
A série Sense8 conta a vida de oito pessoas espalhadas pelo mundo que começam a sentir uma estranha conexão entre si e começam a se encontrar sem sair de seus países originais. O seriado bancado pelo Netflix marca a primeira incursão dos irmãos Wachowski no formato TV e como seu guia eles tiveram o ídolo J. Michael Straczynski, criador de Babylon 5, como seu guia. Conversei com Straczynski em uma entrevista para o UOL: http://televisao.uol.com.br/noticias/redacao/2015/05/07/irmaos-wachowski-e-criador-de-babylon-5-se-reunem-em-producao-do-netflix.htm

O jovem mestre Siba anuncia o sucessor de seu ótimo Avante, de 2012, confrontando passado, presente e futuro de seu Pernambuco, como é de praxe de seus conterrâneos contemporâneos. Mas como seu novo disco De Baile Solto, que será lançado ainda este mês, surge no mesmo mês em que as tensões a respeito da ocupação Estelita, no Recife, começam a ficar mais sérias, ele antecipa a música “Marcha Macia” para contrapor duas lutas de resistência: a de 2015 contra a especulação imobiliária e a perseguição histórica aos maracatus pernambucanos. Ele explica:
“O texto de ‘Marcha Macia’ seria inicialmente sobre a história recente de ‘toque de recolher’ imposto aos Maracatus de Baque Solto em Pernambuco. Mas o tema, que a princípio parece restrito, localizado, ‘regional’, reverbera questões políticas muito atuais e pertinentes ao momento que o Brasil vive: preconceito racial e religioso contra as populações mais pobres e a consequente ‘naturalização’ do uso de repressão e restrições de vários tipos, amparadas por sua vez na cultura do medo amplamente disseminada pelos principais veículos de mídia; aparelhamento e neutralização das organizações populares através da dependência do dinheiro do estado e o consequente silêncio e incapacidade de reação articulada por parte dos mesmos; ‘Desenvolvimento’ e ‘Modernização’ como palavras mágicas que a tudo justificam, e assim por diante…
Num quadro assim mais amplo, o Movimento Ocupe Estelita cumpre uma função de referência, por ter conseguido corajosamente expor e questionar a submissão absoluta e descarada do poder público aos interesses privados, assim como um pequeno punhado de Maracatuzeiros se expôs denunciando o Racismo Institucional do Estado de Pernambuco contra sua tradição secular.”
O próprio Siba indica o texto que a querida Carol Almeida escreveu sobre o que está acontecendo hoje no Recife. Clique aqui e aperte o play:
“Marcha Macia”, cuja letra segue abaixo, pode ser baixada de graça no site da OneRPM.
MARCHA MACIA
Acorda amigo, o boato era verdade
A nova ordem tomou conta da cidade
É bom pensar em dar no pé quem não se agrade
Sendo você eu me acomodaria…
Não custa nada se ajustar às condições
Estes senhores devem ter suas razões
Além do mais eles comandam multidões
Quem para o passo de uma maioria?
Progrediremos todos juntos, muito em paz
Sempre esperando a vez na fila dos normais
Passar no caixa, voltar sempre, comprar mais
Que bom ser parte da maquinaria!
Teremos muros, grades, vidros e portões
Mais exigências nas especificações
Mais vigilância, muito menos excessões
Que lindo acordo de cidadania!
Sai!
A gente brinca, a gente dança
Corta e recorta, trança e retrança
A gente é pura ponta de lança
Estrondo, Marcha Macia!
Vossa Excelência, nossas felicitações
É muito avanço, viva as instituições!
Melhor ainda com retorno de milhões
Meu deus do céu, quem é que não queria?
Só um detalhe quase insignificante:
Embora o plano seja muito edificante
Tem sempre a chance de alguma Estrela irritante
Amanhecer irradiando dia!
Sai!
A gente brinca, a gente dança
Corta e recorta, trança e retrança
A gente é pura ponta de lança
Estrondo, Marcha Macia!

Escrevi sobre a atual fase do streaming em uma matéria para a Azul Magazine do mês passado, que colo a seguir:
A vez do streaming
Aplicativos tornam-se cada vez mais populares e querem mudar nossa relação com a forma de consumir música – mais uma vez
Em fevereiro, uma troca de cargos levantou uma sobrancelha do mercado de música global quando a Apple anunciou a contratação do DJ Zane Lowe – talvez o principal da rádio estatal britânica BBC – para integrar as fileiras da divisão Apple Radio. O serviço hoje funciona só nos Estados Unidos, mas a iniciativa pode ser mais um passo que a empresa criada por Steve Jobs esteja dando para entrar no universo do streaming.
Aqui, vale uma explicação sobre este novo mercado: trata-se de aplicativos e serviços, pagos ou não, que permitem escutar música a partir de diferentes aparelhos (principalmente smartphones e tablets, mas é possível acessar boa parte deles via web e até pelas smartTVs) e oferecem um leque cada vez mais amplo de artistas, discos e canções. É um setor ainda pequeno (agora que ultrapassou sua terceira dezena de milhões de assinantes no mundo todo), mas seu crescimento vem acontecendo a largos passos (em 2011 eram 8 milhões de assinantes) e a cada ano novos ouvintes aderem ao formato que, para muitos, é um caminho sem volta.
Dá para entender. Afinal, com uma conta em um destes serviços é possível ouvir música sem se preocupar em fazer downloads, ripar CDs ou conectar o celular ao computador. Mesmo o ato de comprar faixa por faixa (ou disco a disco) parece estar com os dias contados, pois paga-se uma mensalidade para ter acesso a um número crescente de novas músicas – o catálogo dos principais aplicativos é parecido e já ultrapassou os 30 milhões de canções disponíveis.
E, como já era de se esperar, o Brasil é um dos principais alvos desses serviços inovadores. “O País é considerado um mercado novo e como tudo que está no inicio apresenta grandes oportunidades e obstáculos”, explica Roger Machado, diretor do Napster para a América Latina. “Talvez o maior desafio agora seja explicar quais os benefícios do streaming e os diferenciais entre os players.”
Os serviços em atuação por aqui já são cinco: Deezer, Napster, Rdio, Spotify e Google Play. “O mercado no Brasil é muito promissor, porque essa tecnologia começou a provar o seu impacto na pirataria”, afirma Mathieu Le Roux, diretor do Deezer para a América Latina. “Segundo um estudo encomendado pela Deezer e outras empresas do setor, quem usa serviços de streaming baixa 31% a menos de música ilegal.”
Em contrapartida, há que vencer a cultura de resistência ao pagamento pelas canções. “Uma das tarefas do setor é catequizar os usuários, explicar a cadeia musical e ressaltar a importância de colaborar com o artista”, prossegue Mathieu.
Os players ainda não brigam entre si justamente por entender que o momento é de trazer novos ouvintes em vez de disputar os já existentes. Por isso a contratação de Zane Lowe pela Apple parece indicar que a empresa vá querer sua fatia deste bolo. No ano passado, ela comprou a fábrica de fones de ouvido Beats e a aquisição incluía seu próprio serviço de streaming. Se somarmos as duas apostas, tudo indica que a Apple pode também pular no mercado de streaming em 2015, fazendo valer sua história na difusão da música digital neste século.
Com que aplicativo eu vou?
As opções disponíveis no Brasil têm preços (em torno de R$15) e catálogos (cerca de 30 milhões de músicas) parecidos. Seus diferenciais são as parcerias, a interface e as promoções:
Spotify
O serviço sueco é o mais popular atualmente. Sua versão premium – pode ser tsatada por 30 dias gratuitamente – permite escutar músicas sem estar conectado à internet e pular os anúncios onipresentes no formato grátis.
Deezer
A opção gratuita do aplicativo francês permite pular apenas um número específico de músicas por dia. Realiza as Deezer Sessions, convidando artistas para fazer shows exclusivos, cujos repertórios ficam disponíveis posteriormente. Recentemente anunciou parceria com a operadora Tim, que pagam menos para ter acesso ao conteúdo do aplicativo.
Rdio
Com uma interface clean e com a possibilidade de funcionar como rede social (há como ver listas de músicas de amigos), o aplicativo pode ser experimentado durante seis meses gratuitamente. Depois disso só é possível utilizá-lo pagando a assinatura.
Napster
Sua versão atual é o oposto do software homônimo, criado em 1999 e que deu origem à pirata digital, já que é o único serviço que não oferece versão grátis. A marca foi comprada pela norte-americana Rhapsody e traz playlists escolhidas por artistas e celebridades, além de ter fechado parcerias com a operadora Vivo e o portal Terra (cujos assinantes pagam menos para ter acesso ao conteúdo do aplicativo).
Google Play
É o caçula dos players e ainda está engatinhando – mesmo com a força do Google por trás, é o que está presente em menos dispositivos, apenas para iOS, Android e web. Foi lançado no fim de 2014 e deve mostrar suas armas este ano, especialmente quando conectar-se a outro serviço pago de música do Google, o YouTube Music Key.

Quando o Superchunk veio para o Brasil pela primeira vez, em 1998, eles eram apenas uma das inúmeras bandas que tocavam no Lado B da MTV com “super” no começo do nome. Já era uma banda importante de rock alternativo, mas foi a partir do fim dos anos 90 que começaram a botar suas garras de fora e se estabelecer como uma instituição da cena independente americana – principalmente a partir da maturidade da gravadora Merge, fundada pelo casal central da banda, Mac McCaughan e Laura Ballance. 1998 foi o ano em que bandas de amigos do casal que lançavam discos pela gravadora saíram dos rascunhos e começaram a forjar suas obras-primas, notadamente In the Aeroplane Over the Sea do Neutral Milk Hotel, o triplo 69 Love Songs do Magnetic Fields e o genial Nixon do Lambchop, além dos discos da fase final do Superchunk (Indoor Living e Come Pick Me Up, discos mais sólidos que os nostálgicos primeiros passos da banda, como No Pocket for Kitty, Foolish ou Here’s Where the Strings Come In).
E o grupo veio ao Brasil num dos primeiros impulsos de uma incipiente cena independente brasileira de se conectar com o resto do mundo. O Brasil já tinha assistido a shows do Echo & the Bunnymen, Cure, Nick Cave e Jesus & Mary Chain antes dos anos 90, mas foram esforços heróicos e não se conectavam com a produção indie brasileira, que ainda rastejava em fitas demo e discos lançados por lojas da Galeria do Rock de São Paulo. O primeiro elo do indie brasileiro com o resto do mundo acontece ao mesmo tempo em que nossa cena independente finalmente se percebe como uma só: o festival BHRIF de Belo Horizonte trazia o Fugazi para o Brasil na mesma época em que o Juntatribo de Campinas reunia guitar bands, eletrônicos, rappers, hardcore, grupos de funk metal, os Raimundos, Little Quail e o Planet Hemp tocando para um mesmo público. O próximo passo da dupla que trouxe o Fugazi pela primeira vez ao Brasil – Marcos Boffa e Jefferson Sousa agora respondiam como Motor Music, selo e produtora sediado em uma loja de discos na capital mineira – foi começar uma série de turnês internacionais de bandas independentes estrangeiras pelo Brasil, como Man or Astroman?, Seaweed, Yo La Tengo, Stereolab, entre outros. Essa porta foi aberta com o Superchunk, quando, num tempo em que não havia banda larga, YouTube ou redes sociais, o grupo desbravou o interior do Brasil tocando em lugares que mal cabiam duzentas pessoas.
A quarta vinda de Mac para o Brasil parece coroar estes dois momentos de evolução da cultura indie: a institucionalização da Merge e a maturidade da cena nacional. De lá pra cá o Superchunk acabou e voltou, Mac e Laura deixaram de ser um casal mas continuaram com a Merge ,que lançou o Arcade Fire, o Caribou, o She & Him e o Spoon, ganhando importância no jogo fonográfico ao emplacar artistas no topo dos mais vendidos, além de uma série de bandas menores e trabalhos solo de indies veteranos. A cena brasileira saiu da mendigagem por sobras de grandes festivais para um circuito de festivais indies que funciona em todo o Brasil, da virtual ausência de casas de shows especializadas para uma cena em que turnês por casas do tipo em diferentes capitais torna-se possível, de heróicos donos de selo de fitas cassete para empreendedores com visão para apostar em artistas de pequeno e médio porte, de um público formado literalmente pelos próprios artistas e amigos para um mercado de nicho em ascensão. O Brasil da PELVs é completamente diferente do Brasil d’O Terno.
O momento diferente destas duas cenas indies causou um choque conceitual quando o indie anglófono tornou-se o sabor da vez do mercado fonográfico internacional no começo da década passada, graças à geração de bandas entre os Strokes, os White Stripes e o Franz Ferdinand. Um telefone sem fio que transformou definitivamente a nomenclatura indie – que vinha dos meios de produção destas cenas regionais – em convenção estética, relacionando-se mais a roupas, penteados e hábitos de comportamento do que a um modus operandi. Logo a produção da cena independente misturava-se com uma tendência quase de moda e que seria inevitável no momento em que o independente se profissionalizasse globalmente. Mas a confusão que isso causou no imaginário brasileiro fez muita gente apostar que indie era um modismo passageiro. Felizmente essa confusão está sendo desfeita e aos poucos voltamos a falar sobre não apenas sobre um mercado, mas de uma atmosfera, uma presença física, que permite que artistas se expressem como querem – e não como o público-alvo deveria consumir.
Por isso havia um gosto especial ao assistir a um solitário Mac no meio do teatro de arena de dois andares no meio do Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo, em um evento que consolida a gravadora e produtora Balaclava, de Fernando Dotta e Rafael Farah, o núcleo de produção paulistano que lançou discos dos Soundscapes, Séculos Apaixonados, Bonifrate, Holger e Quarto Negro (entre outros) e realizou shows do Mac de Marco e do Sebadoh no Brasil.
Sozinho com sua guitarra ele cantava músicas do Superchunk, do Portastic e de seu primeiro disco solo como se elas tivessem sido compostas para aquele momento, como se não precisassem de baixo e bateria para decolar como canções. A vozinha apertada de Mac misturava-se com uma guitarra seca com poucos pedais e funcionava quase como uma conversa com o público que estava a apenas poucos metros dele. Era um diálogo que vez por outra caía para a nostalgia quando a audiência suspirava feliz os contracantos dos refrões de “Digging for Something” e “Slack Motherfucker”.
Dentro de um festival que ainda contou com as bandas brasileiras Soundscapes e Shed e o grupo norte-americano Shivas (pronto, quatro bandas, duas gringas e duas brasileiras durante dois dias e temos um festival – pra que dezenas de bandas em quatro ou cinco palcos?), a apresentação de Mac funcionou como uma aula magna de indie rock. Não que ele tenha precisado explicar nada, afinal estava tudo nas entrelinhas de suas canções (ou explícita no refrão de “Only Do” – “não há tentar, só fazer”), embora tenha sido um prazer ouvi-lo dizer que iria tocar da Casa do Mancha (perdi essa, infelizmente). É como se estivéssemos retomando aquela discussão que começou na primeira turnê brasileira do Superchunk mas que perdeu-se entre hypes e divergências estéticas vazias.
Filmei o show todo abaixo:

O ex-líder do Oasis mandou a real sobre o Tidal de Jay Z em uma entrevista recente – e eu comentei sua declaração lá no meu blog do UOL http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/05/06/noel-gallagher-sobre-o-tidal-eles-querem-o-nobel-da-paz-facam-musica/
E a gravadora Balaclava também aproveitou a passagem de Mac McCaughan pelo Brasil para lançar uma versão exclusiva para o carro-chefe do primeiro disco solo do vocalista do Superchunk. “Lost Again” está sendo lançada em versão acústica neste belo sete polegadas transparente que a gravadora está vendendo em seu site. Abaixo, a nova versão da música.

A curitibana Rosanne Machado, saída do saudoso Rose & Me, retoma seus trabalhos com seu nome de guerra Rosie Mankato e o faz revisitando um clássico dos anos 80, a balada “True Colours”, de Cyndi Lauper.
Continuamos à espera do disco em si, que tava prometido pro ano passado…

Mais uma música de um dos meus discos favoritos do ano passado – Picture You Staring, da banda canadense Tops – ganha videoclipe – e a tradução visual para “Destination”, todo filmado e editado no Japão, casa bem com o clima zen devagar quase parando da canção.

Mais uma música do disco novo do Tame Impala surge no horizonte – e “Eventually” confirma a plena transição do grupo para além da psicodelia ao despedir-se do passado como se terminasse um relacionamento (que é o tema da canção). É quase outra banda – e já deve ter muita gente lamentando e reclamando, o que não é o meu caso.
Com isso já são quatro músicas novas de Currents, que sabemos que sairá em julho: “Let it Happen“, “‘Cause I’m a Man“, “Disciples” e agora essa “Eventually”. Por mim, tá tudo beleza.

Dois registro do mesmo instante: Juçara Marçal se joga em sua aguerrida “Damião” auxiliada pelos jovens mestres Kiko Dinucci e Rodrigo Campos nas guitarras e o mago Thomas Rohrer na rabeca no Circo Voador, no dia 29 de janeiro deste ano, sob as diferentes lentes: La Cumbuca (em cima) e Lala (embaixo).
Sugiro sincronizar as duas versões e assisti-las ao mesmo tempo. Dá um trabalhinho, mas o resultado…
