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Foto: Felipe Diniz (Divulgação)

Foto: Felipe Diniz (Divulgação)

Formada para acompanhar o rapper BNegão em seu primeiro disco solo – Enxugando Gelo, de 2003 -, a banda Seletores de Freqüência está prestes a lançar seu primeiro álbum. Astral será lançado em junho deste ano, consolida o grupo como uma banda instrumental e o grupo descolou o primeiro single, “Piloto de Fuga (N° 2)”, lançado em primeira mão no Trabalho Sujo. Aproveitei para conversar com o trompetista Pedro Selector, único integrante da formação original, que contava com o saudoso Fabio Kalunga no baixo, Pedro Garcia na bateria e Gabriel Muzak na guitarra em sua primeira formação, sobre esta nova fase da banda.

A capa e o nome das músicas do disco estão no final da entrevista.

Quando vocês começaram a entender que os Seletores são uma banda para além do trabalho do Bernardo?
Teve uma apresentação em São Paulo, em 2012, na Sala Funarte, que o Bê teve que sair no final do show porque tinha que pegar um vôo pro Rio pra tocar com o Planet Hemp, deu alguma confusão de agenda e os shows foram marcados no mesmo dia. Pra não cancelar, ficou combinado que ele tocaria o tempo que desse e ia correndo pro aeroporto. A gente seguiu o show, tocando umas versões instrumentais do repertório do BNSF e aproveitamos e colocamos uns temas que a gente estava compondo e que estavam sem letra ainda. Foi muito bom, a galera que tava lá adorou e reagiu superbem. Acho que o peteleco inicial foi aí. Lá pra 2014, a gente tava bolando mesmo um disco instrumental, que seria produzido pelo Bê, mas acabou que veio o Transmutação e mudou tudo, já que o foco passou a ser esse disco, que saiu em 2015. No ano seguinte, eu peguei quatro sons que a gente começou a gravar e tinham ficado de lado por conta do Transmutação e botei pilha na galera pra finalizar e lançar como Seletores de Frequência. Esse foi o EP SF. Foi legal poder mostrar que a gente não era somente a banda do Bê, que a gente também compunha e que representávamos total o sentimento de ser uma banda. Nisso, conseguimos engrenar alguns shows só nossos, chegamos a tocar no palco instrumental da Virada Cultural de São Paulo em 2018.

Quem é a banda hoje? Desde quando vocês mantém essa formação?
A banda hoje sou eu, Pedro Selector, no trompete, Robson Riva na batera, Sandro Lustosa na percussão, Nobru Pederneiras no baixo, Gilber T na guitarra e Marco Serragrande no trombone. É a mesma formação que acompanha o Bê nos shows. O Nobru já tinha entrado pra tocar com no BNSF no lugar do Kalunga, porque o Kalunga tinha resolvido sair da banda, isso foi antes dele falecer, tipo um ano antes. Fica registrado aqui tb que esse disco todos nós dedicamos a ele, nosso amigo e irmão, Fabio Kalunga.
Então, o Nobru já vinha tocando com a gente e tal, e rolou o convite do Dado Villa-lobos e do produtor Estevão Casé pra gravar o disco e lançar pela Rockit!, isso em 2017. Só que durante a pré-produção, antes mesmo de ir pro estúdio da Rockit! o Fabiano Moreno, que era o guitarrista resolveu sair da banda. A gente conversou e como o Bruno também toca guitarra decidimos que ele ia gravar as guitarras do disco. Daí o Estevão sugeriu chamar o Pedro Dantas pra gravar os baixos, tocando da maneira dele as linhas de baixo que o Nobru tinha criado. Ficou animal. Tivemos ainda as participações fundamentais do Bidu Cordeiro, no trombone, do Thiago Queiroz no barítono, do Rodrigo Pacato na percussão e do Roberto Pollo no Hammond. Foi muito importante ter essa galera somando com a gente, no momento que a banda tava se re-inventando e prestes a começar uma nova etapa. O último a entrar foi o Gilbert, camarada de longa data, tocamos em outros projetos juntos, justamente porque pintou o show da Virada e a gente precisava definir a formação da banda. Das deu super certo e seguimos até hoje.

Por que vocês escolheram em se manter como uma banda instrumental e sobre como você vê a tradição de grupos de música instrumental no Brasil.
Essa escolha foi natural, muito pq as letras do Bê são um referência muito forte pra tanta gente e pra nós também, acho que se a gente quisesse escrever ia ser impossível seguir como Seletores de Frequência, né? Mas como unidade sonora, acredito que nós temos um DNA bem definido do nosso som, que flui por todo o trabalho junto com o Bê, que diz muito o que a gente é pela música, somente. E pelo prazer mesmo que temos em tocar junto e da liberdade também que a música instrumental proporciona, de não direcionar o sentimento de quem ta escutando com palavras, e sim só com as melodias; Aqui no Brasil, acredito que a gente dialoga com os grupos contemporâneos que fazem música instrumental sem ser aquele velho clichê do músico que sola pra caramba. Tem a Nômade Orquestra que curto muito, o Bixiga 70, a Abayomi, tem a turma do Beach Combers. Em termos de tradição, eu vou puxar pro lado da Banda Black Rio, do Fogo nos Metais do maestro Portinho, daquele suíngue esperto do Azymuth, do samba-no-prato do Edison Machado, J.T. Meirelles a gente vai bebendo nessas fontes. Tem aquele disco do Wilson das Neves também, O Som Quente, referência total.

Que outras influências musicais vocês têm?
Além das que citei, tem uma influência brutal pra nossa maneira de tocar que são os instrumentais dos Beastie Boys. Acho aquela essência ali muito foda, porque todos tocam pra música e acho que a gente tem essa mesma pegada. Não ser só uma gastação de onda. Ser um som verdadeiro ali, natural e sem estrelismos.

Como vocês vão fazer para lançar um disco durante a quarentena?
A gente levou quase dois anos pra terminar o disco, entre idas e vindas no estúdio, muito também por conta de outros compromissos, por vezes a gente ficava meses sem mexer em nada e dali a pouco andava mais um cadinho com a gravação. O disco ficou pronto em novembro do ano passado, mas achamos melhor esperar pra lançar depois do carnaval, aquele clássico. Daí veio a pandemia, todo mundo ficou meio desmotivado. Foi o Bê que me ligou um dia botando pilha, falou algo do tipo – “mano, o disco de vocês tá pronto? Lança essa parada que vai ajudar muita gente nesse momento bizarro que estamos passando”. Fiquei com isso na cabeça e realmente não tinha porque segurar mais. Sei que não temos ideia de quando iremos poder apresentar o disco ao vivo, num show, mas pelo menos saber que ele vai estar sendo escutado nesse momento que tá todo mundo bolado, que ele possa talvez ajudar a trazer algum conforto sonoro pra pessoas já vale tudo.

vinil seletores

“Piloto de Fuga (No 2)”
“Tony Árabe”
“Só Pra Salvar”
“Boca Maldita”
“Riva Doobie”
“Trem do Cão”
“Biza”
“Sambatido”
“…E Segue o Baile!”
“Fumaça”
“Leva Fé (Lá)”

emicida-amigo

No clipe de “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)”, canção feita em homenagem ao grande Wilson das Neves, Emicida transforma-se numa versão brasileira do super sayajin Goku, herói da infância do rapper que ele já havia citado em várias letras, e com isso seus parceiros de canção – Zeca Pagodinho, a banda Tokyo Ska Paradise Orchestra e os Prettos – também se metamorfoseiam em personagens do anime do estúdio Toei.

kikodinuccirastilhopix

“Desde que eu ouvi o disco pela primeira vez – e que disco! -, ‘Veneno’ chamou a minha atenção”, me explica Carlos Costa, sobre o edit que fez em cima de uma das músicas mais marcantes do segundo disco solo de Kiko Dinucci, o ótimo Rastilho. “Ela tem um pulso que é quase mágico: o riff do Kiko na parte do verso é praticamente um loop e o flow do Ogi é meio percussivo. Toda vez que eu ouvia, eu só conseguia imaginar era um bumbo 4×4 em cima desse pulso. Primeiro tinha pensado em fazer uma coisa mais do zero, só pegar a parte do “o rapaz é belzebu” – que tá ali na versão final – e construir uma música em torno desse sample, meio inspirado nos remixes do Soulwax. Mas eu gosto tanto da letra que fui por esse caminho do edit e uso a faixa quase inteira, colocando bateria e percussão em cima. Diminui um pouco o andamento, botei um baixo e o synth que é a coisa mais outsider do caminho orgânico que a faixa tem.” Carlão publicou com seu pseudônimo Cacos, ficou demais:

O edit sai junto com o minidocumentário que o diretor pernambucano Luan “Casinha” Cardoso fez durante as gravações do disco no ano passado. Bem foda:

Foto: Carolina Amorim (Divulgação)

Foto: Carolina Amorim (Divulgação)

Há quatro anos, Ava Rocha e Negro Leo foram para Bogotá participar de uma residência artística com o grupo Los Toscos, formado por músicos locais que se juntam para gravar músicas nascidas nestas experiências. O casal chegou na capital colombiana na época da votação do plebiscito que decidia pelo acordo de paz entre o governo e as Farc – e o clima político daquele país acabou contagiando o encontro musical. Ava, que morou entre os 14 e os 20 anos naquela cidade, pode reencontrar suas raízes musicais e gravar duas canções que compôs em espanhol, a animada “Lloraré Llorarás” e a meditativa “Caminando sobre Huesos”, que compõe um single que ela lança nesta sexta. Ela antecipa as duas faixas em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo.

false-prophets

A voz rouca e calejada parece vir do além, mas Bob Dylan sabe que está em algum muquifo decadente de nosso inconsciente: “Mais um dia que não termina, mais um barco que se vai”, ele rosna no início de seu novíssimo blues sujo “False Prophet”, “Mais um dia de raiva, de amargura e de dúvida”. O novo single, ilustrado por essa estranha presença da morte em trajes de gala com um olho só, não é apenas a terceira faixa maravilhosa que lança em 2020, esse trio de jóias inéditas que começou com o épico de quase 17 minutos “Murder Most Foul” e seguiu com a introspectiva “I Contain Multitudes” faz parte do primeiro álbum de inéditas que Dylan lança em oito anos, anunciado junto com a nova canção.

Depois de três discos – incluindo um álbum triplo – vagando por canções que, em sua maioria, foram imortalizadas por Frank Sinatra (Shadows in the Night, de 2015, Fallen Angels, de 2016, e Triplicate, de 2017), o mestre volta-se para sua própria lavra e anuncia que as três músicas que lançou nesse mórbido 2020 fazem parte de Rough and Rowdy Ways, que já está em pré-venda e será lançado no dia 19 de junho. “False Prophet” segue aproximando o tom do álbum de nossos dias isolados ante a peste: “Eu não sou nada como minha aparição fantasmagórica sugere/ Não sou um falso profeta / Só disse o que disse / Estou aqui pra trazer a vingança para a cabeça de alguém.” A capa do novo disco e a letra da nova música seguem abaixo:

roughandrowdyways

Another day that don’t end
Another ship goin’ out
Another day of anger, bitterness, and doubt
I know how it happened
I saw it begin
I opened my heart to the world and the world came in

Hello Mary Lou
Hello Miss Pearl
My fleet-footed guides from the underworld
No stars in the sky shine brighter than you
You girls mean business and I do too

Well I’m the enemy of treason
Enemy of strife
Enemy of the unlived meaningless life
I ain’t no false prophet
I just know what I know
I go where only the lonely can go

I’m first among equals
Second to none
Last of the best
You can bury the rest
Bury ’em naked with their silver and gold
Put them six feet under and pray for their souls

What are you lookin’ at
There’s nothing to see
Just a cool breeze that’s encircling me
Let’s go for a walk in the garden
So far and so wide
We can sit in the shade by the fountain-side

I search the world over
For the Holy Grail
I sing songs of love
I sing songs of betrayal
Don’t care what I drink
Don’t care what I eat
I climbed the mountains of swords on my bare feet

You don’t know me darlin’
You never would guess
I’m nothing like my ghostly appearance would suggest
I ain’t no false prophet
I just said what I said
I’m just here to bring vengeance on somebody’s head

Put out your hand
There’s nothing to hold
Open your mouth
I’ll stuff it with gold
Oh you poor devil look up if you will
The city of God is there on the hill

Hello stranger
A long goodbye
You ruled the land
But so do I
You lost your mule
You got a poison brain
I’ll marry you to a ball and chain

You know darlin’
The kind of life that I live
When your smile meets my smile something’s got to give
I ain’t no false prophet
No I’m nobody’s bride
Can’t remember when I was born
And I forgot when I died

millie-small

Mais do que a cantora do hit “My Boy Lollipop”, Millie Small, que faleceu nesta terça-feira (vítima de um derrame), foi a primeira popstar jamaicana e lançou o ska para o resto do mundo em 1964.

Foto: Bruna Valença (Divulgação)

Foto: Bruna Valença (Divulgação)

“Tou começando a enlouquecer, tou esquecendo de me amar, meu coração vai endurecer ou me entortar”, canta o refrão da primeira música que o pernambucano Tagore mostra de seu próximo disco, o sucessor do ótimo Pineal, de 2016. Cada vez mais psicodélico, Tagore Suassuna também teve sua programação de lançamento afetada pela pandemia, o que lhe fez antecipar a ordem dos lançamentos, mostrando “Drama”, que gravou ao lado dos Boogarins, como primeira amostra do novo álbum. “Nutríamos há algum tempo a vontade de lançar um feat.e com a crise que estamos atravessando, resolvemos antecipar e inverter um pouco a ordem dos lançamentos, priorizando essa parceria com os Boogarins, com quem temos uma longe relação de carinho e admiração mútua”, ele explica, falando da música que lança em primeira mão no Trabalho Sujo. O single chega às plataformas digitais nesta sexta, mas já pode ser ouvido abaixo.

O novo álbum, que chama-se Maya, deverá ser lançado apenas no segundo semestre e foi produzido por Pupillo Oliveira, que também toca bateria no disco, composta em parceria com o guitarrista da banda goiana, Dinho Almeida. “’Drama’ é um grito no espelho, um pedido de ajuda ao seu próprio reflexo, em busca de forças pra encarar as desventurar da existência, entre elas, os desamores”, continua.

“Iniciamos o processo de gravação em maio de 2018, em São Paulo, logo após participarmos do SXSW e Lollapalooza em sequência”, ele continua contando sobre o disco e fala sobre sua convivência com a quarentena. “”Estou num sítio em uma montanha chamada Taquaritinga do Norte, interior pernambucano. Trouxe todo meu equipamento e estou aproveitando pra registrar material novo e me aprofundar nos estudos de mixagem e masterização. Estamos planejando estratégias alternativas para o lançamento do disco, focando principalmente no suporte visual, com sessions acústicas, mais cruas, clipes e ilustrações.”

thurston-moore

Mesmo em quarentena, Thurston Moore não para de lançar música. Foram duas de seu grupo Chelsea Light Moving, “Sunday Stage” e “No Go”, desenterradas de gravações do começo da década passada, e agora ele lança músicas com a banda que vem lhe acompanhava no meio da década, batizada de Thurston Moore Group, com o baterista do Sonic Youth Steve Shelley, a baixista do My Bloody Valentine Deb Googe e o guitarrista do Nought James Sedwards. Primeiro, o grupo lançou a noisy “Instant Transcendent Conjecture”, gravada em 2016.

Agora é a vez de lançar “May Daze”, esperando que seus conterrâneos norte-americanos se registrem para votar nas eleições para presidente deste ano. “Nós podemos mudar o mundo – liberte todos os presos políticos – insurreição pela decência comum – consciência rock’n’roll” brada ao anunciar a nova música, que parece saída dos discos do início do século de sua antiga banda.

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Com a morte de Florian Schneider, o que chamamos de música eletrônica fica órfã. Um dos fundadores do Kraftwerk, o músico alemão foi um dos pioneiros do gênero e começou a desconstruir sua musicalidade quando passou a submeter seu principal instrumento – a flauta transversal – a uma série de pedais de efeito, mudando inclusive o papel do instrumento nas formações em que tocava, até o final dos anos 60. A partir daí, conheceu o eterno parceiro Ralf Hütter, e aos poucos foi abraçando os sintetizadores e a pós-produção, criando o principal grupo alemão da história da música pop, que abriu fronteiras inimagináveis ao processar o rock progressivo dentro das rígidas regras do minimalismo eletrônico, influenciando até mesmo David Bowie, que compôs uma música em sua homenagem (“V-2 Schneider“, do disco “Heroes”). A causa da morte não foi anunciada.

Viva Aldir Blanc!

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Um pouco da importância do mestre carioca Aldir Blanc pode ser absorvida através do ótimo documentário Aldir Blanc: Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, dirigido em 2013 por Alexandre Ribeiro de Carvalho, André Sampaio e José Roberto de Morais, que está disponível online. Nele, o boêmio carioca lembra da infância e da adolescência na zona norte do Rio de Janeiro, suas parcerias (João Bosco e Guinga falam sobre este que consideram seu principal parceiro musical), seu envolvimento com o Movimento Artístico Universitário e seu papel na luta pelos direitos autorais, além de ver como Aldir era bom contador de histórias e querido por onde passava.

Dica do Aliche, o diretor do festival In-Edit Brasil.