Ao lançar o quarto single (“Lost In Yesterday”, abaixo) do álbum The Slow Rush, que vê à luz do dia em um mês, o Tame Impala finalmente aproxima-se de uma sonoridade mais reconhecível, especialmente com o disco mais recente, Currents.
O violão bate pesado enquanto Kiko Dinucci abre os trabalhos de 2020 anunciando em primeira mão seu segundo disco solo, para o Trabalho Sujo. “Olodé”, primeira faixa que mostra de Rastilho, disco que lança em fevereiro, é uma boa amostra do novo trabalho, extremo distante de seu primeiro disco solo, o punk Cortes Curtos. “Olodé, Odé Lonan, Odé Asiwaju”, canta em iorubá (“Chefe dos caçadores, caçador de caminhos, caçador chefe”. Refeita as pazes com o violão (“não briguei com nenhum instrumento”, ele me corrige), ele o leva de volta ao terreiro sozinho, com poucas participações além de sua voz e suas cordas – como o cativante coro que repete as frases neste primeiro single. “É uma música que compus em homenagem aos orixás caçadores, em especial pra Oxosi, mas que pode ser também pra Logun Edé ou Ogun”, ele me explica. “A canção representa muito bem o clima do disco, agressivo e rítmico. Como se fosse a antítese da imagem mítica do violão macio servindo como cama pra uma canção bonita. No disco o violão é o destaque, está na frente, acima da voz, chega dando rabo-de-arraia, atropelando.”
“Eu senti saudade do violão depois de passar pelo trator guitarrístico que foi o Cortes Curtos”, continua, falando sobre o disco lançado em 2017 que gravou em formato power trio com Marcelo Cabral e Sérgio Machado. “Queria revisitar a minha maneira de tocar, riffs de baixo meio gambri marroquino, ataques de agudo em contraponto. Queria dedicar um disco a esse jeito de tocar. Já tinha exercitado isso no Duo Moviola, no Metá Metá e não queria deixar essa maneira de me expressar lá atrás. O disco foi uma forma de revisitar essa onda também. Esse violão vem muito da minha limitação técnica, eu sonhava em tocar aqueles choros fodões e quebrava a cara, então fui dando o meu jeito. Tenho uma relação afetiva com o violão, foi o meu primeiro instrumento, me acompanhou na infância, na adolescência punk remendado com durex, nas rodas de samba. Me acompanhou nos períodos mais importantes da minha formação.”
Quando eu pergunto sobre uma possível briga com o instrumento, ele explica melhor. “O que acontece é que em um determinado momento eu senti muito a limitação timbrística do violão, um violão é sempre um violão. Então voltei a tocar guitarra pra explorar pedais e outros timbres. Geralmente o violão é um instrumento que ocupa muito espaço na música brasileira, faz baixos, harmonia, ritmo, melodias, carrega a canção nas costas. Tocando guitarra elétrica eu exercitei outros jeitos de ocupar espaço, às vezes com menos notas, com menos responsabilidade que o violão. Teve essa fase do Metá Metá pro MetaL MetaL, do Passo Torto pro Passo Elétrico. Exercitei com a guitarra do Rodrigo Campos uma espécie de teia melódica e rítmica que foi importante para discos como o Encarnado da Juçara Marçal e A Mulher do Fim do Mundo da Elza Soares. Depois do Cortes Curtos eu passei os últimos três anos muito interessado em sintetizadores e samplers. Estou sempre nessa procura, muito até pela minha limitação técnica como músico. Agora voltei pro violão. O que junta todas essas fases é a característica rítmica. O jeito com que eu me aproximo da música é muito baseado na percussão, só que sem tocar instrumento de percussão.”
O repertório do disco é quase todo novo – apenas duas músicas já haviam sido compostas anteriormente. Até que, ao quebrar o pé num acidente de skate no ano passado, ele resolveu tirar o disco da cartola. “Tive que ficar de molho um tempo e pensei: agora eu vou ter que fazer esse disco. Já tinha vontade de fazer, mas precisei, digamos, de um empurrãozinho”, ri. “O disco foi gravado em três dias, no começo de setembro de 2019, por André Magalhães e Bruno Buarque, que o mixaram em mais três dias no começo de novembro. Foi gravado e mixado na fita, cem porcento analógico, na unha, sem edição ou overdub de violão, os takes de violão são de apenas um track, é sempre um violão sozinho tocando”. Além de Kiko, o disco conta com poucas participações especiais: Ava Rocha, Juçara Marçal e Ogi, além do coro formado por Dulce Monteiro, Gracinha Menezes e Maraísa.
As influências são clássicos da música brasileira. “Eu tava a fim daquele som do Sergio Ricardo na trilha do Deus e o Diabo Na Terra Do Sol, do Glauber Rocha, aqueles ecos que também estão no Geraldo Vandré de Requiém Para Matraga que estão no filme Bacurau, do Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, e originalmente no filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, do Roberto Santos. Aquele som do disco do Pedro Santos eu gosto muito também. E Eu ficava pensando naqueles ecos dos filmes do Zé do Caixão. O Bruno e o André usaram os delays e reverbs analógicos. Eu ficava mostrando esses sons pros caras.” Ele também cita mestres como Dorival Caymmi, Baden Powell, Rosinha de Valença, João Bosco, Nelson Cavaquinho, Gilberto Gil e Edu Lobo como referências nestas composições. O show de lançamento acontecerá dia 15 de fevereiro, no teatro do Sesc Pompeia. “Ao vivo deve ser bem parecido com o disco, talvez mais rápido e agressivo. O show tem que ser mais que o disco, tem que ter um grauzinho a mais”, conta. “Quero levar a formação do disco para os palcos sempre que possível, quando não der, farei sozinho.”
Celso Loducca me chamou para falar sobre o cinquentenário do clássico festival em seu programa Quem Somos Nós? e aproveitamos para falar sobre… tudo.
O querido Bruno Capelas me chamou para fazer a apresentação de seu livro sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, Raios e Trovões (Ed. Summus) e é claro que escrevi mais do que precisava – portanto, abaixo, segue a íntegra do texto que foi parar editado na orelha do livro.
Mais do que um sucesso comercial ou um bom sucedido programa infantil para as massas, “Castelo Rá-Tim-Bum” é um fenômeno cultural. Nasceu da experimentações que a contracultura paulistana passou uma década curtindo, dos laboratório de TVs de baixo alcance à performance e à dança, passando pelo Lira Paulistano, pelo cinema da boca do lixo, pela literatura marginal e pelo Teatro Oficina, de onde buscaram inspiração, corações e mentes para compor um programa ao mesmo tempo acolhedor e transgressor, ousado e divertido, metalingüíistico e direto.
“Raios e trovões – A história do fenômeno Castelo Rá‑Tim‑Bum” é um microcosmo de algo que sempre presente na história da cultura brasileira: o momento em que experimentações artísticas provam-se populares, acertando o coração do espectador ao mesmo tempo em que fisga sua inteligência. Sem menosprezar nem ser condescendente com seu público, “Castelo Rá-Tim-Bum” traz sua audiência para a tela, propondo uma cumplicidade inédita que só poderia ser obtida através da metalinguagem que o programa transpirava.
Como Oz, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, o Sítio do Picapau Amarelo e Hogwarts, o Castelo teoricamente é um lugar fictício e fantasioso, em que apenas crianças conseguem entrar por portais mágicos. Este portal é justamente a imaginação e a criatividade, que são colocados em xeque a cada aparição de novo personagem, novo cenário, nova canção. Para isso, foi preciso que uma geração inteira de artistas experimentasse os receosos anos pós-ditadura militar, em que a censura, o autoritarismo e o conservadorismo brasileiro escondiam as garras para fingir que estava tudo bem.
Castelo Rá-Tim-Bum também é mais um dos ingredientes da paulistanização da cultura brasileira, ao lado de fenômenos tão diferentes quanto o futebol paulista, a ida de Fausto Silva para a TV Globo, a ascensão dos Racionais MCs e a criação da MTV – todos estes, diga-se de passagem, umbilicalmente ligados ao espaço de liberdade aberto pelas vanguardas paulistanas dos anos 80.
É essa história que o jornalista Bruno Capelas conta em seu trabalho de conclusão de curso que agora materializa-se livro. Percorre das origens da criação de um programa infantil em uma rede pública de televisão (um ato por si só heroico – e há toda uma tradição nisso) à consolidação de uma linguagem moderna e ousada em grande escala. É o equilíbrio entre ser família e ser vanguarda que tornou Castelo Rá-Tim-Bum tão central no inconsciente coletivo brasileiro no final do século passado e é essa história que Capelas, um dos caçulas da geração do jornalismo pop da internet brasileira, conta tão bem em “Raios e Trovões”.
Tanto o Guia da Folha quanto o Divirta-se do Estadão me chamaram para votar nos meus shows brasileiros favoritos de 2019 – e o critério que usei foi não incluir os shows que pautei tanto no Centro da Terra quanto no Centro Cultural São Paulo. Assim, cheguei a estes três shows: Alessandra Leão no Auditório Ibirapuera, Thiago França convidando Tony Allen no Sesc Pompéia e Ana Frango Elétrico no Sesc Av. Paulista.
Alessandra Leão @ Auditório Ibirapuera
24 de outubro de 2019
“A percussionista pernambucana nos convida a uma viagem pela hisatória da música brasileira através do terreiro que é seu disco Macumbas e Catimbós.”
Thiago França + Tony Allen @ Sesc Pompeia
22 de março de 2019
Um embate entre dois pesos pesados do groove – um no sax e outro na bateria – que logo se transformou em uma nave espacial para a quinta dimensão.
Ana Frango Elétrico @ Sesc Av. Paulista
18 de outubro de 2019
Mutante hipster vintage bossa nova é o disfarce da vez da poeta, produtora e musicista carioca.
Quase no finzinho de 2019, a revista da UBC pediu para que eu conversasse com empresários e produtores sobre o impacto da alta do dólar no mercado da música independente no Brasil – e conversei com Fabrício Nobre, Ana Garcia, Andre Bourgeois, Ricardo Rodrigues, Bruno Boulay e Gabriel Thomaz sobre como este cenário mexe com diferentes camadas do cenário em 2020. Confere lá no site deles.
Teago Oliveira, Douglas Germano, Chico César, Alessandra Leão, Jards Macalé, Emicida, Rakta… Conversei com alguns dos autores das melhores capas de disco com fotografia de 2019 em uma matéria para a revista Zum – leia lá.
Em uma análise em vídeo de quatro horas e meia duração, o youtuber Rosseter, do canal Twin Perfect, dissecou toda a extensão de Twin Peaks numa análise de tirar o fôlego. Antes mesmo da terceira temporada ter sido lançada, ele já havia traçado pontos em comum entre os mistérios das duas primeiras temporadas e do filme dirigido por David Lynch, Os Últimos Dias de Laura Palmer, apenas para perceber que, com a nova safra de episódios, ele tinha razão em sua análise: Twin Peaks é um comentário que David Lynch faz sobre a banalização da violência na televisão e como ela tem nos deixado menos sensíveis e mais rudes, como espectadores e cidadãos. O vídeo, em inglês, merece ser revisto mais de uma vez, tamanha a complexidade da análise e dos acertos levantados pelo youtuber:
De quebra, o podcast Twin Peaks The Return: A Season Three Podcast entrevistou-o sobre sua pesquisa, onde ele dá mais detalhes sobre a busca e como fez para chegar em alguns pontos mais importantes deste longo e valioso ensaio audiovisual.
Feliz natal!
Apesar de seguir fazendo o que sempre fez, 2019 parece ter acordado o resto do mundo para a consistência de seu trabalho. Seu Norman Fucking Rockwell é apenas mais um tijolo em seu delicado castelo retrô, mas por algum motivo foi percebido como um dos grandes álbuns do ano (embora siga a exata linha de todos os seus discos a partir de Born to Die). Ela apenas colhe o que plantou e encerra o ano juntando três músicas do disco (a faixa-título, “Bartender” e “Happiness is a Butterfly”) em um pequeno curta de quatorze minutos, em que encapsula toda sua atual vibe super-8 anos 70 na Califórnia reforçando a linha estética de seu disco mais recente.
Ela também acaba de anunciar que irá lançar um disco de “spoken word freestyle” junto com o livro de poesias que irá lançar no início do ano, em que metade da renda será revertida para entidades indígenas dos EUA, além de ser menos educado e um pouco mais rude como ela explica no vídeo abaixo:
Apesar de Morrissey enfileirar motivos para deixarmos de acompanhar sua carreira solo (que já não me chama atenção desde seu terceiro álbum, ainda nos anos 90), o legado de sua banda original segue inconteste: a importância dos Smiths continua intacta apesar de todos os absurdos fascistas e xenófobos proferidos por seu vocalista e letrista. Tanto que o grupo esteve em um pequeno furor ao ter seu primeiro registro musical tornado público por um coadjuvante da primeiríssima fase da banda. Dale Hibbert gravou alguns dos primeiros discos da banda e foi um dos primeiros baixista do grupo, respondendo à busca que Morrissey e o guitarrista Johnny Marr iniciaram no começo dos anos 80. Para mostrar o tipo de som do grupo, os dois gravaram uma versão guitarra e voz para uma pérola obscura dos anos 60, “I Want A Boy For My Birthday“, lado B de um single do girl group norte-americano The Cookies, já mostrando a obsessão de nerd de música do vocalista (Marr nunca tinha ouvido a música). A fita foi enviada para Dale para criar uma linha de baixo antes de eles gravarem uma demo em agosto de 1982, que nunca aconteceu – além da gravação abaixo, os Smiths só a tocaram uma vez ao vivo, em outubro daquele ano, para nunca mais. O hoje engenheiro de som publicou a deliciosa versão em seu canal no YouTube, pinçada pelo blog Slicing Up Eyeballs, e em pouco tempo, a música foi disponibilizada no próprio canal do grupo inglês.
https://www.youtube.com/watch?v=eYtwz4q8uas
Que joia.









