
Vamos a mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo no Redoma e mais uma vez trago novíssimos artistas para o palco do Bixiga. A primeira delas é a banda Devolta ao Léu, formada por Bru Cecci (voz e teclado), Rafa Sarmento (bateria), Eduardo Rodrigues (guitarra) e Leo Bergamini (abaixo), que já tocou na festa e volta aos palcos do Inferninho misturando referências que vão do rock experimental à música brasileira, misturando referências que vão de Itamar Assumpção a Erasmo Carlos. A outra artista é uma estreia pra valer: embora a guitarrista Isabella Sartorato já tenha subido em alguns palcos, essa é a primeira vez em que sobe num para mostrar suas próprias canções, que misturam rock, música experimental, música pop e jazz fusion acompanhada de uma banda formada por Francisco Nogueira (baixo), Jampa (bateria) e Lucas Paulo (teclas). Antes, entre e depois das bandas eu ponho o som da noite. Os ingressos já estão à venda neste link.

“Quando os caminhos se confundem é necessário voltar ao começo”. Com um verso tirado da introdução de sua primeira mixtape Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, até que Eu Cheguei Longe…, Emicida começa a preparar sua volta ao imaginário coletivo brasileiro – e chamou o compadre DJ Nyack para essa nova fase. Zerou seu Instagram deixando apenas fotos antiquíssimas com o DJ (uma de 2011, outra de 2014) antes de anunciar a mixtape Emicida Racional VL3 – As Aventuras de DJ Relíquia e LRX, em que os dois fazem mashups de faixas antigas do Emicida com clássicos dos Racionais MCs, apenas no Soundcloud, no Bandcamp, no YouTube ou pra download no site do Nyack. E assim, com seus respectivos pseudônimos (LRX sendo a sigla para Loco Revolucionário X, usado pelo próprio MC), os dois casam “Boa Esperança” com “Capítulo 4, Versículo 3”, “Levanta e Anda” com “Homem na Estrada”, “Papel, Caneta e Coração” com “Vida Loka pt. 1”, “Ooorra” com “Vida Loka pt. 2” e “Voz Ativa” com “Triunfo” (essa última invertida, com vocais dos Racionais sobre a base do Emicida, a mais fraca das cinco por sinal). É meio truque, mas funciona – algumas das cinco faixas têm sobrevida para além da mera novidade – e coloca Leandro como veterano do rap ao mesmo tempo em que prepara terreno para uma nova fase. Pode vir.
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O show do Massive Attack segue reverberando por aqui, mas levanto algumas questões que ficaram na minha cabeça desde o início da apresentação. Horace Andy, teorias da conspiração, Elizabeth Fraser, Deborah Miller, crise climática, This Mortal Coil, paranoia, Adam Curtis, dubzêra sinistra, Avicii, Ultravox, camadas de guitarra, Tim Buckley, os irmãos Cavalera tocando Chaos A.D., indígenas no palco, aquela bandeira do One Piece, o telão absurdo, o reconhecimento facial ativado na plateia, o som pesado, sutileza e intensidade na mesma medida… Tanta informação em tão pouco tempo, não tinha como não sair atordoado. Mas primeiro discorro sobre esse ataque aos sentidos que foi contrapor o show às imagens do documentarista Adam Curtis, um dos nomes mais importantes da cultura atualmente, que só por ter se associado ao grupo inglês vai felizmente ter um alcance ainda maior de sua obra (minhas dicas: The Century of the Self, All Watched Over by Machines of Loving Grace, HyperNormalisation e Can’t Get You Out of My Head). Sim, as questões levantadas durante o show são urgentes, mas me incomodava – e não sei se o intuito era esse – que o excesso de informações às vezes não conversava com as canções, fazendo parecer que estávamos assistindo a duas obras justapostas, não casadas (como quando Benjamin Netanyahu apareceu no telão quando Liz Fraser cantava, fazendo o público vaiar o telão num momento musical sublime). Mas quando o casamento acontecia era absurdo – e tivemos ótimos exemplos já no início do show, quando ligaram o reconhecimento facial fake sobre o público quando Horace Andy entrou, na dobradinha “Black Milk” e “Take it There”, na versão para a música do Ultravox e em “Song to the Siren”. O excesso de informação também foi o responsável por deixar todos extasiados ao final do show, estratégia conhecida no jornalismo sensacionalista e nas redes sociais, muito bem apropriada pelo grupo, mas por vezes parecia exagerada e excessiva. Felizmente desligaram a máquina de propaganda em momentos únicos, como quando Andy cantou “Angel”, Denise Miller assumiu os vocais de “Unfinished Sympathy” e Elizabeth Fraser encerrou o show com “Teardrop”. Também me incomodou a distância entre a abertura dos irmãos Cavalera e as mensagens das lideranças indígenas do resto da apresentação do grupo, que pareceram entrar apenas como referências, sem interferir no show principal. Entendo a dificuldade em manobrar um transatlântico desses, mas imagina se víssemos um ritual indígena no meio desse show? Ou se Iggor e Max pudessem entrar naquela intensidade sonora? Se saímos de lá achando esse show foda, imagina se ele pudesse ter esses elementos brasileiros no centro, não apenas nas bordas? Certamente repercutiria no mundo todo, não apenas no Brasil.
#massiveattack #espacounimed #trabalhosujo2025shows 261

Muito bom reencontrar os irmãos Cavalera canalizando a energia que, triinta anos atrás, mudou a história da música pesada antes do show do Massive Attack na quinta passada. Muitos questionaram o fato do próprio grupo inglês ter escolhido Max e Iggor Cavalera para abrir sua única apresentação em São Paulo, mas como viu-se no show do Massive Attack logo em seguida, o impacto do volume alto – cossanguíneo do metal dos irmãos mineiros – foi uma das tônicas da noite. Acompanhados de Igor Amadeus (o filho de Max cujo batimento cardíaco ainda no útero abre o disco homenageado no show, o fundamental Chaos A.D., de 1993) no baixo e Travis Stone na guitarra solo, os Cavalera mostraram porque são uma instituição do metal mundial – e, como disse ao início, é bom revê-los juntos fazendo o que sabem melhor: Iggor descendo o braço metronomicamente como um dos maiores bateristas do gênero e Max transbordando carisma gritado, incendiando o público com um vocal absurdamente intacto, em seus clássicos “Refuse/Resist”, “Slave New World”, “Biotech is Godzilla”, “Propaganda”, “Territory” e “Manifest”. Infelizmente o show foi encurtado devido a um atraso da produção, o que nos privou de ouvir a versão do grupo pra “Sympton of the Universe” do Black Sabbath, que eles vêm tocando nesse show, mas ao menos pudemos ouvir “Roots Bloody Roots”, do disco seguinte do grupo, de 1996, pra fechar o repertório no talo.
#chaosad #cavaleraconspiracy #sepultura #maxcavalera #iggorcavalera #trabalhosujo2025shows 260

Há pouco mais de um mês a dupla Magdalena Bay vem conduzindo um interessante experimento pop, lançando, quase semanalmente, duas músicas novas. Nessa sexta-feira eles chegam com mais duas (a doce “This Is The World (I Made It For You)” e a etérea “Nice Day”) que se juntam ao conjunto de seis músicas que lançaram há pouco tempo (pra quem não tá anotando, “Black-Eyed Susan Climb”, “Unoriginal”, “Paint Me A Picture”, “Human Happens”, “Second Sleep” e “Star Eyes”). Com oito músicas eles já têm um EP tranquilamente, talvez até um álbum, mas falta da um título comum que entrelace essas canções para além da estética visual, enunciada no clipe de “Second Sleep” e seguida nas artes de cada uma das músicas. Mas precisa ser uma obra conjunta? É uma fase de transição? Sobras do disco passado ou prenúncios de um novo álbum? Lançando músicas com pouco intervalo de tempo, os dois encontram uma forma esperta de manterem-se em público sem necessariamente estarem fazendo shows ou alimentando as redes sociais. É um bom teste sobre como mostrar um novo trabalho para seu público e tentar ampliá-lo sem precisar realizar um grande evento, como a expectativa do lançamento de um novo álbum ou nova turnê. O mais importante é que as músicas são boas e vasculham novos aspectos do universo musical da banda – elas são o centro dessa discussão, não há truque, gracinha ou sacada pra vender o que eles sabem e gostam de fazer.
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Luiza Lian e Bixiga 70 retomam a parceria que iniciaram no final da década passada, quando colaboraram num single conjunto que seria o prefácio do disco que a cantora paulistana lançaria no ano seguinte, caso a pandemia não tivesse adiado seu ótimo 7 Estrelas | Quem Arrancou o Céu? por três anos. Os dois artistas voltam a se reencontrar em momentos completamente distintos, mas reconectando-se num show conjunto a partir do single “Alumiô”, que faz parte da programação do aniversário de 120 anos da Pinacoteca de São Paulo. O show acontece neste domingo, às 16h, no Parque da Luz (que, por sua vez, completa 200 anos!), e é de graça! Mais informações aqui.

Courtneyzinha lançou single novo há um mês e não deu mais nenhum pio pra dizer se tem algo novo em vista ainda pra esse ano ou se só lançou “Stay in Your Lane” pra nos deixar pilhados em relação a 2026. E ela reforça o lançamento ao lançar um vídeo que fez numa sessão que gravou no estúdio do Levon Helm no fim do mês de setembro. Como essa mina é foda…
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Olha que maravilha esse Tiny Desk com o Pulp: além de reunir sua banda com direito a cordas e tudo, Jarvis Cocker ainda fez uma bela seleção pinçando músicas de diferentes fases da banda num minirrepertório que abre de forma surpreendente com “This is a Hardcore”, passa por uma das minhas favoritas da banda (“Something Changed”, que eles não têm vergonha de recomeçar depois de se confundir) e puxa uma do disco desse ano (“A Sunset”) e outra de um passado pré-britpop (“Acrylic Afternoons”). É pedir demais que o Pulp tenha ao menos um quinto da popularidade que o Oasis conseguiu em seu revival? Porque bagagem pra isso eles têm de sobra…
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Em uma semana cheia de shows já considerados clássicos e de artistas de peso, foi muito bom poder ver outro de uma artista que vem se firmando como um dos novos nomes da música internacional. A cantora e compositora Nilüfer Yanya ainda é desconhecida do público brasileiro, mas mesmo assim reuniu um bom público nesta quarta-feira para vê-la no Cine Joia. Com sua voz grave e suave e canções entre a melancolia e a doçura, ela conquistou o público – que cantou várias de suas músicas em coro – acompanhado do sax derretido de Jazzi Bobbi, que faz às vezes dos solos de guitarra com um som alongado e metálico e além de músicas encantadoras como “My Method Actor” (faixa-título de seu ótimo disco do ano passado), “Like I Say (I Runaway)”, “Wingspam”, “Call it Love” e “Midnight Sun”, ainda encontrou uma brecha para celebrar uma de suas musas, PJ Harvey, na faixa que batiza seu primeiro álbum, “Rid of Me”. E apesar do show não ter bis, Yanya desceu para cumprimentar o público ao final do show, conversando com quase todos os fãs que foram vê-la, sempre com o mesmo sorrisão agradecido que atravessou seu rosto na maior parte do show..Muito bom.
#niluferyanya #cinejoia #trabalhosujo2025shows 259

“Elegante e brutal”: a descrição que John Cale fez no pacto com Lou Reed para criar o Velvet Underground, descrita no documentário com o nome da banda dirigido por Todd Haynes em 2021, mexeu com Charli XCX a ponto de, quando foi convidada para compor uma das músicas da trilha sonora da nova versão para o cinema de O Morro dos Ventos Uivantes (dirigida por Emerald Fennell, o mesmo de Saltburn), ela chamar ninguém menos que o próprio Cale para trabalhar junto. A descrição também serve para “House”, música que marca sua nova fase cinematográfica (ela está envolvida em oito – ! – longa metragens, além de ter hypado sua conta no Letterboxd) e que ela revelou essa semana e que consagra sua parceria com o mestre do Velvet Underground e que é o avesso de sua fase dance, eternizada com o Brat que marcou o ano passado. Fino demais.
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