
Consagrando o lançamento do disco ao vivo Relicário, registro da inauguração do Sesc Vila Mariana quando João Gilberto começou os trabalhos do hoje clássico equipamento cultural há vinte e cinco anos, a apresentação Rei Sem Coroa reuniu súditos de todas as gerações da música brasileira para reverenciar nosso maior artista e pude assistir à sua terceira e última apresentação neste primeiro dia de maio. Um quinteto formado por Joyce Moreno, Alaíde Costa, Dori Caymmi, Renato Braz e Vanessa Moreno saudou o repertório clássico do pai nosso da música brasileira moderna com as condições perfeitas de temperatura e pressão – o público imóvel e em silêncio deixando lágrimas rolarem no escuro enquanto músicos e intérpretes revezaram-se no palco em formações mínimas, sempre lustrando o formato que João escolheu para sua música – somente voz e violão. Entre as canções, várias histórias e lembranças, com Alaíde lembrando do tempo em que tudo era chamado de “bossa nova” pois o nome do gênero ainda era associado a um modismo passageiro, Joyce citando testemunhas que viram João sapatear – e bem! – e Dori fazendo a conexão de seu pai Dorival com nosso mestre.
A novata do grupo Vanessa Moreno abriu a noite com três orações obrigatórias deste rosário – “Corcovado”, “Samba de Uma Nota Só” e “O Pato” -, deixando sua doce voz solar equilibrando solenidade e carinho. Renato Braz pegou o violão na canção seguinte, a imortal “Bahia com H”, dividindo os vocais com Vanessa, que percutia a batida nostálgica em seu próprio corpo. Braz seguiu com “Pra Que Discutir Com Madame?” tocando apenas com um tamborim e prosseguiu com a faixa que batiza o espetáculo, “Rei Sem Coroa”, pérola de Herivelto Martins que finalmente ganhou registro oficial de João Gilberto com o lançamento de Relicário, emendando-a com “Eu Vim da Bahia”, de um dos principais pupilos dele, Gilberto Gil. Depois Braz recebeu Alaíde Costa, uma imortal da canção, que começou sua participação dividindo “Caminhos Cruzados” (de Tom Jobim e Newton Mendonça), para depois seguir ao lado de Joyce Moreno, que trocou de lugar com Renato, para dois duetos fabulosos: “Nova Ilusão” e “Retrato em Branco e Preto” (de Chico Buarque e Tom Jobim).
Depois Joyce seguiu sozinha e deslumbrante como sempre com “Desafinado” e “Águas de Março”, convidando Dori Caymmi para dividir uma mistura impecável de “Esse Seu Olhar” com “Só em Teus Braços” seguida de “Aos Pés da Cruz”. Dori teve seu momento solo cantando “Rosa Morena” de seu pai (quando improvisou a letra para avisar ao assistente de palco que a correia de seu violão havia escapulido) e “Bolinha de Papel”, até que Renato e Vanessa voltaram para cantar “Doralice” (também de Dorival). O final trouxe três faixas fora do roteiro: “Saudades da Bahia”, com os cinco no palco, “Dindi” (apenas Dori e Alaíde, numa versão maravilhosa, que abriu o bis) e “Chega de Saudade”, que encerrou a uma noite de reverência ao maior nome de nossa cultura que, como Joyce lembrou, ousou imaginar um Brasil moderno: “João pra mim ainda hoje é um Brasil possível, um sonho de Brasil, um Brasil que deveria ter sido e que algum dia será”.
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O maestro Manoel Francisco de Moraes Mello já vinha passando por um tratamento pesado por conta de um câncer, mas sua morte aconteceu neste domingo, mais uma vítima do Covid-19. Moraes começou tocando piano nas primeiras gravações de Celly Campello, trabalhou no programa O Fino da Bossa ao lado de Elis Regina e Jair Rodrigues nos anos 60 e na década seguinte tornou-se parceiro de Roberto Carlos. Também trabalhou na TV Globo fazendo abertura de programas e trilhas sonoras de novelas, além de ter atuado ao lado de praticamente todos os grandes nomes da nossa música naquele período, de Chico Buarque a Simone, passando Erasmo Carlos, Ivan Lins, Moraes Moreira, Nana Caymmi, Edu Lobo, Ronnie Von, Caetano Veloso, Zizi Possi e Emílio Santiago, entre muitos outros.

Em mais uma colaboração para o caderno Eu& do jornal Valor Econômico, escrevi sobre os bastidores da tão aguardada volta dos Titãs, que começou neste fim de semana. Conversei com os diretores da empresa novata 30E, Pepeu Correa e Gustavo Luveira, que fazem os festivais Knotfest, Ultra, Mita e GPWeek e no último ano trouxeram Jungle, Wu-Tang Clan, Killers, Two Door Cinema Club, Gorillaz, Hot Chip e Kooks para o Brasil, e eles me contaram como conseguiram convencer esse bicho de sete cabeças voltar à ativa. Continue

(Foto: Mooluscos/Divulgação)
E de novo Jadsa e Yma soltam mais uma música de seu ainda inédito projeto conjunto Zelena em primeira mão para o Trabalho Sujo. Depois que “Meredith Monk“, lançada no final do mês passado, deu a tônica entre a arte pós-moderna e a new wave, é a vez de “Mete Dance” cutucar a veia dançante desta mistura, numa faixa irresistível. “Compus ‘Mete Dance’ em 2021”, lembra a cantora baiana. “Tinha acabado de lançar Olho de Vidro e tava buscando um mantra pra não parar e me veio ela na cabeça e bem rock. Dai me veio essa necessidade de trocar com Yma por conta do disco Par de Olhos, que ela lançou em 2019, mesmo ano que eu gravei Olho de Vidro. Senti esse propósito de estarmos juntas por conta dos olhos, dos olhares.” Yma empolga-se com a lembrança: “Quando Jadsa apresentou ‘Mete Dance’ pra mim, logo no comecinho das nossas conversas sobre o projeto, estávamos ainda atravessando um período difícil da pandemia. Escutar ‘Não canse, let’s dance antes que tudo caia’ deu uma levantada total no astral. Eu adoro como o arranjo se desenrola, tem vários elementos surpresas e interessantes como o cowbell, as guitarras mágicas do Fernando Catatau, os gritinhos e sussurros”, ri a cantora paulista. “Tem um balanço meio Talking Heads e Titãs que eu sou apaixonada e é a faixa do EP que eu mais gosto de dançar.” “Depois da gravação e produção eu vejo bem a influência de Kate Bush, na parte do final”, conclui Jadsa. “O beat me lembra muito e quem a me apresentou real foram Yma e Nando (Rischbieter, companheiro de Yma e produtor musical do projeto paralelo da dupla) na casa deles, eu fiquei muito viciada. E tem muita influência também de Grace Jones, ali no final dos anos 70. Acredito que essa musicalidade foi justamente essa de não podemos parar, temos que continuar”.
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Quarta é dia de documentário sobre música brasileira no Centro da Terra graças à parceria que fizemos com o festival In Edit e nesta última quarta de abril o assunto da noite é a história incrível de um dos nomes da música brasileira mais ativos durante os anos 70, seja nos palcos e discos – em trabalhos com os grupos Som Imaginário e Joelho de Porco e do trio Sá, Rodrix e Guarabyra – ou nos bastidores, José Rodrigues Trindade ajudou a erguer uma outra música brasileira que ia para além da bossa nova, do samba e da tropicália. No documentário, O Fabuloso Zé Rodrix, o diretor Léo Cortês conta a trajetória desta figura ímpar em nossa cultura com cenas da época e depoimentos de comparsas como Flávio Venturini, Moacyr Franco, Miguel Paiva, Ney Matogrosso, Wanderléa, Ronnie Von, Bibi Ferreira, Nasi, Cláudia Raia, Silvio de Abreu, Luiz Thunderbird, Caçulinha, entre muitos outros. O filme começa a ser exibido a partir das 20h, os ingressos podem ser comprados neste link e o trailer pode ser visto abaixo.
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Alessandra Leão e Rafa Barreto encerraram a minitemporada de retorno de sua banda Punhal de Ferro, que celebra os clássicos da psicodelia nordestina dos anos 70, em uma noite mágica nesta terça-feira no Centro da Terra. Não bastasse revisitar no formato guitarra e voz (ou rabeca e voz) músicas de nomes como Ave Sangria, Alceu Valença, Zé Ramalho, Cátia de França e Geraldo Azevedo, os dois ainda contaram com as presenças esotéricas de Siba e Josyara, que diviram canções épicas como “Molhado de Suor”, “Coito das Araras” e “Sol e Chuva”. E Alessandra encerrou filosofando sobre o estado de experimentação do teatro: “Semana passada a gente tava conversando depois do show e eu disse que o Centro da Terra é um lugar que a gente faz um pacto, que a gente pode cair que ninguém quebra os dentes, ninguém se machuca”, contou. “Mas é um pacto que não só entre quem tá aqui no palco e quem tá aqui trabalhando, mas também com quem vem assistir também.” Bem sabemos 🙂
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Retomando as atividades do meu programa sobre jornalismo, entrevisto desta vez o querido Phelipe Cruz, que há anos transformou um blog pessoal em uma dos mais importantes veículos de cultura pop no Brasil. À frente do Papel Pop, do podcast Um Milkshake Chamado Wanda e da festa VHS, ele conseguiu reinventar parte do jornalismo de entretenimento no Brasil ao fugir de uma série de clichês que ainda acompanham este formato, influenciando novas gerações de leitores, ouvintes e fãs ao mesmo tempo em que mexia com as estruturas do próprio jornalismo convencional. Às vésperas de lançar um jornal diário em vídeo do Papel Pop, ele conta o que aprendeu com a imprensa tradicional, com a vida na internet e com os padrões corporativos para deixar sua marca tão consistente, sem trair princípios pessoais que o acompanham desde o início, há quase duas décadas.
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Mais do que um dos primeiros nomes a popularizar a música latina – mais especificamente caribenha – no mercado norte-americano e depois no mundial, o cantor, ator e ativista Harry Belafonte, que nos deixou nesta terça-feira, foi um dos principais nomes a reunir política, cultura e artes nos Estados Unidos. Além de ter sido o primeiro cantor negro a ganhar um Tony e um Emmy, ele também tornou-se parceiro de Martin Luther King na luta pelos direitos civis nos EUA e foi um dos primeiros artistas afrodescendentes a apoiar causas no continente africano (morou anos no Quênia e foi um dos principais ativistas contra o apartheid na África do Sul, além de ter sido um dos principais articuladores do movimento USA for Africa, que reuniu dezenas de artistas nos anos 80 para gravar o disco “We Are the World”).

Jadsa encerrou seu Big Buraco no Centro da Terra com duas sumidades no palco: primeiro chamou Juçara Marçal, que trouxe sua kalimba, e depois Alessandra Leão, no toque de seu tambor. As surpresas ficaram por conta da vinda do compadre e conterrâneo João Milet Meirelles, metade do projeto Taxidermia que os dois têm juntos, que pilotou efeitos nas vozes e instrumentos do palco desde as primeiras músicas (que Jadsa fez sozinha com sua guitarra), e da surpresa da vinda de Fernando Catatau, que subiu para fazer as últimas músicas da noite. De brinde, Jadsa saiu do palco sem fazer o bis, como é de praxe, e deixou Juçara e Catatau tocando juntos pela terceira vez “Lembranças que Guardei”, que o compositor cearense escreveu para o disco mais recente da cantora paulista. Uma noite milagrosa.
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Chico César e Geraldo Azevedo bolaram a turnê Violivoz no início de 2020, planejando atravessar o Brasil apenas com seus instrumentos naquele fatídico ano em que todos nossos planos foram mudados na marra. Passados os anos mais críticos do início da década, os dois colocaram a parceria na estrada, que havia continuado mesmo à distância (quando, inclusive, compuseram canções “onlinemente”, como brincou o pernambucano), em outubro de 2021 e desde então vêm cruzando o país misturando canções de suas próprias carreiras solo em obras conjuntas, em que os violões e as vozes dos dois casam-se como se os dois sempre tivessem criado em dupla. Os dois encerraram sua minitemporada no Sesc Vila Mariana neste domingo e abriram o show já gastando seus maiores hits sem pensar duas vezes (Geraldo puxa sua “Táxi Lunar” e Chico vai de “Mama África”). Atravessaram as mais de duas horas de autocelebração, induzindo o público a uma celebração ritualística em forma de roda de violão – ou de serenata, como quando brincaram contando inúmeros causos durante a noite. Os dois estão numa ótima fase: Geraldo com quase oitenta anos e a mesma presença e voz de sempre, Chico chegando nos 60 com o eterno ar de pré-adolescente; os dois tocando violões afiadíssimos. Revisitaram inclusive o épico álbum Cantoria, que Geraldo gravou ao lado de Elomar, Vital Farias e Xangai em 1984, cunhando o pilar da música épica nordestina que funciona como um dos principais alicerces do espetáculo. Mas nada se compara ao ápice da apresentação, quando os dois instrumentistas bradam seus violões na hipnótica trança sertaneja que é esticada durante a introdução de “Bicho de Sete Cabeças”, colocando a música em um lugar central e imponente desta genealogia musical, num dos momentos instrumentais mais intensos dos palcos desta década. Esse show é uma joia – não o perca de vista.
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