Enquanto assistia aos EUA pegar fogo sobre quem poderá ser seu futuro presidente, Lana Del Rey ligou o ao vivo em seu Instagram para fazer um anúncio sobre sua carreira, como se ela fosse mais importante que tudo isso: adiou seu próximo álbum Chemtrails Over the Country Club, disco que lançaria esse ano e do qual já havia mostrado “Let Me Love You Like a Woman” como primeiro single, para o ano que vem devido à dificuldade em prensar os discos em vinil como gostaria antes do início de março, postergando-o para primeiro semestre de 2021. Em compensação, ela anunciou um álbum de natal ainda para 2020, com versões para standards norte-americanos e músicas que ela sempre quis gravar. Não entrou em detalhes sobre o repertório, citando apenas “algumas canções de Patsy Cline”:
Ela, que postou uma foto sandando o novo presidente norte-americano e sua vice Kamala Harris em seu Instagram logo após a confirmação dos votos, em seguida mostrou uma versão para “On Eagles’ Wings”, hino cristão citado no discurso de Biden, como se precisasse provar que não havia votado em Trump…
E não dá pra acreditar que ela tenha votado, uma vez que saiu comemorando a vitória do candidato democrata num supermercado com ninguém menos que Joan Baez!
Com o single “Em Meu Lugar”, Chico Bernardes começa a buscar outras paisagens sonoras para além do bosque folk de seu primeiro disco homônimo. E para isso, conta com a mão sofisticada de Arthur Decloedt, o baixista do Música de Selvagem, que produz e arranja a nova canção, dando-lhe uma suntuosidade orquestral que em vez de aplacar, reforça sua singeleza, numa gravação que ainda conta com Maria Beraldo e Amílcar Rodrigues (que toca com o pai de Chico, Maurício Pereira) entre os músicos convidados. Coisa fina.
Se o Chico mesmo for por esse caminho no próximo disco, ninguém o segura.
Robert Fripp, o líder do King Crimson, entregou-se aos devaneios de sua esposa, a cantora Toyah Willcox, e juntos os dois vêm passando a quarentena experimentando possibilidades no YouTube – mas neste Halloween chegaram ao ponto mais crítico até agora, quando misturaram uma versão apenas em que Fripp toca em sua Les Paul com o rosto e o braço coberto de tatuagens temporárias a clássica “Paranoid” do Black Sabbath enquanto Toyah, do outro lado de uma grade (seria uma cadeia ou um cofre?) canta a canção numa performance memorável.
Atualização: E olha essa versão para “Whole Lotta Love” (que no final vira “Kashmir”) e um chicote que eles fizeram no domingo…
Os dois vídeos são chamados de “Sunday Lockdown Lunch” – o almoço de domingo do enclausuramento e, pelo jeito, isso vai longe, hein… Tomara!
Vanusa, que despontou no final da Jovem Guarda e se transformou em uma das principais popstars do Brasil nos anos 70, morreu neste domingo numa casa de repouso em Santos. Infelizmente mais lembrada por sua infame pela versão que fez do Hino Nacional e tornou-se meme, ela atravessou aquela década como referência de mulher moderna que, mesmo casada e mãe de família (era esposa de Antônio Marcos e mãe dos futuros artistas Aretha e Rafael Vanucci), tinha sua própria independência, questão delicada há meio século, ela tem grandes momentos em sua errática discografia, como é o caso do disco que leva seu nome de 1973 que eu pincei há tempos aqui no Trabalho Sujo.
O mestre Itamar Assumpção ressurge na póstuma “Beleléu Via Embratel”, faixa produzida por sua filha Anelis, que traz participações de nomes como Liniker, Vange Milliet e Tata Fernandes nos vocais de apoio, com Paulo Le Petit no baixo e Luiz Chagas na guitarra (ambos integrantes de sua clássica Isca de Polícia), Marquinho Costa na bateria e Edy Trombone no instrumento de sua alcunha. A faixa, originalmente composta para o festival MPB-Shell de 1981, nunca teve registro oficial e essa ressurreição também anuncia o tão aguardado MU.ITA, o Museu Virtual Itamar Assumpção que Anelis vem desenvolvendo e que deve ser apresentado finalmente no próximo dia 20.
Que maravilha!
A versão virtual do festival espanhol Bilbao BBk Live aconteceu em junho desse ano, mas esse set do DJ catalão John Talabot é eterno…
Um abuso, dizaê. Que mestre.
Seguindo a série de diagnósticos sob encomenda que fiz pra Urubu (o primeiro deles foi sobre música brasileira), desta vez dou meus pitacos sobre o estado da imprensa no país.
O jovem mestre Kiko Dinucci leva seu ótimo disco Rastilho à versão online do festival curitibano, num ótimo registro ao vivo feito por Luan Cardoso.
Kassin e Frank Jorge, dois pilares do rock independente dos anos 90 que se tornaram referências musicais nas respectivas cenas de suas cidades, já se conheciam há tempos. “Eu conheci o Frank assistindo ao Graforreia Xilarmônica no festival SuperDemo, se eu nao me engano em 1992”, o produtor carioca puxa pela memória. O gaúcho complementa: “Fui conhecer conhecer mesmo foi quando o Kassin e o Berna produziram o disco da Graforreia Xilarmônica Ao Vivo, lançado pela Senhor F Discos, gravado em Porto Alegre num bar chamado Manara, que não existe mais nem a edificação, inclusive, e foi lançado em 2006”, lembra Frank sem precisar a data do show.
Os dois se reencontraram em 2020 para começar a trabalhar num disco em dupla, mas o coronavírus obrigou a mudança de planos. “Inicialmente haveria encontro no disco , eu iria a Porto Alegre e Frank viria ao Rio , eu pensava em um disco mais tocado com sintetizadores e baterias eletrônicas e acústicas juntas quando vimos que isso não seria possível resolvi fazer tudo programado”, lembra Kassin. “Inicialmente, seria uma fusão de composições autorais inéditas ao estilo de músicas bregas brasileiras com rock internacional da mesma época, tipo bandas do CBGBs…”, lembra Frank, “mas o rumo que foi tomando as composições e produções a partir das guias mostrou um universo diferente, mais rico ainda, bem brasileiro, bem diversificado, com bastante programações de bateria eletrônica, baixos synth ou ‘tocados no dedão’, arranjos maravilhosos do Kassin para sopros, enfim… Um álbum muito único que me deu muito prazer em fazer.”
Ainda sem data de lançamento precisa – os dois falam no começo de 2021 -, o disco Nunca Fomos Tão Lindos começa a ser mostrado esta semana, quando o single “O Que Vou Postar Aqui” chega às plataformas digitais na sexta, mas os dois antecipam a faixa, que mistura as melodias básicas de Frank à fissura de Kassin por música eletrônica avançada, ao mostrar o clipe primeiro aqui no Trabalho Sujo. “É uma canção tipicamente ‘frankeana’, composta com certo DNA do velho e famigerado iê-iê-iê que existe incrustrado em mim – e adoro!”, descreve Frank. “Mas a liberdade de criação foi o princípio básico do trabalho e o que o Kassin trouxe de contribuições foi sempre surpreendente; apontou para direções muito diferentes em termos rítmicos, soluções harmônicas bacanas e de bom gosto. Um resultado final bem diferente dos respectivos trabalhos solos, e em alguma medida, modestamente falando, muito único, muito raro”. Kassin reforça que a faixa é uma boa introdução ao disco: “O disco vai pra muitos lados sonoramente, mas dá pra entender o que esperar do álbum.”
Frank detalha como foi a criação do disco: “Fiz uma guia inicial em fevereiro deste ano com violão, baixo, teclado, guitarra, vozes, para 14 músicas com o Beto Silva no Estúdio Marquise 51. Tiveram umas dinâmicas de deixar algumas de lado e inserir outras no decorrer do processo, de abril em diante. Em síntese, dez composições do álbum foram escritas entre novembro e fevereiro e duas já existiam no meu repertório próprio, não lançadas. Kassin produziu as gravações via software Zoom a partir do seu estúdio ou sua casa no Rio de Janeiro. Beto e eu em Porto Alegre no estúdio Marquise 51, gravando a partir das orientações do Kassin. Trocamos vários telefonemas e algumas vídeo chamadas para discutir as músicas, buscar soluções, cortes… Fluiu tudo de modo muito legal, cooperativo, colaborativo. Conversamos bastante sobre música em geral. Celly Campelo, High Llamas, Paulo Sérgio, Jackson 5, documentários sobre música, etc. Tudo isto impactou no resultado e no astral geral do álbum. ”
Cada um segue seus projetos individuais. Enquanto Kassin prepara mais um disco solo, Frank segue dando aula de Produção Fonográfica na universidade Unisinos, em Porto Alegre “e compondo canções em espanhol; lendo Jonathan Franzen, Henry Jenkins, jornal e revistas Bizz antigas; sempre ouvindo muita música; assistindo seriado sobre o Império Romano”, conclui.
Neil Young começa a mostrar as joias do segundo volume de sua caixa Archives e acaba de revelar essa versão elétrica com sete minutos de “Powderfinger” gravada logo que Frank “Poncho” Sampedro assumiu o posto de segundo guitarrista do Crazy Horse, após a morte do dono original do cargo, o fiel escudeiro de Young Danny Whitten, de overdose de heroína. Uma canção sobre a chegada da maturidade junto com a morte tem um peso redobrado ao ser lançada em 2020, ano em que Young tornou ainda mais aguda sua verve política, numa versão registrada em 1975, portanto três anos antes de ser apresentada ao resto do mundo no imortal Rust Never Sleeps. Que paulada!
Antes disso, ele já havia mostrado a balada country “Homefires”, gravada em 1974 em seu rancho Broken Arrow…
…e “Wonderin'”, que ele gravou na época do After the Gold Rush em 1970 (que, por sua vez, ganhará uma edição especial em dezembro, em comemoração aos seus 50 anos), mas que só lançaria em 1983, no infame Everybody’s Rockin’, numa versão rockabilly gravada ao lado do grupo vocal Shocking Pinks:
E ainda tem o vídeo mostrando a caixa por dentro:
Mata o velho! A segunda Archives sairá no próximo dia 20 e já pode ser encomendada online.









