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Dominguinhos de câmara

Que delícia a primeira segunda-feira de Ná Ozzetti no Centro da Terra, quando ela deu início à sua temporada Três Duos e Um Trio, que ocupará todo início de semana de março no palco mais fértil de São Paulo. Acompanhada dos sopros de Fernando Sagawa e do violão de Franco Galvão, ela nos conduziu ao repertório de Dominguinhos a partir dos arranjos camerísticos criados pelos dois especialmente para sua voz doce e apaixonante, fazendo-nos descobrir recantos aconchegantes de seus maiores sucessos (“Eu Só Quero um Xodó”, “Tenho Sede” e a magistral “Lamento Sertanejo”, uma das músicas mais bonitas do Brasil, estas duas últimas em parceria com Gilberto Gil) e confortos inesperados em canções menos conhecidas (como “Sopro de Flor”, parceria com José Miguel Wisnik, “Poema 3”, composto sobre um poema de Câmara Cascudo, “Contrato de Separação”, “Chegando de Mansinho”, “Sanfona Sentida” e a linda “Arrebol”, que voltou no bis). O casamento da voz perfeita de Ná com sua interpretação contida ao lado dos instrumentos quase mínimos de seus companheiros de noite realçou a beleza nata das composições deste que é um dos maiores nomes de nosso cancioneiro. Uma noite apaixonante.

Assista aqui.  

Ná Ozzetti: Três Duos e Um Trio

Que maravilha receber a maravilhosa Ná Ozzetti na primeira temporada no Centro da Terra de 2023. Durante quatro as segundas-feiras de março, ela divide o palco com mais três amigos na série de shows que batizou de Três Duos e Um Trio, que começa nesse dia 6 exatamente com o trio propriamente dito, formado pelos sopros de Fernando Sagawa e pelo violão de Franco Galvão, quando os três navegam pelas canções eternizadas pelo mestre Dominguinhos. Na segunda seguinte, dia 13, Ná recebe o comparsa baixista e produtor Marcelo Cabral para formar um duo de voz e contrabaixo acústico que repassa o repertório dos dois, tanto as músicas de Ná quanto as que Cabral participou em parcerias com Rodrigo Campos Kiko Dinucci e Romulo Fróes, entre outros. Na terceira segunda do mês, dia 20, ela reúne-se mais uma vez com Sagawa e os dois embarcam em um duo de voz e sopro com vasto repertório, para finalmente encerrar estes encontros no dia 27, ao lado dd violonista e arranjador Franco Galvão, celebrando a obra do compositor paulista Vadico, puxando clássicos em parcerias com Noel Rosa, entre outros sambas. Os ingressos já estão à venda e os espetáculos começam sempre às 20h.

Centro da Terra: Março de 2023

Com o número de segundas-feiras de fevereiro reduzido pelo carnaval, deixamos para começar as temporadas no Centro da Terra em março. E para começar o ano em grande estilo, temos a presença da mestra Ná Ozzetti, que nos brinda com a primeira temporada de 2023, Três Duos e Um Trio, em que convida comparsas para passear por diferentes recantos da música brasileira. Na primeira segunda ela forma o trio do título com Fernando Sagawa (sax, clarinete e flauta) e Franco Galvão (violão), quando visitam as Dominguinhos, com arranjos próprios. Na segunda noite, o primeiro duo acontece ao lado do baixista Marcelo Cabral, quando Ná passeia pelo repertório dela e de outros autores contemporâneos. No dia 20, é a vez de formar um duo apenas com os sopros de Fernando Sagawa, quando passeiam por diferentes fases e autores da música brasileira e o último duo vem formado com o violonista Franco Galvão, em homenagem ao compositor paulista Vadico, trazendo também outros sambas do passado. Na primeira terça-feira do mês quem chega ao Centro da Terra é o quarteto carioca Oruã, liderado pelo herói independente do Rio de Janeiro Lê Almeida, que traz seu “free jazz de pobre, kraut de vagabundo, sem neurose” pela primeira vez ao palco do teatro, apresentando o espetáculo Passe. Na outra terça, dia 14, é a vez do grupo de jazz funk Bufo Borealis encontrar-se pela primeira vez com o guitarrista Edgard Scandurra, na apresentação que batizaram de Escuridão. E no fim do mês, as duas últimas terças ficam a cargo de Mestre Nico, que todos nós conhecemos por acompanhar Siba na percussão e vocal, que começa a mostrar seu trabalho solo na minitemporada De Andada no Tempo. Os espetáculos começam sempre às 20h e os ingressos para todas as apresentações já estão à venda neste link.

In Edit no Centro da Terra: Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista

E começamos a programação de cinema do Centro da Terra em 2023 com o documentário Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista (2012) sobre a clássica casa de shows que mudou a cara da paisagem cultural da cidade de São Paulo – e, a longo prazo, do Brasil – na virada dos anos 70 para os anos 80. Palco de nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premeditando o Breque, entre outros, o Lira é o objeto deste primeiro filme exibido no teatro do Sumaré em parceria com o festival In Edit Brasil. Sua exibição acontece nesta quarta-feira, às 20h, e será seguida de um bate-papo com o realizador do filme – e um dos agitadores da casa original – Riba de Castro. Os ingressos já estão à venda e quem comprar um ingresso também ganha o livro Lira Paulistana – Um Delírio de Porão. Nos vemos lá?

Assista ao trailer do documentário aqui.  

Combustão espontânea musical

Duas realidades sonoras se chocaram nesta terça-feira no Centro da Terra sob o signo do ruído. O duo paulistano Test (transformado em trio com a presença de Bernardo Pacheco, assumindo o baixo como convidado desta noite) convidou o quinteto paraibano Papangu para um encontro no palco que, a princípio, imaginei vir na linha dos outros encontros que já haviam realizado anteriormente, tocando coletivamente com o trio Rakta e o quarteto Deaf Kids, ambos daqui de São Paulo. Mas ao contrapor um universo musicalmente tão distinto quanto o do Papangu, o time paulistano preferiu alternar composições com o grupo da Paraíba. E enquanto o Test passeava pelo grindcore e speed metal com sua desenvoltura já tradicional – criando um volume grave de barulho que às vezes arrastava-se e outras disparava, o Papangu expandiu os tentáculos de seu metal pela música nordestina, sacando flauta, gaita e triângulo como contrapontos acústicos da massa sonora do grupo, e pelo rock progressivo, chegando ao extremo de reduzir o show a um piano acústico acompanhado do sax do convidado da banda, o francês Benoit Crauste. Com duas bandas no palco simultaneamente, era inevitável que o encontro vez por outra descambasse para o improviso, fazendo os sete músicos entrarem em combustão espontânea musical. Um soco sonoro, daqueles de tirar o fôlego.

Assista aqui.  

Test vs Papangu: Esquema Tático de Destruição em Massa em Nome do Holoceno

Duas forças do som pesado brasileiro contemporâneo encontram-se nesta terça, no Centro da Terra, quando o duo paulistano Test (acompanhado de Bernardo Pacheco no baixo) e o quarteto paraibano Papangu apresentam-se juntos – e ao mesmo tempo – pela primeira vez, tocando músicas de seus álbuns mais recentes no encontro inédito Esquema Tático de Destruição em Massa em Nome do Holoceno. A apresentação começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente aqui.

Um Brasil aos pedaços

Quando dedicou-se a visitar o repertório clássico – no limite do clichê – da música brasileira reconhecida no exterior em seu Brazliian Songbook, Marcela Lucatelli despedaçou símbolos da MPB como uma forma de confronto estético, iconoclastia que inevitavelmente tem natureza política. Isso muito pelo fato de que o projeto foi gravado com músicos do país em que Marcela reside há anos, a Dinamarca, cuja visão de nossa sonoridade é muito específica (e também no limite do clichê). Mas quando ela arregimentou um timaço de músicos brasileiros para reviver esta premissa no palco do Centro da Terra, nesta segunda-feira, a abordagem foi para um outro patamar. Livre dos clichês que permeiam o álbum – o pianinho bucólico, o violão percussivo com acordes dissonantes, a bateria segurando o beat no aro da caixa -, ela partiu do improviso livre ao lado de quatro jovens mestres nesta arte, todos eles mais do que escolados na música brasileira, mas parte desta. Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Alana Ananias e Lello Bezerra criaram um conjunto abstrato de ruído que em poucos momentos resvalava no que se reconhecia como clássico da música brasileira, deixando a hiperbólica apresentação vocal e cênica de Marcela como fio condutor desta sonoridade. Ela disseca versos e frases musicais com um ataque musical entre a violência e o escárnio, enquanto sua performance cênica, solta naquela teia de ruído tão bem tramada (ainda que ao acaso), relê estas canções entre o encanto e a ironia. À frente daqueles quatro cientistas do som, transmutou seu Songbook em ouro puro.

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Marcela Lucatelli: Brazilian Songbook

Quase chegando no final do mês, recebemos mais uma vez, no Centro da Terra, a cantora mineira Marcela Lucatelli para fazer a primeira apresentação de seu Brazilian Songbook em solo brasileiro. Residente há quase duas décadas na Dinamarca, ela estabeleceu-se como uma referência no canto de improviso livre na Europa e neste trabalho, ela viaja por clássicos da música brasileira, desconstruindo-os à medida em que embaralha as fronteiras entre samba, free jazz, musica pop, ópera, heavy metal e música experimental. Para montar este quebra-cabeças psíquico, ela conta com uma banda formada especialmente para esta ocasião, com Rodrigo Campos no cavaquinho, Lello Bezerra na guitarra, Marcelo Cabral no baixo e Alana Ananias na bateria, o que abre outras tantas dimensões nesta improvável equação. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda neste link.

In Edit no Centro da Terra

O ano finalmente começa nesta segunda-feira, depois do interminável carnaval de 2023, e olha que beleza essa parceria que armamos para o Centro da Terra: a partir deste dia primeiro de março, nosso querido espaço cultural recebe documentários sobre música brasileira toda quarta-feira, às 20h, estreitando laços com o já clássico festival de cinema In Edit Brasil. Até a realização da próxima edição do festival de documentários de música, que acontece no fim do mês de junho, exibiremos filmes que passaram pelas edições do festival e no primeiro mês já trazemos cinco joias: Lira Paulistana e Vanguarda Paulista (dia primeiro, sobre o clássico espaço de transformação musical do início dos anos 80), Neojiba – Música Que Transforma (dia 8, sobre uma orquestra juvenil da Bahia em sua primeira turnê europeia), Pedro Osmar – Pra Liberdade Que Se Conquista (dia 15, sobre a vida do líder da clássica banda paraibana Jaguaribe Carne), Garoto – Vivo Sonhando (dia 22, sobre um dos maiores nomes do violão mundial, mestre de João Gilberto, Baden Powell e Raphael Rabello) e Belchior – Apenas um Coração Selvagem (dia 29, sobre o mítico compositor cearense). Os ingressos já estão à venda e acho que isso aqui vai render…

O início de uma nova era

Mesmo antes da apresentação que Sophia Chablau fez nesta quarta-feira no Centro da Terra eu já tinha a sensação de que ela estava dando um passo importante em sua ainda breve biografia. Tocando sozinha com seu violão e apresentando músicas novas pela primeira vez, ela mostrou um lado mais lírico e menos irônico do que o que conhecemos em seus trabalhos com suas outras bandas, usando o humor para quebrar o gelo entre as músicas, mas criando um clima mais intimista mesmo quando tocava os rocks tortos que conhecemos quando ela lidera, a Uma Enorme Perda de Tempo, ainda que este clima se expandisse com os vídeos que Dora Vinci projetava sobre a jovem compositora paulistana. E quando uma das músicas novas crava sobre “o início de uma nova era”, confirma-se a sensação de que ela começa a virar uma página de sua carreira para alçar outros voos.
Assista aqui.