
Muita gente não gosta e prefere os primeiros discos, mas a transformação que aconteceu com os Arctic Monkeys na última década não apenas pavimentou o caminho para o futuro da banda como a tirou de um beco sem saída que inevitavelmente a transformaria em uma caricatura. E foi justamente abraçando essa caricatura do roqueiro velho que Alex Turner começou a mudar a cara de sua banda, primeiro a partir do experimento The Last Shadow Puppets, que criou com Miles Kane no fim da primeira década do século. O laboratório paralelo acabou vazando para seu grupo principal e depois de um disco de rock clássico quase clichê (o excelente AM, de 2013, ainda seu melhor disco), transformou o Arctic Monkeys em um projeto de uma banda de rock em uma Las Vegas do futuro, com Alex vislumbrando a aposentadoria de um roqueiro longe dos riffs, gritos e solos de guitarra. Localizou-se em algum lugar entre o Serge Gainsbourg e as trilhas sonoras dos filmes de James Bond, em busca da excelência da canção europeia mas sem deixar seu lado inglês em primeiro plano. E o grupo reforça essa estética ao lançar o clipe de “Sculptures Of Anything Goes”, do ótimo The Car do ano passado, a mesma música quase estática que usaram para abrir o showzaço que fizeram no Primavera São Paulo do ano passado. Não é pra qualquer um…
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Anelis Assumpção lançou seu Sal em três noites esgotadas no Sesc Pinheiros – fui na de domingo, quando ela chamou a amiga Thalma de Freitas para dividir vocais em algumas canções. Quase sem conversar com o público, deixando as canções falarem por si, ela subiu um patamar nesse show, ao mostrar que mais do que uma cantora, compositora e intérprete de primeira, ela é uma estrela. Não que não soubéssemos disso, mas nessa nova apresentação ela deixou sua luz brilhar magicamente, contando com uma banda ainda mais azeitada que a que acompanhava nos anos anteriores e com um palco deslumbrante: tudo funcionando para que ela deslizasse sua voz e seu corpo acima de todos nós, tirando o fôlego do público em vários momentos. Quero ver mais!
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Com 80 anos completos, Paulinho da Viola segue com a mesma calma impecável e o mesmo ar de tranquilidade que sempre carregou por toda sua vida. O carisma recolhido passa uma impressão de timidez, mas é só uma forma de ficar à vontade ao mesmo tempo de dominar o público de forma quase passiva – e quando menos esperamos estamos envoltos por suas histórias e canções, que se misturam com a própria história do samba. Em sua apresentação neste sábado no Vibra São Paulo (o antigo Credicard Hall), ele aproveitou esse momento para contar seus causos e lembrar parcerias, citando compadres e mestres como Monarco, Cartola (cantou “Acontece” acompanhado apenas do piano de Adriano Souza), Zé Kéti, Elton Medeiros e Lupicínio Rodrigues ao mesmo tempo que mistura suas canções com as destas entidades. E longe de ser só uma celebração nostálgica, ele visitou clássicos de diferentes fases de sua carreira, dos hinos que o tornaram célebre (“Samba Original”, “Coisas do Mundo Minha Nega”, “Sinal Fechado”, “Dança da Solidão”, “Pecado Capital”, “Coração Leviano”, “Argumento”, “Timoneiro”, “Prisma Luminoso” e “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”) a clássicos mais recentes (como “Eu Canto Samba” e “Bebadosamba”) e até um samba inédito, ainda sem título, que usou para abrir a apresentação, tocando, sozinho no palco, apenas uma caixinha de fósforo. Gigante.
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Quem também nos deixou neste sábado foi a grande Sueli Costa, cantora e compositora pioneira na autoria de canções de cunho feminino, que foram eternizadas por algumas das maiores vozes de nossa música, como Maria Bethânia, Elis Regina, Nana Caymmi e Simone.

Morreu um dos gêmeos Caruso, o que fazia as ilustrações ao vivo no Roda Viva e, como seu irmão Chico (que segue entre nós), retratou tão bem as últimas décadas do país, seja em suas charges, caricaturas e ilustrações, como nas paródias musicais que fazia na vida paralela de cantor, compositor e instrumentista que levava. Ave Paulo!

E já que estou ressuscitando participações em podcasts alheios, desta vez puxo aqui minha participação no Página Não Encontrada, programa que o Pablo Miyazawa toca com o Pedro Só e com o Marcelo Ferla, em que fui convidado para falar do trabalho que fizemos conjuntamente na edição impressa mais recente da revista Rolling Stone, quando nós quatro dissecamos a discografia de quatro ícones da música brasileira que completaram 80 anos em 2022: Ferla foi de Caetano, Pablo foi de Milton, Pedro de Paulinho e eu fui de Gil. E conversamos sobre a vida e obra destes quatro pensadores brasileiros enquanto falamos sobre o processo de realizar esta edição.
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Esqueci de linkar aqui no Trabalho Sujo um papo que tive com o pessoal do Lasercast sobre o senhor Robert Crumb, ainda no ano passado. Os compadres do podcast do site Raio Laser, ótima iniciativa brasiliense de acompanhar as transformações do quadrinho mundial, Ciro Marcondes, Marcio Jr. e Lima Neto me chamaram para falar sobre um dos principais nomes da história do quadrinho mundial dentro da seção Quadrinistas Além pois traduzi alguns livros deste mestre no início do século. Um papo excelente que inevitavelmente falou sobre a influência do sujeito inclusive no quadrinho nacional.
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Anna Vis lançou sua carreira fonográfica no dia em que fez o primeiro show desta nova fase, lançando seu disco de estreia, Como Um Bicho Vê, no palco do Sesc Vila Mariana exatamente no mesmo dia em que este viu a luz do dia. E, como o próprio disco, o show foi direto e convicto, com sua autora assumindo a força deste primeiro trabalho acompanhada da mesma dupla que a ajudou a transformar suas canções em fonograma – Marcelo Cabral e Maurício Takara -, que abriram seus respectivos baixo e bateria para que ela mostrasse suas composições desimpedidamente. Além da dupla, que também produziu o disco, ela ainda contou com a presença do diretor artístico deste trabalho, Romulo Fróes, que em vez de cantar a música que participa no final do álbum (a tensa “Moribundo”), preferiu cantar “Calada”, que leva a carrega o verso que batiza o disco – Anna retribuiu a participação puxando “Numa Cara Só”, de um dos discos que Romulo lançou ano passado, Aquele Nenhum. Mas o show era dela e mesmo com essas presenças ilustres, não baixou a cabeça e apresentou-se com a mesma firmeza do disco. Quase sem trocar palavras com o público, ainda intercalou as faixas com o longo poema “Sem Vacilação”, que, como no disco, espalhou pelo repertório – a diferença é que se, no disco,os pedaços do texto foram amparados pela colagem eletrônica do produtor carioca Mbé, no show Takara e Cabral improvisaram bases acústicas para que ela recitasse o texto, criando uma conversa dinâmica e ao mesmo tempo austera com suas canções incisivas e sensíveis.
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Com o número de segundas-feiras de fevereiro reduzido pelo carnaval, deixamos para começar as temporadas no Centro da Terra em março. E para começar o ano em grande estilo, temos a presença da mestra Ná Ozzetti, que nos brinda com a primeira temporada de 2023, Três Duos e Um Trio, em que convida comparsas para passear por diferentes recantos da música brasileira. Na primeira segunda ela forma o trio do título com Fernando Sagawa (sax, clarinete e flauta) e Franco Galvão (violão), quando visitam as Dominguinhos, com arranjos próprios. Na segunda noite, o primeiro duo acontece ao lado do baixista Marcelo Cabral, quando Ná passeia pelo repertório dela e de outros autores contemporâneos. No dia 20, é a vez de formar um duo apenas com os sopros de Fernando Sagawa, quando passeiam por diferentes fases e autores da música brasileira e o último duo vem formado com o violonista Franco Galvão, em homenagem ao compositor paulista Vadico, trazendo também outros sambas do passado. Na primeira terça-feira do mês quem chega ao Centro da Terra é o quarteto carioca Oruã, liderado pelo herói independente do Rio de Janeiro Lê Almeida, que traz seu “free jazz de pobre, kraut de vagabundo, sem neurose” pela primeira vez ao palco do teatro, apresentando o espetáculo Passe. Na outra terça, dia 14, é a vez do grupo de jazz funk Bufo Borealis encontrar-se pela primeira vez com o guitarrista Edgard Scandurra, na apresentação que batizaram de Escuridão. E no fim do mês, as duas últimas terças ficam a cargo de Mestre Nico, que todos nós conhecemos por acompanhar Siba na percussão e vocal, que começa a mostrar seu trabalho solo na minitemporada De Andada no Tempo. Os espetáculos começam sempre às 20h e os ingressos para todas as apresentações já estão à venda neste link.

Um mago do saxofone, Wayne Shorter, que morreu nesta quinta-feira, foi um dos responsáveis pela transformação da música popular no século 20 e só sua presença no segundo quinteto de Miles Davis (ao lado de Ron Carter, Herbie Hancock e Tony Williams) já seria motivo para emoldurar sua biografia no panteão. Mas não bastasse isso, ele esteve nos Jazz Messengers de Art Blakey, fundou o Weather Report com Joe Zawinul, Jaco Pastorius e Miroslav Vitouš e foi colaborador de ícones tão diferentes quanto Joni Mitchell, Santana, Steely Dan e Milton Nascimento.