A entrevista que o filósofo e jurista Sílvio Almeida deu nesta segunda-feira, no Roda Viva da TV Cultura, é uma semente para começarmos a recontar a história do Brasil. Com uma tranquilidade impressionante e o didatismo sereno dos melhores professores, ele reforçou a importância, desde os anos 70, do movimento negro nas conquistas sociais na democracia brasileira, relacionou o racismo ao neoliberalismo, reforçou a importância do trio terreiro, escola de samba e favela e apontou uma série de caminhos para sairmos deste poço sem fundo em que estamos caindo desde o meio da década passada – e tudo passa por educação e luta contra o racismo. Ele fez em outra escala – menor, mas com muito mais capilaridade – o que o Emicida fez outro dia quando apareceu no Faustão.
Vamos sair desta e as luzes no fim deste túnel estão surgindo…
Em um ensaio publicado nas redes sociais do Wilco na última quarta, o líder da banda Jeff Tweedy escreveu sobre a possibilidade de a indústria do entretenimento indenizar financeiramente a questão racial nos EUA, à luz dos incidentes ocorridos após o assassinato brutal de George Floyd e do movimento Black Lives Matter. Para dar exemplo, ele comprometeu 5% dos royalties de suas obras para organizações que combatem o racismo nos EUA, como Movement for Black Lives e Black Women’s Blueprint. Eis a íntegra de sua carta aberta:
“A indústria da música moderna é construída quase inteiramente a partir da arte negra. A riqueza que por direito pertencia aos artistas negros foi roubada e até hoje segue crescendo para além de suas comunidades. Nenhum artista poderia chegar perto de pagar a dívida que devemos com os criadores negros de nossa música moderna e com seus filhos e netos. Como indivíduo, reconheci a injustiça da vida em que vivo em relação à privação de pessoas cujo trabalho é apenas uma sombra. Eu tentei compensar essas desigualdades na minha vida pública e privada. Não foi o suficiente.
Eu sempre pensei que deveria haver um plano em todo o setor para lidar com essa enorme injustiça. Considerando que nossa empresa se orgulha de seus ideais e compromissos progressistas com a justiça social, esperei, pensando que eventualmente colocaríamos algum tipo de dízimo sustentado – alguma iniciativa que permitiria que todos redirecionássemos uma parte de nossa receita para o comunidades que foram privadas dele. Resisti a ser o único a iniciar esse plano por razões que considero pouco convincentes agora. Sinto que é importante prometer meu compromisso pessoal de pagar essa dívida e pedir publicamente a todos os meus colegas que trabalhem para fazer o mesmo.
O que proponho daqui para frente é um programa que permita que compositores e músicos direcionem uma porcentagem da receita de ‘parte do autor’ para organizações que assistem e apóiam comunidades negras. Isso pode assumir a forma de uma caixa para verificar contratos de gerenciamento de direitos, colocando-a na base de nossos negócios. Ou poderia assumir outra forma inteiramente. Não possuo o conhecimento necessário para manifestar essa iniciativa, mas posso começar a fazer minha parte comprometendo 5% da minha receita de escritor para organizações que trabalham em prol da justiça racial, que incluem, entre outras, o Movement for Black Lives e a Black Women’s Blueprint.
Para BMI, ASCAP, SESAC e todas as outras organizações que coletam e desembolsam royalties dos compositores, peço que vocês investiguem uma maneira de implementar esse programa. Aos líderes da indústria: junte-se a mim na formação de uma coalizão. Minha pequena contribuição por si só é um gesto sincero, mas insuficiente. Centenas de nós, reunidos, poderiam proporcionar um tremendo alívio. Milhares de pessoas que se comprometerem com uma iniciativa de reparação podem mudar nossos negócios e o mundo em que vivemos. Black Lives Matter. Obrigado.”
Palmas para o Jeff!
Homegrown, o disco que Neil Young lançaria no inicio de 1975 mas preferiu engavetar para só lançar agora, começa com um solavanco brusco, como se fosse uma porta emperrada de uma casa de fazenda que não visitamos há décadas. Ela abre no primeiro empurrão, revelando um ambiente sonoro reconhecível, que vai sendo desenhado primeiro pelo baixo, violão e bateria, que são seguidos por uma guitarra pedal-steel que nos ajuda a nos acostumar com a escuridão. Quando o mestre canadense começa a cantar “Separate Ways” abrem-se as janelas e o sol finalmente pode entrar no disco, depois de anos. Os timbres dos instrumentos – a bateria delicada conduzida por ninguém menos que Levon Helm, a guitarra chorosa de Ben Keith, o baixo truculento e calado de Tim Drummond, o violão e a gaita de Young – pairam no ar como uma névoa de poeira, erguida do chão pela luz e pelo movimento. É o lugar que esperávamos encontrar, mas há algo diferente.
Engavetado pois lembrava do relacionamento que Young estava terminando na época (junto à atriz Carrie Snodgress), Homegrown perdeu-se com o tempo e algumas de suas canções apareceram em outros seus discos, mas seu lançamento nos leva àquele momento dos anos 70 em que o cantor e compositor canadense estava vivendo seu auge musical. O artesanato de suas canções segue intacto como se estivéssemos ouvindo as gravações de Harvest ou Tonight’s the Night, mas há uma sensação caseira e confortável que torna o novo velho disco mais despretensioso e tranquilo, mesmo com as presenças mágicas de nomes como Helm, a cantora Emmylou Harris e Robbie Robertson.
O disco apresenta uma coleção de canções que nos faz lembrar de um passado que mal lembramos, mas que é estranhamente familiar. É como revirar fotos de um casamento passado, encontrar pertences de um parente morto, anotações pessoais de outros anos. Há uma tristeza daquilo ter se perdido, mas ao mesmo tempo um calor ao lembrarmos de como era, algo que Neil traduz em três grupos distintos de canções: baladas melancólicas (“Separate Ways”, “Try” e “Mexico” abrem o disco com essa sensação, que volta ao final, com “Little Wing” e “Star Of Bethlehem”), canções do campo (“Love is a Rose”, “Kansas” e “White Line”), faixas country com algum sabor rock (a faixa-título, “We Don’t Smoke It No More” e “Vacancy”), apenas a falada “Florida” destoa destes grupos, mas acaba funcionando como uma longa e estranha introdução para “Kansas”.
Ao cancelar o lançamento de Homegrown, Neil Young decidiu tirar da gaveta o disco Tonight’s the Night, que havia gravado em 1973 mas não estava certo de lançá-lo por ser uma homenagem ao guitarrista Danny Whitten, que havia falecido há pouco. Ao adiar Homegrown indefinidamente, o canadense abriu espaço para o disco anterior, que logo que saiu foi consagrado como uma de suas obras-primas. O disco relançado este ano não tem a força e o sentimento profundo dos grandes clássicos de Neil, mas seu despojo e intimidade o tornam um belo retrato do artista longe das pressões que o atravessavam à época. Discaço.
O vocalista da Trupe Chá de Boldo Gustavo Galo chega aos finalmentes do disco que lançou ano passado, Se Tudo Ruir, Deixa Entrar o Ruído, ao mostrar single e clipe novos. Primeiro apresentou o clipe de “Nijinski”, chamando amigos para cair na dança, entre eles o parceiro pernambucano Otto, com quem faz dueto em uma canção que exalta a dança.
Depois estreou a inédita e bela “Até Chegar no Mar”, com Mariá Portugal na bateria, Chicão Montorfano nos teclados e Gustavo Ruiz e o pai Luiz Chagas nas guitarras.
Mesmo sem lançar nada desde seu clássico instantâneo Lemonade – o disco que considero o mais importante da década passada -, Beyoncé vem aos poucos mostrando que não vai ficar quieta em 2020, principalmente levando em conta o clima tenso em que seu país se encontra desde a morte de George Floyd por um policial. Ela foi uma das primeiras artistas a se pronunciar publicamente sobre a tragédia e suas consequências para os EUA, deu um belo discurso na iniciativa Dear Class of 2020 organizada pelo casal Obama e agora lança “Black Parade”, o primeiro single em mais de meia década, sincronizado com a comemoração do 19 de junho, a data do fim da escravidão nos EUA, conhecida pelo apelido de “Juneteenth” (misturando o nome do mês e o número do dia nesta nova palavra).
A deliciosa faixa não é um hit dedo na cara como ela fez quando lançou “Formation”, mas embala tradições negras que vão da música africana à Jamaica, passando pelo R&B e pelo trap, e a rainha Bey desliza seus versos com o apoio de um irresistível coral. É inevitável associar à versão cinematográfica para o filme Rei Leão que ela fez com ano passado com a Disney. Será que vem mais algo por aí…?
Comemorando os 30 anos de seu quarto disco, os Pixies relançarão o sensacional Bossanova em edição comemorativa de aniversário, em vinil vermelho e com um encarte de 16 páginas que só saiu na versão inglesa do disco, na primeira impressão (e já está em pré-venda). O disco foi lançado logo após a baixista Kim Deal lançar o primeiro disco com sua outra banda, as Breeders, e aos poucos abalar a já conflituosa relação entre os integrantes do mitológico grupo indie norte-americano, o que acelerou o processo do fim da banda, que aconteceu no ano seguinte.
Em seu oitavo disco, Pick Me Up Off The Floor, a cantora, compositora e pianista norte-americana Norah Jones encontra timbres e ambiências que ajudam a lapidar de forma mais precisa seu pop perfeito, abandonando de vez as afetações plásticas do jazz pop que a revelou e afinando suas canções com os experimentos a que se propôs nos últimos anos. Na última década ela tirou onda com sua versatilidade musical na coletânea Featuring… (mostrando músicas ao lado de nomes como Foo Fighters, Herbie Hancock, Willie Nelson, Outkast, Q-Tip, Talib Kweli, Belle and Sebastian, Ray Charles, Ryan Adams, Dolly Parton e outros) e gravou duas vezes com o produtor Danger Mouse, primeiro no projeto Rome, que ainda contava com o italiano Daniele Luppi e Jack White, depois no ótimo álbum, Little Broken Hearts, de 2012. Ela retomou o piano no belo Day Breaks, de 2016, e agora amarra tudo num disco que, apesar da sonoridade moderna (mesmo querendo soar retrô), poderia ser gravado nos anos 60 ou 70. É seu melhor disco – e se ela seguir esse padrão daqui pra frente, não tem com o que se preocupar…
Isso sem contar a ambiguidade que letras como “This Life”, “Hurts To Be Alone”, “To Live” e “Were You Watching”, todas maravilhosas, ganharam ante a quarentena…
Quando Bob Dylan começou a mostrar Rough And Rowdy Ways, nem sabíamos que era um álbum que viria. A sombra da pandemia pesava sobre o ocidente quando um de seus maiores artistas cantava um épico inesperado: os quase dezessete minutos de “Murder Most Foul” recontava o assassinato do presidente norte-americano John Kennedy como um divisor cultural, o fim da inocência estadunidense e o início da queda no abismo em que nos encontramos hoje, citando músicos e canções como testemunhos destas transformações. Ele depois lançou a bucólica “I Contain Multitudes” e parecia que estava apenas mostrando umas músicas novas para nos reconfortar, uma melhor que a outra. Até que o groove quadrado de “False Prophet” anunciou a vinda do novo álbum, que só por conter estas três músicas já mostrava que seria um dos melhores discos do mestre.
E é verdade. Por mais que ele ressoe como os últimos discos que lançou (a trilogia que gravou como intérprete formada pelos álbuns Shadows in the Night, de 2015, Fallen Angels, de 2016, e o triplo Triplicate, de 2017), Rough… conversa diretamente com todos seus discos neste século, especialmente os três primeiros do século, “Love and Theft” (2001), Modern Times (2006) e Together Through Life (2009). Neste trio de discos do início do século 21, ele comentava a nova modernidade à partir da modernidade que conheceu, voltando para os anos 50 de sua adolescência. Já a trilogia de canções que foram gravadas por Sinatra volta ainda mais no tempo, para os anos 20, 30 e 40, fazendo a ponte entre o terreno onde plantou suas Basement Tapes, a música folk americana do início do século, e a era de ouro do rádio em seu país.
O novo disco retoma o andamento do século e parece caminhar entre inferninhos do sul dos EUA, estradas desertas ao por do sol e salões de velho oeste trazidos para a era da eletricidade e da gasolina. São blues rasgados e rocks que chacoalham cadeiras e cabeças mas não os quadris (“False Prophet”, “Goodbye Jimmy Reed”, “Crossing the Rubicon”), baladas pensativas (“I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You” é de chorar, “Black Rider” parece um presságio), delírios solitários e canções de cortar o coração (a já citada “I Contain Multitudes” e “Mother of Muses”, em que sua voz, que nos acostumamos com o timbre velho e calejado, está deslumbrante). Só esse conjunto de canções já colocaria Rough… entre os melhores discos de Dylan e seu melhor disco desde Time Out of Mind, de 1997.
As duas faixas do final, no entanto, encerram a discussão. Além da imbatível “Murder Most Foul”, ele ainda nos presenteia com a gigantesca e contemplativa “Key West (Philosopher Pirate)”, única faixa com refrão no disco, que espreguiça-se também pelo século 20, citando canções e situações, perguntando se estamos procurando a imortalidade. “O que você está olhando? Não tem nada pra ver aqui”, resmunga irônico, em “False Prophet”, “você não me conhece, querida…”, explica como se estivesse mostrando onde devemos ficar – à vontade, ouvindo-o.
A morte do produtor francês Philippe Zdar, em junho do ano passado, pegou seus amigos e fãs do Cassius, dupla que ele fazia parte, de surpresa. Um ano depois, Chan Marshall, a senhorita Cat Power, lembra da passagem do amigo com quem trabalhou em seu disco mais eletrônico, Sun, e também no disco Ibifornia, que o Cassius lançou em 2016, e revisita seu hit mais famoso, a contagiante “Toop Toop“, numa versão acústica ao violão de chorar.
A Crime Caqui, uma das minhas bandas novas favoritas lança mais um single, a delicada e grudenta “Your Forehead”, preparando terreno para o disco de estreia…










