From Hell… colorido?

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A notícia não é nova, já que a reedição dos dez volumes que compõem a clássica graphic novel From Hell, em que Alan Moore e Eddie Campbell tentam decifrar o enigma de Jack o Estripador enquanto a Inglaterra vitoriana prepara-se para entrar no século, começou quando a série original completou 20 anos, em 2018. Seria apenas mais uma reencarnação editorial de outro clássico dos quadrinhos não fosse o pequeno detalhe desta edição ter… cores. A surpreendente notícia nos remete à infame versão colorizada de Casablanca que foi lançada no final dos anos 90, mas há um diferencial crucial: quem coloriu os quadrinhos foi o próprio Campbell, seu ilustrador original, que prefere inclusive se referir à nova versão como “colorida” em vez de “colorizada”, como a própria editora Top Shelf chama a versão na capa do volume que reúne as dez edições num só tomo, este sim lançado no mês passado.

Campbell aproveitou para corrigir defeitos que lhe incomodavam, nada que mudasse substancialmente para o leitor e que mais mexiam com seu perfeccionismo. Mas por mais que a versão colorida não seja tão ofensiva quanto parece conceitualmente, ela perde o tom sombrio e pesado que atravessa as páginas da versão original – em que manchas de sangue viram borrões pretos de nanquim. Dá para ver algumas páginas abaixo, mas este equivalente visual de uma versão do diretor não chegou a me comover… Embora não seja, felizmente, uma heresia como este notícia fazia parecer.

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Dá pra comprar o volume completo deste From Hell colorido no site da editora Top Shelf.

DM: Lovecraft’s in the Air, Big Lebowski e Alan Moore

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Íamos falar de Juntatribo, mas Lovecraft Country, a nova série de horror da HBO, nos fisgou logo após seu primeiro episódio, por isso pulamos o festival indie campineiro para dedicar a edição desta semana do DM à investigação da obra e do personagem que inspiraram a série, o incel chamado H.P. Lovecraft, bem como a história de seu legado e sua mitologia, que foi parar inclusive nas mãos de Alan Moore. Também celebramos as cabeças por trás da série – nominalmente JJ Abrams, Jordan Peele e Misha Green – e descobrimos que o futuro da era de Aquário é o Grande Lebowski.

Cabeça Aberta: Velvet, Kubrick, Mutantes e Alan Moore

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A partir do mês de junho, começo a ministrar a série de cursos Cabeça Aberta, que idealizei para falar sobre obras revolucionárias na Unibes Cultural, em São Paulo. O subtítulo do curso – Discos, filmes e livros que criaram o mundo de hoje – explicita melhor o viés utilizado para escolher as obras a serem analisadas, que nesta primeira edição resumem-se em quatro: o disco de estreia do grupo Velvet Underground, The Velvet Underground & Nico, o famoso disco da banana, é o tema da primeira aula, dia 2; seguido do clássico de Stanley Kubrick, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, tema da segunda aula, dia 9; depois temos o terceiro disco dos Mutantes, A Divina Comedia ou Ando Meio Desligado, no dia 23; e encerramos no dia 30, com a obra-prima de Alan Moore, a série em quadrinhos Watchmen. São aulas que evidenciam o potencial revolucionário destas quatro obras e dissecam suas origens, influências e impacto cultural para mostrar que a cultura tem o poder transformador de capturar ansiedades e expectativas de diferentes épocas e transformá-las radicalmente com um disco, um filme ou uma história em quadrinhos. Os cursos acontecem sempre aos sábados, na Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2.500, ao lado da estação Sumaré do Metrô, telefone: 11 3065- 4333), das 14h às 17h, e podem ser feitos separadamente, embora quem fizer os quatro contará com um desconto (mais informações aqui).

17 de 2017: 7) Alan Moore

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Conversei por duas horas com outro mestre – numa entrevista ainda inédita. Depois eu falo mais sobre isso – mas só essa entrevista já teria valido o ano.

A ascensão do fascismo britânico

Alan Moore tinha razão:

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“Europe is lost, America lost, London lost”, canta Kate Tempest, “still we are clamouring victory”. Se alguém quiser traduzir a letra, posta nos comentários que eu republico aqui.

Europe is lost, America lost, London lost
Still we are clamouring victory
All that is meaningless rules
We have learned nothing from history

People are dead in their lifetimes
Dazed in the shine of the streets
But look how the traffic’s still moving
The system’s too slick to stop working
Business is good. And there’s bands every night in the pubs
And there’s two for one drinks in the clubs

And we scrubbed up well
We washed off the work and the stress
Now all we want’s some excess
Better yet; A night to remember that we’ll soon forget

All of the blood that was bled for these cities to grow
All of the bodies that fell
The roots that were dug from the earth
So these games could be played
I see it tonight in the stains on my hands

The buildings are screaming
I can’t ask for help though, nobody knows me
Hostile, worried, lonely
We move in our packs and these are the rights we were born to
Working and working so we can be all that we want
Then dancing the drudgery off
But even the drugs have got boring
Well, sex is still good when you get it

To sleep, to dream, to keep the dream in reach
To each a dream
Don’t weep, don’t scream
Just keep it in
Keep sleeping in
What am I gonna do to wake up?

I feel the cost of it pushing my body
Like I push my hands into pockets
And softly I walk and I see it, this is all we deserve
The wrongs of our past have resurfaced
Despite all we did to vanquish the traces
My very language is tainted
With all that we stole to replace it with this
I am quiet
Feeling the onset of riot
Riots are tiny though
Systems are huge
The traffic keeps moving, proving there’s nothing to do

It’s big business baby and its smile is hideous
Top down violence, a structural viciousness
Your kids are doped up on medical sedatives
But don’t worry bout that, man. Worry bout terrorists

The water levels rising! The water levels rising!
The animals, the elephants, the polarbears are dying!
Stop crying. Start buying
But what about the oil spill?
Shh. No one likes a party pooping spoil sport

Massacres massacres massacres/new shoes
Ghettoised children murdered in broad daylight by those employed to protect them
Live porn streamed to your pre-teen’s bedrooms
Glass ceiling, no headroom
Half a generation live beneath the breadline

Oh but it’s happy hour on the high street
Friday night at last lads, my treat!
All went fine till that kid got glassed in the last bar
Place went nuts, you can ask our Lou
It was madness, the road ran red, pure claret
And about them immigrants? I can’t stand them
Mostly, I mind my own business
They’re only coming over here to get rich
It’s a sickness
England! England!
Patriotism!

And you wonder why kids want to die for religion?

It goes
Work all your life for a pittance
Maybe you’ll make it to manager
Pray for a raise
Cross the beige days off on your beach babe calendar

The anarchists are desperate for something to smash
Scandalous pictures of fashionable rappers in glamorous magazines
Who’s dating who?
Politico cash in an envelope
Caught sniffing lines off a prostitutes prosthetic tits
And it’s back to the house of lords with slapped wrists
They abduct kids and fuck the heads of dead pigs
But him in a hoodie with a couple of spliffs –
Jail him, he’s the criminal
Jail him, he’s the criminal

It’s the BoredOfItAll generation
The product of product placement and manipulation
Shoot em up, brutal, duty of care
Come on, new shoes
Beautiful hair

Bullshit saccharine ballads
And selfies
And selfies
And selfies
And here’s me outside the palace of ME!

Construct a self and psychosis
And meanwhile the people are dead in their droves
But nobody noticed
Well some of them noticed
You could tell by the emoji they posted

Sleep like a gloved hand covers our eyes
The lights are so nice and bright and lets dream
But some of us are stuck like stones in a slipstream
What am I gonna do wake up?

We are lost
We are lost
We are lost
And still nothing
Will stop
Nothing pauses

We have ambitions and friendships and courtships to think of
Divorces to drink off the thought of

The money
The money
The oil

The planet is shaking and spoiled
Life is a plaything
A garment to soil
The toil the toil
I can’t see an ending at all
Only the end

How is this something to cherish?
When the tribesmen are dead in their deserts
To make room for alien structures
Develop
Develop

And kill what you find if it threatens you
No trace of love in the hunt for the bigger buck
Here in the land where nobody gives a fuck

É um dia sombrio não só para a Inglaterra e para a Europa, mas para todo o planeta.

Alan “Coringa” Moore

Incrível esse retrato que o ilustrador James Zark fez do Alan Moore inspirado no Coringa de Brian Bolland, da Piada Mortal, escrita por Moore.

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Vi no Boing Boing.

Um milhão de palavras de Alan Moore

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Na semana passada, a filha de Alan Moore, Leah, anunciou que seu pai havia terminado de escrever Jerusalem – e que o segundo romance do mestre dos magos da HQ teria um milhão de palavras.

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Comparando, a Bíblia tem 200 mil palavras e Guerra e Paz, do Tolstoi, tem pouco mais de meio milhão.

O esforço pesado de Alan Moore é um trabalho que começou há seis anos e explora ainda mais o conceito de seu primeiro livro, A Voz do Fogo, em que ele voltava à pré-história para contar diferentes estágios no tempo do condado onde nasceu e reside, Northamptonshire. Jerusalem vai mais a fundo nessa história ao focar em uma área central da cidade de Northampton. “Meu próximo livro terá alguns milhões de palavras e será apenas sobre esta sala de estar”, riu em uma entrevista que deu em 2011 sobre o livro ao New Statesman.

Na mesma entrevista, ele dizia que escrevia o livro para “provar a inexistência da morte”, enquanto encarna diferentes estilos literários, à maneira como faz na saga A Liga Extraordinária. A diferença é que em Jerusalem não há referências visuais e os devaneios linguísticos incluem um capítulo escrito de forma quase cifrada emulando James Joyce e outro em que evoca uma peça de Samuel Beckett em que o dramaturga fala sobre críquete e igrejas. Há inclusive um capítulo que se passa numa quarta dimensão, o que pode ser a chave não apenas para o livro, mas para toda a obra de Alan Moore:

“Cheguei à conclusão que o universo é um lugar de quatro dimensões em que nada acontece e nada se move. A única coisa que move-se no eixo do tempo é nossa consciência. O passado ainda está aí, o futuro sempre esteve aí. Todos os momentos que já existiram ou ainda existirão fazem parte desse hipermomento gigante no espaço-tempo. (…) Quando você pensa numa viagem padrão em três dimensões – por exemplo, estar em um carro que anda por uma estrada. As casas pelas quais você passa desaparecem atrás de você, mas você não duvida que se você voltasse, as casas continuariam ali. Nossa consciência só se move de uma forma pelo tempo, mas acho que a física nos diz que todos aqueles momentos ainda estão ali – e quando chegamos ao fim de nossas vidas não há para onde a consciência possa ir, exceto voltar ao começo. Vivemos nossas vidas o tempo todo, mais uma vez.”

Não vejo a hora de ler isso!

O que achou do final de True Detective?

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Adorei o final da saga de Marty e Rust, simples e pensativo como sempre nos provocou a natureza da série. True Detective fechou sua complexa e pesada jornada com as mesmas mãos densas e poéticas que Nic Pizzolato (o autor) e Cary Joji Fukunaga (o diretor) usaram para nos puxar para dentro dela. Ainda estou batendo idéias e só vou escrever depois de reassistir ao episódio nas próximas horas, mas já começo a reunir neste post, abaixo, algumas das referências, citações e impressões relacionadas a este “Form and Void” que colocou a primeira temporada da série no panteão dos melhores programas de TV deste século (o que não é pouco). Por isso, só continue lendo se já tiver visto toda a série, pois lá vêm os spoilers:

 

Alan Moore sobre Robert Anton Wilson: “Questione tudo: este é o melhor conselho”

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Um dos grandes escritores do século 20 – e um de seus pensadores mais provocadores -, Robert Anton Wilson morreu em 2007, deixando na Terra um legado que unia as teorias conspiratórias mais excêntricas à natureza criativa do ser humano, celebrando a paranóia como inspiração ao recuperar tradições esquecida para apontar prováveis futuros, mas sem colher os méritos literários de outros gigantes do livro que lidam com temas parecidos, como Thomas Pynchon e Don DeLillo. Alan Moore, um de seus pupilos mais famosos e filho direto do cinismo paranóico pós-Trilogia Illuminati (a grande obra de RAW), celebrou a importância do autor em um evento em março de 2007, no Queen Elizabeth Hall, em Londres:

O vídeo é uma dica do José (valeu!) e a transcrição em inglês eu encontrei no site Decondicionamento.org, que também traz a tradução do texto para o espanhol. Se alguém quiser traduzir pro português, é só colar nos comentários que eu publico aqui:

“It’s not in Magick’s nature to let anybody go. So let’s do with Time not being what it’s seems – something about the Gesternheutemorgenswelt – things happening all at once, the way they do in dreams.

And somewhere it’s still 1932 – it’s Brooklyn – sepia dust… depression streets… neutrons distilling, Lovecraft still alive – fat Irish cops abandoning their beats and breaking into a spontaneous ballet, with night sticks twirling, dancing on the stoops as though through Joyce’s Dublin, on one timeless day.

They gather round the New York natal Crib of Mrs. Wilson’s pride and joy, to stand with newsboys, gangsters — dig each other in the ribs, all tearful and red faced, sing “Danny Boy”.

The nuns of Flatbush, glaring and unkissed, line up to smack their rulers on his wrists, promoting Sister Kinney’s Polio cure, and all of this could be in the imagination of a squirrel, furiously circling a tree — all of these people, moments and events could be no more than thoughts, suspended simultaneously within the snow-globed consciousness of Luna Wilson, dreaming in the ice…

To question everything – that’s still your only man, your best advice.

And somewhere, Orson Welles’ voice is leaking from old radios – The Shadow knows if Arlen Reilly scripted those specific shows, but… suddenly it’s 1958 – They’ve set the matrimonial date.

In a Lysergic Spin Drift spray that grades from pink to tangerine, the chemist Albert Hoffman rose upon the day astride his jelly bike, while Leary rides down from an altered state.

The decade’s beatnik H-Bomb clock ticks over to the sixties, as they kiss and grin and celebrate — until the lovely trouble starts. First Krassner’s Realist. Then the rabid raunch of Hefner’s pulsoid swoon, wearing their hearts upon their paisley sleeves, and psychedelic badges on their hearts.

Soon he’s reporting on the tensions swirling around the Democratic armies of the 9th Convention in Chicago, 1968. Tear gas grenades fired by police describe a fuming parabolic arc, as William Burroughs and John Genet take each other by the arm and with great dignity, with years of bright experience between them, with soaked handkerchiefs worn like hour hooped bandannas, quit the park.

Up with Bob Shea at Playboy After Dark, and chuckling over creepy letters from John Birchers, detailing conspiracies compiled from Nesta Webster’s library shelves, our men read all the best bits out aloud, and… then decide to cook one up themselves.

While elsewhere in the yesterday-today-tomorrow world, it’s the mid-seventies. The Unified Field Theorem of American Anxiety become a textbook guide to hilarious Occult anarchy, a trilogy that pulled it all together and changed paranoia from an illness into an illuminating game, before Dan Brown and David Icke hit town to change it back again.

A wrong-doing’s end paper movie full of sex, drugs, yellow submarines, Bavarians, fnord, Marilyn Monroe, and dazzling dime store profundity:

“Tell us, John Dillinger, how did you manage to escape from that locked cell?”

“Same way that you break out of any prison, hell, I just walked through the wall into the fire…”

’71 it’s written – published four years later, and just one year after that served up entire on stage — Ken Campbell’s Science Fiction Theater of Liverpool — Bill Drummond working in the wings who, feeling Justified and Ancient and inspired, moves on to other things…

And during all this there’s been dog-faced messages from Sirius, coincidences piped in by The Crew That Never Rests, new ways of seeing…

And when Bob and Arlen’s 15 year old daughter Luna is shot dead during a stick-up job, he points out that her killer was a young Native American compelled to rob, a brutal and oppressive history, opposes the death penalty, and stands as an extraordinary, an exemplary human being.

In another district of the Gesternheutemorgenswelt meanwhile it’s Sunday, March 18th, 2007, and, well, here we are… for one last 23 skidoo, clearing the wire with an important signal coming through from the agnostic wing of Heaven. Robert Anton Wilson went out through the wall into the fire, into the simultaneous parity of eternity, into the splendid timeless fanfare of a life that he has somehow managed to survive, with 35 books weaving his idea in their spectacular diversity, weaving his luminescent consciousness into the intellectual DNA of our painfully slow developing society, and dancing somewhere with his wife, back when he could still dance, and she was still alive.

Researching pookas, watching “Harvey” in the cathode light, another Wilson on screen finds them in a dictionary described as: “Rabbit spirits working mischief with reality, and Mr. Wilson, how are you tonight?”

I saw him in a psychedelic vision once, with other Magi in a room outside time and shining white, a real Illuminati, a Crew That Never Rests but works without respite to include everyone – every last one of us – within their light.

Oh Mr. Wilson, how are you tonight?

O que acontece no final de A Piada Mortal, a melhor história do Batman, do Alan Moore

Desculpa, mas se até hoje você não leu A Piada Mortal, do Alan Moore, pare o que está fazendo e dê um jeito de lê-la. Tudo que vem abaixo da imagem é spoiler, óbvio:

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