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Buhr: “Não tenho medo de ir”

“Feixe de Fogo é um disco em trânsito”, me explica Buhr sobre seu quinto álbum, o primeiro em que adota apenas seu sobrenome como nome artístico, que chega ao público nesta sexta-feira, e marca mais um lançamento brasileiro de 2026 que indica a ótima safra que vem sendo colhida este ano. O fogo do álbum já vinha aquecendo com o lançamento do primeiro single, “Ânsia”, e agora tem mais uma amostra com o clipe da faixa-título, antecipado em primeira mão para o Trabalho Sujo. O trânsito que se refere não é apenas o de gênero, uma vez que assumiu-se uma pessoa não-binária (daí a troca de nome), mas também pelo fato de ter sido feito em diversas cidades: “Foi gravado de forma independente, por quase dois anos, entre Fortaleza, Sobral, Salvador, Recife e São Paulo, em dez estúdios diferentes”, reforçando que a natureza do disco juntou pessoas de todos esses lugares e além. Produzido por Buhr e Rami Freitas (que toca vários instrumentos no disco), Feixe de Fogo conta com participações de nomes diferentes e conhecidos como Fernando Catatau, Arto Lindsay, Josyara, Regis Damasceno, Russo Passapusso, Edgard Scandurra, o maestro Ubiratan Marques, os baixos de Mau, Izma Xavier e Dadi, os synths de Susannah Quetzal e de Briar Aguarrás, entre outros. . “O momento de escolher a ordem do disco também foi cheia de caminhos, onde botar ‘70 Cigarros’, que é cena de novela, e ‘Oxê’, quase prima da Comadre Fulozinha, que são bem fora da curva das outras? Mas aí são muitas curvas no disco e elas foram se encaixando muito bem”, lembra da natureza mutante do disco. “Eu trocando mensagens com Arto Lindsay, que também tem asas nos pés, e a gente combinando de se achar em alguma dessas cidades – conseguimos em São Paulo! Negadeza, Josyara e Dadi gravando do Rio, me mandando e perguntando ‘tá bom?’”. O disco está nessa vibe – inclusive de astral.

Assista ao clipe abaixo:  

2026 está começando!

Cidadão Instigado, Buhr e Letrux transformam essa semana no início efetivo de 2026 pra cena independente brasileira. O primeiro acaba de lançar seu fantástico quinto álbum, batizado com o próprio nome, e que reúne, além da formação clássica (mesmo que em apenas uma canção, a absurda “Tudo Vai Ser Diferente”, que já entra instantaneamente no panteão do grupo), colaborações com nome como Juçara Marçal, Yma, Kiko Dinucci, Ava Rocha, Jadsa, Mateus Fazeno Rock, Anna Vis e Edson Van Gogh, consagrando o líder da banda, Fernando Catatau, como seu centro criativo. A segunda abandona o prenome para ficar apenas com o sobrenome e compartilha o primeiro sinal do próximo álbum, o curto, tenso e elétrico single “Ânsia”, que conta inclusive com guitarras do próprio Catatau. Já Letrux está às vésperas de lançar o ótimo SadSexySillySongs, seu quarto disco, que já está referindo como S4 e sai nessa sexta-feira, um disco de fossa e de recuperação de fossa, cheio de baladas irônicas como só Letícia poderia fazer, com participações de Jadsa, Mahmundi, Bruno Capinan, entre outros. Somam-se aos três lançamentos, saindo quase que ao mesmo tempo, outros discos que já foram anunciados ou estão em vias de ser de vários outros artistas desta safra que nos referíamos como midstream – gente que não pertencia ao vale-tudo do mainstream mas não precisava ter um outro emprego para sobreviver como grande parte do underground -, faixa do meio que foi dizimada com a pandemia. Parte dos artistas deste meio (como os três citados, entre dezenas de outros) ficou completamente à deriva após a tragédia do início da década mas, aos poucos, conseguiram se erguer e retomar o que acredito que seja o início de uma nova fase no pop brasileiro. E por esses três primeiros lançamentos, tudo indica que vem uma safra de ouro por aí, parecida com a que consolidou essa geração há dez anos, com os discos lançados entre 2015 e 2016 (faça as contas e perceba: só clássicos). E isso sem contar a nova geração, que também está preparando seus primeiros álbuns. 2026 promete…

A vez de Buhr

Foi só passar o Carnaval pro ano começar de verdade – e o mês de março já vem pesado pra música brasileira. Além dos anúncios dos novos discos da Letrux e do Cidadão Instigado, Buhr, que abandonou o prenome Karina para ficar apenas com o sobrenome, finalmente anuncia o quinto disco que vem preparando há dois anos. Sucessor do ótimo Desmanche, de 2019, Feixe de Fogo, seu quinto disco, foi anunciado para o mês que vem e começa a mostrar a cara no próximo dia 25, quando ela mostra o primeiro single “Ânsia”, que conta com Fernando Catatau e o produtor do disco Rami Freitas como parte do instrumental da canção, sua primeira faixa desde o single “Poeira de Luz”, de 2024. A capa do single é a foto que ilustra essa publicação, de autoria de sua irmã, Priscilla Buhr.

Só Buhr


(Foto: Priscilla Buhr)

Ou apenas “Bu”, como já lhe chamam. Um dos grandes nomes da música contemporânea brasileira abandona o prenome Karina para tornar-se apenas seu sobrenome e aproveita um show em comemoração aos dez anos de seu Selvática, que acontece no Sesc Pompeia, no dia 22 de agosto (os ingressos começam a ser vendidos nesta terça, às 17h neste link), para marcar essa transição. “Eu já queria fazer isso há um tempo e no meu mergulho no universo do Selvática, de meu lugar hoje dentro dos feminismos, entra minha vontade de falar na rua que sou uma pessoa não-binária e, no meu caso, isso mexe com meu nome também”, me explica por email. “Não é uma coisa nova pra mim eu não me definir como mulher e questionar gênero e suas atribuições, mas antes eu não tinha algumas palavras na prateleira, depois fui encontrando palavras com as quais eu me identificava fortemente – como pessoa não-binária, agênero… -, mas entendia que não precisava falar disso publicamente, que era uma coisa pessoal, até que entendi que sim, preciso e quero falar sobre isso, que é também coletivo, mostrar que falo desse ponto de vista onde me encontro.” Ela cita “Eu Sou Um Monstro”, do disco de 2015, como um dos indícios de que isso já estava sendo dito anteriormente. “Quis reler as músicas e letras da minha perspectiva hoje, daqui, de 2025”, continua. “Pensar, cantando e falando, dentro dos feminismos onde me encontro agora, e relembrar, por exemplo, nas entrelinhas que sempre falei que na capa do disco, censurada até hoje pelo instagram e companhia, era um personagem sem camisa e não uma mulher ‘exibindo os seios’, frase bem cafona, aliás, que circulou bastante na época do lançamento.” Sobre o novo nome, como a atual condição de gênero, não é propriamente uma novidade: “Muita gente já me chama assim, desde criança, pronunciando ‘Bu’ mesmo, inclusive assino assim meus desenhos há bastante tempo e me sinto mais representada sonoramente, e visualmente”, completa. “Talvez venham outras mudanças, mas, por enquanto, tá de bom tamanho. Sempre tive um incômodo com o nome Karina e um dia eu entendi por quê.”

Letrux canta sua geração

E no mesmo fim de semana do C6 e da Virada Cultural, Letrux lançou seu novo show no Sesc Guarilhos. Em 20 Anos Alternativa ela visita artistas contemporâneos em versões bem particulares. Nesse vídeo que ela publicou em seu Insta (com imagens do @sillas.h), ela mostra algumas músicas deste repertório mágico, como “Deixe-se Acreditar” (do Mombojó), “Tempo de Pipa” (do Cícero), “Bubuia” (da Céu), “Homem Velho” (do Cidadão Instigado), “Moon” (do Thiago Pethit), “Telepata” (do +2), “Toda Bêbada Canta” (da Silvia Machete), “Alala” (do Cansei de Ser Sexy), “Cavalo” (do No Porn), além de outras da Karina Buhr, da Ava Rocha, do Metá Metá, da Anelis Assumpção, do Bruno Capinam, do Curumin, do Cérebro Eletrônico, entre outros. Ela segue com o show em turnê neste fim de semana, quando passa por nessa sexta por Curitiba (no Stage Garden), no sábado em Porto Alegre (no Opinião) com mais datas em São Paulo no Sesc Pompeia (dias 20 e 21 de junho) e no Rio no Circo Voador (dia 4 de julho).

Assista abaixo:  

Dragão feminino

Nos últimos anos, as comadres Alessandra Leão, Isaar e Karina Buhr vêm selando uma amizade de décadas, que remonta às origens do mangue beat em seu Pernambuco e um movimentação feminina e feminista no mundo da música mesmo a contragosto de seu status quo. O novo passo do trio foi dado neste sábado, no Sesc Pinheiros, quando reuniram-se ao guitarrista Régis Damasceno e à tecladista Sofia Freire para celebrar esse laço comum no espetáculo Dracena, em que repassaram músicas de suas respectivas carreiras solo em conjunto. “Não tem macumba sem planta, não tem macumba sem folha”, Alessandra explicou o nome da apresentação a partir da planta que o batiza no momento central do show, quando só as três entregam-se às suas vozes e instrumentos de percussão, “dracena também quer dizer ‘dragão feminino’. Dracena é planta que limpa, abre caminho e aponta para a frente como uma lança”. Axé!

Assista aqui:  

Música que cura

Mais um banho de axé que é esse show que o Russo Passapusso formou ao lado da sua dupla de ídolos Antonio Carlos e Jocafi aconteceu nessa sexta-feira, na Casa Natura Musical, que ainda contou com a presença de Karina Buhr em duas canções. Não bastasse o encontro mágico deste trio, que, mais uma vez, usa o recurso cênico da mesa de boteco para recuperar as energias dos veteranos da música baiana, a banda formada para acompanhar esse encontro é inacreditável: Curumin, Zé Nigro, Lucas Martins, Saulo Duarte, Maurício Badé, Edy Trombone, Estefane Santos e o maestro Ubiratan Marques, além da participação do ator Luiz Carlos Bahia. No final da noite, o vocalista baiano emendou duas faixas de seu primeiro disco solo (a faixa-título “Paraíso da Miragem” e “Paraquedas”) e transformou tudo em vibração curativa junto ao público que era exatamente o que ele estava precisando, num final emocionante. É o melhor show brasileiro atualmente, se passar por perto, não deixe passar – que a alma sai nova em folha.
Assista aqui.