
Fazia tempo que um show não me emocionava tanto. Ver Edu Lobo às vésperas de completar 80 anos entregando-se a um repertório ao mesmo tempo mágico e intenso, tanto do ponto de vista temático quanto musical, me proporcionou uma sensação que há muito tempo não tinha, quando nostalgia e lembranças pessoais misturam-se à importância de uma obra com mais de 60 anos de idade e algumas canções tatuadas em nosso inconsciente como só hinos e orações conseguem se embrenhar. Com uma banda à sua altura – o maestro Cristóvão Bastos ao piano, o preciso Jurim Moreira na bateria, o gigante Jorge Helder no contrabaixo acústico e o grande Mauro Senise nas flautas e sax -, Edu ainda contou com o vocal e presença de palco deslumbrantes de Vanessa Moreno que, mesmo que caçula ao lado de mestres, estufou o peito e fez-se enorme. E olha que do lado de Edu Lobo isso não é fácil, afinal estamos falando de um compositor que é o ponto de convergência entre Chico Buarque e Tom Jobim, um lugar única na música brasileira – e do mundo. Mas ao contrário de seus compadres, Edu solta-se completamente no palco, deixando a timidez ou o tédio da labuta diária em último plano para encontrar com todos que vieram o reverenciar. E desfilou sua magnitude entre obras-primas de seu lado épico (“Casa Forte”, “Ave Rara”, “Vento Bravo”, “Zanzibar”, “Corrupião”) com suas celebrações à canção popular (“No Cordão da Saideira”, “Frevo Diabo”, “Choro Bandido”, “Gingado Dobrado”), suas deslumbrantes canções de amor (“A Mulher de Cada Porto”, “Noite de Verão”, “Sobre Todas as Coisas”, “Canto Triste” e “Pra Dizer Adeus”, desabei nessas duas últimas) e o cortejo do Circo Místico que ergueu com Chico (“Na Carreira”, “A História de Lily Braun”, “Ciranda da Bailarina” e “Beatriz”, esta acompanhado apenas do piano de Cristóvão), além de seus hits imortais (“Ponteio”, sua versão para “Trenzinho Caipira” de Villa-Lobos e “Corrida de Jangada”, que encerrou o show). Isso tudo completamente à vontade para brincar com sua idade, comemorar a inelegibilidade do “imbroxável”, como zombou, antes de levantar os dedos fazendo o L de Lula (para deleite do público), saudar seus velhos camaradas e elogiar a jovem cantora que o acompanhou nesta noite, além de apresentar uma música inédita, “Silêncio”. Um show para lavar a alma e começar bem a segunda metade de um ano que está sendo incrível.
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Sem lançar nada desde seu primeiro disco de inéditas deste século, Damage and Joy, que marcou o retorno da banda em 2017, o grupo escocês Jesus & Mary Chain quebra o jejum e anuncia seu terceiro disco ao vivo, Sunset 666, que será lançado no início de agosto. O registro vem de antes da pandemia, quando a banda abriu para o grupo Nine Inch Nails em uma temporada de seis datas no Hollywood Palladium, em Los Angeles, nos EUA, em dezembro daquele ano e as 12 primeiras faixas do álbum são da última aparição do grupo nesta leva de shows, no dia 15 de dezembro (as outras cinco são do show do dia 11). Entre as canções está o primeiro single do álbum, “Sometimes Always”, versão ao vivo para a canção do disco de 1994, Stoned & Dethroned, em que o vocalista Jim Reid dividia os vocais com Hope Sandoval, do Mazzy Star. Na nova versão, quem assume o vocal feminino é a ex-vocalista do grupo conterrâneo Belle & Sebastian, Isobel Campbell, que também canta na faixa “Black and Blues”, gravada no disco de 2017 com a vocalista Sky Ferreira. O disco já está em pré-venda e a ordem das faixas pode ser vista abaixo, bem como o primeiro single pode ser ouvido: Continue

“Essa música é sobre a Casa do Mancha, mas podia ser sobre o Picles também”, comentou o guitarrista Vicente Tassara antes de começar a minha música favorita de sua banda, os Pelados, “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, quando se entregam ao transe do épico de quase oito minutos sobre a falta de adequação em ambientes públicos. E, realmente, tocando em mais uma edição lotada do Inferninho Trabalho Sujo, a banda fez jus à vibe da canção, da festa e do sobrado da Cardeal Arcoverde, reforçando a importância deste novo momento em que finalmente podemos estar numa pequena multidão e nos sentir bem novamente, quentes no inverno, acolhidos entre amigos, todo mundo doido e ouvindo música no talo. Foi uma boa forma de comemorar a boa notícia dessa sexta (sem precisar citar nomes, você sabe) e encerrar o primeiro semestre deste 2023 que até aqui tem sido um ótimo ano. E a festa foi daquelas, pra variar, mas quem foi sabe…
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Na edição da vez do meu programa sobre jornalismo, convido o casal Amanda Mont’Alvão e Vinicius Castro para contar a história do site Sounds Like Us bem quando eles comemoram aniversário. É a deixa para falar de um site escrito a quatro mãos e baseado em um jornalismo que cobre música de forma afetiva, inspirado mais pelas referências e memórias de seus autores do que por ganchos propriamente noticiosos. Conversei com os dois sobre a origem do site, como ele funciona como uma comunidade e sobre os planos futuros – além de dar uma cutucada pra que um deles possa acontecer e logo. A festa de aniversário acontece no Fffront, com direito a karaokê ao vivo de rock dos anos 90 com a banda Twinpines. O Fffront fica na rua Purpurina, 199, na Vila Madalena, e a festa acontece no dia 1° de julho de 2023 a partir das 19h, mais informações aqui).
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Mais uma edição especial da Rolling Stone Brasil a que presto meus serviços e desta vez temos uma revista inteirinha dedicada a discos que completam 50 anos neste 2023. Escrevi sobre o principal disco de 1973, o cinquentenário que adorna uma das capas da edição com lombada quadrada que chega às bancas esta semana, com oito páginas dedicadas à história do disco-símbolo do Pink Floyd, Dark Side of the Moon. Também passeei por outros tantos discos gringos e nacionais, dividindo as páginas mais uma vez com os compadres Marcelo Ferla, Pedro Só e Pablo Miyazawa, este último no comando desta embarcação épica: falei sobre meu disco favorito do João Gilberto (o disco que muitos conhecem como sendo seu álbum branco), o Let’s Get it On do Marvin Gaye, o Future Days do Can, o Quem é Quem do Donato, o Berlin do Lou Reed, p disco do Pessoal do Ceará, o Head Hunters do Herbie Hancock, o ex-Calabar do Chico, o do Edu Lobo que tem “Missa Breve” e outras dezenas de discos. Isso que eu nem falei dos discos que meus chapas escreveram (como a estreia dos Secos e Molhados, que o Ferla escreveu para a outra capa da revista) – é muito disco bom pra um ano só, diz aí…

Na nova edição do meu programa sobre HQ lá do meu canal no YouTube, aproveito o lançamento do mais novo livro de Allan Sieber – seu primeiro trabalho infantil, As Sete Vidas do Gato Jouralbo, lançado pela Bebel Books – para conversar sobre sua trajetória nesta área. Sieber volta no tempo para lembrar do pai que lhe apresentou às artes gráficas, suas primeiras inspiirações, a descoberta da autopublicação pré-internet com seu clássico fanzine Glória! Glória! Aleluia!, suas incursões pela animação no comando da produtora Toscographics, a influência da paternidade em sua obra e como ele paga suas contas atualmente (tanto com seu diário online, quanto com a venda online de suas telas). Aproveito a deixa para falar sobre as semelhanças entre animação e quadrinhos, a dificuldade tecnológica para desenhar no computador e pinçar palavras de encorajamento para quem está pensando em viver desta arte. Allan lança seu novo livro neste fim de semana em São Paulo: nesta sexta, dia 30 de junho ele estará na Livraria Miúda, autografando seus livros a partir das 16h, e no dia 1° de julho, sábado, estará no Sesc Pompeia, quando participa de um bate-papo com a Bebel Abreu (da editora Bebel Books) e com outra lenda-viva do quadrinho brasileiro, Fábrio Zimbres, a partir das 17h30.
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O que acontece quando um agente da história também é testemunha ocular desta? Uma das possíveis respostas está em mais uma escavação que Paul McCartney faz em seus arquivos, quando torna públicas em uma exposição e um livro as fotos que fez com sua câmera Pentax no momento em que os Beatles se transformaram num fenômeno transnacional. 1964: Eyes of the Storm, lançado nesta mesma semana em que a exposição com o mesmo nome é inaugurada na National Portrait Gallery em Londres, na Inglaterra, reúne quase 300 fotos inéditas que Paul fez no início daquele ano, quando sua banda deixa de ser um fenômeno isolado do Reino Unido e passa a fazer sucesso no resto da Europa e nos Estados Unidos. As fotos mostram o ponto de vista oposto da beatlemania: lá estão as garotas berrando, os shows lotados e todo mundo tirando fotos do grupo, mas também podemos ver registro dos quatro pós-adolescentes se divertindo enquanto encantavam o mundo pela primeira vez. São fotos capturadas em seis cidades (Liverpool, Londres, Paris, Nova York, Miami e Washington) e resgatadas do acervo de Paul por um dos pesquisadores dedicados a passear por sua coleção – a maioria destas imagens nem o próprio McCartney havia visto depois que as registrou. O livro já está à venda, bem como os ingressos para quem conseguir estar na capital inglesa até o dia 1° de outubro deste ano.
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Ainda não sabemos se o Blur toca no Brasil esse ano – nem se toca no Primavera ou no Popload -, mas o grupo inglês tem compromisso marcado neste julho com o lançamento de seu novo disco de inéditas, cuja expectativa aumenta com uma música nova: “St. Charles Square”, o segundo single de The Ballad of Darren, talvez seja o mais próximo que o grupo liderado por Damon Albarn tenha chegado de volta à sonoridade que o tornou popular nos anos 90, o britpop. A principal diferença é a força das guitarras de Graham Coxon, que nunca soaram tão barulhentas quanto nessa nova música.
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Panteras, formigas, zebras, aranhas, crocodilos, abelhas, hienas, leões.. Letrux abriu a jaula das faixas de seu terceiro disco, que lança nessa sexta-feira, entregando o mundo animal que pauta Letrux Como Mulher Girafa, entregando inclusive a participação especial do álbum, Lulu Santos. E entre as canções inteiras, pequenos intervalos que funcionam como ensaios meio making-of de momentos mais intimistas entre os integrantes da banda, num disco que brinca de parecer frágil para não entregar toda sua força de cara (minha favorita é “Louva Deusa”, com as gaivotas que antecedem um verso que vai fazer todo mundo se identificar). Aproveito a deixa para ressuscitar uma matéria que fiz pro site da UBC quando ela estava lançando o ótimo Aos Prantos, lançado no fatídico 13 de março de 2020 que nos arremessou num dos abismos (o pandêmico) que caímos nos últimos anos. A pauta abordava a forma como a cantora e compositora carioca lidava com as redes sociais, ao mesmo tempo em que o então novo disco tocava em feridas que se tornariam ainda mais densas à luz daquela nova realidade que nem sabíamos que enfrentaríamos (a entrevista foi feita antes do lançamento do disco). Daí o assunto da conversa com Letícia ter sido estranhamente premonitório, pois conversamos sobre saúde mental e o uso das redes sociais.
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“Agora, vamos ver e ouvir um artista que, segundo ele, já transou com deus e o lobisomem. Ele vem da Bahia. Fez uma carreira rápida e cheia de sucessos marcados. Ele é Krig-ha, Bandolo! Ele é Ouro de Tolo! Ele é Mata Virgem! Abre-te Sésamo! Ele é Raul Seixas!”, assim a apresentadora da TV Cultura Aizita Nascimento anunciou a atração que encerraria o penúltimo dia do festival Música na Praia, que aconteceu na praia do Gonzaga, em Santos, no litoral paulista, entre os dias 7 a 14 de fevereiro de 1982, neste que seria um show histórico para a biografia do cantor, à época com parcos 38 anos. Com a mudança de ares da nova década, o bruxo baiano parecia ter sido ultrapassado e as vendas de seus discos caíam à medida em que as gravadoras, rádios e TVs pareciam ter perdido interesse em sua figura.
O festival santista traria shows de nomes consagrados (Erasmo Carlos, Benito di Paula, Zé Ramalho, Wanderléa) e novatos (Joanna, Roupa Nova, entre outros) e sua principal atração anunciada era Elis Regina, que morrera no dia 19 de janeiro daquele ano. A organização do festival preferiu não buscar nenhum outro nome para substituí-la (optando por um tocante momento em que um microfone era iluminado sozinho sem que houvesse mais ninguém no palco, enquanto tocava-se “Fascinação” no som do evento), o que tornou o show de Raul o mais disputado da semana. Reunindo mais de cem mil pessoas numa apresentação coalhada de hits (“Roque do Diabo”, “Trem das Sete”, “Abre-te Sésamo”, “Maluco Beleza”, “Al Capone”, “Sociedade Alternativa”, “Como Vovó Já Dizia”, “Aluga-se”, “Metamorfose Ambulante”, entre várias outras) , Raul fez um dos maiores shows de sua carreira que, por ter sido transmitido pela TV, acabou tornando-se um disco pirata clássico de sua discografia, item raro entre colecionadores atualmente.
“Essa época caótica que nós tamos vivendo aqui é prenúncio de um novo tempo! Tem que ser! A gente não para”, bradou no meio do show uma frase que poderia tranquilamente ser dita em 2023. A repercussão deste show fez com que Raul voltasse à boca das pessoas e no ano seguinte ele era contratado pela Rede Globo para compor a música-tema do especial infantil Plunct, Plact, Zuuum, tornando a faixa “Carimbador Maluco” seu primeiro grande hit da década. Se estivesse vivo, Raul, que morreu em 1989, completaria 78 anos e para comemorar o aniversário, o canal oficial do maluco beleza no YouTube disponibilizou a íntegra em vídeo deste show numa qualidade excelente tanto de som quanto de imagem. Por isso, toca Raul!
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