True Detective: “Pra nós, é uma esfera; para eles, um círculo”

, por Alexandre Matias

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Estamos às vésperas de uma conclusão épica de True Detective, que termina hoje sua primeira temporada. A série estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson chega ao final de seu primeiro capítulo já anunciando que o segundo terá outra história, outros protagonistas, outros atores. Só o fato de zerar sua própria história a cada nova temporada permite que a série crie outra forma de lidar com suas histórias. True Detective é um tom, um gancho: histórias de detetive que fogem do comum. Como era a própria True Detective original, uma compilação de contos e casos policiais escritos por semianônimos (alguns deles, como Dashiell Hammett, tornaram-se clássicos no tema) publicados na aurora e primeira grande era do gênero policial, um dos principais gêneros do século 20. Assistiremos, portanto, nos próximos anos, pequenas histórias relacionadas a crimes e tentativas de resolvê-los.

E se o nível de envolvimento com o espectador for semelhante a esta primeira temporada, estamos diante de uma longa e importante série, que independe de personagens para continuar sendo importante – não precisamos ver Jack Bauer salvar os EUA pela milionésima vez nem cada detalhe da biografia de personagens densos e complexos em plena transformação (como as sagas de Tony Soprano, Walter White e Don Draper) nem a criação de ecossistemas ficcionais complexos (como os de Game of Thrones, Downton Abbey, The Wire e Battlestar Galactica). Tudo bem que não é a primeira série a cogitar esse formato (American Horror Story sobrevive porque nasceu assim), mas a forma como True Detective se apresentou foi determinante para atingir este patamar. Escrita por apenas uma pessoa (Nic Pizzolatto, não uma equipe liderada por ele) e dirigida por outra (Cary Joji Fukunaga), True Detective não é apenas uma história sobre um crime mal resolvido, mas fala sobre uma nova forma de consumir conteúdo audiovisual – ou o mais perto que a televisão chegou da literatura.

Ao se comprometer a contar uma história em oito capítulos divididos em oito semanas, o quarteto formado por Nic, Cary, Woody e Matthew nos conduziu em uma jornada contada em diferentes camadas. True Detective é sobre a investigação do assassinato de Dora Lange por dois detetives em 1995 e a volta do caso 17 anos depois, com depoimentos que aos poucos vão nos situando sobre quem são aqueles dois investigadores (Harrelson e McConaughey, em atuações brilhantes) e o que eles realmente fizeram no passado. Ao mesmo tempo, a série nos mostra uma série de relações, conexões e coincidências que criam uma mitologia ao redor de personagens recém-apresentados na série (muitos deles apenas um nome, um retrato, uma descrição) e a toda uma genealogia que interliga a história a cânones de literatura policial e de horror, permitindo a construção de uma mitologia em pouquíssimas semanas, viciando um público ávido por interligar dicas e buscar hiperlinks em qualquer palavra, qualquer olhar ou citação. O programa de TV também trata de uma atmosfera, uma tensão silenciosa que paira sobre rituais macabros, crimes inadmissíveis, perversões inconfessas, o Mal propriamente dito. Uma sensação de desconforto e curiosidade que torna True Detective tão irresistível quanto um vício. Junte isso a um texto que, ao mesmo tempo em que confronta a alma white trash americana a contrapõe a uma filosofia existencialista niilista, encarnada no personagem de McConaughey, Rusty Cohle.

True Detective não apenas a prova de que a conversa entre e TV e a internet é um fato – quem viveu buscando significado entre os sete primeiros episódios sempre terá uma sensação bem diferente em relação à série do que quem a assisti-la de uma vez só. Ela mostra que é possível ter sucesso – em diferentes níveis – apostando na inteligência. Sem mirar no entretenimento barato, a série prova que, em oito semanas, reputações sérias podem ser construídas, uma audiência criteriosa pode tornar-se fã instantaneamente e que é existe vida inteligente no público quando se aposta nele.

Tomara que o último episódio confirme isso.

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4 thoughts on “True Detective: “Pra nós, é uma esfera; para eles, um círculo”

  1. Rafael Cormack disse:

    Gostei mt do artigo. Acho que não via tantas teorias e buscas por detalhes nos episódios desde Lost. Na expectativa pelo último EP. o/

  2. Marcelo Ferraz disse:

    Olha aí, a abertura de True Detective concorrendo a melhor design:

    http://www.artofthetitle.com/news/sxsw-2014-film-awards-title-design-finalists/

  3. caio disse:

    ACABEI DE LEVAR UM TIRo AQUi DENTRO DE CASA…

  4. Vinicius disse:

    Imagina que louco Matthew McConaughey como John Constantine

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