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Morreu nesta segunda-feira um dos maiores nomes da música instrumental brasileira e um dos maiores guitarristas do mundo. Hélio Delmiro acompanhou gigantes da música brasileira como Elis Regina (com quem gravou o emblemático Elis & Tom e tocou no histórico show que a gaúcha fez no festival de Montreux, na Suíça, meu disco ao vivo favorito), Nana Caymmi, Djavan, Milton Nascimento e João Bosco, além de seguir carreira no jazz instrumental tocando ao lado de outros monstros sagrados como Victor Assis Brasil (com quem tocou na obra-prima Trajeto, de 1966), César Camargo Mariano (parceiro em seu disco mais autoral, Samambaia, de 1981) e os norte-americanos Claire Fischer e Sarah Vaughan, que o considerava um de seus guitarristas favoritos. Hélio já estava mal desde o ano passado e morreu em decorrência de problemas de saúde ligados ao diabete. Um mestre.

Na terceira noite de sua temporada Segurando a Chama no Centro da Terra, Rubinho Jacobina mais uma vez passou o verniz em suas novas parcerias com Otto, Nina Becker, Mãeana e Domenico Lancellotti, tirou a poeira de pérolas eternizadas por Adoniran Barbosa, Jackson do Pandeiro e Doris Monteiro ao lado da máquina de groove que vem azeitando com seus novos comparsas Allen Alencar, Gabriel “Bubu” Mayall e Theo Ceccato. O convidado da semana foi Péricles Cavalcanti, que pegou o violão de Rubinho e assumiu o centro do palco para mostrar as suas “Blues da Passagem”, “Quem Nasceu” e o novíssimo reggae “Na Babilônia” para o repertório dessa noite.

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Don L conseguiu de novo e subiu o sarrafo de 2025 ao lançar, sem aviso, seu melhor disco e sério candidato ao título de grande disco do ano. Com o segundo volume de sua série Caro Vapor – tecnicamente seu quarto disco solo -, o MC (“favorito do seu favorito”, como reza seu adágio) se supera novamente e lança mais um disco contundente e… pop. Em Caro Vapor II: Qual a Forma de Pagamento?, ele retoma o disco original, de 2013, à luz do ano que marca o fim do primeiro quarto do século 21, mencionando todos os problemas que atravessam nossas rotinas, a brutalidade das ruas, a ilusão babilônica e a tormenta mental e emocional desvirtuada de cada um nessa idade das trevas pós-pandêmica, tudo filtrado por paixões pautadas pela confusão entre sucesso e fama, influenciadores, reality shows, Trump, bets, likes e algoritmos. Mas em vez de tornar o clima pesado, prefere lembrar que somos brasileiros e sublinha essa tensão com uma leveza que traz pérolas musicais únicas, que além de citar Itamar Assumpção, Milton Nascimento, o disco clássico do Pessoal do Ceará e a primeira música (“Morra Bem, Viva Rápido”) do primeiro volume dessa série, ainda consegue arregimentar um elenco que reúne o melhor do pop brasileiro que está fora do radar do mainstream, como Fernando Catatau, Anelis Assumpção, Thiago França, Luiza Lian, Terra Preta, Alt Niss, Giovani Cidreira, Alice Caymmi, Terra Preta, entre outros, todos conduzidos pela produção de Iuri Rio Branco (que equilibra samples, bases eletrônicas e instrumentos tocados ao vivo com maestria) e do grande Nave (que produz três faixas). Diferente de seu disco mais recente (Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 2, lançado em 2021), Caro Vapor II tem um caráter menos aguerrido, mas não por isso menos revolucionário – o dedo segue no gatilho e a mira segue na cabeça da serpente, mas L desta vez prefere seduzir e fazer dançar do que apontar o dedo na cara. “Se eu não consegui me derrubar, cês não vão” – estamos vendo, Don.

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Ainda púrpura

Em mais uma cobertura que faço pro Toca UOL, assisti satisfeito ao show que o Deep Purple – um dos artistas estrangeiros que mais faz show no Brasil – fez neste domingo no Parque Ibirapuera. Está longe de ser um showzão como a reputação do nome da banda pediria, mas com três integrantes da fase clássica perto dos 80 anos (incluindo um Ian Paice preciso na bateria), conseguem mostrar serviço, mesmo que isso signifique sacrifícios no repertório e nos tons das músicas. E o bis, que emendou seu primeiro hit (a versão do grupo para “Hush”, nos tempos em que ainda era uma banda psicodélica) com o clássico “Black Night”, começou com uma surpreendente versão para um clássico da soul music, a instrumental “Green Onions”, dos mestres Booker T & The MGs. Continue

Bira Presidente, fundador do bloco Cacique de Ramos, que nos deixou na passagem do sábado para o domingo, felizmente pode desfrutar do merecido reconhecimento de sua importância na história da música brasileira, tanto como agente fundamental na transformação e evolução do samba (onde sempre foi reverenciado) como um dos principais artífices da popularização desta mudança, que mexeu na cara da música brasileira dos últimos cinquenta anos. Bastaria seu papel como fundador de um bloco de samba que saiu de sua vizinhança para ganhar o Rio de Janeiro e que até hoje segue firme e frutífero como o principal bloco carnavalesco da cidade que seu nome já teria motivos para figurar em nossa história. Mas se lembrarmos que, além de ter convivido com os pais-fundadores Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Carlos Cachaça e Aniceto do Império, este filho de um sambista do Estácio (a primeira escola de samba) com uma mãe de santo não apenas deu abrigo para músicos que revolucionariam o samba ao transformá-lo em pagode na virada dos anos 70 para os 80 (fundando, por sua vez, com a benção e um empurrãozinho de Beth Carvalho, o grupo Fundo de Quintal, maior fenômeno coletivo da história do samba) como reinventou seu instrumento, o pandeiro, neste novo ambiente musical, misturando qualidades como protagonista, músico, agitador cultural e testemunha viva da história. É um nome que confunde-se com a própria tradição do samba, o samba personificado que seu codinome, cargo vitalício no bloco que fundou, poderia fazer reverência ao seu papel de líder nato. Fico feliz de poder ter dado palco para um encontro histórico do Fundo de Quintal no Centro Cultural São Paulo, quando era curador de música daquele espaço e convidei Leandro Lehart para celebrar o Fundo de Quintal na mítica sala Adoniran Barbosa, palco caríssimo para a história de Leandro (que anos depois seria diretor daquele mesmo CCSP), que nunca havia se apresentado lá. Lehart saudou o grupo com a presença de quase todos seus mestres e o mais feliz deles era o próprio Bira, que havia completado 81 anos no dia anterior àquela apresentação, em março de 2018, e foi ovacionado pelo público que lotou o palco mágico do CCSP, feliz de estar sendo reverenciado por sua importância. Obrigado, Bira!

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Aos poucos voltando pro jornalismo industrial, desta vez convocado pelo Toca UOL a escrever sobre o show que Alice Cooper fez neste sábado em São Paulo – e como atesto no final do texto, mais do que pai de toda uma vertente do heavy metal, ele pertence ao cada vez mais seleto grupo de lendas vivas do período clássico. Continue

O rapper favorito do seu rapper favorito mostra seu novo álbum em público neste domingo, quando faz uma audição pública de CARO Vapor II – qual a forma de pagamento? no Baile de Rua da Maria José, que acontece no Larguinho da Maria José, na Bela Vista, e ainda terá discotecagens do DJ Roger, de Lys Ventura e do mestre KL Jay. O evento é gratuito e acontece das 15h até às 21h. E, na paralela, o rapper revelou ao Papel Pop o nome das músicas do disco e as participações especiais (que incluem nomes como Giovani Cidreira, Anelis Assumpção, Terra Preta, Alice Caymmi, MC Drika e Luiza de Andrade. Veja abaixo: Continue

E neste sábado temos mais uma edição da Desaniversário no Bubu, desta vez em parceria com a Feira do Livro, que também começa neste fim de semana. A festa é dividida com a festa de abertura do evento e começa a partir das 19h, mas a Desaniversário de fato começa a partir das 22h, quando assumimos a discotecagem daquele jeito. O Bubu fica na marquise do estádio do Pacaembu e a festa vai até a meia-noite, por isso não deixe pra chegar tarde… Vem dançar com a gente!

Quis o destino que o vigésimo sétimo disco do grupo australiano King Gizzard & the Lizard Wizard saísse na mesma semana da morte de Brian Wilson. O disco recém-lançado de um dos principais nomes da psicodelia desse século é uma homenagem consciente ao salto dado pelo líder dos Beach Boys na música pop dos anos 60 ao mesmo tempo em que culmina o trabalho de uma década e meia de um dos grupos mais prolíficos e criteriosos que se tem notícia. Se o intuito do grupo é sempre lançar um disco completamente diferente do anterior, sempre querendo superar-se em termos de qualidade e ousadia musical (o mesmo abismo que quase levou Brian Wilson para longe da gente), em Phantom Island eles chegam ao seu auge. Segundo disco que gravam com uma orquestra, eles fazem Flight b741, lançado no ano passado, parecer um rascunho se comparado ao trunfo que conseguiram neste novo disco. Contando com um maestro pianista que entrou totalmente na frequência da banda como arma secreta (o britânico Chad Kelly, que mora na Austrália desde 2021), eles levam sua obra a um patamar de excelência que converge tanto as melhores viagens do coletivo Elephant Six (do Olivia Tremor Control, Neutral Milk Hotel e Of Montreal), a precisão perfeccionista do Steely Dan em estúdio (outro fruto direto dos esforços de Brian Wilson), as melodias camerísticas do pop de Burt Bacharach, a fase Disney dos Flaming Lips, os delírios megalomaníacos do Grateful Dead e o transe barroco do Mercury Rev na virada do milênio a uma mesma partitura épica, elevando o conceito de rock clássico a um novo parâmetro. Facilmente o melhor e mais palatável disco da banda, ao mesmo tempo em que fortíssimo candidato a melhor disco do ano, Phantom Island é uma obra-prima psicodélica que ainda não foi vista nessa década. Inacreditável. Pare tudo que estiver fazendo e ouça-o agora, pelo amor de Brian Wilson!

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E depois de uma noitaça na Casa Rockambole, que tem horas pra fechar, arrastamos os sobreviventes do Inferninho Trabalho Sujo de sexta prum after na Porta Maldita, que teve um arraiá rock organizado pelas bandas Miragem, Schlop e Nunca Foi Tão Fácil, com direito a bingo, pescaria e rifa (com direito a um pano de prato do Steely Dan). Achei que ia chegar depois dos shows, mas ainda consegui ver a metade do show da Schlop – e por mais que a Bella, líder da banda, estivesse mais preocupada do que normalmente, o show seguiu aquela vibe indie lo-fi foda-se característica da banda, fazendo a noite terminar num astral relax depois do turbilhão de sons que havíamos feito um pouco antes. Bom demais.

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