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Jornalismo

Imagine um ano em que nenhum filme blockbuster é lançado. Assim foi 2020 que, tirando o insistente Tenet de Christopher Nolan, nenhum outro grande filme comercial foi lançado, uma vez que os grandes filmes – e séries – fugiram da pompa industrial característica dos primeiros vinte anos da indústria cinematográfica neste século. E como eu mal conseguir ver filmes deste ano, muito menos fazer uma lista, deixei essa tarefa na mão do André Graciotti – e dissecamos esse estranho e frutífero ano para a sétima arte.

Eis a lista:

11 – Papicha
10 – First Cow
9 – Never Rarely Sometimes Always
8 – A Assistente
7 – Swallow
6 – Little Women
5 – O Homem Invisível
4 – Sound of Metal
3 – His House
2 – O Farol
1 – Retrato de Uma Jovem em Chamas

O projeto Darkside, que reúne os produtores Nicolás Jaar e Dave Harrington e fez um dos melhores discos da década passada (Psychic, de tirar o fôlego), sai de suas férias não-anunciadas e ressurge com o single “Liberty Bell”, que prenuncia um novo disco, chamado Spiral, para o primeiro semestre do ano que vem, pela gravadora Matador. E o novo single não apenas os aproxima para mais perto das canções, como tem um delicioso toque latino no final da música que dá toda um ar novo ao som da dupla.

Não custa lembrar que Jaar já lançou três discos só em 2020: dois com seu próprio nome (o introspectivo Cenizas e o multimídia Telas), além de uma segunda compilação para seus singles assinados como Against All Logic.

Canta, James Blake

O cantor e compositor inglês James Blake dedica-se à sua faceta como intérprete, que exerceu em diversos momentos desta quarentena, apresentando o EP Covers, que traz versões para Billie Eilish (“When the Party’s Over”), Stevie Wonder (“Never Dreamed You’d Leave in Summer”), Joy Division (“Atmosphere”), Frank Ocean (“Godspeed”) e Roberta Flack (“The First Time Ever I Saw Your Face”), além de uma versão para “When We’re Older”, da trilha sonora do filme Black is King, que Beyoncé lençou no meio deste ano e que Blake batizou de “Otherside”.

Coisa fina.

Kieran Hebden, o gênio inglês da eletrônica que todos conhecemos pelo apelido de Four Tet, revelou, em sua conta no Instagram, que está finalizando um disco ao lado de seu compadre Madlib, um dos principais produtores de hip hop de todos os tempos. abriu os trabalhos de seu próximo álbum, Sound Ancestors, em parceria com o compadre inglês, deve ser lançado em janeiro pelo selo do próprio produtor norte-americano e os trabalhos foram abertos com esta deliciosa “Road of the Lonely Ones”:

Que belezura.

Instigado por um comentário de um espectador, eu e Polly Sjobon explicamos a forma como organizamos nossas coleções e nossos mergulhos culturais, cada um à sua maneira: ela, arquiteta de formação, supermetódica e eu, jornalista por vocação, completamente caótico. E explicamos melhor porque nos organizamos desta forma e como isso ajuda inclusive a melhorar essa nossa capacidade de fruição no último Polimatias de 2020.

O diretor neozelandês Peter Jackson cumpre a promessa que fez quando anunciou o documentário Get Back, sobre a última gravação que os Beatles fizeram juntos, que gerou o infame e tenso filme Let it Be, e mostra John, Paul, George e Ringo se divertindo pacas enquanto gravam o que seria o disco Get Back, nas primeiras cenas que ele apresenta de seu filme, que estreará no ano que vem.

E além dessas cores e definições maravilhosas, é tão bom ver os Beatles se divertindo… Eu chorei duas vezes.

Vamos falar de quadrinhos? Juntei a necessidade de ampliar as pautas do Bom Saber, meu programa semanal de entrevistas, com a vontade de voltar a conversar com um velho amigo e convidei o jovem Ramon Vitral para falar tanto sobre sua trajetória como referência crítica brasileira nas HQs quanto para comentar a excelente fase que ele vem atravessando, tanto do ponto de vista criativo quanto do ponto de vista do mercado editorial – ele que é fruto justamente desta mudança que vem acontecido com o meio nos últimos vinte anos. E, claro, pedi para que ele desse algumas dicas pra quem quiser se inteirar mais sobre as novidades desta arte atualmente.

Mais uma vez reunidos, eu, Vladimir Cunha e Emerson Gasperin seguimos uma nova reunião do Aparelho: Jornalismo-Fumaça, desta vez partindo do compasso de espera pela vacinação para bater de frente em uma mentira contada sobre o brasileiro nos últimos anos – a de que um povo esculhambado e sem vergonha como esse fosse moralista e que abre mão de um estado forte para ficar na mão-boba invisível do mercado. No meio do caminho, falamos sobre pornografia sueca, passar a mão na bunda do guarda, mendigos empreendedores, o disco mais censurado depois da ditadura militar, Genival Lacerda, a grande lição da fábula capitalista, o fim do funk proibidão, como o Paulo Guedes parece com o Mxyzptlk, qual a relação entre jingle bell e o fim do papel, a guinada à direita (?!) de Luciano Huck, onde o comunismo deu certo, a iminência dos saques, a música de duplo sentido como música de protesto e como pagar as contas com o poder da mente.

Seguindo mais uma edição do meu novo programa dedicado às conversas sobre música, desta vez chamei outro compadre de noites de festa: o conterrâneo Luciano Kalatalo, com quem dividi as cabines de discotecagem pelo país como a dupla Gente Bonita. A festa que começamos em 2006 é o começo do papo, que inevitavelmente vai para outra de suas grandes realizações, que é a fundação de um dos fanzines mais importantes dos anos 90, o mitológico Tupanzine, além de suas novas descobertas musicais – ele que segue discotecando na quarentena, nem que apenas para os vizinhos.

O plano original da Yma era trazer o sucessor de seu ótimo disco de estreia Par de Olhos ainda em 2020, mas, como aconteceu com todo mundo, ela teve de mudar completamente de ideia. “Durante o ano, fui registrando tudo o que vinha, como vinha, sem peso, julgamento, pretensão ou expectativa, como mero exercício criativo para manter as ideias em movimento”, lembra a cantora e compositora paulistana. Estou começando o processo de ouvir com cuidado esses registros e a partir disso refletir e elaborar, se singles, disco, ou seja lá, o que virá”. Assim, encerra seu 2020 com o single “White Peacock” que, como o single que lançou no meio do ano, “No Aquário”, já estava no repertório dos shows e chega ao público em primeira mão pelo Trabalho Sujo.

Balada oitentista com leve toque psicodélico e o sax mais rasgado que você vai ouvir em 2020, o novo single, parceria da cantora com o amigo Zé Motta, já tem dois anos: “Fiquei extasiada, lia aquele conjunto de palavras e sentia um quê de misticismo. belo e surreal, ao mesmo tempo que me trazia imagens caóticas, de um concreto sujo numa cidade agitada as pessoas apressadas.. certamente me conectei de cara”, aos poucos ela compôs a melodia e juntos foram adaptando as palavras para a nova canção. “Um bom tempo depois, durante um ensaio com a banda, comecei a tocá-la na guitarra e a turma foi entrando na onda. Não demorou muito pra música entrar no repertório do show. no fim, me peguei apaixonada por ela e resolvi gravar.”

As gravações começaram no ano passado, conduzidas por seu produtor e companheiro Fernando Rischbieter. E o solo rasgado que caracteriza a faixa veio logo depois, quando o saxofonista alemão Humphrey Heim viu um de seus shows e se dispôs a colaborar. “E eu que sou perdidamente louca por saxofones, senti uma boa intuição e topei na hora”, lembra Yma. “No dia de gravar com ele ficamos um tempão refletindo sobre a relação entre o pavão do título e o solo de sax e fomos fundo – de repente ele estava ali, no estúdio, gritando. Era o pavão gritando de dentro dele em forma de solo de sax. Nunca fiquei tão arrepiada numa gravação.”

Ela comenta sobre os singles que lançou esse ano e sua relação com o próximo álbum. “Esses dois singles são experiências isoladas – e apesar de haver entre elas uma certa relação com a fase Par de Olhos, por terem estado presentes nos shows -, acho que já começam a apontar, de leve, para esses novos lugares. então certamente é um período de transição.” O disco, no entanto, ainda é um mistério: “Esse ano foi completamente atípico e assombroso, pra mim e talvez para toda humanidade. Criar, experimentar música e arte, pelo menos da maneira que eu conhecia, não pôde ser uma prioridade. A meta era manter a mente sã e imunidade lá em cima.”

Ela se aprofunda sobre sua relação com o isolamento social deste ano. “No primeiro semestre eu só enlouqueci, tive uma dificuldade imensa de me conectar com a realidade, no sentido mais literal possível. Acordava e todos os dias não estava ali. Estava fora. Fora do corpo e da mente. O medo dominava meus pensamentos. Cresci ouvindo meu pai falar em previsões catastróficas, das mais diversas linhas místicas, então meu imaginário de fim de mundo é aquele bem clichê do cinema sensacionalista, onde tudo acontece ao mesmo tempo; pandemias, o mar engolindo tudo, mercados vazios, alienígenas, crise hídrica, podres poderes, guerra civis.. Pera, agora, escrevendo assim, aos poucos, os filmes não parecem mais tão distantes, né?”, ri desesperada.

“Por acaso, fiquei uns dias sozinha em casa. Ter ficado sozinha foi crucial pra conseguir me reconectar. não apenas sozinha, mas em silêncio. Nua com aqueles pensamentos todos. Comecei primeiro a provocá-los, indagá-los e por fim aceitá-los. Acho que foi um movimento que quebrou com os padrões que eu havia criado. Depois foi tudo voltando pro lugar. Não existe fórmula, mas foi o caminho que encontrei – e assim sigo, tentando enfrentar os medos, sempre sonhando com solos de sax.” “White Peacock” está disponível nas plataformas digitais nesta sexta e terá clipe no ano que vem.