Erasmo numa boa

Numa ótima entrevista pra Trip, Erasmo lembra dos anos 70:

Na madrugada, compondo, você deixa um copo de whisky do lado?
Não sou de beber em casa não. Só quando tem algum amigo, muito raro. Só bebo socialmente. Só quando saio e eu saio pouco. Antigamente eu bebia muito porque saía muito, entornava mesmo. Mas sempre socialmente. O problema é que tinha muitos eventos pra ir. [risos].

Você sempre foi controlado, consciente?
Não, só de uns tempos pra cá. A maturidade vai trazendo essas coisas. E tudo o que eu tinha direito de fazer eu fiz.

Sim, mas nunca precisou de ajuda profissional pra, de repente, parar de beber?
Não, não. Meu problema foi CTI direto! Mas não foi por causa da bebida, foi coração. Por causa da vida e muita bebida inclusive, mas foi pior porque eu já estava bom na CTI, terrível ficar aceso lá. Drogado tudo bem, fica lá três dias e não vê nada, mas ficar lá só pra normalizar a arritmia é terrível, é muito chato.

E a “Maria Joana” (nome de uma canção clássica de Erasmo que cita a marijuana), nunca mais?
Não, parei com tudo, bicho, há muito tempo.

Você usava mais pra relaxar ou pra fazer música?
Tudo igualzinho às outras pessoas, bicho. Pra fazer amor, pra compor, pra andar, pra olhar. Mas nunca fora da minha casa! Sempre na minha casa. Nunca dirigi assim, nunca fiz show assim, nunca gravei assim. Só na minha casa, eu e minha mulher, só.

Show, faz careta?
Tomo um golinho de whisky com gelo, um copo longo, cheio até a boca com gelo. Se eu encarar o show sem nada, se tiver alguém rindo na plateia, vou pensar que tá rindo de mim.

Qual a sua opinião sobre a descriminalização da Maria Joana?
Eu não sou ninguém para decidir isso. Apenas acho uma sacanagem uma pessoa ser presa por causa disso. Eu acho que outras áreas é que teriam que agir, pra não chegar a ele [o usuário]. Nisso também entra bebida, sabe, porque ela entra em uma série de contextos. É até uma irresponsabilidade eu dar uma opinião assim, porque envolve várias coisas. São papos assim que, se as cabeças não chegaram a uma conclusão até hoje, não sou eu que vou chegar.

Você teve grandes experiências psicodélicas?
Tive várias, ácido. Já experimentei tudo. Menos injeção, heroína, esses negócios aí. Cocaína, haxixe, maconha e ácido eu tomei. Mas minhas experiências eram caseiras. Eu e minha mulher, eu nunca fiz nada com amigo meu. Nem com o Roberto, nem com o Tim, com ninguém. Era eu e minha mulher e só. Era só pra fazer amor, pra tocar, entende? Pra ficar lá, olhando a Lua, escrevendo, ouvindo som.

E como você lidou com isso com seus filhos?
Eu nunca proibi. Dou informação pra eles, eles sabem o que é certo, o que é errado – se é que existe certo e errado, até hoje ninguém nunca soube dizer, uma coisa pode ser certa hoje e errada amanhã. A própria pessoa decide o seu certo e o seu errado, agindo com bom senso. E ela decide o seu bem. Jamais disse aos meus filhos: “Não faça isso”. Só falei: “Isso aqui leva a isso, isso aqui é bom pra caramba, mas depois é um terror, você vai voar, mas depois vai se foder todo”. Eles decidem a vida deles e eu nunca vi. Claro que eles bebem as biritas deles, mas eu nunca vi nenhum filho meu com fumo, e não foi porque eu dissesse não.

Você acha que só informar basta?
Eu acho irresponsabilidade qualquer pessoa dar opinião sobre qualquer assunto, você tem que estar muito forrado de informação. É aquele negócio, fulano matou sicrano. Porra, ninguém sabe o que levou o cara a matar. Tudo bem, ninguém deve matar ninguém. E você, faria isso? Eu não sei se faria, eu tenho que estar na situação do cara. A constituição física do cara é uma, a moral dele é uma, a fragilidade emocional dele é uma. E a minha é outra. É muito fácil você dizer: “Eu não faço isso”. Só na situação é que você sabe. Muitas vezes omito minhas opiniões não porque estou em cima do muro, mas é porque me acho um nada pra dar opinião sobre coisas tão amplas, que envolvem religião, política e tudo mais.

Em política você também prefere não dar opinião?
Eu prefiro dar a minha opinião política de ser humano normal, trabalhador. Porque isso ninguém sabe, só eles [os políticos]. É muito fácil descobrir isso, é só você ir na livraria e pegar um livro tipo “a verdade sobre o suicídio de Getúlio Vargas”. Porra, que verdade?

Parece que você pautou sua vida muito no bom senso.
Procuro ter muito bom senso. Não é que eu seja perfeito e não erre não. Mas se eu tiver que voltar atrás eu volto. Eu sou difícil, um pouquinho, mas eu procuro.

E pra nunca ouviu “Maria Joana”, recomendo todo o Carlos, Erasmo


Erasmo Carlos – “Maria Joana

Jovem Guarda hoje

O Itaú Cultural fez um especial sobre a Jovem Guarda, com farto material multimídia e vários textos sobre o tema – vale a visita. E entre artigos assinados por bambas como o Fernando Rosa e o Ricardo Alexandre, me pediram para escrever uma matéria sobre a influência do movimento cultural no pop brasileiro do século 21. Olha o texto aê (para o ler o original, entre no site e clique na seção Textos).

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E que tudo mais vá pro inferno

Geração pop endossa a importância da jovem guarda para a história da música brasileira

Dá para imaginar o que seria da música brasileira se não houvesse a jovem guarda? Mesmo que não possa ser ouvido como um gênero específico – afinal, começou como a diluição do impacto mundial do rock por meio do senso estético e passional da América Latina –, o movimento talvez tenha sido o principal fenômeno musical do século passado no Brasil. Sua força vai além das canções e dos filmes de Roberto Carlos. Jovens, urbanos e elétricos, seus músicos conseguiram atingir o país com o mesmo impacto dos reis e das rainhas do rádio nas gerações anteriores e tiveram suas principais características absorvidas por quase todos os músicos, compositores e intérpretes que vieram em seguida. Do samba-rock ao tropicalismo, passando pela cena funk/soul dos anos 1970, pelos Mutantes e pela própria MPB, e indo até a música sertaneja e o rock dos anos 1980, todos reconhecem que a jovem guarda foi uma das manifestações populares mais autênticas da música brasileira, cuja repercussão ainda é sentida no país.

Por mais diverso e esquizofrênico que pareça ser o cenário pop atual, ele tem suas raízes inteiramente vinculadas ao movimento inaugurado pelo trio Roberto, Erasmo e Wanderléa. E da jovem guarda é possível colher frutos tão improváveis quanto a eletricidade dançante do trio Autoramas, as guitarras do La Pupuña, a autocrítica pop do Cabaret, o romantismo descarado do Cidadão Instigado, as melodias do Mombojó e o apelo direto de Lucas Santtana, além de toda a escola de rock gaúcho inaugurada pela Graforréia Xilarmônica, do carisma do pernambucano China e do tom confessional do Los Hermanos.

Um exemplo dessa influência direta está em Gabriel Thomaz, do Autoramas, que se reuniu com outros músicos de sua geração para, ao lado do tecladista Lafayette Coelho, reverenciar o período com a banda Lafayette e os Tremendões. Já China e alguns integrantes do Mombojó celebram a importância de Roberto Carlos com o grupo Del Rey. Trata-se de uma geração que cresceu ouvindo esse ritmo sem os preconceitos dos que, naquele período, o tachavam de música descartável ou rotulavam os músicos da jovem guarda de alienados políticos.

“Uma pitada sacana”
“Não sei se existe outro movimento nacional mais influente quando se fala em música popular. Todo mundo ouviu e tirou alguma coisa da jovem guarda, de Caetano Veloso ao brega paraense, de Amado Batista ao Autoramas”, explica Gabriel Thomaz. O gaúcho Frank Jorge, fundador da Graforréia Xilarmônica, concorda: “Foi ela quem trouxe o tipo de formação instrumental baixo, guitarra, bateria, voz e órgão, um novo enfoque para os arranjos”. O paulistano Curumin complementa: “Não consigo imaginar, por exemplo, o que teria acontecido com a tropicália, a psicodelia, o samba-rock e o rock dos anos 1980 caso a jovem guarda não tivesse acontecido”. Para Adriano Sousa, baterista da banda paraense La Pupuña, “o maior legado são as guitarras, os teclados do Lafayette e, claro, as letras, ingênuas mas com uma pitada sacana”.

Márvio dos Anjos, da banda Cabaret, teoriza: “Radicalizando, sem a jovem guarda o cenário pop do Brasil teria abraçado esse conceito babaca de linha evolutiva da MPB de raiz. Haveria rock, mas Cabeça Dinossauro [1986], dos Titãs, por exemplo, não seria precedido por canções deliciosas como Sonífera Ilha e Insensível. O Los Hermanos teria inaugurado a carreira com Bloco do Eu Sozinho [2001], e perderíamos Anna Júlia, que é a obra-prima deles. Sem falar o que devem a eles várias bandas do fim dos anos 1990, como Autoramas, e todo o rock gaúcho. Por outro lado, os caminhos de Rita Lee – com o Tutti-Frutti – e de Lulu Santos não teriam sido pavimentados por uma série de corinhos, e talvez eles fossem menos subestimados do que são por parte da geração atual. Enfim, o problema é que, com ou sem jovem guarda, o Brasil ainda é muito preconceituoso com a música adolescente. A galera quer ver maturidade em tudo e não repara que isso é coisa de velho”.

Já o compositor baiano Ronei Jorge pondera a extensão da influência da jovem guarda: “Não sei se dá para precisar o legado da jovem guarda na atual geração. Muitas coisas se passaram e se misturaram: tropicalismo, bossa nova, música cafona, mangue-beat etc.”. Kassin, que participa de projetos como o + 2 e o Artificial, além da banda Acabou la Tequila, pontua: “Acho que as gravações mudaram muito com a jovem guarda – a forma de orquestração, a introdução da guitarra. Isso abriu as portas para o que veio depois”. BC, guitarrista da banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, complementa: “Houve um lado tecnológico, quando surgiram guitarras, baixos e amplificadores nacionais”.

Liberdades individuais
O fenômeno pop da jovem guarda deve-se em grande parte à expansão da cultura rock ’n’ roll pelo planeta, que estabeleceu um novo parâmetro para a música feita no Brasil. “A jovem guarda é a precursora do rock no país e tem um papel importantíssimo num conceito de rock sobre e para a diversão”, continua Márvio. “Hoje, o engajamento político está cada vez mais démodé, as democracias estão aí como queríamos, os movimentos sociais e as ONGs, mas o que a nossa geração quer mesmo são as liberdades individuais. A jovem guarda falava disso e virou referência, mesmo com uma rebeldia mais ingênua. ‘Manter a fama de mau’ para sair com mulheres, o sonho com o carro, a insatisfação com a ilegalidade dos prazeres ou com a rigidez da moral vigente”. Kassin emenda: “Para mim, aquelas músicas do Chico Buarque falando coisas pelas beiradas não faziam o menor sentido quando eu era adolescente. Minha reação era: ‘Por que ele não fala o que está pensando?’. Claro que hoje entendo melhor o período, mas a jovem guarda não precisava ser explicada”.

“Música emociona ou não emociona”, diz o cearense Fernando Catatau, guitarrista e líder do Cidadão Instigado. “As pessoas queriam ouvir canções politizadas no Brasil, então qualquer uma que não fosse assim parecia não ser legal. E na jovem guarda era tudo muito simples e puro”. Frank Jorge concorda: “Os tempos pediam posicionamentos. E eles diziam coisas que faziam sentido para eles e, é claro, para milhões de brasileiros. Podiam não ter uma postura política orgânica, engajada, mas a exerciam na prática”.

“Quase orixás”
Lucas Santtana cita uma música como exemplo da força do movimento: “Quero que Vá Tudo pro Inferno, de Roberto e Erasmo Carlos, já começa negando a tradição da canção popular brasileira ao indagar: ‘De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar?’. Símbolos que sempre foram orgulho nacional são postos à prova para no refrão culminar no que Fausto Fawcett chamaria de ‘puro-desabafo-egotrip-adolescente’: ‘Só quero que você me aqueça nesse inverno/E que tudo mais vá pro inferno’”. Gabriel concorda: “A jovem guarda reside no trio Roberto, Erasmo e Lafayette, e Quero que Vá Tudo pro Inferno tem o dedo dos três. É o som característico da jovem guarda”. “É uma obra-prima”, afirma China. “Como um artista consegue fazer sucesso com uma música que manda tudo pro inferno? É meio surreal se levarmos em conta todo o momento político da época.”

A dupla Roberto e Erasmo tem papel crucial nessa história: “É clichê falar deles como Lennon/McCartney, Jagger/Richards, mas a alimentação entre os dois, a provocação, as piadas internas, a competição e a busca por aprofundamento de caminhos musicais sem sair do pop os tornam artistas muito mais interessantes. Como se não bastasse o repertório”, lembra Márvio.

Lucas Santtana pontua que “a canção popular brasileira foi geneticamente modificada pela dupla e sua herança é nítida até hoje quando ouvimos artistas atuais como China, Ronei Jorge, Catatau, Rubinho Jacobina e Flavio Basso”. “Os dois são quase orixás”, arremata Kassin.

Vida Fodona #145: Numa Bowa

No programa de hoje temos a vocalista do Yeah Yeah Yeahs virando o Mick Jagger (enquanto seu hit torna-se folk e inofensivo), a faixa que batiza o disco do ano passado de uma das melhores bandas instrumentais do Brasil, uma das músicas do Sensational Fix, novas do MSTRKRFT, Rômulo Fróes e Mulatu Astatke, Erasmo vintage, Hot Chip com Robert Wyatt, Arnaldo ao vivo, Booker T. tocando Beatles, Wilco tocando Costello, tributo a Lux Interior, Spoon, Momo, Of Montreal e Paul McCartney.

Arnaldo Baptista & Patrulha do Espaço – “Feel in Love One Day”
Rogue Wave – “Maps”
Paul McCartney – “Check My Machine”
N.A.S.A. (com Karen O, Fatlip e Ol’ Dirty Bastard) – “Strange Enough”
MSTRKRFT (com Lil Mo) – “It Ain’t Love”
Smokey Robinson & the Miracles – “Tears of a Clown (Action Jackson Remix)”
Booket T. & the MG’s – “I Want You (She’s So Heavy)”
Mulatu & The Heliocentrics – “Chinese New Year”
Sonic Youth – “Rats”
Of Montreal – “And I’ve Seen a Bloody Shadow”
Pata de Elefante – “Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulha”
Wilco – “Peace, Love and Understanding”
Rafael Castro e os Monumentais – “TV”
Momo – “Fin”
Rômulo Fróes – “A Anti-Musa”
Hot Chip com Robert Wyatt – “We’re Looking for a Lot of Love (Remixed by Geese)”
Erasmo Carlos – “Grilos”
Spoon – “The Way We Get By”
Cramps – “Sunglasses After Dark”

Vambora?