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Caos desembestado

Sexta-feira foi dia de um Inferninho Trabalho Sujo pautado pelo acaso e pela criação espontânea, quando os três artistas reunidos na Porta Maldita só tinham uma regra como repertório – como chegar do silêncio do início ao silêncio do final deixando suas ferramentas musicais expandirem o som de forma intensa e desenfreada. A noite começou com os Giallos percorrendo esse percurso com bateria, percussão, theremin, guitarra e trombone, com o vocalista Cláudio Cox soltando sua verborragia e suas maracas num spoken word tenso e agressivo, que ainda contou com a participação do saxofonista do Naimaculada, Gabriel Gadelha, convidado para participar da segunda parte do show. Free jazz com rock de confronto na veia.

Depois dos Giallos foi a vez do Pode Tudo Mas Não Pode Qualquer Coisa, projeto de improviso livre puxado pelos Fonsecas e quem eles quiserem chamar no dia. Como o baixista Valentim Frateschi estava no Rio de Janeiro, eles convidaram o baixista Julio Lino – uma espécie de Thundercat alto astral -, um monstro do baixo de seis cordas, e, de quebra, a tecladista Júlia Toledo e os seis foram do rock desembestado ao jazz funk, com Thalin tinindo jazzman na bateria, Felipe Távora solto entre os vocais e os efeitos e Caio Colasante levando sua guitarra para muito além do rock, num encontro que pareceu que durou horas – ou segundos – enquanto chegou em uma hora de improviso.

A noite encerrou com o dono da casa, Arthur Amaral, experimentando uma nova versão de seu projeto Tranze, que contou com o baterista do Naimacuiada, Pietro Benedan (entre o jazz, o rock e o drum’n’bass!), que tocou pela primeira vez com o guitarrista Arthur Sardinha, o baixista Rafael Penna e o tecladista Lukas Pessoa, da banda Monstro Enigma, num encontro liderado pela pregação anticonformista de Arthur – trajando um jaleco – que deixou todo o flow Doors dominar a noite num caos desembestado. Terminei os trabalhos discotecando faixas improváveis como “A&W” da Lana Del Rey, “Dogs” do Pink Floyd e “Crazy Rhythms” dos Feelies para o público que ficou na casa até quase o sol raiar. Noitaça!

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Nessa sexta-feira tem mais Inferninho Trabalho Sujo na Porta Maldita, quando reunimos três bandas que trabalham na base do improviso livre de natureza rock, com muito noise, microfonia e caos sonoro. Os Gialos já são uma banda clássica, o Tranze é o projeto beat do dono da Porta Maldita, o grande Tuta, e a bagunça do Pode Tudo Mas Não Pode Qualquer Coisa, reúne integrantes dos Fonsecas, Julio Lino e Julia Toledo. Shows completamente fora de controle, temperados pelo clima caseiro e aconchegante que só a Porta Maldita tem hoje – com discotecagem minha no final da noite. A Porta Maldita fica no número 400 da rua Luiz Murat, entre os bairros Pinheiros e Vila Madalena, e os ingressos já estão à venda neste link.

Tive que ir de novo no formidável encontro dos violões de Kiko Dinucci e Jards Macalé, que, nessa sexta-feira, fizeram um show quase idêntico ao que fizeram no dia anterior, numa apresentação menos informal – embora tenha rendido boas prosas entre as músicas, como na quinta – e um pouco menor que a anterior, talvez porque Jards tenha trocado “Mal Secreto” – que é mais extensa devido a uma citação do clássico da bossa nova “Corcovado” – por uma versão acachapante – e solitária – para “Movimento dos Barcos”, esta posta no repertório a pedido de Kiko. Escrevi sobre o show, que deverá repetir-se em algum momento em breve, em mais uma colaboração que faço para o Toca do UOL. Continue

Pavements, o metadocumentário meio fake meio real inventado por Alex Ross Perry para celebrar a história e o legado da banda liderada por Stephen Malkmus, tem operado pequenos milagres. Além de despertar um novo interesse pela banda a partir de sua segunda turnê de retorno, o filme aos poucos está transformando o Pavement na principal banda indie dos anos 90, basicamente porque o peso da tragédia que abateu-se sobre o rock alternativo da época com a notícia do suicídio de Kurt Cobain, fez todos os potenciais concorrentes ao posto saírem correndo na direção contrária: o Sonic Youth radicalizou para um lado ainda mais experimental, os Smashing Pumpkins correu em direção ao rock progressivo, ao industrial e depois até para o metal; o Teenage Fanclub lançou um disco meio soturno para depois abraçar o power pop, o Blur e o Oasis se engalfinharam numa briga besta e os Foo Fighers miraram no mainstream, de onde não saíram desde que lá chegaram, anos depois.

O Pavement percorreu uma trajetória ainda mais bissexta ao negar o rótulo de principal banda da década radicalizando ainda mais no indiesmo – seu terceiro disco, Wowee Zowee (meu favorito), é um Álbum Branco de frustração de expectativas ao mesmo tempo em que explora territórios novos para o grupo, da balada country ao hardcore, e essa guinada ajudou a colocar lenha na fogueira do documentário idealizado por Perry, que é irônico e não é irônico ao mesmo tempo e faz com que o grupo, mais de um quarto de século após seu fim, se prontifique ao posto que ninguém queria. E ao contar a história do grupo misturando com um documentário de mentira sobre a banda, um musical (!!!) no teatro e uma exposição sobre o grupo, o filme conseguiu outro grande feito, ao trazer à tona uma música que o grupo gravou nos ensaios de sua turnê mais recente, quando gravaram, de forma descompromissada, “Witchi Tai To”, canção perdida que o norte-americano de origem indígena Jim Pepper gravou em 1971 a partir de uma música que aprendeu com seu avô, um hino da Igreja Nativa Americana, que celebra o peyote como caminho para o autoconhecimento. A versão do Pavement, lançada pela primeira vez na trilha sonora do documentário que saiu nessa sexta-feira, é a primeira música que o grupo lança desde o EP Major Leagues, de 1999. O sangue do cinema tem poder!

Ouça abaixo: Continue

“E aí, doutor Kiko?”, perguntou Jards Macalé a Kiko Dinucci, que respondeu com outra pergunta (“E agora?”) prontamente respondida por Macau: “Agora foda-se”. Sabíamos que seria memorável, mas acho que nem Kiko nem Jards tinham ideia da química que baixou sobre os dois na primeira das duas apresentações que marcaram para esta semana no Sesc Pompeia. Mesmo com diferenças de geração, personalidade, origem e criação, os dois são gêmeos univitelinos no violão e dividem o mesmo humor – autodepreciativo e de um pugilismo quase fraterno – e apreço pelo baixo calão da vida, o que tornou a apresentação um acontecimento histórico. Passeando por diferentes fases do repertório de Jards, clássicos do samba e algumas canções de Kiko, os dois mostraram a força e a delicadeza de seus violões. Jards é da geração impactada diretamente por João Gilberto e seu instrumento fica entre o ritmo sincopado do mestre baiano e o suingue carioca de seu contemporâneo Jorge Ben, enquanto Kiko, guitarrista de nascença, convertido ao outro instrumento pelo samba, é diretamente influenciado pelo violão de Jards, além de trazer suas influências elétricas – do punk ao noise – para seu pinho. Mas o ponto em comum dos dois é a história do samba, visitada através de clássicos (como “Se Você Jurar” de Ismael Silva embutida em “Let’s Play That”, “Luz Negra” de Nelson Cavaquinho, “Ronda” de Paulo Vanzolini e “Favela”), e a devoção de Kiko por Jards, mencionada pelo próprio, que o perseguia por shows vazios em São Paulo quando ainda era adolescente (dele e de Itamar Assumpção, que não conheceu, como frisou). Isso deixou-o à vontade para passear com Jards em seus sambas imortais como “Pano pra Manga”, “Farinha do Desprezo”, “Boneca Semiótica”, “Depressão Periférica” e “Soluços” (esta no bis), além de duas que Jards tocou maravilhosamente sozinho: “Anjo Exterminado” e “Mal Secreto”. Kiko por sua vez fez duas de seu Rastilho sem Jards (“Febre do Rato” e “Gaba”) e lembrou que há cinco anos ele lançava seu clássico disco naquele mesmo teatro do Pompeia. Os dois ainda tocaram músicas que compuseram juntos, como “Vampiro de Copacabana” e “Coração Bifurcado”, mas tiveram um de seus melhores momentos quando emendaram “Antonico” – eternizada por Gal em seu disco ao vivo Fatal, que Jards visitou diversas vezes em diferentes momentos de sua carreira (tanto só quanto com o próprio Ismael, com Marçal e com Dalva Torres) e que Kiko vem tocando no momento acústico do show mais recente de Juçara Marçal – com uma que Jards nunca havia tocado ao vivo, “No Meio do Mato”, de seu disco Contrastes, de 1977. Um show que parece, ao mesmo tempo, um reencontro de velhos irmãos e o início de uma longa amizade musical. Sorte a nossa.

#jardsmacale #kikodinucci #sescpompeia #trabalhosujo2025shows 094

450 itens do acervo de David Lynch irão a leilão no próximo mês através da casa norte-americana Julien’s Auctions, que já oferece em seu site tudo que irá ser vendido no dia 18 de junho. E não é pouca coisa. Entre itens corriqueiros de seu dia-a-dia, como móveis, eletrodomésticos, livros, discos e outros itens de casa, ainda há joias como sua cadeira de diretor, a claquete que usava nos filmes, roteiros originais de Cidade dos Sonhos, A Estrada Perdida e Twin Peaks (quando ainda chamava-se Northwest Passage), sua versão pessoal em película de seu primeiro filme, Eraserhead, o cenário que compõe o Black Lodge de sua clássica série (incluindo o piso em zigue-zague e as cortinas vermelhas), o megafone que usava ao dirigir, câmeras, microfones, instrumentos musicais, sua máquina de gelo seco, a foto com a explosão da bomba atômica que ficava no escritório de seu personagem na última temporada de Twin Peaks… Enfim, muita coisa. Triste ver todo um legado material desfazer-se na mão de fãs endinheirados, mas não é a primeira vez que algo desse tipo acontece. Tomara que algum fã (ou grupo de fãs) compre vários itens e tente fazer um museu em homenagem ao mestre, algo que tornaria tais itens parte de uma comunidade mais do que do prazer pessoal de poucas pessoas. Se alguém quiser dar algum lance, o link é esse.

Veja alguns itens abaixo: Continue

Junho já é semana que vem e essas são as atrações da curadoria de música do Centro da Terra neste mês. Quem toma conta da temporada de segunda-feira é o carioca Rubinho Jacobina, que se juntou ao baixista Gabriel “Bubu” Mayall e ao baterista Theo Ceccato para mostrar músicas inéditas que estarão em seu quarto álbum, além de sambas, toadas e marchinhas clássicas que fazem parte de sua formação. E cada segunda da temporada Segurando a Chama ele traz um show diferente: na primeira (dia 2), ele mostra pela primeira vez as músicas com esta nova formação; na segunda (dia 9), ele recebe Sílvia Machete; na terceira (dia 16), ele convida Péricles Cavalcanti; e na quarta (dia 23) é vez de Juliana Perdigão. A programação das terças começa no dia 3, com o show Voz e Coração, em que o pernambucano Tagore, pela segunda vez no palco do teatro, mostra músicas que estarão em seu próximo álbum, além de influências nordestinas, como Geraldo Azevedo e Alceu Valença. Dia 10 é vez da artista Antônia Midena mostrar seu primeiro espetáculo musical, batizado Antônima, em que mistura música e teatro para cruzar a barreira entre realidade e ficção. No dia 17, recebemos o violeiro Marco Nalesso, que apresenta o espetáculo S.O.M. (Sinfonia Orgânica Musical), em que mistura sua viola caipira com psicodelias latina, guitarra, violão, percussão, sintetizador e trompete – além de receber o guitar hero Lucio Maia. Dia 24 quem vem é o bardo Tatá Aeroplano, que aproveita o palco do teatro para gravar seu primeiro disco ao vivo, ao lado dos fiéis escudeiros Bruno Buarque, Dustan Gallas e Junior Boca e as vocalistas Malu Maria, Kika e Bia Magalhães, no espetáculo Vida Purpurina. O mês encerra com uma última segunda, a quinta do mês, que fica a cargo do cantor e compositor Morris, que aproveita a oportunidade para mostrar seu próximo trabalho ao lado de Marcelo Cabral e Décio 7, com participações de Juliana Perdigão, Joy Catarina e Caio Teixeira, na apresentação Abertura dos Trabalhos – Fé na Desordem. Os espetáculos começam sempre às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

#centrodaterra2025

Finalmente novidades sobre a segunda temporada de Cangaço Novo, excelente série da Amazon Prime cuja primeira temporada só peca na escolha da música que encerra aquela fase, que foi anunciada para 2026 com o lançamento dessa cena inédita, em que os protagonistas Ubaldo (Allan Souza Lima) e Dinorah (Alice Carvalho) começam sua vingança no sertão do Ceará. TENSO.

Assista abaixo: Continue


Foto: Tiago Baccarin (Divulgação)

“Dos poucos artifícios que ainda posso usar sobrou o sacrifício de não lhe procurar” – assim vem a Lupe de Lupe ressurge anunciando seu próximo disco, programado para ser lançado em breve, com uma pedrada épica de quase dez minutos de guitarradas sobre o término de um relacionamento chamada “Redenção (Três Gatos e um Cachorro)”. Se comentei outro dia que a nova cena de rock de Belo Horizonte poderia chamar-se de indie come-quieto, esta surgiu com a centelha acesa há mais de dez anos pela própria Lupe de Lupe, que, sem fazer alarde, tornou-se uma das melhores bandas de rock do Brasil, mesmo que não toque no rádio, não esteja em grandes festivais ou faça shows no exterior. Na verdade, o mote da Lupe é rock como trabalho, com o guitarrista e vocalista Vitor Brauer vindo à frente de suas redes sociais para falar das dificuldades de ser underground no Brasil, mas sem tom de reclamação – e sim pregando a importância do ofício, mostrando que fazer sucesso quer dizer ser pago pra fazer o que se gosta sem precisar bajular uns ou ter parentesco rico ou célebre . E além de anunciar sua volta com uma faixa espetacular (escrita e cantada por Renan Benini, com a participação de Felipe Pacheco Ventura, da banda Baleia, nos arranjos de cordas), o grupo também acaba de anunciar mais uma extensa turnê, passando por mais de 20 cidades nas cinco regiões do país apenas na raça, como sempre. Ouça a música nova e veja as datas da turnê abaixo: Continue

“Você me conheceu numa época estranha da minha vida” – citando uma frase do Clube da Luta numa música que fala sobre a própria masculinidade, Lorde seguiu a construção de seu verão Virgin nesta quinta-feira, ao lançar, com alarde, o segundo single de seu próximo disco, “Man of the Year”, uma música ainda melhor que a ótima “What Was That”, que usou para abrir os trabalhos. Com produção de Jim-E Stack e cello gravado por Dev “Blood Orange” Hynes, ela escreveu o seguinte sobre a música nova em seu site: “Andar de bicicleta. Fumar. Nadar. Força nova em meus ombros. Sentir algo despertando. Primeiro tapar meu peito. Tanto medo de ser ele. A festa da GQ. Deitar no sofá branco com o microfone na mão e deixar rolar. Sol (…) O som do meu renascimento.” Além de lançar o single – junto com um belo clipe minimalista -, ela também revelou a ordem das faixas do novo álbum, que traz músicas com títulos como “Shapeshifter”, “Favourite Daughter”, “Current Affairs”, “GRWM”, “If She Could See Me Now” e “David”, entre outros. Veja o clipe e o nome das músicas abaixo: Continue