Trabalho Sujo - Home

Jornalismo

Era inevitável e os ingressos estão quase no fim: depois da comoção (pro bem e pro mal) da apresentação em que Caetano Veloso tocou seu clássico disco de 1972, Transa, ao vivo, no Rio de Janeiro – acompanhado de ninguém menos que Jards Macalé, Tutty Moreno e Áureo de Souza -, o show inevitavelmente ressurgiria em São Paulo. E não é dentro de festival nem nada: o espetáculo acontece no dia 25 de novembro no antigo Espaço das Américas (agora Espaço Unimed) e a versão paulistana ainda conta com a presença de Angela Rô Rô, que também tocou no mitológico álbum gravado em Londres. Os ingressos estão acabando (garanta logo o seu neste link), mas algo me diz que vai ter uma nova data (e se tiver no domingo talvez eu consiga assistir). Fora que isso é show pro Caetano rodar o Brasil todo, com público sentado, em teatros, como deve ser.

Acabaram de ser anunciados os locais e datas das atrações do Primavera na Cidade, shows que antecedem o festival Primavera Sound São Paulo que acontece no primeiro fim de semana de dezembro. São doze atrações nacionais e internacionais que se dividem entre o Áudio e o Cine Joia e cujos ingressos estarão disponíveis primeiro para quem comprou a opção “passaporte” na hora de pegar os ingressos da edição brasileira do festival catalão. A primeira noite do Primavera na Cidade acontece no Cine Joia, quando o grupo paulistano Pluma abre para o aguardado show do grupo experimental Black Midi, no dia 29 de novembro. No dia 30, são dois lugares ao mesmo tempo: o Cine Joia recebe o mitológico grupo inglês Slowdive, com abertura do grupo curitibano Terraplana, enquanto o Áudio tem shows exclusivos do mais famoso filho de Fela Kuti, quando Seun Kuti e sua banda Egypt 80 encerram uma festa que começa com o DJ carioca Carlos do Complexo e a visceral cantautora mineira Bia Ferreira. No primeiro dia de dezembro, o Cine Joia recebe o grupo indie canadense Metric, com abertura da produtora de música eletrônica colombiana Lucrecia Dalt e o Áudio traz Róisín Murphy fechando uma festa que ainda terá shows da diva Luiza Lian e do DJ Playero, portorriquenho que é um dos papas do reggaeton. Os ingressos para o público que não comprou ingressos para o Primavera começam a ser vendidos a partir do dia 14 de novembro – e tem mais informações sobre isso lá no site do festival.

Sentindo falta do Inferninho Trabalho Sujo, né? Pois não dá pra terminar esse intenso setembro sem aquecer corações e mentes mais uma vez lá no Picles, reunindo outras duas bandas que, quem conhece sabe: a primeira delas é o Fernê, que reúne Chico Bernardes, Manu Julian e Theo Cecato em uma avalanche de noise e doçura, enquanto a segunda, Madrugada, reúne os irmãos Dardenne, capos do Seloki, à Paula Rebelatto do Porta, em um transe kraut da pesada. E como de praxe, depois dessas duas surras de som alto é a vez de queimar a pista até se acabar de felicidade comigo e a Fran misturando R&B, pop brasileiro, música eletrônica, indie rock, K-pop e o que mais der na nossa telha! Lembrando que quem chegar antes das 21h não paga para entrar e que o Picles fica no número 1838 da Cardeal Arcoverde, no coração de Pinheiros. Vamos que vai ser épico!

Sobre conexões

Enio começou sua série Encontros Híbridos nesta terça-feira no Centro da Terra, quando desfilou seu repertório ao lado de músicas de seu convidado da vez, o pianista pernambucano Zé Manoel, de quem visitaram juntos “Adupé Obaluaê” e “Canção e Silêncio”. Mas o baiano aproveitou a oportunidade para reverenciar a Bahia por muitos de seus autores, intérpretes e sonoridades, passando por “Sorte” (de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, eternizada por Gal e Caetano), “Me Abraça e Me Beija” (do mestre Lazzo Matumbi, canonizada pela atual ministra da cultura Margareth Menezes) ou “Emoriô” (de Gilberto Gil e João Donato), além de reverenciar Letieres Leite e Olodum (lembrado na eterna “Deusa do Amor”). Enio também mostrou as músicas de seu primeiro disco que ainda não se materializou, tocando diferentes instrumentos (guitarra, teclado, baixo) e disparando beats quando mostrou que seu cancioneiro também avança pelo hip hop e pela música eletrônica. Mas um dos grandes momentos do encontro ocorreu logo no início da noite, quando o anfitrião e seu convidado dividiram uma das músicas mais agudas do pianista, a infelizmente atual “História Antiga”.

Assista aqui: Continue

Maior satisfação receber o encontro entre o baiano Enio e o pernambucano Zé Manoel, que misturam seus repertórios num show único nesta terça-feira no Centro da Terra, como parte dos Encontros Híbridos idealizados pelo primeiro. Este, parceiro de artistas como Larissa Luz, Marcia Castro, Luedji Luna e Xênia França e entre outros, encontra-se com o consagrado pianista que já colaborou com nomes como Juçara Marçal, Vanessa da Mata, Amaro Freitas, Letieres Leite e Tiganá Santana. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

O banco dono do melhor festival de São Paulo desse ano até agora já mandou avisar que a edição de 2024 tá com data marcada. A primeira edição do C6Fest esmerilhou bonito ao trazer atrações tão diversas quanto Weyes Blood, Kraftwerk, Jon Batiste, Samara Joy e Tim Bernardes cantando Gal (mas pecou por separar públicos e palcos uns dos outros com ingressos carésimos) acontecerá nos dias 18 e 19 de maio do ano que vem, marcando uma redução de um dia em relação à versão deste ano. O anúncio também não menciona se haverá edição no Rio de Janeiro, já que o famigerado “save the date” (quando vamos voltar a falar português?) só mencionava São Paulo, mas também não sabemos se seguirá no Ibirapuera. Não há nenhuma especulação sobre atrações, mas entre os nomes que acho que tem a ver com o festival que queria que viessem para cá cogito Kali Uchis, Blur (só pra dar uma cutucada no Primavera haha), Neil Young, Boygenius (nem curto, mas o show deve ser massa) e Aphex Twin (com Arca, de repente?).

Se na penúltima apresentação de sua temporada Águas Turvas no Centro da Terra Dinho Almeida reuniu sua família de escolha, juntando amigos/vizinhos para uma jam onírica em torno de seu novo repertório, nesta última segunda-feira de setembro ele embarcou em uma viagem ainda mais cossangüínea ao convidar sua irmã Flávia Carolina para entoar suas canções. E não só as de Dinho, mas também as dela e inclusive uma do pai dos dois, finalizando a temporada no mesmo tom terapêutico esteve presente nessas noites. A entrega superou as expectativas: as vozes dos irmãos têm um encaixe perfeito, mesmo com timbres parecidos, e o ritmo de Flávia, que por vezes alternava instrumentos de percussão, explicava a mão direita de Dinho na guitarra, tornando riffs e acordes quase sempre pulsantes. Uma noite linda de uma temporada transformadora. Voa, Dinho!

Assista aqui: Continue

Quem ressurgiu nos palcos este fim de semana foi nossa musa PJ Harvey, que, mesmo tendo lançado disco novo este ano – o denso e enigmático I Inside the Old Year Dying – não havia entrado em turnê desde 2017, quando passou inclusive por São Paulo, fazendo shows de seu solene The Hope Six Demolition Project, lançado um ano antes. E além de tocar o disco novo na íntegra em duas apresentações em Dublin, ela dedicou metade do show aos grandes momentos de sua carreira, com versões avassaladoras para “Send His Love to Me”, “Man-Size”, “Dress”, “Down by the Water” e “To Bring You My Love”, entre outras. Assista a alguns vídeos que já apareceram online e veja o setlist completo abaixo: Continue

O público da edição de 2023 do Farm Aid, festival decano que arrecada fundos para os trabalhadores rurais familiares nos Estados Unidos, esperava que o evento fechasse, como sempre, com uma apresentação final de seu idealizador, o guru country Willie Nelson. Mas qual foi a surpresa deste quando, antes do festival acabar, neste sábado passado, surgem as silhuetas de uma banda liderada por uma figura toda de preto e de cabelos despenteados, sem a bandana vermelha ou barba grisalha que marcam o fundador do evento. Aos poucos o público percebeu que era ninguém menos que Bob Dylan, fazendo uma rara aparição surpresa e, ao contrário do que tem feito na turnê de seu disco mais recente, tocando guitarra e de pé – em vez de estar sentado ao piano. Dylan é o responsável indireto pela existência do festival, pois comentou, durante o festival Live Aid, realizado no meio dos anos 80 para arrecadar fundos para acabar com a fome na Etiópia, que seria interessante se alguém fizesse isso nos EUA pensando na agricultura familiar, que vivia o início de sua decadência com a chegada agressiva do agronegócio. Willie Nelson pinçou a sugestão e uniu-se a Neil Young e John Mellencamp (os dois apresentaram-se na edição deste ano) para criar o evento que, em sua primeira edição, contou com a presença do velho Bob, em 1985. Em sua aparição surpresa, Dylan voltou para clássicos de seus anos mais emblemáticos e enfileirou três hinos: “Maggie’s Farm”, “Positively 4th Street” e “Ballad of a Thin Man” . Acompanhando-o, nada menos que três quintos dos Hearbreakers de Tom Petty: o guitarrista Mike Campbell, o tecladista Benmont Tench e o baterista Steve Ferrone, que não tocam juntos desde que seu líder deixou nosso plano. Dylan chegou a sentar-se numa banqueta quando chegou na última música (82 anos, bicho!), mas manteve o tom apocalíptico que lhe é característico, destruindo os arranjos originais de suas músicas em versões que passam pela gente com um trem de carga ou uma manada de búfalos. Ave, mestre!

Assista abaixo: Continue

O velho Neil Young segue firme e forte, inclusive nos palcos. Em plena turnê pelos Estados Unidos, um dos maiores nomes da história do rock pousou no mitológico Roxy Theater, em Los Angeles, na quarta passada, para uma celebração dupla: era o aniversário da casa de shows, que completava 50 anos naquele 20 de setembro, que abriu justamente com uma apresentação do bardo canadense, então acompanhado pela banda Santa Monica Flyers. Desta vez ele voltou ao palco angeleno com seu clássico grupo Crazy Horse (com uma pequena mudança na formação, quando o guitarrista Nils Lofgren, que não pode comparecer, foi substituído pelo filho de Willie Nelson, Micah Nelson) e puxou não apenas um, mas dois discos clássicos tocados na íntegra: os soberbos Tonight’s the Night (de 1975) e sua estreia solo Everybody Knows This Is Nowhere (de 1969), de onde pinçou a estreia ao vivo de “Round and Round (It Won’t Be Long)”, que nunca havia sido tocada num palco. E é claro que almas heróicas estiveram presentes registrando esse momento para a posteridade, embora não tenha encontrado quem filmou o show inteiro. Seguem os vídeos que achei e o setlist dessa noite maravilhosa (e, porra, ninguém vai trazer o Neil Young pra cá de novo?): Continue