Gang of Four para sempre! Meses após a morte de seu fundador e principal integrante, o mestre Andy Gill, o grupo inglês prepara o lançamento de mais um EP póstumo, depois de This Heaven Gives Me Migraine, que foi lançado em fevereiro e vinha sendo preparado pelo próprio guitarrista morto no início daquele mês. O novo disco, chamado Anti Hero, foi supervisionado pela viúva de Gill, a ativista Catherine Mayer, e foi anunciado com a faixa “Forever Starts Now”, que ficou de fora do disco que a banda lançou no ano passado, Happy Now. A capa do novo disco, que será lançado em julho e já está em pré-venda, é um retrato de Andy feito pelo clássico ilustrador Shepard Fairey. O disco ainda trará novas versões para hinos do grupo, como “Change the Locks” e “Glass” e a primeira música solo de seu vocalista, John Sterry, que passa a assinar como JJ Sterry, “Day Turns to Night”.
O grupo norte-americano Flaming Lips lança o primeiro single do ano, a bela e introspectiva “Flowers of Neptune 6”, uma balada composta por seu guitarrista Steven Drozd, cujo clipe flagra o líder e vocalista da banda Wayne Coyne, andando em sua bolha de isolamento social (hit da banda muito antes da pandemia nos assolar) por regiões desertas dos Estados Unidos, carregando a bandeira de seu país nos ombros quase com pesar. A vocalista Kacey Musgraves faz uma participação acompanhando o vocalista no refrão.
Christopher Nolan não vê a hora de lançar seu novo filme, Tenet, nos cinemas. O diretor de Inception estava com tudo programado para lançar seu novo filme no início deste ano e como em seu filme estrelado por Di Caprio, ele brincava mais uma vez com a noção da percepção da realidade, desta vez lidando com a linearidade do tempo. Mas com a pandemia, ele viu seus planos serem adiados indefinidamente, até os cinemas voltarem a abrir. Ele foi relutante até em lançar o novo trailer fora das salas de cinema, resignando-se a estreá-lo dentro de um videogame (e assim Fortnite vai estabelecendo um novo vínculo entre a indústria dos games e a do cinema, como também fez com a música, no show de lançamento do single novo do Travis Scott), ao mesmo tempo em que briga para que os cinemas voltem a abrir o quanto antes (idealmente, para ele, no dia 17 de julho, como havia anunciado no fim do ano passado).
youtube.com/watch?v=5uShcH_3NB4
O novo trailer aprofunda-se na ideia que a manipulação do tempo é o tema central do filme, mas há algo escondido até em seu título – o aspecto palindrômico, que pode ser lido de trás pra frente – que cogita que mais uma vez o diretor norte-americano trabalhe com camadas, desta vez, temporais. E há quem diga que o filme seria uma continuação secreta de Inception… Hmmm…
Outro dia o Sidão me tagueou num post sobre a entrevista que fez com o Rogério de Campos no podcast de seu Universo HQ, o Confins do Universo. Pude trabalhar com estes dois ícones do quadrinho nacional na virada do século, quando fui editor-executivo da Conrad, fundada por Rogério, e que tinha Sidney Gusman como um de seus editores de revistas em quadrinho. Na entrevista, com mais de duas horas de duração, Sidão disseca a carreira de Rogério, fundador das revistas Animal e General e atualmente liderando a Editora Veneta, ao lado de seus comparsas de podcast e pinça detalhes históricos – e embates editoriais – que só pode fazer porque ele mesmo é um dos grandes personagens desta história, deschavando parte da história das histórias em quadrinhos e do mercado editorial brasileiro, em que Rogério, tão implacável quanto cínico e tirador de onda, explica porque sempre esteve metido com grandes nomes, revelando outros tantos e movimentando tanto a cena cultural brasileira, na base da subversão. “A mão invisível do mercado, se deixar, morre todo mundo nessa pandemia”, conclui, sem brincar. Ouça toda a entrevista aqui.
A cantora inglesa PJ Harvey começa a ter toda sua discografia relançada em vinil e, de cara, abre os trabalhos com seu disco de estreia e um disco-extra trazendo as demos de Dry, quando Harvey ainda era apenas uma jovem Patti Smith. Esse rascunho do hino “Sheela-Na-Gig”, que traz a cantora apenas no violão, mostra como ela já era promissora no início da carreira.
Os vinis dos dois discos já estão em pré-venda e veem a luz do dia no dia 24 de junho (eis as músicas do disco de demos abaixo). Dry -Demos também deve ser lançado em CD e os outros oito álbuns de PJ Harvey receberão tratamento semelhante nos próximos meses. A ver.
“Oh My Lover (Demo)”
“O Stella (Demo)”
“Dress (Demo)”
“Victory (Demo)”
“Happy And Bleeding (Demo)”
“Sheela-Na-Gig (Demo)”
“Hair (Demo)”
“Joe (Demo)”
“Plants And Rags (Demo)”
“Fountain (Demo)”
“Water (Demo”
Ainda abrindo um baú de 25 anos de idade, o grupo Yo La Tengo resgata o clássico clipe de “Tom Courtenay” como parte das comemorações do relançamento de seu disco de 1995, Electr-O-Pura, que volta em formato duplo em setembro deste ano. É a primeira vez que o clipe aparece oficialmente no YouTube, no lugar daquelas versões velhas em fitas de vídeo gravadas por indies da época. E a história de como o trio nova-iorquino poderia ter aberto o show de volta dos Beatles nos anos 90 segue intacta tanto como um causo da história do rock, uma piada interna indie e uma crítica bem humorada às estranhas manias dos fãs – especificamente dos fãs de Beatles – e ao mainstream da indústria fonográfica:
O grupo aproveitou a oportunidade para lembrar histórias do clipe ao lado do diretor Phil Morrison em uma videoconferência, aproveitando para contar quem eram todos os atores e figurantes do clipe e que o próprio Tom Courtnay foi consultado para atuar como o empresário dos Beatles, além de, como no clipe, quase receber a presença de um beatle…
Eles são a banda mais legal do mundo, diz aí.
Já está no ar a conversa que tive com Rico Manzano, do Música em Rede, sobre o impacto da pandemia no mercado ainda no começo da quarentena, no início de abril.
Como dá pra ver, não mudou muita coisa em dois meses, infelizmente…
Tá aí o terceiro Bom Saber, programa semanal de entrevistas que estou atualizando no meu novo canal do YouTube (Assina lá!). E o convidado de agora é meu amigo Ian Black, que conheço desde antes dos blogs serem blogs e das redes sociais existirem, acompanhando a evolução da vida digital no Brasil atentamente, cada um a partir de seu ponto de vista – eu junto ao jornalismo, ele à publicidade -, mas sempre interessados nas questões mais amplas da transição da velha para a nova comunicação. O chamei para conversar a partir do texto que ele publicou há pouco (A esquerda precisa amadurecer digitalmente, agora) e aproveito o gancho para falar sobre o que é essa tal maturidade digital, assunto que começo a partir da entrevista que Felipe Neto deu ao Roda Viva no início da semana passada.
Os primeiros entrevistados do Bom Saber foram a Roberta Martinelli e o Bruno Torturra (assista às suas entrevistas nos respectivos links). E não custa lembrar que quem colabora com o meu trabalho recebe a entrevista ainda no sábado (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com), mas toda terça, ele é aberto para todos.
Não conheci direito o Cezar Vieira, guitarrista da lendária banda indie baiana Brincando de Deus, que faleceu no último sábado. Estive com ele em algumas ocasiões, mas todos que o conheceram tinham enorme apreço pelo músico, um dos nomes a erguer o indie rock nordestino no mapa da música brasileira. Sem a Brincando, bandas, fanzines, cenas locais inteiras e até festivais que começaram a surgir a partir do meio dos anos 90, teriam um destino e um enfoque bem diferentes – e tão importante quanto a postura e a atitude de seu vocalista e principal compositor, Messias Bandeira, eram as guitarras de Cezar, delicadas e barulhentas ao mesmo tempo, que atingiam uma sonoridade que não se ouvia por aqui. Reproduzo abaixo o texto que Messias escreveu sobre a partida do amigo, cuja morte ainda não se sabe se está relacionada à maldita pandemia que assola o planeta. Pedi também para o Messias escolher uma música como trilha sonora deste post – e ele escolheu o clipe caseiro de “An Evening Out”, do primeiro disco da banda, o clássico Better When You Love (Me).
Obrigado, Cezar.
Quando a música parece maior do que a vida
“Bands, those funny little plans, that never work quite right” (“Holes”, Mercury Rev)
Mais uma camada de tristeza foi adicionada a estes tempos distópicos que estamos vivendo. E quão grossa é esta camada. Nosso guitarrista, amigo e irmão Cezar Vieira partiu no sábado, 23.05. Ainda estamos tentando entender o quadro de saúde que o levou tão rápido. Envoltos numa atmosfera de tantas perdas, queremos que família, fãs e amigos sejam reconfortados, ainda que isso não apague, de fato, algo inelutável: a dor pela perda de alguém tão central em nossas vidas.
Não quero elencar as qualidades de Cezar agora. Isto seria reduzir sua plasticidade vital, sua luz e seu encantamento. Sim, Cezar: “You made me realize”. Penso no seu olhar sobre a realidade. A tatuagem em seu braço (“What difference does it make?”) era mais do que uma citação à sua banda predileta depois da bddeus (cuja tatuagem ficava no braço oposto): era uma regra beneditina de vida, quase um koan. Não como um desprezo por tudo, mas exatamente pelo questionamento a tudo.
Jean-Yves Leloup nos conta que, certa vez, Jean Cocteau, ao ser perguntado “o que salvaria se sua casa pegasse fogo”, respondeu: “o fogo!”. Cezar era assim. E era assim que ele se agarrava à música e se desprendia da vida. Música, essa des-matéria viva à qual nos agarramos nestes 30 anos da “brincando de deus”, numa espécie de redenção diária, de religação com nós mesmos. Sim, nosso estúdio pegou fogo em 1999: salvamos a nossa música. Algo como “acender fogueira para apreciar a lâmpada elétrica”, como dizia Tom Zé.
Vendo Cezar partir tão rápido e tão cedo, percebo, agora, que nunca dei a resposta que deveria quando nos perguntavam “por que a banda se chama brincando de deus”: porque, às vezes, a música parece ser maior do que a vida. Tão desconcertante quanto dizer “I will live and then decide, I don’t care about my life (but I do)”, como escrevemos em nosso terceiro disco.
Os ensaios, as gravações, os shows, as viagens — todo este conjunto que parece encapsular a trajetória de uma banda —, misturam-se a algo maior: a intimidade de pessoas, a construção de uma comunidade no entorno da banda, a reverberação de nossa existência, como se estivéssemos a irradiar algum sentido para além de uma carreira artística.
Olhando em retrospecto, vejo que constituímos um método próprio que comutava a precariedade técnica em elaboração melódica, tudo isso com um objetivo absolutamente claro: nós buscávamos a canção perfeita por linhas tortas, ainda que este horizonte se mostrasse mais distante quanto mais navegássemos. Mas era nessa viagem que, distraindo-nos da ambiciosa meta, encontrávamos o som, o efeito, a poesia, a dança — guiados por uma militância independente que alguns achavam monástica demais. A história toda eu conto depois.
Nunca desistimos da Música, e Cezar era aquele que fazia renascer este desejo em estado bruto. Mesmo que ela estivesse difusa em nossas vidas aceleradas, dilaceradas. Ainda e sempre, “Love will tear us apart again”. Talvez seja isso que o tenha levado a um outro tempo de giro no relógio da vida.
Sua guitarra fará falta, especialmente neste momento em que a estridência e o ruído, aliados à melodia, são absolutamente necessários para enfrentarmos a tolice, a barbárie e a tristeza que, mais do que em qualquer outro lugar, afetam nosso país.
Que você siga em paz, Cezar, que seu caminho seja iluminado.
Que você faça uma boa travessia após esta intensa jornada.
Não quero que você descanse, pois você sempre nos lembrava nas mensagens das madrugadas: “ninguém dorme”.
Quero apenas que sua dor passe (“All I want in life is a little bit of love to take the pain away…”).E que você nos envie, daí, músicas tão altas que possam ser escutadas através do vácuo espacial. Daí mesmo de onde você está : “Higher than the sun”, para além do “Wild Side”.
Messias G. Bandeira – 26.05.2020
Vai-se Jimmy Cobb, o último sobrevivente de uma das maiores formações musicais da história. Depois de começar a carreira cedo e logo subir ao palco para acompanhar gigantes como Billie Holiday e Dizzy Gillespie, o baterista norte-americano entrou para o primeiro grande grupo de Miles Davis em 1957 e ao lado dele, Julian “Cannonball” Adderley, John Coltrane, Bill Evans e Paul Chambers, gravou o disco que mudou a história do jazz, A Kind of Blue. Manteve-se fiel ao seu maestro e gravou alguns de seus principais álbuns, como Sketches of Spain (1960), Someday My Prince Will Come (1961), Miles Davis at Carnegie Hall (1962), Porgy and Bess (1959) e Sorcerer (1967), seguindo acompanhando grandes nomes do jazz desde aquele período. O músico morreu neste domingo, vítima de câncer no pulmão.








