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Entrevista

Depois de dois discos reflexivos- tanto seu primeiro disco solo Recomeçar quanto o Atrás/Além de sua banda O Terno -, Tim Bernardes começou 2020 pensando em seu próximo disco solo, mas a quarentena o obrigou a voltar ao modo introspectivo que já vinha atravessando nos anos passados. Aproveitei para conversar com ele na edição desta semana do Tudo Tanto sobre o diálogo entre este 2020 e sua jornada interior recente, quando falamos sobre criação, composição e perspectiva de carreira, também a partir do ponto de vista de sua geração, num papo em que ele ainda falou de suas novas parcerias – de Gal Costa a Fleet Foxes – e de suas perspectivas de futuro.

Fazendo contraponto a outro programa quinzenal deste canal, o Jornalismo-Arte, apresento agora o Artejornalismo, que também disseca alguns dos principais nomes do jornalismo que cobre música no Brasil, só que com ênfase na geração que surgiu neste século, já fora das redações e com a internet em suas veias. E para abrir este programa, convidei um dos fundadores do site Outros Críticos, o pernambucano Carlos Gomes, para falar de como seu site passou a provocar discussões aprofundadas sobre a música brasileira atual tanto online quanto em versões para além do digital, sejam impressas ou presenciais. E anuncia mais uma mudança de fase no projeto.

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Velho compadre de outros carnavais, já fiz muita coisa junto com o Bruno Natal e a primeira edição brasileira da Wired, que acaba de sair, foi só mais uma delas. Bruno foi meu sócio no falecido consórcio de blogs OEsquema, capitaneou por um dos principais blogs de música do Brasil (o URBe, que anda num outro ritmo) e fundou a plataforma de shows Queremos. Mas em vez de falar de sua trajetória, assunto para um outro programa futuro, resolvi focar em seu filhote mais recente, o podcast Resumido, e entender sua relação com as notícias, a urgência do jornalismo, o excesso de ofertas e o papel da internet.

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Enorme prazer de fazer parte da primeira edição da Wired no Brasil. Fui incumbido de uma maratona profissional: entrevistar e perfilar os 50 brasileiros mais criativos de 2020, uma lista que chegou pronta mas que pude interferir à medida em que me inteirava de todo o processo. E este foi junto de uma equipe dos sonhos: a querida Cris Namouvs no comando da espaçonave, o compadre Bruno Natal na edição, a comadre Juliana Azevedo no design e a capa assinada por Laurindo Feliciano (sem contar outros que conheci no processo, como o fotógrafo Wendy Andrade e a produtora Karina Mendes Cardoso). Mas a saga de entrevistar 50 universos pessoais em plena expansão, ainda mais num ano como 2020, abriu minha cabeça em múltiplas camadas e este trabalho tornou-se especialmente mais enriquecedor por acontecer neste ano pandêmico. Encontros, virtuais claros, com gente tão diferente e ativa como Ailton Krenak, Teresa Cristina, Emicida, Miguel Nicolelis, Silvio Almeida, Yasmin Thainá, Iana Chan, Sidarta Ribeiro, Nath Finanças, Marcelo D’Salete, Kaique Britto, Felipe Neto, Alê Santos, entre vários outros, me fizeram recuperar a sensação de horizonte que parecia ter sido perdida desde o início do ano. Abaixo, o texto que escrevi na apresentação da revista, que está sendo distribuída gratuitamente em alguns pontos de venda no Rio e em São Paulo (e não vai ser vendida em bancas) e a relação dos 50 nomes escolhidos, com os respectivos links para cada uma das matérias.

50 Horizontes

Entrevistar os 50 brasileiros mais criativos de 2020 não foi só uma tarefa hercúlea como inspiradora. Incumbido desta missão, encontrei 50 universos únicos, 50 pontos de vista singulares e 50 perspectivas distintas, mas todos, sem exceção, esperançosos em relação ao seu papel no futuro do Brasil.

Foram quase 50 videoconferências (só três responderam por email e só um pelo telefone) em que pude conferir olhares curiosos e empolgados, ver sorrisos e caras sérias para descrever altos e baixos de um ano que ficou na história de todos nós. A ausência do encontro presencial, crucial quando se faz esse tipo de entrevista, mostrou, por outro lado, que todos estavam à vontade com a rotina da quarentena.

Muitos entediados, outros exaustos, alguns felizes pela convivência com os filhos, outros tensos pela tragédia sanitária, mas todos dispostos a seguir fazendo seus trabalhos, que encontraram, neste ano, um ponto de inflexão definitivo.

50 indivíduos que tiveram que se reinventar para adequar-se ao novo ano, 50 pontos de conexão com redes exponenciais – vários inclusive conectando-se entre si -, 50 biografias que deram um salto no ano que está chegando ao fim.

Mais do que isso: 50 olhares dispostos a tirar o país do atraso conceitual que se encontra, 50 horizontes possíveis que creem em um Brasil que, mesmo na adversidade, só melhora.

Os 50:

Foto: Manuela Eichner

Foto: Manuela Eichner

Depois de ajudar Criolo a parir seu Nó na Oreia, dar um chão ao Metá Metá com seu baixo implacável e condensar seu lirismo em canções intimistas (em seu primeiro álbum solo Motor), Marcelo Cabral aproveitou a quarentena para enveredar pela música eletrônica. “Já faz um tempo que tenho usado o Protools como laboratório de ideias e me dei conta que estava sempre fuçando o sintetizador, sampleando e picotando tudo, mas sem fazer qualquer triagem disso, às vezes só pelo exercício de dichavar os tutorias ou só apertando e girando todos os botões possíveis pra ver onde iria dar, mas sem pensar exatamente num disco”, lembra. O canal para seu segundo disco, Naunyn, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (e que ele antecipa mostrando a faixa “Mariannen” em primeira mão para o Trabalho Sujo.

“O sintetizador te dá todas as ferramentas. Dependendo de como você mexe num timbre, uma nota pode virar uma caixa, um chimbal ou bumbo e etc, além do banco de timbres melódicos que já vem nele. Teve um momento que comecei a curtir muito não samplear nada e criar tudo só no synth e fiz algumas assim, que ainda estão na incubadora. A música eletrônica é uma música inventiva, uma linguagem, não é apenas a intenção de querer soar e imitar um instrumento, é um som novo, um novo instrumento e com isso te leva a outros lugares e possibilidades. Curto demais isso desde sempre, é um outro tipo de transe e profundidade que os sons sintéticos chegam, que sempre me pegou muito. Tava tudo guardado só esperando a hora e por qual canal sair”, pondera.

O ponto de partida foi um sintetizador específico, que Cabral relembra seus primeiros contatos. “Por algum motivo eu já estava fuçando o OP-1 pela internet a um tempo e quando gravei em 2019 no estúdio do Bruno Buarque e dei de cara com ele ao vivo. Ele me ofereceu para fazer um test drive caseiro por uns dias. Não peguei no dia, mas isso ficou coçando isso até o começo de 2020, quando enlouqueci completamente, igual criança com brinquedo novo. Não fiz mais nada durante dias e só expremendo ele de todos os lados e vendo tutorias no Youtube, e logo veio aquela voz ‘vai salvando que tem assunto ae’, e quando vi já tinha uns 4 ou 5 esqueletos que eu tava curtindo e fiquei alimentando cada um e notei que poderia sair um disco dali”, remonta o baixista.

O disco é influenciado diretamente pela estada do baixista em Berlim, na Alemanha, onde passou um ano e meio entre 2018 e 2019. “Primeiro teve a paixão pelos sons sintéticos que curto desde sempre, mesmo bem antes de pensar em ser músico, eles já estavam presentes em muita coisa que ouvia desde muleque”, conta. “Mas sem dúvida foi a experiência dos clubs e festivais de Berlim somado as pesquisas que fiquei fazendo por lá que bateu essa instiga mesmo. Quando caiu o OP-1 na mão, foi só deixar fluir tudo isso e arrematando os cantos.”

O nome do disco vem da rua em que morava com sua companheira, a designer Manuela Eichner, durante essa estada. “É uma rua de três quadras bem no meio de Kreuzberg, tipo paralela à Augusta deles, de maioria turca e bem tranquila em meio a dois rios, Landwehr Canal e Spree, e a uma quadra do Görlizter Park e com clubs de todos tamanhos e estilos pra todos os lados. Fui muito também na Hard Wax, que ficava a duas quadras do nosso apê pra pesquisar e ficar ouvindo e fazendo cara de que ia comprar e não comprava nada, só com o Shazam ligado e anotando os sons”, lembra, rindo.

Pergunto sobre o inevitável impacto da quarentena nesta produção e Cabral reflete: “Tem uma viagem diferente e profunda em fazer um disco absolutamente sozinho, sem nem perceber emendava a tarde com noite e a noite com a madrugada, só com o fone e totalmente imerso no som, sem ninguém pra conversar, no lockdown entre março e maio, ou dispersar.”

E quando comento sobre a sonoridade oitentista do disco, que traz elementos de pós-punk, new wave e hip hop daquele período, Cabral concorda. “Não é consciente no sentido de querer fazer pra que soe de tal forma ou pertença a algo, mas no sentido ter conhecimento e vivência nestes três estilos que você citou e mais alguns se somaram. São sons que eu trago naturalmente dentro de mim da minha infância e adolescência toda andando e competindo de skate. Era o boom do pós-punk e new wave e também o começo do rap, era só o que eu ouvia, junto com punk e o hardcore. Fiquei também ouvindo e conhecendo mais do mundo techno, tanto de Detroit como do resto do mundo, mas principalmente de Berlim, além do universo do Richie Hawtin e seus projetos – Plastikman e F.U.S.E. – que já é um cara que deu uma mexida em tudo isso.”

Cabral não pensa em fazer shows com esse trabalho e vê esse disco funcionando melhor na mão de DJs. “Talvez este isolamento me traga alguma idéia de como levá-lo para o palco”, cogita, “o Motor também teve isso, eu não me via fazendo um show e cantando e depois achei este caminho que estava adorando e que espero ansiosamente voltar, então todas as possibilidades estão em aberto.”

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Dependendo do seu ponto de vista, Gustavo Mini Bittencourt é um dos grandes nomes do rock independente brasileiro ou um dos grandes pensadores da cultura digital deste início de século (embora ainda não tenha lançado seu livro). Líder dos Walverdes, o publicitário gaúcho também contrasta diferentes contextos para fazer analogias e tentar entender a transformação comportamental que vem acontecendo com a mudança de século. Ele foi meu sócio no saudoso portal OEsquema e é velho compadre de outros carnavais, uma conversa que sempre me enriquece e que desta vez compartilho com vocês.

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E pela primeira vez neste programa dedicado a falar sobre o jornalismo que cobre música, convido alguém que começou já na internet. Embora Gaía Passarelli tenha passagens pelo impresso e pela TV, foi na internet que ela começou e onde se estabeleceu. Primeiro com o primordial Rraurl, site referência na divulgação e cobertura do início da música eletrônica e sua cultura intensa no Brasil, para depois passar pela MTV, se aventurar pelo YouTube, lançar um livro sobre viajar sozinha – o que a fez refletir sobre o papel da mulher nesta cena jornalística – até chegar ao Buzzfeed Brasil, onde trabalha atualmente. Refaço esta trajetória com sua ajuda buscando também refletir sobre seu interesse por música, se tornar uma personalidade televisiva e entender o que estamos atravessamos durante esta quarentena.

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O primeiro novo programa desta nova era no Trabalho Sujo é a transformação da minha velha coluna Tudo Tanto (que começou na falecida revista Caros Amigos e teve uma sobrevida no site Reverb), que agora é uma seção de entrevistas em vídeo. E como o mote da coluna é falar sobre música brasileira contemporânea, chamei o grande Romulo Frões para comentar sobre esta sua geração musical, uma vez que ele está se tornando um ótimo observador e crítico da contemporaneidade, como pode se visto no curso sobre música brasileira no século 21 que ele deu para o canal do YouTube do Instituto Moreira Salles. Por isso o papo é menos sobre sua carreira (embora ele conte algumas novidades, como cursos sobre fazer letras e um disco de funk!?) e mais sobre o contexto atual, contemplando as invenções do século 20, o mercado e a mídia e todo um cânone de nossa música.

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Uma das pioneiras dos blogs no Brasil, Flávia Durante também acompanha a cena independente brasileira há décadas, trabalhando nos bastidores com diferentes artistas e aos poucos consolidando as bases para sua atual empreitada: o bazar Pop Plus, um dos primeiros a abordar a questão da moda plus-size e ampliar esta discussão para outras áreas. Conheço-a desde o século passado e foi um prazer ouvi-la contando sua trajetória e saber como ela vem repensando seu próprio negócio à luz desta quarentena que atravessamos.

O podcast que Flávia cita é o Profundamente Superficial.

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Luiza Lian entrou no ano disposta a lançar o sucessor do ótimo Azul Moderno que lançou há dois anos, mas teve, como todos nós, de refazer seus planos pois o 2020 que não esperávamos aconteceu. Vendo seu planejamento se desfazer, ela também reviu o disco que estava terminando com o produtor Charlie Tixier por uma nova luz, o que lhe trouxe a um novo entendimento de um álbum que já tem título e está quase finalizado, à exceção de sua extensão audiovisual que, sem previsão de voltar a fazer shows, ganhou outra conotação para a cantora e compositora paulistana. Conversamos sobre processo criativo, sua relação com a espiritualidade, como lançar um disco nessa época estranha que vivemos e como Luiza enxerga esse momento que estamos atravessando.