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Emicida: “A sós nesse mundo incerto”

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Às vésperas do dia das mães, Emicida lança o clipe da faixa que abre seu segundo disco. Batizada apenas como “Mãe”, ela narra a história de dona Jacira vista pelos olhos de seu filho como se ele estivesse num sonho.

E o clipe tem uma atmosfera tão parecida com o clipe novo do Radiohead que o inconsciente coletivo parece sublinhar o fato de que estamos nos sentindo perdidos num sonho. Será que é isso mesmo?

Projetonave + Emicida: “É Necessário Voltar ao Começo”

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Completando vinte anos na ativa no ano que vem, o clássico grupo Projetonave prepara-se para lançar duas mixtapes que dão uma geral em suas duas primeiras décadas. Remix reúne quase cinquenta colaboradores da banda tanto do hip hop quanto da música eletrônica – que recriaram várias faixas em dois volumes: o primeiro mais baseado em rimas e rap, enquanto o segundo é mais experimental. Assim, eles abriram todas as masters de seus discos e chamaram amigos para trabalhar com as faixas, as rimas, os timbres e os beats que quisessem. Entre elas está a faixa “É Necessário Voltar ao Começo”, primeira música da primeira mixtape de Emicida, Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até que Eu Cheguei Longe, de 2009, apresentada em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. Saca só:

Vale a comparação com a faixa original, lançada há oito anos, também com o Projetonave.

Além de Emicida, participam do volume 1 de remix nomes como Síntese, Sombra, Yoka, Munhoz, Elo da Corrente, Sala 70, Indee Style, Neguim Beats, entre outros. O volume 2 conta com Cybass, Nave, Sants, Soul One, Mental Abstrato, Master San, Seixlack e Cesrv, entre outros – este último recria “Kings of Sarjeta”, também apresentada em primeira mão aqui:

A relação completa das faixas e colaboradores está no final deste post. Remix vai ser lançado na semana que vem ( tanto em versão streaming (dia 4 de maio em todas as plataformas) quanto física (em um estojo com duas fitas cassete, que começam a ser vendidas no site deles em junho), além de ter uma versão para download no site deles. Conversei sobre o lançamento por email com o Akilez, que segura os vocais e programações do grupo ao lado do baixista Alex Dias, do guitarrista Marcopablo, do baterista Flávio Lazzarin, do tecladista Willian Aleixo e do DJ B8.

Conta a história dessa nova mixtape, como começou a gravação e como elas evoluíram para o projeto final? A ideia sempre foi lançar dois volumes, cada um com uma cara?
Tudo partiu do fato de já trabalharmos muito com samples e recortes, temos essa linguagem de beatmaker já nas nossas composições, principalmente quando acompanhamos MCs, gostamos de dar um caráter de loop e produção adaptado a banda. Partindo desse principio e a data comemorativa dos 20 anos em 2017, pensei em abrir todas nossas sessões de gravação para que todos amigos que convivemos pudessem desconstruir e fazer o que quisessem com as faixas abertas. O critério foi totalmente livre de qualquer direção, na real não tinha nenhuma idéia de como poderia soar a obra toda, pois convidamos pessoas com métodos, conceitos e idéias completamente diferentes, mas com afinidades na maneira de tratar a música. A fita dupla surgiu por necessidade, pois convidei pessoas a mais pensando em que 50% entregaria o remix, mas além de 99% entregarem, surgiram mais amigos querendo contribuir. Tive que brecar, pois não conseguiríamos arcar com todo esse material. Todo o processo foi feito de forma colaborativa e para nós é um dos maiores valores desse trabalho: ter a contribuição de várias pessoas que gostamos somando e respeitando nossa relação com a música. O critério de divisão se deu pela quantidade de músicas, tempo e flow das sequencias. Algumas mais trips quebravam as que continham rima, ai decidimos fazer uma mais de rap mesmo e outra mais experimental, da pra escolher o clima em que se quer viajar sem sobrecarregar.

Como é o processo de colaboração entre vocês e seus convidados? O quanto a colaboração é ao vivo e o quanto evolui durante a produção?
Gostamos de fazer tudo junto e ao vivo, nesse quesito temos essa escola de banda mesmo. Em alguns casos fazemos à distância, mas curtimos começar uma idéia juntos e ir evoluindo mutuamente. Partimos sempre do principio de afinidade e em quase todos os casos temos relação de amizade, acreditamos mais na experiência do que em colabs comerciais, trabalhamos todos esses anos construindo algo sólido entre nós e as pessoas que dividem isso com a gente entendem esse sentimento. Nunca assinamos um contrato com quem quer que seja, isso é muito relevante, e com todos que trabalhamos mantemos uma boa relação até hoje. Gostamos desse formato liberal, colaborativo, mais punk.

Como escolheram os convidados destas duas mixtapes?
Temos uma convivência com grande parte dos convidados, de uma forma ou de outra. Nesse trabalho surgiu a oportunidade de envolver mais pessoas que gostaríamos de trabalhar ou simplesmente por admirar o corre, além de registrar esse momento que essa forma de produção esta latente em SP, poder ter nosso soundbank reciclado por essas pessoas que vivem a musica de forma verdadeira é muito importante pra nós. É um trabalho que possibilita envolver tudo isso ao mesmo tempo, tem muita gente que ficou de fora e que gostaríamos de ter junto nessa tape. Mas acho entraram nomes representativos desse movimento atualmente, e tendo em vista que tudo foi feito de forma lúdica e independente, estamos felizes com o resultado.

Por que vocês não vão fazer shows destas mixtapes?
Chegamos a pensar nisso, mais abortamos a idéia porque seria quase impossível juntar todos em um show, e pela forma que foi feito seria desonesto alguém ficar de fora, então, optamos só pelo lançamento digital mesmo.

Como vocês vêem a evolução do rap brasileiro nos últimos dez anos? As brigas e rixas internas diminuíram, o clima ficou menos pesado e há uma abertura maior para outros gêneros musicais.
É um assunto complexo! Como cultura de rua é um movimento sem dono, todos podem se apropriar, e é o que aconteceu nessa década. A ótica do mais “abrangente” e mais “pesado” depende de qual ponto da cidade ele é feito, nos anos 90 ele era 100% de periferia, muitos apanharam de polícia para manter a coisa funcionando, inclusive eu! Hoje temos pessoas de outras classes sociais no meio, o que eu acho importante… Mas vejo que tem uma lacuna entre as questões levantadas no seu início e isso fica claro no momento atual de pouco envolvimento de MCs novos com a situação política do país. Acredito que nesse momento estamos nos dois pontos da pirâmide, vai levar uns anos pra se juntar la em cima, abertura musical somado a consciência hip hop – como cultura, não gênero musical – e seus fundamentos. Acredito que a evolução não pode ser apenas musical. O rap é um dos poucos gêneros musicais iniciado pela voz do oprimido a trazendo questões sociais bem fortes em sua história, então a evolução é relativa a ótica de quem a vê! Temos muita coisa pra construir e evoluir no nosso país ainda para aparecer em clipe com ouro e carros de luxo.

Tape 1
00:00 – Dj Nato Pk – Em Favor do Réu (Síntese)
03:00 – Nixon – Atritos e Conflitos (Sombra)
06:10 – Skeeter – Get Live (Pac Div)
08:20 – Yoka – War (Phes)
10:25 – Munhoz – Estalo (Amiri)
13:47 – Bolin – Cerrai o Cilho (Síntese)
16:57 – Emicida & Projetonave – É Necessário Voltar ao começo
22:46 – Síntese – Ahow
25:03 – Elo da Corrente – Constelações
27:37 – Comum – Asuncion
30:43 – Sala 70 – Respiro
33:03 – Coyote – Get Live (Pac Div)
35:36 – Lopez – War (Phes)
37:25 – Cabes – Até o fim sampa (Emicida)
39:31 – Diazz – Até o fim sampa (Emicida)
41:36 – Léo Grijó – Guerra (Amiri)
44:40 – Willian Monteiro & Axel Alberigi – Travessia
48:41 – Makoto – Cerrai o Cilho (Síntese)
51:40 – Ahnik – Bucle de Panico (Indee Style)
54:14 – Dario – Quarto Branco
55:50 – Neguim Beats – Constelações
57:18 – BB Jupteriano – Rap Musica (Sombra)

Tape 2
00:00 – Cybass – War (Phes)
02:44 – Cesrv – Kings of Sarjeta
06:15 – Amanda Mussi – Surprise
10:03 – Nave – Respiro
13:00 – Akilez – All Jazzera
16:17 – Sants – War
20:47 – Neguim Beats – Quarto Branco
22:49 – Sala 70 – Respiro
24:25 – Jovem Palerosi – Asunzion EP Mix
28:32 – Soul One – Até o fim sampa
32:38 – Grassmass – The Great Lagoon (DeVonte Saints)
36:46 – Marcopablo – Constelações
39:26 – Formiga – Cão Faminto
43:00 – Abud – Psico Análise
46:00 – Mental Abstrato – Respiro
48:40 – Tiago Frúgoli – Quarto Branco
51:41 – Dj B8 – As cores da cidade
54:40 – Niggas – Dubplate
57:21 – Master San – Agonia
59:56 – MJP – Heroínas e Heróis
1:02:59 – Lopes – War (Phes)
1:05:12 – SonoTws – Bucle de Panico (Indee Style)
1:07:03 – SPVic – Agonia
1:10:10 – Dario – Constelações
1:12:11 – Gondim – The Great Lagoon
1:15:43 – Seixlack – Cerrai o Cilho (Síntese)

Tudo Tanto #016: Um 2015 espetacular

tudotanto2015

Na edição de janeiro da minha coluna na revista Caros Amigos, eu escrevi sobre o grande ano que foi 2015 para a música brasileira.

A consagração de 2015
O ano firmou toda uma safra de artistas que lançou discos que reverberarão pelos próximos anos

Alguma coisa aconteceu na música brasileira em 2015. Uma conjunção de fatores diferentes fez que vários artistas, cenas musicais, produtores e ouvintes se unissem para tornar públicos trabalhos de diferentes tempos de gestação que desembocaram coincidentemente neste mesmo período de doze meses e é fácil notar que esta produção terá um impacto duradouro pelos próximos anos. O melhor termômetro para estas transformações são os discos lançados durante este ano.

Os treze anos de espera do disco novo do Instituto, o terceiro disco pelo terceiro ano seguido do Bixiga 70, os seis anos de espera do disco novo do Cidadão Instigado, o disco que Emicida gravou na África, um disco que BNegão e seus Seletores de Frequência nem estavam pensando em fazer, o surgimento inesperado da carreira solo de Ava Rocha, o disco mais político de Siba, o espetacular segundo disco do grupo goiano Boogarins, os discos pop de Tulipa Ruiz e Barbara Eugênia, a década à espera do segundo disco solo de Black Alien, o majestoso disco primeiro disco de inéditas de Elza Soares, os quase seis anos de espera pelo disco novo do rapper Rodrigo Ogi, dos Supercordas e do grupo Letuce e um projeto paralelo de Mariana Aydar que tornou-se seu melhor disco. Mais que um ano de revelação de novos talentos (o que também aconteceu), 2015 marcou a consolidação de uma nova cara da música brasileira, bem típica desta década.

São álbuns lançados às dezenas, semanalmente, que deixam até o mais empenhado completista atordoado de tanta produção. É inevitável que entre as centenas de discos lançados no Brasil este ano haja uma enorme quantidade de material irrelevante, genérico, sem graça ou simplesmente ruim. Mas também impressiona a enorme quantidade de discos que são pelo menos bons – consigo citar quase uma centena sem me esforçar demais – e que foram feitos por artistas jovens, ainda buscando seu lugar no cenário, o que apenas é uma tradução desta que talvez seja a geração mais rica da música brasileira. A quantidade de produção – reflexo da qualidade das novas tecnologias tanto para gravação e divulgação dos trabalhos – não é mais meramente quantitativa. O salto de qualidade aos poucos vem acompanhando a curva de ascensão dos números de produção.

Outro diferencial desta nova geração é sua transversalidade. São músicos, compositores, intérpretes e produtores que atravessam diferentes gêneros, colaboram entre si, dialogam, trocam experiências. Não é apenas uma cena local, um encontro geográfico num bar, numa garagem, numa casa noturna, num apartamento. É uma troca constante de informações e ideias que, graças à internet, transforma os bastidores da vida de cada um em um imenso reality show divulgado pelas redes sociais, em clipes feitos para web, registros amadores de shows, MP3 inéditos, discussões e textões posts dos outros.

A lista de melhores discos que acompanha este texto não é, de forma alguma, uma lista definitiva, mesmo porque ela passa pelo meu recorte editorial, humano, que contempla uma série de fatores e dispensa outros. Qualquer outro observador da produção nacional pode criar uma lista de discos tão importantes e variada quanto estes 25 que separei no meu recorte. Dezenas de ótimos discos ficaram de fora, fora artistas que não chegaram a lançar discos de fato – e sim existem na internet apenas pelo registros dos outros de seus próprios trabalhos. E em qualquer recorte feito é inevitável perceber a teia de contatos e referências pessoais que todo artista cria hoje em dia. Poucos trabalham sozinhos ou num núcleo muito fechado. A maioria abre sua obra em movimento para parcerias, colaborações, participações especiais, duetos, jam sessions.

E não é uma panelinha. Não são poucos amigos que se conhecem faz tempo e podem se dar ao luxo de fazer isso por serem bem nascidos. É gente que vem de todos os extratos sociais e luta ferrenhamente para sobreviver fazendo apenas música. Gente que conhece cada vez mais gente que está do seu lado – e quer materializar essa aliança num palco, numa faixa, num mesmo momento. Esse é o diferencial desta geração: ela vai lá e faz.

Desligue o rádio e a TV para procurar o que há de melhor na música brasileira deste ano.

Ava Rocha – Ava Patrya Yndia Yracema
BNegão e os Seletores de Frequência – TransmutAção
Barbara Eugênia – Frou Frou
Bixiga 70 – III
Boogarins – Manual ou Guia Prático de Livre Dissolução de Sonhos
Cidadão Instigado – Fortaleza
Diogo Strauss – Spectrum
Elza Soares – Mulher do Fim do Mundo
Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
Guizado – O Vôo do Dragão
Ian Ramil – Derivacivilização
Instituto – Violar
Juçara Marçal & Cadu Tenório – Anganga
Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thomas Harres – Abismu
Karina Buhr – Selvática
Letuce – Estilhaça
Mariana Aydar – Pedaço Duma Asa
Negro Leo – Niños Heroes
Passo Torto e Ná Ozzeti – Thiago França
Rodrigo Campos – Conversas com Toshiro
Rodrigo Ogi – Rá!
Siba – De Baile Solto
Space Charanga – R.A.N.
Supercordas – A Terceira Terra
Tulipa Ruiz – Dancê

Vida Fodona #518: Vida Fodona de amigo oculto

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Tirei a Carol no amigo oculto da firma e ela levou esse Vida Fodona de presente.

Bárbara Eugenia + Rafael Castro – “Pra Te Atazanar”
Ryan Adams – “Style”
Grimes – “Flesh Without Blood”
Weeknd – “Can’t Feel My Face”
Kendrick Lamar – “Alright”
Instituto + Karol Conká + Tulipa Ruiz – “Mais Carne”
Chairlift – “Ch-Ching”
Jamie Xx + Young Thug + Popcaan- “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”
Hot Chip – “Started Right (Joe Goddard Disco Remix)”
Tame Impala – “Let It Happen (Soulwax Remix)”
Mano Brown + Naldo Benny – “Benny & Brown”
Emicida – “Salve Black (Estilo Livre)”
Diogo Strausz – “Narcissus”
Elza Soares – “Pra Fuder”
BNegão + Os Seletores de Frequência – “Giratória (Sua Direção)”
Bixiga 70 – “100% 13”
Deerhunter – “Snakeskin”
Mark Ronson + Bruno Mars – “Uptown Funk”
Anitta – “Bang!”
Will Butler – “Anna”
Unknown Mortal Orchestra – “Ur Life One Night”
Toro y Moi – “Empty Nesters”
Supercordas – “Sinédoque, Mulher”
Siba – “Mel Tamarindo”
Cidadão Instigado – “Land of Light”
Ava Rocha – “Transeunte Coração”
Boogarins – “Mario de Andrade/Selvagem”
Yumi Zouma – “Second Wave”
Letuce – “Mergulhei de Máscara”
Anelis Assumpção + Amigos Imaginários – “Eu Gosto Assim (Dub Version)”

Vamos?

Todo o disco: Emicida fala sobre Sobre Crianças, Quadris…

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Em plena ascensão, Emicida embarcou em uma viagem de autoconhecimento para dois países africanos para estudar suas raízes, se inspirar e olhar a história do Brasil sob outra perspectiva. O resultado foi seu segundo disco, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, uma ampla discussão sobre cores e valores em âmbitos políticos e sentimentais.

Vagas limitadas, garanta a sua no site do Espaço Cult.

Todo o Disco – Trabalho Sujo 20 anos

Nunca se produziu tanto, nunca tantos artistas brasileiros lançaram tantos discos bons em tão pouco tempo mas ao mesmo tempo nunca se discutiu tão pouco sobre música. A overdose de informação e a concorrência por atenção apenas trata discos como notícias e mesmo com a amplitude da internet, estes discos não são tratados como obras importantes na carreira do artista e sim como mero gancho para notícias.

A partir desta constatação, o jornalista Alexandre Matias, do site Trabalho Sujo, junto com o Espaço Cult, propõe um encontro com artistas para discutir especificamente sua obra neste ano. São quatro encontros que acontecem em novembro com autores de quatro dos discos mais importantes no Brasil em 2015: Fortaleza do grupo Cidadão Instigado, De Baile Solto de Siba, Sobre Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa de Emicida e Selvática de Karina Buhr. Nos encontros, eles falarão do processo de criação e composição de seus discos, incluindo uma audição comentada faixa a faixa dos discos que lançaram este ano.

Os cursos acontecem durante o mês de novembro e fazem parte das comemorações dos 20 anos do site Trabalho Sujo.

Inscreva-se pelo site do Espaço Cult

Todo o disco: Cidadão Instigado, Siba, Emicida e Karina Buhr

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Em mais uma atividade de comemoração dos 20 anos do Trabalho Sujo, inaguro mais um curso no Espaço Cult, desta vez dedicado à crítica e análise musical. Se O Ecossistema da Música no Século 21 detalha as engrenagens de um mercado em mutação, o projeto Todo o Disco põe seu foco em um dos principais pontos deste mercado: a obra musical. E em uma série de quatro encontro convido autores de alguns dos melhores discos de 2015 para dissecá-los – o Cidadão Instigado fala sobre seu disco Fortaleza, Siba detalha o seu De Baile Solto, Emicida conta mais sobre o seu Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa e Karina Buhr fala sobre seu Selvática. Vamos falar menos sobre história, influências, mercado e vida pessoal do artista e focar nos diferentes aspectos de um álbum: ordem das faixas, produção, capa, título, músicos, processo de composição e gravação, além de ouvir o disco ao lado de cada um destes artistas.

As inscrições podem ser feitas no site do Espaço Cult – e dá para assistir tanto o curso inteiro como algumas aulas isoladamente. Segue a ementa do curso:

Nunca se produziu tanto, nunca tantos artistas brasileiros lançaram tantos discos bons em tão pouco tempo mas ao mesmo tempo nunca se discutiu tão pouco sobre música. A overdose de informação e a concorrência por atenção apenas trata discos como notícias e mesmo com a amplitude da internet, estes discos não são tratados como obras importantes na carreira do artista e sim como mero gancho para notícias.

A partir desta constatação, o jornalista Alexandre Matias, do site Trabalho Sujo, junto com o Espaço Cult, propõe um encontro com artistas para discutir especificamente sua obra neste ano. São quatro encontros que acontecem em novembro com autores de quatro dos discos mais importantes no Brasil em 2015: Fortaleza do grupo Cidadão Instigado, De Baile Solto de Siba, Sobre Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa de Emicida e Selvática de Karina Buhr. Nos encontros, eles falarão do processo de criação e composição de seus discos, incluindo uma audição comentada faixa a faixa dos discos que lançaram este ano.

Os cursos acontecem durante o mês de novembro e fazem parte das comemorações dos 20 anos do site Trabalho Sujo.

AULAS:

Cidadão Instigado fala sobre Fortaleza
todo-o-disco-cidadao
DATA: 12/11/2015
HORÁRIO: das 20h às 22h

Siba fala sobre De Baile Solto.
todo-o-disco-siba
DATA: 17/11/2015
HORÁRIO: das 20h às 22h

Emicida fala sobre Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa
todo-o-disco-emicida
DATA: 24/11/2015
HORÁRIO: das 20h às 22h

Karina Buhr fala sobre Selvática
todo-o-disco-karina
DATA: 02/12/2015
HORÁRIO: das 20h às 22h

Como foi o Popload Festival 2015

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Fui aos dois dias do Popload Festival, o festival do Lucio que aos poucos se estabelece no calendário brasileiro como um dos principais eventos de música em São Paulo, e a melhor constatação foi ver, na prática, que “festival de música” não é sinônimo para perrengue, pé na lama, chuva, som ruim, shows à luz do dia, dezenas de milhares de pessoas, quinze mil bandas e a grande maioria delas ruim, comida tosca, banheiros imundos, gente passando mal. Tudo funcionava – e isso é ponto não só para a organização como também para o Audio Club.

Cheguei no primeiro dia no meio do ótimo show do Sondre Lerche e não dá pra entender porque o francês não estava abrindo para o Belle & Sebastian, que tocaria no dia seguinte – era uma situação que todos iriam ganhar, inclusive o festival. Depois foi a vez do Emicida, que optou por fazer um show mais pesado e dando uma geral em toda sua carreira, em vez de tocar apenas o show do disco novo – embora o melhor momento tenha sido “Madume”, em que ele chamou os rappers Drika Barbosa, Raphael Alafin, Muzzique e Coruja para quase nove minutos de dedo na cara. A única concessão ao peso da noite foi a radiofônica “Passarinhos”, deixando claro que o artista sabia que a grande maioria do público nunca tinha visto um de seus shows.

E, como alguns, tive que fazer a escolha salomônica entre ver uma lenda viva do rock (ainda) em ação e um ás da atualidade em seu atual auge. Como aquela não era minha primeira vez com o velho Iggy e sabia que o show começava como uma memorável sequência “No Fun”, “I Wanna Be Your Dog”, “The Passenger” e “Lust for Life”, escolhi assistir ao início do show de roque para depois cair na pista do mago norueguês da disco music, Todd Terje, mas não sem antes assistir ao mosh que o quase centenário roqueiro deu sobre o público que nasceu depois que ele gravou “Candy”, nos anos 80. No clube do Audio, longe das guitarras, Terje determinava um transe rítmico em que timbres retrô pareciam ter nascido no século 20 – e até um velho hit da Whitney Houston não soava como mera citação, combinando perfeitamente com o repertório da noite, repleto de faixas de seu excelente It’s Album Time, do ano passado. O astral da apresentação do escandinavo estava tão bom que, mesmo com ele acabando antes do show do Iggy Pop terminar, bandeei pra casa.

No dia seguinte, consegui ver mais uma vez o Cidadão Instigado tocando seu tenso Fortaleza ao vivo e a banda de Fernando Catatau está imersa na alma pesada do disco – mesmo os momentos mais leves (como “Land of Light” ou “La La La La La La La”) soam bem mais intensos e elétricos do que gravados, mesmo sem sair de suas levadas originais. O Spoon fez um show quase às escuras e o intimismo dark da banda norte-americana não encontrou liga com o público do Belle & Sebastian. Foi um show preciso e empolgante, mas a grande parte do público apenas esperava a banda que encerraria o palco, como também aconteceu no show do Cidadão. Mas não era desânimo – o público estava atento e apreciou os dois shows, mas era uma abordagem muito cética perto do excesso de fofura do show Belle & Sebastian.

Não desgosto do Belle & Sebastian, mas estou longe de ser um fã. Contudo, é uma banda que pertence à minha geração e aquele era o quarto show do grupo escocês que assistia. O lado fofinho, sorridente e Hello Kitty da banda quase chega a me irritar – gosto deles quando esquecem o Nick Drake para revisitar o soul dos anos 80 via Inglaterra. O mais curioso, no entanto, foi a onda jovem que parece ter descoberto o grupo nos últimos anos. Quando assisti ao show que o grupo fez na saudosa Via Funchal há cinco anos, tive a clara sensação de que todos os presentes ali haviam assistido (ou queriam ter visto) o grupo em sua primeira passagem no Brasil, quando tocaram no também saudoso festival Free Jazz (o avô do igualmente saudoso Tim Festival). Eram os indies velhos (como eu), que voltavam para ver uma banda que foi importante para eles em suas juventudes. Mas no encerramento do festival do Lúcio havia muito gente no início dos 20 anos que com certeza não estava naquele show de 2010. A grande interrogação ficou pela forma como esse público descobriu a banda: foi trilha sonora de filme? Tocou na novela? Entrou em videogame? Descoberta semanal do Spotify?

O fato é que essa nova geração de fãs se entregou à fofura do Belle & Sebastian e o show foi muito mais passional que o de Iggy Pop, por incrível que pareça. A felicidade no ar era parecida com a do show que a banda fez em São Paulo no início do século, quase sem acreditar que não apenas tinham fãs no Brasil como eles sabiam cantar todas as músicas. Essa constatação guiou a apresentação da banda, que foi pouco a pouco hipnotizando o público em sua bolha de otimismo, o que também cativou os mais velhos presentes – tocaram até “Legal Man”, que é minha música favorita deles. Foi um show tão divertido quanto cativante e, ao contrário do Iggy Pop, não habita apenas o palco, como um deus do rock. O momento já clássico dos shows da banda é justamente quando trazem os fãs para o palco. Querem dizer que são pessoas como eles. Enquanto o mosh de Iggy Pop na galera é um elogio à saúde atual do roqueiro e uma honra para os pobres mortais que o seguraram antes que ele caísse no show, a subida ao palco do Belle & Sebastian é um abraço coletivo, um carinho de cena que funciona como um colo para pessoas que reconhecem mais as canções que os integrantes da banda.

E é essa dicotomia – entre o antigo rock clássico e o clássico indie rock – que precisa ser resolvida pelo Popload. Ao trazer Iggy Pop como uma das atrações em um festival essencialmente indie, ele abre a possibilidade de realizar shows de veteranos para poucos milhares de pessoas. Mesmo para uma banda como o Belle & Sebastian, o palco do Audio foi bem mais acolhedor e, na medida do possível, intimista do que os outros dois quando eles passaram por São Paulo (o clube da Água Branca deve ter menos que a metade do tamanho da Via Funchal). A escolha de Iggy Pop pode criar uma expectativa errada para o festival (o público da Kiss FM e do Café Piu Piu certamente iria em peso caso o show tivesse uma divulgação específica para canais não-indies, o que não aconteceu) ao mesmo tempo em que ele pode fugir da fórmula “o hype da vez” trazendo velhos de guerra e indies grandes para tocar num palco que os deixa quase em cima do público.

Abaixo, alguns vídeos que fiz no festival.