
Eis a lista com os 50 melhores álbuns de 2022 de acordo com o júri de música popular da Associação Paulista dos Críticos de Arte, do qual faço parte. A seleção reflete o quanto a produção musical brasileira ficou represada nos últimos anos e esta seleção saiu de uma lista de mais de 300 discos mencionados por mim e pelos integrantes do júri, Adriana de Barros (editora do site da TV Cultura e colunista do Terra), José Norberto Flesch (que tem seu canal no YouTube), Marcelo Costa (do site Scream & Yell), Pedro Antunes (do vlog Tem Um Gato na Minha Vitrola) e Roberta Martinelli (dos programas Sol a Pino e Cultura Livre). Eis a lista completa abaixo:
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“Há vinte anos, a palavra ‘algoritmo’ tinha um sentido comum muito diferente do que tem hoje, era uma palavra pra quem queria programar robôs, inteligência artificial através de computadores que fariam coisas grandes como conquistar outros planetas ou dominar o mundo tipo Skynet”, lembra Pedro Bonifrate, que está comemorando os 20 anos de sua carreira regravando quatro canções de duas décadas atrás, que foram registradas no EP Sapos Alquímicos na Era Espacial. Estas quatro músicas ressurgem num novo EP que, teoricamente, ainda sai esse ano. Ele já lançou duas destas regravações (“Casa com Piano” e “Radiação Verde“) e agora surge com a terceira, que ele lança oficialmente nesta sexta-feira e que antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo. “Um velho amigo e eterno nerd da física veio com essa piada sobre uma banda chamada Inteligência Artificial (I.A.) & Seus Algoritmos, que transformei nessa canção. O dia que quem sabe chegaria na letra da canção chegou faz tempo, e hoje temos várias bandas formadas por robôs e canções escritas por inteligência artificial pelo mundo afora, mas alguma já virou hit?”.
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Estive na coletiva que anunciou a volta dos Titãs em 2023, quando passam por dez cidades com os sete integrantes originais. Falei com o Paulo Miklos e com o Liminha (que toca as guitarras de Marcelo Fromer nessa turnê) em matéria para o site da CNN Brasil.
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Pode não ser nada, mas é muito suspeito: sete dos oito Titãs originais trocaram suas fotos no Instagram ao mesmo tempo nesta quinta-feira – fotos em preto e branco cuja linguagem visual as faz conversar entre si. O grupo foi reduzido a um trio nestes últimos anos, com Branco Mello, Sergio Britto e Toni Belotto respondendo em nome da banda que já foi um dos maiores fenômenos populares e artísticos do país. Mas no início dos anos 90 Arnaldo Antunes deixou a banda e foi seguido por Nando Reis, que deixou a banda dez anos depois, após a morte de Marcelo Frommer, em 2001. Em 2010 foi a vez do baterista Charles Gavin sair da banda e seis anos depois foi o vocalista Paulo Miklos que largou o grupo. Mas essa movimentação online acentua uma especulação que o grupo estaria armando uma grande turnê de volta no ano que vem. Eu iria nesse show amarradão – e você?

Curitiba pode não ter uma tradição de bandas de rock, embora alguns exemplos esporádicos mantenham essa chama acesa na capital paranaense. Um destes é o grupo Blindagem, que na virada dos anos 70 para os anos 80, conseguiu sair das fronteiras do estado especialmente por sua conexão com o poeta Paulo Leminski, que era parceiro do vocalista original da banda, Ivo Rodrigues, que faleceu há doze anos. Mas o grupo seguiu em atividade e agora preparam-se para o relançamento de seu disco de estreia, batizado apenas com o nome da banda, que foi lançado em 1981. Para voltar no tempo com novidades, os remanescentes Alberto Rodriguez (guitarra e vocal), Paulo Teixeira (guitarra e vocal), Paulo Juk (baixo) e Marinho Jr (bateria), resgataram a música inédita “Saca Marmanja”, que foi gravada para o primeiro disco mas ficou de fora e é a única colaboração de Leminski com todos os integrantes da banda. Além da versão arqueológica, que será lançada nessa sexta-feira mas pode ser ouvida em primeira mão aqui no Trabalho Sujo, o grupo também preparou um clipe com imagens da banda ao vivo na época, ainda com seu vocalista original. “Nossos últimos meses tem sido de muita expectativa, uma mais positiva que a outra”, explica o baixista Juk. “Encontrar ‘Saca Marmanja’, que pode-se dizer que foi a única obra que a banda compôs coletivamente com nosso amigo Paulo Leminski, foi um achado muito valioso. Ela ficou perdida por quase 40 anos. Chegamos a gravá-la para o primeiro LP, mas por fugir muito ao estilo do álbum, acabou ficando de fora. Nunca mais tocamos a música ao vivo, nem gravamos em nenhum álbum seguinte. E, de repente, encontrar essa gravação foi fantástico! Depois, poder ouvi-la remasterizada, mesmo se tratando de um ensaio, foi muito emocionante!”.
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Que notícia pesada. Fuçando aqui nos meus arquivos, encontrei o vídeo de um show que Gal fez quando cobri a Flip pela primeira vez, em 2014. Já tinha visto outros shows dela e não tinha gostado do Recanto, seu disco mais recente à época, mas não tinha como não ir lá conferi-la tocando de graça na Praça da Matriz no centro de Parati. Acompanhada por um trio de meninos – Pedro Baby na guitarra, Domenico Lancelotti na bateria e Bruno Di Lullo no baixo -, ela não levou muito tempo para mostrar porque era uma das maiores cantoras do Brasil. Rever essa apresentação de “Vapor Barato” me trouxe a mesma sensação que tive ao vê-la ao vivo: a de estar minúsculo frente a uma gigante. Não consigo nem pensar em quais palavras usar para definir sua falta, por isso reforço sua presença eterna. É como ela diz na música de Jards que tornou sua: “Sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você…”
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Femme Frame, temporada de um mês que Ava Rocha deu início nesta primeira segunda-feira de novembro no Centro da Terra, foi uma expedição rumo ao processo criativo da cantora e compositora carioca. Ela começou acompanhada apenas por Victoria dos Santos na percussão, seguida logo depois pela guitarra dissonante de Gabriel “Bubu” Mayall, até que recebe a aparição mágica dos irmãos Gustavo e Tulipa Ruiz . As duas cantoras se encontraram na bela “Lilith”, composta por ambas para o disco mais recente de Ava, Trança, e se engalfinharam num dueto que culminou essa peregrinação ao cérebro de Ava. As próximas noites terão novas surpresas, não dê mole!
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O segundo dia da versão paulistana do Primavera Sound correu ainda mais suave do que o primeiro. Talvez por não ter atrações tão midiáticas quanto Arctic Monkeys ou Björk, o domingo do festival atraiu um público mais afeito ao trabalho dos artistas – ou, melhor dizendo, das artistas. O festival consagrou uma versão feminina do pop contemporâneo que se traduzia tanto no público quanto no astral coletivo, deixando tudo mais receptivo e suave, tolerante e acolhedor. O domingo foi das mulheres e mesmo que Travis Scott tenha atraído uma enorme massa para o palco do patrocinador principal (o pior palco do evento, disparado), corações e mentes foram tragados pela alma fêmea do festival, que no segundo dia foi representada especificamente por Phoebe Bridgers, Jessie Ware (o melhor show de todo o fim de semana!), Lorde e Arca.
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Saldo do primeiro dia do Primavera Sound em São Paulo? Bons shows, boa estrutura interna, preços razoáveis, som funcionando bem em todos os palcos, uma multidão gigantesca mas dócil e respeitosa, um festival confortável uma vez que você estava lá. Mas nem tudo são flores: a localização no Anhembi tornou tanto a chegada quanto a saída do festival complicada: o enorme trânsito e a distância entre os portões obrigou muita gente a caminhar bastante antes de entrar no festival, além de ficar preso em um engarrafamento que poderia ter sido evitado. A saída então foi ainda mais tensa e além do evento não ter sincronizado com o metrô a possibilidade de deixar o transporte público funcionando por mais tempo, a quantidade de pessoas esperando táxi na saída do festival fez com que as taxas dos aplicativos disparassem e muita gente ficasse sem sinal para pedir condução. A falta de sinalização (tanto dentro quanto fora do evento) e de preparo para que os funcionários pudessem indicar os locais de saída deixaram ainda mais gente perdida. E isso que eu saí antes do festival acabar…
Mas vamos aos shows.
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Sesc Vila Mariana @ São Paulo
4 de novembro de 2022
Essa sexta-feira foi especial. Dia 4 de novembro de 2022 não foi apenas a primeira sexta-feira em anos que pudemos suspirar aliviados, mas também a data que o Mestre Ambrósio escolheu para retomar as atividades. Não é exagero dizer que é uma das voltas à atividade mais importantes da música brasileira recente. Mais do que um dos principais faróis do movimento que fez com que Recife voltasse ao mapa do mainstream brasileiro, o grupo pernambucano também é um dos principais responsáveis pela revalorização da cultura popular do país – aquela que não vende discos nem toca nas rádios, nem gera plays ou likes pela internet.
É uma cultura, como o próprio Siba explicou durante o primeiro show da volta, que aconteceu no Sesc Vila Mariana, que mantém-se viva a despeito de ter sobrevivido apenas com as sobras da riqueza que entregou ao país. Uma cultura que mistura linguagens, símbolos e etnias que normalmente são associadas ao oposto do conceito de progresso (esse “progresso” destruidor que normalizou uma figura tão abjeta quanto o futuro-ex-presidente), mas que, em sua essência, são a maior vanguarda cultural já produzida por aqui. Para além do mangue beat, o Mestre Ambrósio fez renascer o orgulho ao redor destas manifestações tão rica e vê-los de volta ao palco, vinte anos depois da separação que aconteceu no início do século, mantendo a mesma formação e energia que sempre mantiveram foi de encher os olhos.
Siba, Maurício Bade, Helder Vasconcelos, Sergio Cassinado, Eder O Rocha e Mazinho Lima estavam melhores do que nunca e estão retomando uma carreira que certamente correrá o Brasil num momento em que o país tanto precisa disso. O show foi emocionante em muitas camadas e, apesar dos ingressos já terem se esgotado, vale dar uma passada um pouco antes do show começar por lá, sempre tem algum ingresso que sobra… Não irá se arrepender – isso é história sendo feita.
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