Saiu a escalação do Primavera deste ano e… tá boa, mas você não tá com a impressão que tem nomes faltando? Gorillaz e Strokes são ótimos headliners, mas dá a impressão de estar faltando um ou outro nome com o peso semelhante (havia boatos sobre Depeche Mode e Tame Impala e expectativa por My Bloody Valentine ou Geese, por exemplo) e talvez alguns nomes brasileiros a mais. FKA Twigs, Lily Allen, Courtney Barnett, Underscores e Yung Lean estão em momentos ótimos de suas carreiras, mas não são grandes o suficiente pra trazer muita gente. Mas fora essa sensação, ao reunir nomes como Ana Frango Elétrico, Juana Molina, Smerz, Duquesa, Gaby Amarantos, Los Thuthanaka, Black Pantera, Gab Ferreira, Zé Ibarra, Josyara e John Talabot, mostra que o festival não tá pra brincadeira e puxa mais pra primeira edição paulistana (que acertou gigante ao anunciar um ótimo elenco contemporâneo em vários dias) do que pra segunda (que pareceu ter sido dedicada à geração X). Mas como eles mesmos eles mesmos disseram no vídeo da escalação que há novos nomes a serem anunciados, fico à espera de alguma surpresa… Imagina se viesse PinkPantheress, LCD Soundsystem, Clairo, King Gizzard ou The Marias…
“Nós vimos vários aspectos da cultura do Brasil passar por aqui”, disse Ney Matogrosso ao final da premiação da Associação Paulista dos Críticos de Arte que aconteceu nesta segunda-feira, no Teatro Sérgio Cardoso, ao receber o Grande Prêmio da Crítica que o júri da categoria música popular (da qual faço parte). “Eu não tenho muita coisa pra dizer, eu só quero confirmar que eu sou muito feliz por fazer parte disso, da cultura do nosso país, da cultura do Brasil. Eu sou muito orgulhoso disso, muito obrigado”. A fala sucinta de Ney resumiu o clima de festa e resistência que atravessou a premiação nesta segunda, que foi transmitida ao vivo pelo YouTube. Além de Ney, também foram premiados Jadsa (show do ano, que também fez um show abrindo a premiação), Douglas Germano (música do ano), Gaby Amarantos (disco do ano), a exposição em homenagem ao hip hop brasileiro em cartaz no Sesc 24 de Maio (projeto especial do ano), Luedji Luna (artista do ano) e Ajuliacosta (revelação do ano), estas duas últimas não puderam comparecer à festa. Assista à íntegra da premiação abaixo:
Ney Matogrosso, Luedji Luna, Gaby Amarantos, Jadsa, Douglas Germano, Sesc 24 de Maio e Ajuliacosta são os vencedores da premiação relativa ao ano passado segundo o júri da comissão de música popular da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Eis o resultado, definido nesta segunda-feira Veja abaixo:
O ano tá chegando ao fim e a comissão de música popular da Associação Paulista dos Críticos de Arte, da qual faço parte, acaba de divulgar os indicados para três das principais categorias da votação, quando revelamos os nomes que estão entre os destaques para Artista, Show e Revelação do Ano. Veja abaixo os nomes deste ano:
Cat Power canta Dylan, 2ManyDJs, Squid, Pavement, Jaloo com Gaby Amarantos, Soft Cell, Black Pumas, Jair Naves, Young Fathers, Cimafunk, Romy do XX, Raye, Pista Quente, tributo a Cassiano dirigido por Ganjaman, Ayra Star, Jihye Lee Orchestra, Charles Lloyd Quartet, Chief Adjuah, Daniel Caesar, Daniel Camargo e Pedro Martins, Fausto Fawcett, Dinner Party do Kamasi Washington, Jakob Bro Trio, Young Fathers, Paris Texas, David Morales, Valentina Luz e DJ Memê. Eis o elenco da edição de 2024 do C6fest. Leia a escalação completa abaixo:
O segundo show em homenagem ao saudoso velhinho acontece no CCSP nesta quinta-feira, a partir das 21h, e ainda tem a participação especial de Gaby Amarantos. Toda a bilheteria arrecadada nesta data será doada pelos artistas à família do Miranda (mais informações aqui).
A ausência de Miranda de nosso dia a dia nunca será suprimida – o produtor que ensinou o pop e os ouvintes brasileiros a sair do convencional deixou nosso plano no início deste ano deixando uma lacuna estética, espiritual e emocional insubstituível. Contudo, sabemos que ele não ia gostar de choro e adulação póstuma e queria que levássemos seu legado adiante de alguma forma. Foi assim que surgiu o projeto Noites Bacaneza, capitaneado pelo Fabrício Nobre com o auxílio de amigos saudosos do velhinho (eu incluso), que trará shows que celebram a importância e a alegria que Miranda trazia para nossos dias. O projeto começa no mês que vem com duas apresentações descobertas por ele em seus últimos anos de vida: Boogarins e Jaloo (este último acompanhado de Gaby Amarantos e MC Tha), que apresentam-se respectivamente dias 12 e 13 no Centro Cultural São Paulo, a partir das 21h. A renda arrecadada na bilheteria dos dois dias será revertida para a família do Miranda (sua esposa Bel e seus dois filhos) e o projeto continuará nos meses seguintes em outros espaços de São Paulo e, possivelmente, do Brasil (mais informações sobre os shows aqui).
A música nova dos Strokes foi recebida com estranhamento na sexta-feira, especialmente no Brasil: enquanto os fãs da banda lamentaram a sonoridade oitentista (bem mais próxima do disco solo de Julian Casablancas do que qualquer outro disco dos Strokes), os fãs de tecnobrega saudaram a nova sonoridade do grupo – até mesmo seus principais protagonistas (Gaby Amarantos e a Gang do Eletro) comemoraram o parentesco sonoro em suas contas do Twitter:
E o DJ Jak empilhou as referências mais citadas (“Xirley” de Gaby Amarantos, “Take on Me” do A-ha e a própria “Lisztomania”) num mesmo remix esquizofrênico.
Esta citação é a chave para essa conexão Strokes com o tecnobrega, pois as duas partes tiveram a base de sua sonoridade fundada durante uns anos 80 sintetizados. Repare nesse clássico do Jean-Michel Jarre de 1981 e veja se não tem a ver tanto com a música nova dos Strokes, o solo de Casablancas e a batida do tecnobrega):
Mas alguém apontou a semelhança da melodia de “One Way Trigger” com essa música do Maná (?!):
No horário das 19h, estreou nesta semana “Cheia de Charme”, cuja vilã principal, vivida por Cláudia Abreu, é Chayene, uma estrela nordestina de forró pop, na linha das cantoras dos grupos Aviões do Forró e Calcinha Preta.
Nesta, o tema de abertura é “Ex Mai Love”, cantado pela diva tecnobrega paraense Gaby Amarantos. A trilha tem samba romântico de Alcione, pós-axé de Ivete Sangalo, brega antigo de Márcio Greyck (em nova versão) e indie MPB paulistana na voz de Tulipa Ruiz. Ricardo Tozzi interpreta o cantor sertanejo Fabian, obviamente decalcado em Luan Santana. As três protagonistas, de ineditismo surpreendente, são empregadas domésticas em guerra com a tirania das patroas.
Não há um quico de novidade no fato de as trilhas das novelas em cartaz na Globo serem superpopulares, ultracomerciais. Mas, como sabe todo mundo que, nas últimas semanas, observou o pesado investimento atual da emissora na chamada nova classe média, algo muito novo parece estar acontecendo no ambiente musical das telenovelas (ou telelágrimas, como rezava um antigo clichê) globais.
“O que mais me surpreendeu foi a escolha de ‘Ex Mai Love’ pra ser a abertura da novela. A Globo apostar tanto numa artista nova e num compositor novo (o também paraense Veloso Dias) me deixou cheia de orgulho”, afirma Gaby Amarantos. “É bem nítida essa feliz tentativa de atingir essa classe C que ascendeu, e já estava mais que na hora do povão ser retratado. Sou a rainha da nova classe média com muito orgulho, são eles que realmente fazem a economia do país girar, e me sinto feliz em representar e ser representada.”
Há décadas, a circulação de música entre a indústria fonográfica e a maior rede de TV do país é controlada com mão de ferro pelo misterioso Mariozinho Rocha, ex-músico egresso de um núcleo de canção de protesto dos anos 1960, o Grupo Manifesto. Ele, que jamais aparece ou concede entrevistas, assina a coordenação das trilhas de “Avenida Brasil” e “Cheias de Charme”. Mas isso não quer dizer que sejam iguais ao (nem sequer parecidas com o) reinado de intermináveis repetecos de standards de velhas bossas novas de Copacabana e antigas MPBs de Ipanema recicladas também há décadas pela usina musical-comercial de Mariozinho.
Mas, nos créditos finais de “Cheias de Charme”, aparece (com a função de “consultor musical”) o nome do antropólogo Hermano Vianna, também ideólogo do programa dominical “Esquenta”, de Regina Casé. Com ele, chega ao olimpo das novelas o ideário de valorização dos movimentos musicais realmente populares de fora do eixo Rio-São Paulo – a compreensão de um Brasil por inteiro, liberto o máxino possível das tiranias das patroas paulistocariocas.
“Participei de conversas sobre a definição do estilo musical de personagens, dei algumas sugestões para a trilha”, explica Hermano, em breve conversa por e-mail. “Mas é um trabalho coletivo. Todo mundo participa: diretores, autores, diretor musical, Mariozinho Rocha, atores e atrizes, produtores, pessoal da cenografia, do figurino etc. Nunca tinha trabalhado numa novela, não sabia que o processo era tao coletivo. No final, ninguém sabe mais nem quem primeiro sugeriu quem.”
Não está dito em lugar algum, mas a guinada que se ouve hoje no plim-plim significa mais uma pá de terra por sobre as ruínas da velha indústia fonográfica – apenas a gravadora da própria Globo, a Som Livre, mantém importäncia nessa nova configuração, embora menos como criadora de sucessos que como mera distribuidora de trabalhos já consolidados de nomes como Teló, Gaby e João Lucas & Marcelo. O atual momento explica por que sumiu do mapa, já faz tempo, o apelido tipo greco-romano Vênus Platinada, com o qual a Globo amava se autoclassificar.