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Primeiro grande nome que perdemos para o Coronavírus: o saxofonista camaronês Manu Dibango, que morreu nesta terça, foi um dos primeiros popstars africanos e revolucionou a música global a partir dos anos 70, quando, ao lado de uma geração que contava com músicos de outros países do continente, como os nigerianos Fela Kuti e King Sunny Adé, mostrou para o resto do mundo a influência daquela música no pop daquele período. Explodiu com o hit “Soul Makossa” em 1972 e colaborou com artistas tão diferentes e importantes como Herbie Hancock, Sly and Robbie, Bill Laswell, Don Cherry e Bernie Worrell, além de ver Michael Jackson surrupiando seu hit em “Wanna Be Startin’ Somethin'” de 1982 e depois Rihanna em “Don’t Stop the Music” de 2009. Que vá em paz.

Foto: Cartaxo

Foto: Cartaxo

Com a quarentena, o grupo BaianaSystem resolveu antecipar um dos planos que tinha para 2020: uma versão dub de seu disco mais recente, o premiado O Futuro Não Demora, que fica a cargo de um dos grandes nomes do gênero no país e velho chapa da banda, o pernambucano Buguinha. “Quando a gente viu que ia entrar em quarentena, resolvemos adiantar este processo, mesmo porque Buguinha já tava com os arquivos do disco e poderia ir tocando isso a partir de seu estúdio em Olinda”, me explica o guitarrista Roberto Barreto, “foi uma forma de aproveitar este período e também diminuir o ritmo, que é um tema que faz sentido neste momento, como o nome do disco”.

Buguinha já fez versões em dub para o grupo desde o primeiro álbum, quando remixou “Frevo Foguete” e “Jah Jah Revolta”, em 2009, e depois em 2013, quando mexeu em “Calundu” que tem a participação de Lazzo Matumbi e “Pangeia”, que conta com o tincoã Mateus Aleluia. “E do mesmo jeito que Buguinha se animou para fazer uma versão dub de um frevo, há onze anos, ele se animou com os elementos deste disco, a coisa de música latina e dos ijexás, além de seguir a história do disco, mantendo a ordem das faixas”. Buguinha já começou a mexer no material em lives que tem feito em sua conta no Instagram, uma forma que o grupo também encontrou de apresentar didaticamente o que é o dub para quem não conhece. O disco vai se chamar O Futuro Dub e todo o processo será transmitido pelas redes sociais.

avalanches2020

O antigo sexteto australiano Avalanches, que agora é um duo formado por Robbie Chater e Tony Di Blasi, lança mais um novo single, ainda sem anunciar data para o lançamento de seu terceiro álbum, que segue sem título. O novo single, “Running Red Lights”, conta com as participações do vocalista do Weezer Rivers Cuomo e do rapper Pink Siifu, que canta uma letra do grupo mais recente do saudoso David Berman, Purple Mountains, que morreu no ano passado. Berman havia colaborado com os Avalanches em uma demo em 2013, (“A Cowboy Overflow of the Heart“) e na faixa “Saturday Night Inside Out”, do disco mais recente dos australianos, Wildflower, de 2016. A faixa mistura uma vibe Spacemen 3 com um clima gospel dado justamente pelo vocal de Cuomo e não atinge o mesmo patamar do single anterior, a bela “We Will Always Love You“, mas mantém a expectativa sobre o próximo álbum.

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O trio californiano Choices passeia entre a disco e a house music com seu single de estreia, o delicioso “Less is More”. Aumenta o som!

damongough

Não foi só o delicioso single de “Is This a Dream?” lançado no início do ano, o cantor e compositor inglês Damon Gough, mais conhecido como Badly Drawn Boy, está prestes a lançar seu primeiro disco em quase dez anos – e deu oficialmente início aos trabalhos ao lançar a faixa que batiza o novo álbum, “Banana Skin Shoes”:

O disco sai no dia 22 de maio, já está em pré-venda, e a capa e o nome das músicas seguem abaixo:

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“Banana Skin Shoes”
“Is This A Dream?”
“I Just Wanna Wish You Happiness”
“I’m Not Sure What It Is”
“Tony Wilson Said”
“You And Me Against The World”
“I Need Someone To Trust”
“Note To Self”
“Colours”
“Funny Time Of Year”
“Fly On The Wall”
“Never Change”
“Appletree Boulevard”
“I’ll Do My Best”

glover2020

Donald Glover vem lentamente acalentando sua escalada. Começou na TV, primeiro escrevendo pro seriado 30 Rock da Tina Fey e depois compondo pro elenco da série cult Community. Na paralela, lançou-se como rapper com o pseudônimo de Childish Gambino, mas foi com seu nome batismo e na TV que ganhou fama de fato, quando criou a série Atlanta, em 2016, que conta a história de um rapper iniciante e seu primo empresário (vivido pelo próprio Glover). Mexendo as peças do tabuleiro do showbusiness com precisão e paciência, ele construiu sua carreira em momentos únicos e magistrais, como o clipe de “This is America”, o filme Rihanna Island (chamando apenas Rihanna para ser seu par) ou vivendo personagens icônicos como Lando Carlrissian no filme Han Solo ou o Simba no remake filmado do clássico desenho Rei Leão. E agora acaba de lançar um disco de surpresa.

Donald Glover Presents 3.15.20 não é propriamente uma surpresa porque ele revelou o álbum no domingo passado, quando o colocou para tocar por um doze horas em loop no site Donaldgloverpresents.com, tirando-o do ar no mesmo dia. Agora ele chega com o disco em todas as plataformas digitais batizando-o com a data de sua primeira transmissão ao mesmo tempo em que desafia formatos e rótulos. O disco está publicado como um longo disco de 57 minutos em nome de Donald Glover em seu canal no YouTube, mas seu codinome musical, Childish Gambino, o publicou com os nomes das músicas – que, salvo duas exceções, são apenas as marcações de minutagem dentro da contagem contínua de tempo do álbum. O disco ainda por cima não tem capa – ou melhor, traz apenas um quadrado branco como apresentação visual.

donaldglover-31520

Eis o nome das músicas:

“0.00”
“Algorhythm”
“Time”
“12.38”
“19.10”
“24.19”
“32.22”
“35.31”
“39.28”
“42.26”
“47.48”
“53.49”

O Genius.com conseguiu pegar os nomes originais das canções quando elas foram transmitidas pela primeira vez:

“We Are”
“Algorhythm”
“Time”
“Vibrate”
“Beautiful”
“Sweet Thing”
“Warlords”
“Little Foot”
“Why Go To The Party”
“Feels Like Summer”
“The Violence”
“Under The Sun”

Mas no fundo o que importa é a música – e Glover esmerilhou. Se seu disco mais recente (Awaken, My Love!, de 2016) emulava o P-Funk de George Clinton demais, desta vez ele ampliou sua cartilha de referências e agora reverbera Outkast, Frank Ocean, Kanye West, Prince e Stevie Wonder, soando tanto soul quanto rap, tanto funk quanto R&B. E num amálgama de referências de épocas diferentes, ele sobe mais um degrau em sua carreira, chegando a um novo patamar, entrando discretamente, mas sem humildade, no panteão da música contemporânea atual. Lançado sem muita explicação (e com participações de nomes como Ariana Grande, Kadhja Bonet e seu filho Legend), ele afirma que é seu último disco como Childish Gambino – e 3.15.20 soa como isso, o fim de um capítulo – e o início de outro. Além de ter sido lançado sem mesuras no meio de uma pandemia. Discaço.

radiodept

A dupla sueca Radio Dept. lança mais um novo single, “You fear the wrong thing baby”, o segundo desde o início do ano, quando pareciam estar mostrando seu próximo álbum, sucessor do ótimo Running Out of Love, de 2016. A faixa é mais dançante e barulhenta que o single anterior, a bucólica “The Absense of the Byrds“, mas segue o clima outonal característico da dupla, que teve de cancelar a turnê que faria pelos Estados Unidos devido à epidemia do coronavírus.

Veloce

O trio de jazz punk Atønito, liderado pelo saxofonista Cuca Ferreira do Bixiga 70 era uma das atrações, ao lado de Thiago França, da #SextaTrabalhoSujo desta semana, quando aproveitariam o show no Estúdio Bixiga para mostrar mais uma das músicas para seu próximo álbum, Aqui. A pesada “Veloce” chega em primeira mão no Trabalho Sujo mesmo em tempos de clausura, mostrando uma São Paulo pré-epidemia, de cabeça para baixo. “Direto do confinamento, fomos surpreendidos por nosso próprio planejamento pré-quarentena”, explica Cuca. “‘Veloce’ é uma música que fala sobre o excesso de trabalho, excesso de correria, excesso de competição, excesso de cada um por si, ‘excesso de excessos’ que a vida nos impõe, ou pelo menos impunha, até que o mundo desse esse freio de arrumacão que estamos vivendo agora. Como a gente vem fazendo com esse disco, convidamos um artista pra fazer o clipe, sem dar nenhum direcionamento”. Edu Marin é artista gráfico e fez as fotos e as obras que ilustram cada single do disco e foi chamado para dirigir o clipe, além assinar a capa do single (acima), retirada de uma série chamada Simulacros da Memória Imperfeita. A direção de arte é da Ciça Goes.

Aqui teoricamente seria lançado em junho, mas Cuca não sabe como ficam as coisas com a situação atual que vivemos. Mas não baixa a cabeça: “Vamos em frente, sem chororô, e na torcida pela consciência coletiva e pela cura!”

mgmt2020

Preparando terreno para um novo álbum, a dupla MGMT lança o ambient quase instrumental “As You Move Through the World” para oficializar o lançamento de seu single “In the Afternoon“, lançado no fim do ano passado.

thiagopethit-romeo

O cantor e compositor paulistano Thiago Pethit aproveitou a quarentena para lançar uma versão remix para o hit “Romeo”, carro-chefe de seu disco de 2014, Rock’n’Roll Sugar Darling. A nova versão da música composta por ele e com Helio Flanders vem com novo título e como “Romeo+” apresenta-se com arranjo de cordas e metais assinado por Augusto Passos e Diogo Strauz, este último o produtor de seu disco mais recente, Mal dos trópicos – Queda e ascensão de Orfeu da Consolação, lançado no ano passado. O novo arranjo cita “All Mine”, clássico do grupo inglês Portishead, ao mesmo tempo em que Thiago consagra a citação a “Girassóis de Van Gogh”, música do rapper baiano Baco Exu do Blues que já vinha cantando em seus shows. Ficou ótimo.