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Roda de dois

“O samba e o choro são bem constituintes da origem do meu enredo”, Maria Beraldo arrematou (bem, como ela mesma constatou) no meio de sua terceira noite no Centro da Terra, quando apresentou ao lado de Rodrigo Campos um amplo repertório de sambas, de clássicos da velha guarda a hits do pagode dos anos 90. Só os dois no palco, tomando uma cervejinha, cada um com um instrumento em diferentes momentos – Beraldo ia do cavaquinho ao clarinete ao violão enquanto Rodrigo ia do violão ao repique ao cavaquinho, numa roda a dois que teve momentos terrenos e sublimes. Da primeira música que Maria aprendeu ao cavaquinho (“Apaga o Fogo Mané”, de Adoniran Barbosa) à “Minha Missão” de João Nogueira, o repertório foi costurado por Chico Buarque (“Bom Tempo” e uma versão maravilhosa para “Dois Irmãos”), Exaltasamba (“Gamei”), Só Pra Contrariar (“Inigualável Paixão”) e Dona Ivone Lara (lembrada na maravilhosa “Tendência”, que Maria aproveitou para revelar qual é o tema da terceira lição de sua banda, o Quartabê). Os dois ainda tocaram duas inéditas que compuseram juntos, duas de Rodrigo Campos (“Firmeza?!” e “Batida Espiral”), mas o ponto nevrálgico da apresentação foi exatamente no meio quando emendaram “Lindeza” de Caetano Veloso (você conhece, “coisa liiiiindaaa…”) com “Recado À Minha Amada” do Katinguelê (você também conhece, “lua vai…”) mostrando que o samba segue samba não importa de onde ele venha.

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Centro da Terra: Agosto de 2023

Prontos pra mais um mês de fortes emoções no Centro da Terra? Pois lá vamos nós com as datas de agosto e quem toma conta das segundas-feiras é Sandra Coutinho: a líder das Mercenárias apresenta a temporada Linha Contínua do Tempo, em que ela recebe convidados e amigos de diferentes épocas de sua carreira para encarnar projetos que ela desbravou nestas décadas de contracultura paulistana, reunindo nomes como Edgard Scandurra, Paula Rebelatto, Mari Crestani, Bibiana Graeff, Rodrigo Saldanha, Silvia Tape, Pitchu Ferraz, Amanda Rocha, Tadeu Dias, Bernardo Pacheco e outros nomes que surgirão sempre ás segundas, nos dias múltiplos de sete. O mês de agosto começa numa terça-feira, dia 1°, quando Laura Lavieri apresenta seu espetáculo Mântrica, em que trabalha com ondas vibracionais com foco nos atos de energizar, pacificar, desenvolver, vibrar, adormecer, despertar, transcender, com a participação de convidados surpresa. Na segunda terça, dia 8, dois dos maiores guitarristas do Brasil se encontram pela primeira vez no palco, quando Lucio Maia recebe Kiko Dinucci para apresentar a Arquitetura do Caos. Na terça seguinte, dia 15, é a vez da cantora e compositora Anná mostrar diferentes estágios de suas novas canções no espetáculo Deusa Diaba na Terra do Sol. Na penúltima terça do mês, dia 22, reunimos pela primeira vez desde a pandemia a banda carioca Do Amor, que mostra músicas de diferentes fases de sua carreira – incluindo várias que nunca tocaram ao vivo na apresentação Problemão Do Amor. E na terça seguinte, dia 29, dois integrantes do Do Amor (Marcelo Callado e Gustavo Benjão) ficam por São Paulo para acompanhar Rubinho Jacobina no espetáculo Desembaraço, em que ele recebe Iara Rennó como convidada. Vai ser bonito! Os espetáculos começam sempre às 20h, pontualmente, e os ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link.

Entre o sussuro e o barulho

O MNTH de Luciano Valério abriu camadas e camadas de texturas sonoras em sua apresentação Partículas do Agora, que o produtor conduziu nesta terça-feira no Centro da Terra. Ele puxou o espetáculo sampleando sua voz enquanto a distorcia e disparava beats, abrindo espaço primeiro para a percussão de Sarine, para depois os synths e efeitos de Paula Rebellato e Aline Vieira, que também usaram suas vozes distorcidas para criar outras tantas camadas de áudio que iam se entrelaçando e se dissolvendo, bem com as projeções que Nathalia Carvalho fazia sobre os quatro. Quase uma hora de transe entre o sussurro e o barulho.

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Mnth: Partículas do Agora

Que prazer receber o trabalho autoral do produtor Luciano Valério, o homem por trás do selo Desmonta, no Centro da Terra, quando, nesta terça, ele antecipa o terceiro disco que lança como MNTH, Lume Púrpuro. O álbum que será lançado no mês que vem é resultado de uma pesquisa do autor a partir de timbres e texturas que levam o público a um ambiente de meditação e introspecção para contemplar o silêncio e o ruído como partes de uma mesma frequência sonora. O disco foi gravado ao lado de músicos como Mauricio Takara, Carla Boregas, Lello Bezerra, entre outros, mas para esta prévia, ele convida Paula Rebellato (sintetizador e eletrônicos), Sarine (percussão e eletrônicos), Aline Vieira (eletrônicos e efeitos) e Nathalia Carvalho (visuais) para criar uma apresentação batizada de Partículas do Agora. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados através deste link.

“Quem sabe ainda sou uma sapatinha…”

Foi assim, desvirtuando de leve (ma non troppo, porque tá tudo ali), que Maria Beraldo, Josyara e Mariá Portugal (que entrou como convidada-surpresa) celebraram o amor sapatão ao desfilar o repertório de Cássia Eller à base de guitarra (e por vezes clarone), violão e cajón (que Mariá trouxe à tona de duas décadas sem tocá-lo, pronta para ressuscitar o instrumento de percussão no cenário pop brasileiro). A segunda apresentação da temporada Manguezal de Maria Beraldo no Centro da Terra foi intimista e acolhedor ao mesmo tempo que apaixonado e bem humorado, fazendo as três passear por composições de Nando Reis, Renato Russo, Ataulfo Alves, Gilberto Gil, Luiz Capucho, Djavan, Caetano Veloso, Itamar Assumpção (que Beraldo misturou com a base de sua “Da Menor Importância”), João do Vale e Tião Carvalho sempre muito à vontade, brindando taças de vinhos, pedindo para o público (que lotou a casa) cantar junto, numa noite mágica e apaixonante. Bonito demais.

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Camadas horizontais

Bem bonita a apresentação que Rodrigo Coelho fez nesta terça-feira no Centro da Terra, ao conduzir, entre sintetizadores e um piano, sua peça Six Sines, tocada pela primeira vez ao vivo. Trabalhando entre camadas horizontais de texturas e ciclos sintéticos que se sobrepunham, o compositor foi conduzindo o público por uma paisagem ao mesmo tempo solitária – como ele mesmo no palco – e intensa, devido à quantidade de informações que reunia enquanto disparava os samples que havia preparado. Ele ainda aproveitou a parte final do concerto, quando não contava mais com as projeções feitas por Fernando Velázquez e Leticia RMS para mostrar algumas novas peças que vem trabalhando.

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Cøelho: Six Sines

Satisfação receber mais uma vez Rodrigo Coelho no palco do Centro da Terra nesta terça-feira, quando apresenta um trabalho com nova identidade – Cøelho – sozinho no palco. É a primeira vez que apresenta o espetáculo audiovisual Six Sines, que compôs sem usar instrumentos musicais, apenas sobrepondo filtros binários simples que ganhavam complexidades a partir destas superposições. Ele apresenta esta peça com sintetizadores modulares e piano, além de ter os gráficos feitos pelos artistas Fernando Velázquez e Leticia RMS ilustrando essa apresentação ao vivo. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Só as duas

Maria Beraldo começou bem sua temporada Manguezal no Centro da Terra ao apostar num encontro que estava mais à vontade – ao receber a comadre Mariá Portugal, com quem toca no Quartabê e já fizeram tantas coisas juntas, ela sabia que estaria mais tranquila mesmo que para correr riscos. E atravessou quase uma hora de espetáculo alternando entre clarone, clarinete e guitarra elétrica sentada de frente à amiga, em sua bateria, trabalhando diferentes instrumentos de percussão – e vocais. As duas engalfinharam suas vozes entre gritos e sussurros que passearam entre suas próprias canções (como quando misturaram “Petróleo” de Portugal com “Tenso” de Beraldo) e algumas alheias, como “Vaca Profana” eternizada por Gal Costa e uma conveniente e radicalmente desconstruída “Como Nossos Pais”, de Belchior. Uma noite de tirar o fòlego.

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Maria Beraldo: Manguezal

Prazer enorme receber Maria Beraldo para sua temporada no Centro da Terra, que toma conta do palco do teatro do Sumaré a partir desta segunda-feira até o final de julho. Em Manguezal ela recebe chapas e comparsas em fusões de diferentes ecossistemas – daí o título da temporada, esta vegetação que funciona como palco para o encontro de águas, floras e faunas, que ela se refere como berçário do mar. A cada nova segunda ela recebe diferentes convidados para aproveitar o momento de transição entre seu disco de estreia e o próximo álbum, que vem burilando há tempos. Ela começa convidando a irmã Mariá Portugal para uma noite de improviso nessa primeira apresentação, dia 10, e na semana seguinte recebe a maravilhosa Josyara para um tributo a Cássia Eller, no dia 17. Depois, dia 24, ela envereda pelo pagode ao lado do compadre Rodrigo Campos e encerra a temporada no dia 31, reunindo os chapas Marcelo Cabral e Lello Bezerra para mostrar algumas canções inéditas. As apresentações acontecem sempre às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link.

Muito à vontade

Tila parecia nervosa mas no início da apresentação que fez nesta terça-feira no Centro da Terra, mas era só a apreensão natural de chegar no palco. Logo na segunda música de seu espetáculo Estelar ela já estava bem mais à vontade e foi ficando cada vez mais tranquila, deslizando sua voz macia entre músicas próprias e algumas alheias pinçadas a dedo, evidenciando a natureza feminina de sua apresentação: uma de Sílvia Machete (“Toda Bêbada Canta”), outra de Anelis Assumpção (“Eu Gosto Assim”), uma de Letícia Novaes nos tempos do Letuce (“Potência”) e ma música que Rita Lee compôs para Gal (“Me Recuso”), além de três do Péricles Cavalcanti (duas eternizadas por Gal, “O Céu e o Som” e “Quem Nasceu?”, e uma por Caetano, “Blues”). Acompanhada do trio Julio Lino, Yara Oliveira e Rafael Acerbi (este último também na direção musical da apresentação), ela ainda contou com a presença da diva Izzy Gordon, que ainda cantou uma música inédita de seu próximo disco. Começou bem.

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