos. De um lado, uma orquestra instrumental que impulsiona uma festa interminável ao colidir música brasileira, ritmos sulamericanos e caribenhos, funk, reggae e afrobeat; do outro, a estranha delicadeza de uma cantora desconstruída digitalmente, que funde o cancioneiro da umbanda à música eletrônica em espetáculos intensos, cheios de dramaticidade e misticismo. Ambos, no entanto, encontram-se em momentos semelhantes de suas carreiras, ao começarem a pensar nos próximos discos – e é exatamente aí que surge esta colaboração.
Apesar de os dois lados já se conhecerem tanto artística quanto pessoalmente, a conexão foi sugerida por um dos músicos do Bixiga 70, o saxofonista Oscar “Cuca” Ferreira, que também toca nos grupos instrumentais Atønito e Música de Selvagem – este último autor de um disco que contou com vocalistas convidados, todos do mesmo selo, o Risco: Tim Bernardes (d’O Terno), Pedro Pastoriz (vocalista do Mustache e os Apaches), Sessa e a própria Luiza. “Eu fiquei muito fã, muito impressionado com ela. Luiza é uma coisa fora da curva, aquele jeitinho pequeno e delicado que entra em erupção artística absoluta no palco”, lembra Cuca, maravilhado desde o primeiro encontro. “Comecei a ir nos shows, a pirar no que ela faz com o Charles [Tixier, produtor de Luiza].”
“Quem me falou primeiro dela foi o Maurício Pereira, quando estávamos fazendo um trampo juntos. Ele falou da galera d’O Terno, do selo Risco e dela. A partir daí ,a gente começou a ficar de orelha em pé pro que ela tava produzindo”, lembra o baixista Marcelo Dworecki. “Aí ela gravou o disco Oyá: Tempo e a gente caiu pra trás com as composições.”
“Nós, do Bixiga, por outro lado, estamos num momento em de buscar novos caminhos criativos e eu pensei nessa parceria. Quando levei pra banda, todo mundo ou já curtia muito o trabalho dela, ou, os que não conheciam, começaram a ouvir e piraram”, segue Cuca. Dworecki impressiona-se com a velocidade do projeto, que começou a se materializar em agosto, quando os dois artistas tocaram no festival goiano Bananada. “O Cuca começou a trabalhar com a galera do Risco e sugeriu uma parceria. E tudo se desenrolou rapidinho. Ele falou com ela numa semana, na outra ela já colou no ensaio e a gente trocou ideia, na outra já tava gravando, depois o Charles fez outra versão em cima da que a gente gravou.”
Luiza lembra como rolou a aproximação: “O Cuca veio me contar que os meninos do Bixiga tavam pirando muito no Azul Moderno e queriam experimentar coisas novas, fazendo algo comigo. E eu falei que, mais legal do que eu fazer uma participação numa música deles simplesmente, seria criar algo que integrasse as duas linguagens. Aí veio a ideia do compacto e resolvemos lançar assim, em duas versões.” O single também terá duas capas, uma assinada pelo ilustrador MZK, que faz todas as capas do Bixiga 70, e outra feita por Maria Cau Levy, designer autora dos projetos gráficos dos discos Oyá: Tempo e Azul Moderno.
“Alumiô” flagra exatamente a transição artística dos dois e a curva que ambos aos poucos traçam para seus próximos trabalhos – o Bixiga baixa a bola enquanto Luiza explora uma sonoridade mais solar e orgânica, fazendo ambos habitarem o mesmo ambiente musical sem parecer que estão invadindo o território um do outro. O imaginário fluido e o sincretismo religioso da letra de Luiza reforçam essa naturalidade. É uma aproximação nas duas versões – tanto na intensidade discreta da versão do Bixiga, quanto na delicadeza cirúrgica da versão de Luiza.
“A gente ficou feliz demais, porque ela traz um outro elemento”, comenta o baixista. “O show dela é super sutil, suave, etéreo, mas ao mesmo tempo forte e intenso, as letras bem porrada, e levam a galera ao delírio. A gente pirou nesse contraponto com o nosso trabalho. Nosso show é todo pra fora, gritando, no bom sentido. Complementou muito, foi uma junção muito legal. Não sei se virão outras coisas, mas estamos felizes da vida, porque ela já era nossa idolinha, era uma referência que a gente já tinha e comentava.”
Do lado dela, também são só elogios. “Trabalhar com o Bixiga é um sonho, quando eu comecei, eles já estavam enchendo as casas, eles têm uma história muito forte para a cena paulistana como todo”, lembra Luiza. “Fiquei muito feliz em fazer isso com eles, e num momento em que estou experimentando coisas pro meu próximo disco também. Foi um processo bem massa, que achei que ia ser tão difícil com uma banda tão grande, mas eles foram muito generosos.”
E da mesma forma que a participação não é um mero feat, o show do início de dezembro deverá ser mais orgânico. “A gente não quer fazer só uma intersecção com a música no final, a gente quer que pelo menos um terço do show seja com todo mundo junto. Queremos levantar mais músicas dela e fazer ela colar em algumas das nossas, pra não ser uma coisa miguelada de fazer uma música só. Se der certo, a gente deve tocar umas quatro, cinco, seis vezes com ela, com o Bixiga entrando aos poucos: primeiro só os sopros, depois só a percussão e, quando vê, tá todo mundo no palco. Mas não batemos esse martelo ainda.” Os dois assumem a intenção de repetir o encontro no Rio de Janeiro no início de 2020, mas, infelizmente, ainda não há nada confirmado.
Desde que o Cleber do Miojo Indie me falou do Titanic Rising, o disco novo da Weyes Blood que eu passei batido no primeiro semestre, que não consigo ouvir outra coisa: que obra tocante, que autora convincente, quanta emoção sintetizada em tão pouco tempo…
E é curioso perceber o quanto os melhores discos desse ano fogem completamente do estigma pop adolescente que dominou a década…
O encontro de Gilberto Gil e BaianaSystem em Salvador foi histórico – escrevi sobre esta noite em mais uma colaboração para o UOL.
Frank Ocean lança mais um single, o introspectivo mas dançante “In My Room”, que o mostra aos poucos perseguindo as pistas francesas como ele já havia mencionado anteriormente. E como em “DHL”, a capa de “In My Room” traz uma sequência de silhuetas que trazem uma delas em destaque, talvez mostrando a posição em que ela está no álbum – ou seja, ela é a quinta, logo após a primeira faixa que ele lançou.
https://www.youtube.com/watch?v=LbHDacSbZFU
Dev Hynes lança mais um clipe de seu ótimo Angel’s Pulse, desta vez foi a ótima “Dark & Handsome”, que conta com a participação de Chaz Bundick, o Toro y Moi.
O irônico é que Chaz gravou sua participação no clipe (a partir de 2:10) aparentemente a bordo do Bart (Bay Area Rapid Transit, o VLT em São Francisco, nos EUA), que na música “Monte Carlo“, do disco que ele lançou no início do ano, o delicioso Outer Peace, ele dizia não aguentar mais frequentar, pois o deixava paranoico.
Sem alarde, o grupo indie norte-americano lança o épico psicodélico “Timebends”, uma viagem perfeita, com teclados, pianos e guitarras numa deliciosa jam interminável e clipe dirigido pelo próprio Bradford Cox, vocalista e principal compositor da banda.
https://www.youtube.com/watch?v=O5WpcvWxw0I
Que banda!
Em seu terceiro disco, batizado apenas com seu sobrenome, o cantor e compositor norte-americano Michael Kiwanuka se consolida como um mestre em ascensão – ele mistura doses graves e pesadas de teclados, guitarras e baixos de forma a jogar suas canções para o território do jazz funk sem necessariamente deixá-las de soar soul, como se Marvin Gaye e Gil Scott-Heron pudessem habitar os mesmos cérebro e coração. Discaço – seu melhor disco e sério candidato a disco do ano.
A banda californiana Rage Against the Machine acaba de anunciar em sua conta no Instagram que voltará a fazer shows no ano que vem usando a já épica foto de Susana Hidalgo do recente levante chileno.
Entre as datas, duas em Índio, na Califórnia, com a distância de uma semana – ou seja: headliner do Coachella 2020.
Segundo single lançado com clipe dirigido por Paul Thomas Anderson neste ano, “Now I’m In It”, música nova das Haim, é mais taciturna e pensativa que “Summer Girl” e volta à atmosfera sintética oitentista tão cara ao trio de irmãs, que parecia ter ficado para atrás no single anterior. Ainda sem previsão de lançamento de disco, a nova canção faz parte de um período de transição da banda, em que seguem sendo produzidas pela dupla Rostam Batmanglij e Ariel Rechtshaid, mas que, como a canção anterior, tem o dedo da própria Danielle Haim assinando a produção musical.
Kevin Parker ligou as máquinas de seu Tane Impala e anunciou que seu quarto álbum, batizado The Slow Rush, chega em 2020 – mostrando tanto esta ótima capa (acima) como um vídeo com cenas das gravações para dar um gostinho do que vem por aí…










