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Impressão digital #0072: Arianna Huffington no Brasil

Conversei com a senhora Huffington Post que esteve no Brasil na semana passada – e resumi o papo que tive com ela em na minha coluna do Caderno 2.

Arianna Huffington fala sobre o futuro do jornalismo

Na semana passada, Arianna Huffington esteve em São Paulo para palestrar em um evento e trouxe, na bagagem, uma informação que deixou todos em polvorosa: seu agregador de blogs, o diário Huffington Post, terá uma sucursal brasileira ainda em 2011. Seu site foi lançado em 2005 como duas operações conjuntas: de um lado, reuniu jornalistas para mudar a forma como as notícias são tratadas na internet, e do outro, oferece uma plataforma gratuita para blogueiros terem uma audiência maior.

A fórmula deu certo e o site se tornou referência para o jornalismo do século 21, ganhando relevância por cobrir de forma diferente tanto a crise financeira de 2008 quanto a eleição de Barack Obama, no mesmo ano. Sua sacada foi aprimorar a discussão com o público, tornando-o parte da notícia. Ela diz que, sem estatísticas, o jornalismo atual se esvazia, pois dá as costas para o que chama de “mais alta distinção” da profissão, que é contar histórias.

“Há tantos dados disponíveis hoje em dia, que parece que é possível justificar tudo apenas usando números”, ela me contou em entrevista na quinta-feira passada, dia 1º , no saguão do hotel Unique, em São Paulo. E afirmou que esse é um dos principais motivos do desinteresse do leitor pelas mídias tradicionais. “Esquecemos como contar histórias”, disse e concordou logo em seguida quando perguntei se esse era o motivo do sucesso do chamado “jornalismo cidadão” – em que, qualquer um, com um blog, pode se tornar um canal de notícias. Sem se encontrar nas notícias, o público começou a escrever sobre si mesmo.

E vai além: “Também acredito que a liberdade de expressão individual se tornou uma espécie de entretenimento”, dispara. “A gente sempre ouve perguntas como “por que as pessoas atualizam a Wikipedia de graça?”, “por que as pessoas blogam sem receber por isso?”, mas ninguém se pergunta por que as pessoas assistem a cinco horas seguidas de programas ruins de televisão de graça. Fora que escrever, criar… São formas muito mais inteligentes de entretenimento. Mesmo que você tenha um público muito pequeno, mesmo que escreva apenas para si mesmo e para poucos amigos. A liberdade de expressão individual é algo que precisa ser realizado”.

Segura de si, mas sem o estereótipo da mulher executiva do mundo digital, ela esbanja simpatia e deixa a conversa sempre em tom informal, lembrando que isso também é um dos motivos do jornalismo atual estar distante do leitor online – e riu ao lembrar como seu site noticiou o escândalo do presidente do FMI Dominique Strauss-Kahn com a manchete “OMG IMF” (siglas em inglês para “Meu Deus, FMI!”), típica da linguagem online.

Sobre o Huffington Post Brasil, ela não tem nada definido. “Estou conversando com possíveis parceiros, mas quero lançá-lo ainda neste ano”.

Impressão digital #0071: A importância de Steve Jobs

Minha coluna no Caderno 2 de domingo foi sobre a importância de Steve Jobs.

O digital é pop
Porque Jobs é tão importante

A principal notícia da semana foi a aposentadoria prematura de Steve Jobs. Já é possível prever a preguiça do leitor ao ser confrontado, de novo, com um tema que, teoricamente, lhe diz respeito apenas lateralmente. Mas mesmo que você não ache o iPad tudo isso, mesmo que não tenha nenhum tipo de smartphone, mesmo que tenha horror a computadores e os tenha que usar apenas pela imposição do mundo moderno, é inegável a contribuição do pai da Apple para a paisagem do século atual.

Ele não é apenas o inventor do computador pessoal. O verdadeiro pai da nova máquina é seu parceiro Steve Wozniak, mas foi Jobs que viu potencial comercial num aparelho que parecia não ter lugar na casa dos anos 70. Foi ele também quem pensou em mudar a cara desse mesmo cenário ao cogitar um computador pessoal que não precisava ser montado peça a peça – bastava comprá-lo na loja e sair usando. Também surrupiou duas ideias que estavam no limbo das invenções do mítico laboratório da Xerox, o PARC, e tornou-as não apenas pop, mas também cruciais no desenvolvimento deste mercado: a interface gráfica (antes, para se usar um computador, era preciso saber uma série de comandos digitados em uma tela preta com texto escrito em verde) e o mouse.

Ele também não inventou a distribuição digital, mas foi esperto o suficiente para perceber que as gravadoras estavam perdendo o bonde da história ao processar os consumidores que aprenderam a baixar música graças ao Napster. Notou a lacuna no mercado e transformou, em 2003, seu programa para ouvir música em uma loja online, a iTunes Music Store, e convenceu, aos poucos, as mesmas gravadoras que lutaram contra o download ilegal a vender música pela internet através da nova plataforma, tornando sua empresa, na primeira década do século, mais importante para o mercado musical do que qualquer outra gravadora. Aproveitou a deixa para impulsionar as vendas do MP3 player que havia lançado em 2001. E o iPod virou sinônimo desse tipo de aparelho. O sucesso de ambas iniciativas o cacifaram para voos mais altos.

Em 2007 nos apresentou ao iPhone e mudou completamente o conceito de smartphone, que antes era associado a executivos teclando em BlackBerrys. Aproximou o telefone a um computador portátil e tornou-o fácil e divertido de usar, criando, na mesma tacada, o mercado de aplicativos. E pavimentou o caminho para seu iPad, lançado ano passado, que hoje ameaça a existência do computador pessoal que inventou décadas antes.

O que há em comum em suas invenções é a facilidade de uso, o acabamento visual e um certo ar moderno e cool, verniz que Jobs sempre priorizou. E, com isso, transformou o mundo digital para sempre. Antes, nerds e computadores eram antissociais e inacessíveis. Depois de Jobs, eles se tornaram corriqueiros e legais. Eis a medida de sua importância.

Impressão digital #0070: Moot no Brasil

Falei sobre a participação do Moot no YouPix da semana passada em minha coluna de ontem no 2.

Moot entre brasileiros
O criador do 4chan amou o País

“Moot has left the building”, brinquei com o Luiz, da produção do YouPix, quando ele me falou que o criador do 4chan havia acabado de sair do hotel em direção ao Porão das Artes, no prédio da Bienal, onde aconteceu, de quarta a sexta passada, a última edição do maior festival de cultura de internet do Brasil. Mediaria, na quinta-feira, o bate-papo de Christopher Poole, o Moot, com o público do evento. Estava, portanto, esperando a chegada do rapaz de 22 anos no lugar para conversar pessoalmente com ele, antes de irmos ao palco. Já havia falado com ele pelo telefone, quando o entrevistei para a capa do Link da semana passada, e queria me apresentar para ele, que era o principal nome da edição do evento neste semestre.

A razão de sua importância é o fato de Moot ter criado, aos 15 anos, um fórum de troca de imagens chamado 4chan. Se apropriou de um formato de publicação japonês que permite que as pessoas se comuniquem através da troca de imagens, formato parecido com o de um fórum, só que bem mais simplificado. A facilidade de uso era uma de suas principais características. A outra era o fato de que ele não exigia que seus usuários se identificassem para publicar o que quisessem no fórum.

Isso transformou o 4chan em uma enorme fábrica de piadas visuais que só faziam sentido para seu pequeno grupo inicial de usuários. Mas suas qualidades (a facilidade de uso e o anonimato) o transformaram em um sucesso em escala global. O fato de suas mensagens serem imagens tornava o 4chan universal, pois bastava um pingo de conhecimento de inglês e de internet para começar a se entender no site. E assim, as piadas internas, antes restritas a um grupo de veteranos, começavam a ganhar toda a internet.

E assim surgiram o Rick Roll, os LOLcats, as ragefaces e uma série de outros memes que são comuns a quem passa parte de sua vida conectado à rede. E foi no 4chan que, graças ao anonimato, o grupo de hackers Anonymous pode se conhecer e começar a se organizar, para depois partir para ação, como fizeram neste ano.

Moot chegou e nem ele acreditou no assédio. Todos queriam tirar fotos com ele. “Eu nunca passei por isso, nem nos EUA”, disse, fascinado. E, ao subir no palco, em vez de ficar acanhado com o tamanho do público, sentiu-se em casa. Contou a história do 4chan e de seu novo site, o Canvas (“meu primeiro emprego”), falou de como percebeu que o site havia fugido de seu controle (“quando o FBI ligou em casa, me procurando”) e respondeu, às gargalhadas, a provocações e piadas do público. Ao final, foi apresentado ao vídeo viral brasileiro mais popular do ano (o funk carioca “Sou Foda”) e o blogueiro Maurício Cid, do blog Não Salvo, o botou para dançar. Moot adorou os brasileiros e confirmou sua teoria – de que nós entendemos a internet melhor do que o resto do mundo.

Impressão digital #0069: Super 8

Falei do Super 8 na minha coluna no Caderno 2 de domingo.

A nova inocência
‘Super 8’ e o coração de uma geração

A promessa se confirmou. Super 8, que estreou neste fim de semana no Brasil, o terceiro filme de J.J. Abrams é tudo aquilo que parecia ser quando seu trailer de pouco mais de um minuto apareceu online há um ano. Ele é conhecido como Midas da TV pós-internet ao usar pistas e dicas colocadas online para aumentar a exposição e, portanto, a audiência de suas séries. Alias, Lost e Fringe são os melhores exemplos desse tipo de estratégia que também foi testada e aprovada no cinema. Mas até Super 8, J.J. só havia lidado com obras alheias – sua estreia na direção foi no terceiro Missão: Impossível e seu segundo filme acertou na mosca ao conseguir trazer a mitologia de Jornada nas Estrelas para uma nova geração.

Com Super 8, ele partiu para uma história nova e autoral. E, para isso, resolveu aliar-se a um de seus ídolos do cinema, Steven Spielberg, que chamou para produzir o filme. E como J.J. não é bobo nem nada, aproveitou a deixa para fazer o que melhor sabe: puxar links e referências para enriquecer seu trabalho – e fazer fãs enlouquecidos procurarem por essas pontas soltas dentro e fora da internet.

E o alvo, nesse caso, foi o próprio Spielberg. Mirando no ídolo como se olhasse num espelho, ele procurou um ponto em comum em sua filmografia para captar algo específico para a própria carreira. E escolheu os anos 80 consagrados pelo diretor. Depois de salvar Hollywood da bancarrota ao criar o formato blockbuster em Tubarão (1975), Spielberg se dispôs a dar a tônica de seu tempo. E, ao dirigir filmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. e produzir outros como Goonies e De Volta para o Futuro, ele fez questão de celebrar seu novo público – os adolescentes dos anos 80. Walkman, videogame, computadores, rock, skate, grafitti – tudo que parecia modismo ou descartável para uma geração mais velha que a sua foi canonizado por Spielberg nesses filmes. Mais que isso, deu a uma geração que poderia crescer desesperançosa uma sensação de pureza e ingenuidade. Próxima àquela impregnada nos anos 50 dos EUA.

E agora J.J. Abrams quer repetir o feito. Já havia apostado na recuperação dessa inocência em sua primeira produção, o seriado Felicity, e todas as suas séries, por mais estranhas que fossem, nunca deixavam a emoção de lado. Lost era sobre amor e amizade, Fringe e Alias também tratam sobre a relação entre pais e filhos. Ao retratar o início dos anos 80 com o mesmo cuidado que Spielberg deu aos anos 50 (a conexão da viagem no tempo de De Volta Para o Futuro, que interliga 1955 e 1985 é crucial para entender isso), ele está às vésperas de conquistar corações e mentes da geração digital. De uma vez por todas.

Impressão digital #0068: Kassin e o artista do século 21

Minha coluna no 2 de domingo foi sobre o papel contínuo – e não contido – do artista no século 21, tomando Kassin como exemplo.

A estreia de Kassin
O primeiro disco, depois de muitos

Sonhando Devagar é o primeiro disco solo do músico, cantor, compositor e produtor Alexandre Kassin. É um artista com mais de 15 anos de atuação, com participação em diferentes bandas, trilhas sonoras e que tem até CDs individuais no currículo. São quase duas dezenas de discos com a marca do artista. Então por que o disco de 2011, que pode ser ouvido no site da gravadora (www.coqueiroverderecords.com/kassin/) é considerado seu primeiro trabalho solo?

Talvez porque Kassin seja um dos melhores exemplos, no Brasil, de um novo tipo de artista. Alguém que já entendeu que música, no século digital, não é produto – é processo. Por isso disco, show e canção – antes fundamentos básicos de um músico no século 20 – tornaram-se apenas algumas das peças na construção de uma carreira.

Assim, antes de lançar seu primeiro disco solo, ele já tinha alguns discos no seu nome. O primeiro deles, composto apenas com bases eletrônicas produzidas num GameBoy, foi lançado sob o nome de Artificial. Outro foi lançado sob o nome Kassin + 2, mas que não poderia ser considerado um trabalho individual, e sim do trio + 2, formado por Kassin, Moreno Veloso e Rodrigo Domenico (cada um deles lançou um disco com seu próprio nome).

Também assinou a trilha sonora do anime Michiko e Hatchin, mas preferiu não tratá-la como disco solo. Fora os discos e espetáculos que produziu, de artistas como Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Los Hermanos, Mallu Magalhães, Thalma de Freitas, Vanessa da Mata, Grupo Corpo e Terruá Pará.

O novo disco pode ser considerado sua estreia pois ele reúne os conceitos pelos quais passa desde que era só o baixista da banda Acabou La Tequila: rock e ritmos caribenhos, música eletrônica e arranjos sofisticados, ficção científica e timbres anos 80, vida doméstica e Japão. Por quase 15 anos, ele passou sua carreira reunindo referências para criar uma obra contínua, em movimento. Agora, as concentra todas em um mesmo disco, como se, só agora, começasse sua história. E talvez seja isso mesmo.

Impressão digital #0067: O terceiro disco de Mallu Magalhães

A minha coluna no 2 do domingo foi sobre o disco da Mallu Magalhães e a forma como ela vem o divulgando online.

Mallu ao vivo
Blogando vida e obra

“Último dia de mixagem. Terminamos Moreno do Cabelo Enroladinho e fizemos Lonely. Amanhã é o dia de refazer o que falta ou precisa. Temos uma ou duas prioridades, mas estamos contentes com o resto. Acho que estou prestes a sofrer aquela tristeza do pós-disco… Aquele vazio, aquela insegurança… Preciso arrumar o que fazer… Acho que vou inventar de gravar uns clipes.”

Assim Mallu Magalhães chega aos finalmentes de seu terceiro disco, num post em seu blog publicado na sexta passada, resumindo o dia anterior. “Dia 27 de julho de 2011… #54 em estúdio” é o título do post, um dos muitos em que, em seu site, mallumusic.com, descreve o diário da gravação do novo álbum.

Mas não apenas um diário de gravação. É o diário de Mallu. É um blog no sentido mais essencial do formato. Não são notícias, informações que poderiam render notinhas ou análises sobre qualquer conjuntura atual. São pequenas epifanias caseiras, recortes de um cotidiano íntimo, às vezes pessoal demais, que transbordam para a internet. No mesmo post em que comemora e lamenta o fim do processo de gravação, ela divaga: “Enquanto Victor (Rice, técnico de som do disco) timbrava os últimos detalhes de Moreno do Cabelo Enroladinho, eu bordava numa das aquarelas que havia pintado ontem. E um feixe de luz colorido veio banhar minha obrinha. Não demorou, Vic ficou também impressionado e sugeriu novas posições. Fotografei o tal arco-íris nos meus pés, cabeça e à minha volta. Só pode ser um bom e lindo sinal de alegria para o Pitanga.”

Muita gente torce o nariz, acha forçado, acha fake, acha bobo. “Haters gonna hate”, repete o meme-mantra da internet que pode ser traduzido como “sempre vai ter alguém que odeie”. E Mallu, coitada, sempre foi alvo desses ‘haters’. Desde que surgiu empunhando seu violãozinho aos 15 anos, cantando Dylan e Johnny Cash com sua vozinha frágil e virou um dos melhores exemplos brasileiros de uma artista que usou a internet para se estabelecer, ela é alvo de brincadeiras, chacotas, paródias e pragas. As coisas não melhoraram quando ela começou a namorar Marcelo Camelo – outro que, ainda nos Los Hermanos, cansou de ser vítima da fúria de um público xingando tudo confortavelmente nos computadores de casa. Juntos viraram motivo para piadas de toda a sorte – algumas boas, a maioria bobas. Mas não os abalou.

E, mais que isso, não abalou Mallu. Prestes a completar 19 anos, ela deixa o mesmo ar lúdico de suas letras e melodias invadir seu blog, abrindo seu coração e mente sem medo de se expor ao ridículo. Ela não bloga porque ajuda no marketing, porque o empresário pediu ou porque cai bem com o público. Não que esses motivos não existam, mas ela mantém o blog pelo mesmo motivo que faz música: é natural para ela. Portanto, como reza outro mantra online, “deal with it” (“lide com isto”).

Impressão digital #0066: Expo Y e a opinião online

A minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre os três bate-papos que realizei na Expo Y, semana passada.

O papel da opinião
O que é importante na internet

A velocidade e o excesso de informações da era digital tira o prumo de muita gente, tanto de quem começa a correr atrás de qualquer pequena novidade ao menor movimento quanto para quem se fecha completamente para o que se passa entre computadores e celulares. Talvez justamente por isso a opinião se torne um dos valores mais prezados desta época.

Por um lado, parece que todo mundo tem a obrigação de ter opinião sobre qualquer assunto – e, claro, usá-la nas caixas de comentários de blogs, redes sociais e outros ambientes virtuais. Por outro, os assuntos também vão ficando cada vez mais repetitivos e parecidos, caindo no problema indicado pelo escritor norte-americano Eli Pariser em seu livro The Filter Bubble. Ele alega que, à medida que as pessoas só querem falar sobre os mesmos assuntos de sempre, acabam se fechando nos temas de sempre e, aos poucos, fogem dos debates que interessam à sociedade.

Daí a importância de se ter opinião e de valorizá-la. Esse foi o tema debatido nas três entrevistas que fiz, em nome do caderno que edito, o Link, durante o evento Expo Y, que ocorreu na semana passada, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo.

Para conversar sobre o assunto, chamei três nomes que já se tornaram referência em suas áreas: Bia Granja, organizadora do festival de internet YouPix, Tiago Dória, do blog que leva seu nome, e Carlos Merigo, editor-chefe do blog Brainstorm9. Cada um deles se tornou autoridade nos assuntos com que lidam diariamente, em seus veículos. O YouPix, de Bia Granja, começou como uma revista e se tornou o maior evento de cultura de internet no Brasil (ela faz questão de frisar a diferença entre “cultura de internet” e “cultura digital”. O Tiagodoria.com era um blog de links interessante que, aos poucos, foi começando a falar de suas principais áreas de interesse – comunicação e tecnologia – e em menos de uma década se tornou uma das principais referências online sobre as transformações que acontecem no jornalismo com a chegada das mídias digitais. Caminho parecido com o traçado por Merigo, que se especializou em publicidade, sua área de atuação.

Os assuntos abordados foram os mais diversos dentro de suas áreas, mas todos chegaram a um mesmo consenso: que não adianta ter opinião sem ter responsabilidade sobre ela, que ser transparente e franco é uma obrigação e que é preciso respeitar o leitor e que isso não necessariamente quer dizer publicar o que ele quer ler, mas também o que ele nem sequer imagina que quer ler. Valores que já tinham sido estabelecidos no mundo offline e que, aos poucos, começam a fazer a diferença também online.

Impressão digital #0065: Google +

E a minha coluna no Caderno 2 de domingo foi mais sobre o Google +, que ainda foi destrinchado nessa edição tanto pela Tati, quanto pelo Tom Anderson e pelo Asta. A minha parte segue abaixo, a deles, nos links.

Mais uma rede social?
O Google + não é só isso…

“Fulano de Tal te convidou para participar do Serviço Xis.” Esses avisos pintam a toda hora no e-mail. Alguém entrou em alguma novidade da internet, se cadastrou e enviou convite para uns conhecidos. E aí chega o convite na sua caixa postal. No começo era só um Orkut ali, um Last.fm acolá, um MySpace mais adiante, mas depois de alguns anos, os convites para novos serviços – principalmente para novas redes sociais – começaram a se tornar frequentes. Foursquare, Facebook, LinkedIn, Twitter, StumbleUpon e tantos outros sites ou aplicativos para celular ou joguinhos (tanto originais quanto clones brasileiros copiados toscamente) que mandam mensagens robóticas e monotemáticas que, quanto mais chegam, mais parecem meros e-mails de spam, fazendo propaganda de um produto que não queremos comprar – nem de graça, não insista.

Até que, há pouco mais de duas semanas, enquanto desfrutava minhas férias, outro convite apareceu. Chamava para o Google + (Plus), nova tentativa do maior site do planeta de domar a movimentação social da rede.

Não era a primeira vez. Começou antes de todo mundo, inclusive, ao lançar o Orkut, mas os Estados Unidos estavam muito ocupados com a primeira rede social a fazer sucesso por lá (o Friendster) e não deram bola. Os brasileiros não tinham nada parecido e invadiram geral. Em poucos meses, havia mais brasileiros do que norte-americanos por lá. E o Friendster começou a perder audiência para o então novíssimo MySpace, que se tornou a maior rede social daquele país para logo depois se tornar a maior do mundo. Depois veio o Facebook que enterrou o MySpace (que foi vendido, também durante as minhas férias, por US$ 35 milhões, menos de um décimo do preço que custou quando foi comprado pela News Corp. a US$ 580 milhões, em 2005). Mas isso é outra história.

Enquanto MySpace e Facebook dominaram a segunda metade da década passada, o Google tentou comer uma fatia desse mercado, em vão. Lançou o Google Wave, um serviço que transformava o e-mail em um enorme bate-papo contínuo, com uma interface poluída e caótica. Depois correu atrás do Twitter, ao inventar o Google Buzz, e se envolveu em processos de invasão de privacidade. E aí surge esse Google + e todo mundo suspira achando que “putz, lá vem outra tentativa do Google para barrar o Facebook…”.

Mas engana-se quem acha que o Google + s é só uma rede social. Apesar de parecer reunir elementos de sites já estabelecidos (ele tem o fluxo de informações do Facebook, uma área de trending topics como a do Twitter, entre outros), o novo site não é, propriamente, um novo serviço. Ele apenas concatena as diversas arestas do site (Gmail, Google Docs, Agenda, fotos e posts – já anunciou que mudará o nome do Picasa e do Blogger) e cria um ambiente em que seus serviços possam funcionar de forma integrada. É um passo importante para o Google fugir da possibilidade de virar uma nova Microsoft (uma empresa gigante, com muitas áreas diferentes, que mal conversam entre si) e de continuar fazendo sentido num mundo que poderia, aos poucos, deixar de precisar dele. Ao que tudo indica, vai funcionar: em menos de um mês, o novo site já tem 10 milhões de usuários. E correndo o risco de dobrar esse número na semana que vem. Não é pouco.

Impressão digital #0064: Retromania, de Simon Reynolds

Minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre o novo livro de Simon Reynolds.

Cultura reciclada
O pop vai comer a si mesmo?

A história da cultura pop também é a história de uma cultura que se inventa e reinventa a partir de si mesma. Sempre foi assim. Escolha o início desta cultura que lhe convier (não há consenso sobre qual é o começo específico desse tipo de abordagem da cultura) e os conceitos de criação e recriação se misturam constantemente.

Exemplos? Arthur Conan Doyle foi tachado de simplificar os contos de Edgar Allan Poe e transformá-los em uma fórmula ao criar Sherlock Holmes, no final do século retrasado. Matou o personagem em um livro e deixou seus leitores de luto – a ponto de surgir uma campanha pela volta do personagem na forma de bandanas pretas amarradas aos braços.

Outro: quando os EUA entraram em crise após o crash da bolsa de 1929, uma das formas de manter a população entretida foi o incentivo do consumo de itens ou serviços que custavam muito pouco. Foi preciso que toda uma indústria fosse inventada a partir de amostras de manifestações culturais já existentes. Foi assim que o teatro foi mastigado para virar o cinema como o conhecemos hoje; que a música popular tornou-se o principal gênero musical do novíssimo mercado fonográfico (que começou apostando na música erudita); que a literatura pulp, as revistas e os quadrinhos floresceram nas bancas de jornais.

Mais um: quando começaram, os Beatles eram apenas fãs de música norte-americana e não faziam distinção entre soul music, rhythm’n’blues ou country. Consumiam tudo como cultura americana e misturaram todos esses gêneros naquilo a que hoje chamamos de rock. Os próprios Beatles são protagonistas de outro momento tido como marco zero desta cultura, quando conheceram Bob Dylan pessoalmente e a admiração mútua mudou suas carreiras: os Beatles começaram a ficar mais sérios e intelectualizados enquanto Dylan abandonou as canções de protesto e empunhou uma guitarra elétrica.

São inúmeros exemplos que corroboram a tese do novo livro do renomado escritor e ensaísta inglês Simon Reynolds, Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past (sem previsão de lançamento no Brasil). Mas seu foco não é a história da cultura pop, e sim seu passado recente. Ele concentra-se na onipresença da web e na era de consumo desenfreado que vivemos, em que assistimos a filmes sendo refeitos, músicas sendo remixadas, discografias relançadas em caixas suntuosas, artistas tocando discos antigos na íntegra ao vivo e o YouTube se tornando um enorme arquivo com tudo do século passado. E o livro instiga uma reflexão: será que vai chegar uma hora em que a cultura não terá nada novo – e apenas se repetirá? Acho exagero, mas é uma boa pergunta.

Impressão digital #0063: A profecia de Coppola

Minha coluna no Caderno 2 foi, mais uma vez, sobre Super 8, J.J. Abrams e Spielberg.

J.J. Abrams & Spielberg
…e o futuro do cinema

Super 8, o novo filme de J.J. Abrams, estreou na sexta-feira passada nos EUA. É um momento decisivo tanto para sua carreira quanto para a de Steven Spielberg, que produz o filme. Para Abrams, a expectativa diz respeito à primeira incursão do diretor e produtor no cinema em um título próprio. J.J. é conhecido como Midas da TV graças à sequência de seriados bem-sucedidos que produziu: Felicity, Alias, Lost e Fringe. Mas, no cinema, só dirigiu dois filmes, o terceiro Missão: Impossível e a nova versão para o cinema da série Jornada nas Estrelas. Não havia dirigido nenhum filme cuja ideia original fosse sua, até agora.

Spielberg, por outro lado, tem outro tipo de preocupação. Diretor que se firmou ao reconectar o público de cinema com uma audiência adolescente, à medida que foi se estabelecendo como diretor, começou a ir rumo a assuntos sérios, o que lhe rendeu alguns Oscars que não fossem de efeitos especiais. Mas ao remoer lembranças de guerra e conflitos judeus, deixou de lado a diversão e o entretenimento puros e simples. Tentou retomá0-los ao voltar à ficção científica no início do século, visitando Kubrick (Inteligência Artificial), Philip K. Dick (Minority Report) e H.G. Wells (Guerra dos Mundos), mas sem conseguir vincular-se a um público mais jovem. Só conseguiu recuperar isso ao produzir os filmes de Michael Bay (especialmente Transformers), mas sua marca não era percebida como assinatura.

Até que J.J. Abrams resolveu fazer uma homenagem ao ídolo e o chamou para esse tal Super 8. Abrams, que é conhecido por empilhar referências em suas obras, resolveu transformar o filme em uma grande ode ao cinema de Spielberg, especificamente à sua filmografia nos anos 80.
E, como é do seu feitio, Abrams não deixou barato e levou seu novo filme, mesmo antes do lançamento, a diversas mídias diferentes – colocou gente para montar um curta a partir de pedaços soltos pela web e até a criar uma HQ que seria concluída pelo público.

As primeiras impressões sobre o filme não são suficientes para tentar prever algum sucesso, mas tudo indica que Spielberg e Abrams conseguiram alcançar o que estavam tentando: uma história fantástica, um thriller de ficção científica e uma fábula pré-adolescente.

Mas a premissa inicial de Super 8 – em que uma turma de jovens brinca de fazer cinema e, sem querer, filma algo que não devia – parece ser outra homenagem de Abrams, desta vez a uma previsão de Francis Ford Coppola, em uma entrevista dada nos anos 70: “Um dia, uma gordinha em Ohio será o novo Mozart e fará um lindo filme com a câmera portátil de seu pai e quando isso acontecer todo esse profissionalismo em relação a filmes será destruído para sempre e o cinema se tornará uma arte”. Ainda não chegamos lá, mas será que um dia chegaremos? Super 8 chega ao Brasil apenas em agosto.