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Posso assistir mil vezes ao show que Juçara Marçal armou para transmutar para o palco seu projeto fonográfico Delta Estácio Blues que nunca vou cansar. A energia concentrada pelo quarteto formado por Juçara, Marcelo Cabral, Alana Ananias e Kiko Dinucci acerta o ouvinte sem dó numa convulsão meticulosa entre o samba, o pós-punk, o noise e a música eletrônica, neste que talvez seja o grande momento da música ao vivo no Brasil hoje. Quatro indivíduos que mal conversam com quem os assistem – só Juçara fala – mas que acertam todos os sentidos do público com a contundência que só a música pode fazer (aquele papo do Bob que dizia que “quando acerta não dói”). E não foi diferente neste sábado no Sesc Belenzinho – que bordoada boa!

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Em mais uma incursão pelo meio impresso, colaboro com uma edição especial da Rolling Stone Brasil que chega às bancas nesta semana celebrando os 40 anos do rock brasileiro dos anos 80, editada pelo compadre Pablo Miyazawa. Além de voltar ao verão de 1982, quando tudo começou no Rio de Janeiro, conversando com Evandro Mesquita, Perfeito Fortuna, Leoni, João Barone e Leo Jaime sobre o período em que o Circo Voador foi criado, a Rádio Fluminense tornou-se a primeira rádio rock do Brasil e o filme Menino do Rio espalhava a novidade carioca para o resto do Brasil, também fiz uma lista com os 80 discos mais importantes daquele período, dissecando-os um a um – além de reunir os principais hits do período em uma playlist feita para a revista. Parte do conteúdo já está online, como a reportagem sobre o verão de 1982 e a resenha sobre o primeiro disco da Blitz, mas a maioria dos textos só dá pra ler na versão impressa.

O grande disco de 2021, Delta Estácio Blues, não encerra-se nas onze faixas que o compõe e sua autora Juçara Marçal expande-o a partir desta quinta-feira, quando revela EPDEB, que ela antecipa a capa em primeira mão para o Trabalho Sujo. Seguindo a lógica visual do primeiro, a capa também parte de fotos de Aline Belfort com intervenções de Manuela Eichner, e o disco conta com quatro faixas que foram compostas e gravadas nas mesmas sessões de seu segundo disco solo, mas que ficaram de fora por ir além da narrativa pensada para o álbum. “Todas elas foram concebidas no mesmo processo, mas na hora da escolha de repertório, sentimos que eram faixas que, de alguma forma, já contavam uma outra história”, me explica a própria Juçara. “É claro que é muito subjetivo isso que estou falando. Funciona muito assim pra mim: o repertório, assim como a da ordem das músicas, é um jeito de contar uma história. E as decisões do que entra e do que sai é um processo de escuta muito dedicado e delicado.”

As quatro faixas incluem “Um Choro”, composta em parceria com Jadsa (que também toca guitarra na canção), que é “uma composição dela que encaixou direto na base que a gente mandou”, como lembra Ju; “Odumbiodé” que tem música de Kiko Dinucci e letra de Juçara e Rodrigo Campos; “Criei um Pé de Ipê”, minha favorita, composta por Alzira E sobre a base que ela e Kiko mandaram e “Não Reparem” parceria de Juçara com Clima – ele fez a letra, ela a música. E se você achava que Delta Estácio Blues era demais, se prepara…

Lindaço o show que o Sessa fez nesta terça-feira no Centro da Terra, preparando terreno para seu segundo disco, Estrela Acesa, que será lançado em dez dias. A princípio ele faria a apresentação apenas com seu violão, mas em cima da hora convidou Ciça Góis e Laura Rosenbaum, que o acompanharam em sua recente turnê pelo hemisfério norte, para subir ao seu lado no palco do teatro do Sumaré, deixando tudo ainda mais mágico.

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Lindo o show que o coletivo D’Águas fez nesta segunda-feira no Centro da Terra. Formado pela união das carreiras solo de Renato Gama, Izzy Gordon, Alldry Eloise e Tita Reis, o grupo ainda conta com a direção do baixista e produtor Ronaldo Gama, que convidou Lucas Rocha Freitas e Leo Carvalho para fechar este espetáculo, que ainda teve a participação do artista plástico João do Belmonte.

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Às vésperas de lançar seu terceiro álbum, Zera, bati um papo com a dupla de shoegaze fluminense Gorduratrans em mais uma edição do meu programa sobre música brasileira. Felipe Aguiar (guitarra e voz) e Luiz Felipe Marinho (bateria e voz) já vinham passando por transformações antes mesmo da pandemia, que foram acentuadas por este momento péssimo que atravessamos nos últimos dois anos, e conversamos justamente sobre como esse período reforçou o caminho que tomaram antes mesmo de 2020.

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Exausto depois do terceiro dia do Primavera Sound de Barcelona, nem filmei o Tyler the Creator porque assisti de longe, mas mesmo destruído, foram três dias mágicos que terminaram com uma missa pagã. Pulei o Gorillaz pra fritar numa improvável e soberba pista de drum’n’bass (tocada pelas DJs Crystallmess e Cõvco), pra sacar mais uma vez com o Diiv, meu primeiro show do Beach House e o vocalista do Idles botando o público todo pra sentar no chão. Mas a noite não teve outro dono: Nick Cave com seus Bad Seeds mais uma vez hipnotizou o público de Barcelona num ritual sagrado e profano, dando-se como se fosse a hóstia de sua própria missa. “Este é meu corpo, tomai e comei”, parecia dizer ao se jogar nos braços do público.

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Segundo dia do Primavera Sound fui mais de boa e com dois focos: Beck e Warpaint. Cheguei tarde e perdi o Low, a Weyes Blood e o Wet Leg (férias, né?), mas ser recepcionado pelo senhor Beck Hansen teve suas vantagens: o cara é um showman completo, tem uma cartela de hits invejável e não fica parado um segundo. Vestindo um blaser branco, ele só parava de dançar quando pegava o violão – e passeou por boa parte do Odelay e do Midnite Vultures (dois favoritos meus), além de ir de “Everybody’s Got Love Sometimes” a “Loser”, passando por “One Foot in the Grave” e “Debra”. Showzaço! As Warpaint, por sua vez, estão caminhando cada vez mais firmes para se tornar uma das melhores bandas de hoje em dia, misturando texturas pós-punk, grooves manhosos, lirismo country, melodias hipnóticas e guitarras de fazer qualquer um chorar. Que banda!

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Primeiro dia do Primavera Sound em Barcelona foi fabuloso. Vi a Faye Webster, as Linda Lindas, a MC Carol e a Kacey Musgraves tocando “Dreams” do Fleetwood Mac com a letra passando no telão para o público cantar junto. Não vi a Kim Gordon no Auditório (mor fila), mas teve Dinosaur Jr (que mandou sua versão de “Just Like Heaven”), a Sharonzinha, Yo La Tengo quebrando tudo (Fabio Bianchini surgiu no meio de “Tom Courtenay”) e o Tame Impala no céu (Kevin puxou até “Last Nite”, essa mesma). E, claro, o motivo de eu ter vindo parar aqui: a volta do Pavement, que fez 1h40 do melhor show que já vi deles na vida (já tinha visto 5). A banda tocou cinco músicas de cada disco, Stephen Malkmus é o guitar hero dessa geração e lavou a alma de indies velhos e novos. Nota 10 pra avalanche de shows (já o funcionamento do bar e a má administração daquela quantidade de gente não conseguiu nem nota pra passar de ano). Claro que filmei um monte, seguem os vídeos abaixo:

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Foto: Thaís Mallon (Divulgação)

“Que noite mais sem fim”, lamenta Gaivota Naves em “Sobressaltos”, música que a banda brasiliense Joe Silhueta lança nesta quinta-feira e que antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo, “é a mais longa estrada por qual já passei”. A faixa, um lamento andarilho que mistura sonoridades ciganas e sertanistas à levada de rock psicodélica característica da banda, é o segundo single que o grupo lança de seu segundo trabalho, Sobre Saltos y Outras Quedas, outro daqueles discos previstos para ser lançado em 2020 e que só agora começa a ver a luz do dia. De alguma forma, o clima do disco, já sentindo o peso da sombra fascista desde antes de sua gravação, também reflete o pesadelo pandêmico dos últimos anos. “Compus ‘Sobressaltos’ em 2018, pouco depois que o Bolsonaro foi eleito e ela acaba traduzindo muito do mal estar e do assombro que isso provocou na gente, a perspectiva terrível de ter que passar quatro anos com toda a corja autoritária e reaça no poder, frustrando qualquer expectativa de saúde mental nacional”, explica o vocalista, guitarrista e compositor Guilherme Cobelo. “Foi algo que literalmente tirou o sono de muita gente, perturbou mesmo. Ficamos cheios de sobressaltos e essa música acabou sendo um grito no meio de todo esse caos, dessa longa noite. Quando a banda começou a criar os arranjos foi muito no sentido de expressar esse peso e essa agonia numa atmosfera sombria, com a Gaivota cantando nas alturas, pairando sobre uma paisagem sonora de semitons e ritmos quebrados.” O disco está previsto para ser lançado no fim do mês que vem e a banda não vê a hora de voltar a cair na estrada. “Produtores, produtoras, galera que programa festival: chama que a gente tá na seca pra tocar”, intima Cobelo. Ouça a faixa abaixo. Continue