
Logo que Syro, o primeiro disco de Aphex Twin em treze anos, foi lançado no ano passado que comentava-se que Richard D. James demorou tanto para lançá-lo pois havia tirado os últimos anos para organizar sua coleção de gravações próprias, lançadas ou não. E logo após o lançamento de seu primeiro disco de 2015 surge uma conta no Soundcloud (que foi mudando de id com o tempo, sempre acrescentando um zero a mais ao perfil anônimo) que começou a despejar músicas que poderiam ser as produções que James vem organizando desde a virada do século. Ou pelo menos as faixas que ele não tem a intenção de lançar comercialmente. Ou um enorme teste em relação à fidelidade dos fãs. A quantidade de faixas upadas ultrapassa as dezenas (e continuam subindo…) e é quase consenso no fórum oficial de discussão sobre a obra de Aphex Twin que é o próprio Richard quem está subindo os arquivos. Ainda não há uma compilação (oficial ou não) de tudo que foi subido, mas com certeza vamos ouvir (e ouvir falar) muito dele esse 2015…

O empresário Alan McGee já cantava essa bola no ano passado (“só vai dar Psychocandy nos festivais”) e os irmãos Reid acabaram de anunciar nove datas em maio nos Estados Unidos tocando um dos discos mais importantes do indie rock na íntegra. Psychocandy completa 30 anos em 1985 e é um show que com certeza passa pelo Brasil esse ano (resta saber quem traz). Eis as datas que já foram anunciadas (e se liga que ainda tem Europa e outro naco dos EUA pra serem cobertos):
1º – Toronto
3 – Detroit
5 – Chicago
7 – Dallas
9 – Austin (detalhe: no Austin Psych Fest)
11 – Denver
13 – Vancouver
14 – Seattle
16 – San Francisco
Vai que alguém tá na área ou programando férias…

E você, que mora em Sâo Paulo, já está se preparando para enfrentar a seca de 2015? Ou o plano B é mudar de cidade? Considere uma das opções pois a crise é fato, como dá pra ver por essa entrevista da ambientalista Marussia Whately, do projeto Água São Paulo e do Instituto Socioambiental (ISA). Destaco um trecho:
“O plano de contingência é a principal reivindicação da Aliança pela Água. Em final de outubro do ano passado, fizemos um processo rápido de escuta de mais ou menos 280 especialistas de diferentes áreas. E o plano de contingência apareceu como uma das principais reivindicações desses especialistas.
Naquela ocasião, a idéia predominante era que se adotasse um plano de contingência que permitisse que chegássemos a abril deste ano com um nível de reservação de água nas represas, que desse para aguentar o período da estiagem. Infelizmente, esse plano não foi elaborado e muito menos realizado.
O que aconteceu na prática foi uma negação da crise hídrica por parte do governo do Estado até dezembro de 2014 —uma negação que vai levar para outras instâncias de responsabilização.
O governador terminou o ano dizendo que não teríamos racionamento e que não haveria falta d’água. E começou 2015 dizendo que existe o racionamento e que pode ser que falte água.
Se fosse um novo governador, a gente até poderia aceitar, mas se trata do mesmo cara. Então tem uma questão aí: a forma como a crise foi conduzida nos fez perder muito tempo em termos de ações para chegar a um nível seguro em abril.
Realmente, existe um componente de clima na crise que não dá para negar. Já está confirmado que 2014 foi o ano mais quente da história. O que já seria um quadro de extrema gravidade, entretanto, tem sido agravado porque desde 2011 a Sabesp está super-explorando as represas. Ou seja, tirando delas mais água do que entra.
O governo do Estado deveria ter assumido a liderança em relação à crise da água em São Paulo. No caso do sistema Cantareira, essa liderança deveria ser dividida com o governo federal, por intermédio da Agência Nacional de Águas e do Ministério do Meio Ambiente, a quem compete organizar a Política Nacional de Recursos Hídricos. O problema é que muitos dos nossos instrumentos de gestão vem sendo desmantelados em escala federal, estadual e municipal.
Vale a pena ler tudo antes de entrar em pânico ou desmerecer a crise como “alarmismo”. O texto foi escrito antes do racionamento ser cogitado pelo governo do estado e a foto, da Mídia Ninja, que ilustra o post também ilustra o artigo original.

A pequena multidão indie que grava músicas e atende pelo nome de I’m from Barcelona anunciou que irá lançar disco novo no final de março. Growing Up Is For Trees é o nome do disco e o primeiro aperitivo é a faixa “Violins” que eles lançaram no Soundcloud. É a mesma coisa de sempre – pro bem e pro mal…

E quem diria que o primeiro grande disco de 2015 seria brasileiro e viria do Rio de Janeiro? O primeiro volume de Spectrum, a estreia do produtor Diogo Strausz (cheia de participações especiais), já vinha cercado de expectativa, todas correspondidas e subvertidas à medida em que se dá o play no disco recém-lançado. Ele começa os trabalhos com “Chibom”, uma imaginária road trip dos Autoramas pela América Latina, em uma das muitas guitarradas surf espalhadas pelo disco. E à medida em que nos conduz pelo lado A, nos leva a crer que estamos entrando em um disco dançante e hedonista (“Narcissus”, a irresistível “FCK” e o exercício pop “Me Ama”, um dueto com Kassin), que só nos desvia a atenção da pista na pesarosa “Right Hand of Love”. Mas ao virarmos para o lado B, introspectivo e triste, desfazendo-se em sambas (“Assombração”, com Danilo Caymmi), boleros (“Se Renda”, cantada ao lado do pai, Leno, da dupla Leno e Lilian) e baladas (a dramática “Diamante”, com Alice Caymmi), percebemos que Spectrum, na verdade, é um disco noturno, com suas meia-noites febris e suas cinco da matina solitárias, contrapondo gêneros musicais e épocas distintas num mesmo tom emocional. Sofisticado e plástico ao mesmo tempo, a estreia de Strausz resume a interessante cena musical que renasce no Rio sintetizada no pequeno poema de Valmir Araújo recitado antes da toada “Vovô”: “Ah, a saudade… A expectativa do futuro sob a ótima do passado. A visão imaculada não do que aconteceu, mas de como lembramos…”
Dá pra baixar o disco de graça no site dele.

Na minha coluna na edição do mês passado da revista Caros Amigos, aproveitei os lançamentos-relâmpago dos discos dos Racionais e do Criolo pra falar da importância e do papel do hip hop na cultura brasileira deste início de século.

Os novos cronistas
Novos discos de Criolo e Racionais MCs reforçam o papel do hip hop na cultura brasileira deste século
Dois dos principais discos lançados no Brasil em 2014 são discos de rap. Por mais distantes que pareçam, tanto o terceiro disco de Criolo (Convoque Seu Buda) quanto o sexto disco de estúdio dos Racionais MCs (Cores e Valores) foram lançados de surpresa em novembro e o impacto de suas chegadas não apenas consolidam seus dois autores como os principais nomes do gênero no Brasil hoje (ao lado de Emicida, de quem falei na coluna da edição passada) como impõe o protagonismo do hip hop ao panteão da atual música brasileira. O rap não é mais um gueto, é um dos gêneros mais populares do Brasil e seus 25 anos de história cacifam seus nomes mais importantes a entrar no panteão de nossa produção cultural.
Surgido no final dos anos 70, o hip hop chegou ao Brasil quase uma década depois de seu nascimento e levou uns pares de anos para estabelecer sua voz. O canto falado sempre foi uma característica particular do vocal brasileiro, do samba de breque ao repente, Jair Rodrigues, Chico Science, Fausto Fawcett e Evandro Mesquita pertencem a um cânone paralelo da música brasileira, que fez o hip hop ser absorvido mais facilmente no país. Afinal, cantar falando ou falar cantando não é estranho à nossa musicalidade.
Como aconteceu em todo o planeta, o rap progrediu como uma força periférica. Criado nos bailes do subúrbio de Nova York como um subproduto da discoteca, em poucos anos a cultura hip hop já tinha ampliado sua influência para além da regra pela diversão e tiração de onda, dos primeiros dias. Três anos após o lançamento do primeiro rap gravado (“Rapper’s Delight”, da Sugar Hill Gang), o gênero já puxava para a temática para além da pista de dança e começava a retratar a crua realidade das ruas com a emblemática “The Message”, de Grandmaster Flash & the Furious Five.
O gueto nova-iorquino espalhou-se para o resto do planeta e em questão de anos o rap já era trilha sonora em comunidades periféricas de grandes cidades do mundo inteiro. No Brasil, seus primeiros registros nada têm em comum com as origens do gênero – primeiro quando o bon vivant Miéle gravou sua própria versão para “Rapper’s Delight” (batizada de “Melô do Tagarela”), em 1980, ou quando o grupo de rock Ira! aproximou o gênero do repente nordestino na faixa “Advogado do Diabo”, no disco Psicoacústica, de 1988. Mas uma rede de casas noturnas, sistemas de som, festas, bandas e DJs formada entre os anos 60 e 70 funcionou como berço para o rap brasileiro. Afinal, todos os grandes nomes do hip hop nacional foram criados dançando nos bailes black de periferia, em que se ouvia muito soul, funk, disco music e, aos poucos, hip hop.
O interesse do grupo paulistano Ira! pelo rap veio como uma espécie de reconhecimento mútuo, muito pelo fato do grupo liderado por Nasi e Edgard Scandurra se ver como uma banda de periferia e se identificar com aquele movimento que surgia em rodas de break na Estação São Bento do metrô paulistano. Tanto que Nasi e o baterista do grupo, André Jung, foram responsáveis pela primeira polaróide do rap brasileiro – a coletânea Hip-Hop Cultura de Rua, de 1988, que trazia os primeiros registros de Thaide e DJ Hum (produzidos por Nasi e André), O Credo (produzidos por Akira S), Código 13 e MC Jack (produzidos por Dudu Marote). A antologia foi lançada uma semana antes do outro marco zero do rap brasileiro, a coletânea Consciência Negra – Volume 1, que trazia, entre outros artistas, aqueles que juntos seriam o maior nome do pop brasileiro no final século. O futuro quarteto vinha em dupla: de um lado a faixa “Pânico na Zona Sul” , de Mano Brown e Ice Blue, do outro a faixa “Beco Sem Saída”, de Edy Rock e KL Jay. Em pouco tempo as duas duplas se juntariam para formar os Racionais MCs e, ao lado da dupla Thaíde e DJ Hum, eles forjaram na marra o cenário que permitiu nascer, nos anos seguintes, nomes que ajudaram a construir uma história que consolidou o que parecia ser um modismo dos anos 80 em um dos segmentos mais importantes da música popular brasileira. E com um forte agravante: sua popularidade cresceu sem o auxílio intenso de rádio, TV, jornais ou revistas. O rap brasileiro sempre evoluiu através de seu aspecto comunitário, conectando pessoas com a mesma mentalidade em diferentes cidades do Brasil no boca a boca, no corpo a corpo – que, justamente por isso, soube se aproveitar como poucos da internet.
Por isso não é estranho que Racionais e Criolo tenham usado a internet para anunciar suas aguardadas voltas – Criolo liberando o download gratuito em seu site criolo.net, Racionais cobrando R$ 9,90 pelo download do disco via Google Play. Os discos vieram antes de matérias, de clipes, de músicas de trabalho ou aparições em programas de televisão. Cada um trazendo sua versão para os fatos com clareza e particularidades que descrevem o que acontece na sociedade brasileira em 2014 muito mais do que jornais, revistas, novelas ou programas de rádio.
Criolo, que veio das rinhas de rimas paulistanas e entortou o rap e a MPB ao cantar em um disco ousado e emocionalmente intenso (Nó na Orelha, de 2010), aprofunda-se ainda mais em seu Convoque Seu Buda, falando com o funk (“Cartão de Visita”, gravada com Tulipa Ruiz), o reggae (“Pé de Breque”), o samba (“Fermento pra Massa”) e a música africana (“Fio de Prumo” com Juçara Marçal). Os Racionais lançam o primeiro disco desde o duplo Nada Como Um Dia Após o Outro Dia, de 2002 (12 anos atrás!) e o curto Cores e Valores dura pouco mais de meia hora com 15 faixas (algumas delas meras vinhetas). Menos expansivo que o de Criolo, o disco atualiza o rap do grupo para a segunda década deste século com bases mais e sintéticas, vocais distorcidos e temática mais passional, mas não deixa de citar Assis Valente ou Marina Lima quando quer exprimir sentimentos que já foram capturados por outros autores. Acertando o clima tenso, o discurso retrata uma periferia que ascendeu socialmente na última década e que embora ainda conviva com o crime organizado, convive com outras preocupações – seja refletir a próprias história, as próprias emoções ou o próprio consumismo.
Pois se o rap encontrou casa no tradicional canto falado brasileiro, ele também resgata outro aspecto importante de nossa cultura que já teve mais espaço na rotina do povo – o do cronista, do contador de histórias, que fala sobre as coisas da vida de qualquer um. Nesse sentido, não só Criolo e os Racionais, mas o rap brasileiro como um todo, vem suprir uma lacuna de comunicação que já foi mais intensa de forma escrita (Machado de Assis, João do Rio, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo) e que veio esvaziando-se sentimentos em telenovelas cada vez mais simplistas. E o rap vem nos lembrar que as coisas não são tão simples assim.

Donato já está começando o disco que irá gravar com o Bixiga 70 – e já postou no Instagram qual vai ser o tom do novo álbum.
A foto do próprio Donato saiu do Instagram do Ronaldo Evangelista, que está produzindo o disco. Foda!

Marcelo Jeneci toca acordeão nessa marchinha feita por seus amigos sobre a grande seca paulistana de 2015.

Finalmente: eis o primeiro trailer oficial do seriado Better Call Saul, derivado do já clássico Breaking Bad, que conta as desventuras do advogado Saul Goodman – ou melhor dizendo… Jimmy? – antes dos eventos que assistimos em Breaking Bad.
A série estréia no mundo inteiro no início de fevereiro, ao mesmo tempo – é a uma série Netflix, afinal.
