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Feliz ano novo, Bortolotto


Foto: Fernanda Serra Azul, no Balangandans

Boa notícia, Bortolotto já retomou o blog:

Muita gente me pergunta quais são meus sentimentos em relação aos caras que dispararam 4 tiros em mim. Eu queria mesmo era querer que esses filhos das putas se fodessem, mas eu sinceramente não consigo pensar nisso. Não consigo cultivar sentimentos de ódio ou vingança. Não consigo nem pensar nisso. E não é bom mocismo não. É natural. Eu só quero me recuperar logo, ficar sem essa dor filho da puta no braço, voltar a mexer os dedos com desenvoltura (os da mão esquerda estão atrofiados) e voltar a escrever que é o q mais me faz falta. Afinal é muito ironico, né? Levo tres tiros ( o cara disparou 4, mas só acertou tres, o quarto pegou de raspão) e eu tô aqui me fodendo por causa do braço quebrado. Se tivessem sido só os tiros, já tinha corrido na São Silvestre ontem. Um bom começo de ano pra todos vcs. Tô ouvindo Stones com a minha irmã e agora vou tomar aquele banho de tres horas com uma mão só. Reinaldo Moraes veio me visitar e acabou de sair daqui. Queria agradecer a imensa solidariedade dos amigos que fazem até rodizio pra ficar aqui comigo. Não tinha noção. Não tinha mesmo. Os amigos me emocionam.

Sintonizando as boas vibrações do ano que se anuncia.

Paul McCartney & Wings – “Bluebird”

Falando nisso…

Gm
Late at night, when the wind is still
Fm Bb6
I’ll come flying through your door
Fm Bb
And you’ll know what love is for
I’m a bluebird

Ebmaj7
I’m a bluebird
I’m a bluebird Ab
I’m a bluebird yeah yeah yeah

Ebmaj7
I’m a bluebird
I’m a bluebird Ab7
I’m a bluebird yeah yeah yeah

Gm
Touch your lips with a magic kiss
Fm Bb6
And you’ll be a bluebird too
Fm Bb
And you’ll know what love can do
I’m a bluebird

Ebmaj7
I’m a bluebird
I’m a bluebird Ab6
I’m a bluebird yeah yeah yeah
Ebmaj7
I’m a bluebird
I’m a bluebird Ab6
I’m a bluebird yeah yeah yeah

Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Ab Ebmaj7
Bluebird

Gm
Fly away through the midnight air
Fm Bb6
As we head across the sea
Fm Bb
And at last we will be free

You’re a bluebird
Ebmaj7 Ab
You’re a bluebird, yeah yeah yeah
You’re a bluebird

Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Ab Ebmaj7
Bluebird

Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Ab Ebmaj7
Bluebird

Gm
All alone on a desert island
Fm Bb6
We’re living in the trees
And we’re flying in the breeze
Ebmaj7
We’re the bluebirds
We’re the bluebirds Ab6
We’re the bluebirds

Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Cm Cm/Bb Dm7 G7
Bluebird aha
Ab Ebmaj7
Bluebird

2009: o ano do Twitter


Foto: Aditi Jain Chaves, do WikiAves

Artigo que escrevi para a retrospectiva que fizemos de 2009 no Link, na semana do natal.

Hype ou barômetro emocional do planeta?

Twitter mudou o conceito de “agora” a partir da fusão de rede social e autopublicação online

“Rede social de microposts”. Assim o Twitter era apresentado a uma comunidade digital disposta a testar novos serviços e ferramentas online que começaram a se tornar regra a partir de metade da década que termina agora. Eram duas tendências da década que pareciam finalmente chegar a um consenso.

De um lado, a web 2.0, que permitia a autopublicação online sem que fosse preciso ter noções técnicas de programação. Do outro, as redes sociais, que tornavam possível a comunicação instantânea e online de comunidades de pessoas que se conheciam fora da internet. Os dois pilares do novo site (ou seria um serviço?) só funcionaram como ponto de partida para a criação de algo que ainda não tem nome, mas que mudou a internet em menos de um ano – justamente este, que se encerra.

Mas por que 2009? Criado em 2006, o site já vinha sendo usado por early-adopters desde o primeiro ano e já havia causado algum ruído em nichos específicos, como entre gente que trabalha com comunicação e tecnologia – a ponto até de o próprio Google ter comprado no mesmo ano um concorrente parecido, o Jaiku. Mas o fato é que, por mais barulho que o serviço (ou seria um site?) tenha feito até o início deste ano, foi só um pequeno alarido comparado com o papel central assumido pelo site desde o início do ano.

Já vínhamos falando do Twitter aqui no Link desde que ele começou a virar notícia, em 2007, mas nossa primeira capa relacionada ao tema só apareceu no início deste ano, no dia 9 de março, o que causou desconforto em alguns de nossos leitores – que acharam que havia um certo exagero na cobertura que começamos a fazer relacionada ao site. Não era um hype, como queriam parecer que fosse, e o Twitter atravessou 2009 mudando a história de muitas pessoas – e, por que não, a História propriamente dita. É um novo jeito de se portar online.

Pois o Twitter mistura os dois elementos citados no início – autopublicação e rede social –, criando um híbrido que absorve outras tendências da primeira década deste século. É uma rede social, sim, mas também é uma enorme conversa online em que pessoas, marcas e instituições conversam simultaneamente, usando linguagens formal, informal e até mesmo cifrada, criando um enorme mosaico de informação rápida que funciona como um mashup de MSN, SMS, RSS e sala de bate-papo. E, diferente das redes sociais antes dele, o Twitter permite que você siga apenas quem você quiser – e não necessariamente quem também te segue.

A grande mudança, no entanto, não diz respeito à interface, mas a uma noção nova de um jargão que ficou banalizado desde a popularização da web, nos anos 90 – o chamado “tempo real”. O Twitter não apenas se organiza por fatos e opiniões que acontecem neste exato momento. Ele também amplia o tempo do “agora” para uma escala quase pessoal – e não tão rígida quanto uma transmissão ao vivo de TV. Uma entrevista, uma notícia, uma campanha publicitária – tudo pode ser assimilado sem pressa, de acordo com a velocidade de cada usuário.

E é na força do impacto da novidade nos diferentes conceitos de “agora” que faz surgir outro superpoder do Twitter. Quando muitas pessoas começam a twittar sobre determinado assunto, ele aparece nos chamados “trending topics” (a lista dos assuntos mais discutidos na rede), que funciona como uma enorme nuvem de tags emocional de uma rede cada vez mais global. É como se o site funcionasse como um barômetro da pressão do inconsciente coletivo.

Foi essa força que tornou o Twitter o principal protagonista digital deste ano: da posse de Barack Obama na Casa Branca à morte de Michael Jackson, passando pelos protestos contra o resultado da eleição do Irã, a gripe suína e futilidades como as cantoras Lady Gaga e Susan Boyle, o serviço Google Wave e os filmes Atividade Paranormal, Avatar e Lua Nova, tudo foi registrado via Twitter. Resta saber se o site continuará desequilibrando nos próximos anos – ou se será apenas o principal “modismo” de 2009.

Point Omega, de Don DeLillo

Writing about conspiracy theory in Libra, government cover-ups in White Noise, the Cold War in Underworld, and 9/11 in Falling Man, “DeLillo’s books have been weirdly prophetic about twenty-first century America” (The New York Times Book Review). Now, in Point Omega, he takes on the secret strategists in America’s war machine. In the middle of a desert “somewhere south of nowhere,” to a forlorn house made of metal and clapboard, a secret war advisor has gone in search of space and time. Richard Elster, seventy-three, was a scholar—an outsider—when he was called to a meeting with government war planners. They asked Elster to conceptualize their efforts— to form an intellectual framework for their troop deployments, counterinsurgency, orders for rendition. For two years he read their classified documents and attended secret meetings. He was to map the reality these men were trying to create. “Bulk and swagger,” he called it. At the end of his service, Elster retreats to the desert, where he is joined by a filmmaker intent on documenting his experience. Jim Finley wants to make a one-take film, Elster its single character—“Just a man against a wall.” The two men sit on the deck, drinking and talking. Finley makes the case for his film. Weeks go by. And then Elster’s daughter Jessie visits—an “otherworldly” woman from New York—who dramatically alters the dynamic of the story. When a devastating event follows, all the men’s talk, the accumulated meaning of conversation and connection, is thrown into question. What is left is loss, fierce and incomprehensible.

E uma das coisas que podemos esperar para esse ano é o novo do Don DeLillo, um dos maiores escritores vivos (e um de meus favoritos). O título do livro – que parece que conversa com um de seus clássicos, o calhamaço Submundo – é exatamente Omega Point e antes que você se perca na sinopse acima, descolei um trecho do livro neste site (em inglês):

The true life is not reducible to words spoken or written, not by anyone, ever. The true life takes place when we’re alone, thinking, feeling, lost in memory, dreamingly selfaware, the submicroscopic moments. He said this more than once, Elster did, in more than one way. His life happened, he said, when he sat staring at a blank wall, thinking about dinner.

An eight-hundred-page biography is nothing more than dead conjecture, he said.

I almost believed him when he said such things. He said we do this all the time, all of us, we become ourselves beneath the running thoughts and dim images, wondering idly when we’ll die. This is how we live and think whether we know it or not. These are the unsorted thoughts we have looking out the train window, small dull smears of meditative panic.

The sun was burning down. This is what he wanted, to feel the deep heat beating into his body, feel the body itself, reclaim the body from what he called the nausea of News and Traffic.

This was desert, out beyond cities and scattered towns. He was here to eat, sleep and sweat, here to do nothing, sit and think. There was the house and then nothing but distances, not vistas or sweeping sightlines but only distances. He was here, he said, to stop talking. There was no one to talk to but me. He did this sparingly at first and never at sunset. These were not glorious retirement sunsets of stocks and bonds. To Elster sunset was human invention, our perceptual arrangement of light and space into elements of wonder. We looked and wondered. There was a trembling in the air as the unnamed colors and landforms took on definition, a clarity of outline and extent. Maybe it was the age difference between us that made me think he felt something else at last light, a persistent disquiet, uninvented. This would explain the silence.

The house was a sad hybrid. There was a corrugated metal roof above a clapboard exterior with an unfinished stonework path out front and a tacked-on deck jutting from one side. This is where we sat through his hushed hour, a torchlit sky, the closeness of hills barely visible at high white noon.

News and Traffic. Sports and Weather. These were his acid terms for the life he’d left behind, more than two years of living with the tight minds that made the war. It was all background noise, he said, waving a hand. He liked to wave a hand in dismissal. There were the risk assessments and policy papers, the interagency working groups. He was the outsider, a scholar with an approvalrating but no experience in government. He sat at a table in a secure conference room with the strategic planners and military analysts. He was there to conceptualize, his word, in quotes, to apply overarching ideas and principles to such matters as troop deployment and counterinsurgency. He was cleared to read classified cables and restricted transcripts, he said, and he listened to the chatter of the resident experts, the metaphysicians in the intelligence agencies, the fantasists in the Pentagon.

The third floor of the E ring at the Pentagon. Bulk and swagger, he said.

He’d exchanged all that for space and time. These were things he seemed to absorb through his pores. There were the distances that enfolded every feature of the landscape and there was the force of geologic time, out there somewhere, the string grids of excavators searching for weathered bone.

I keep seeing the words. Heat, space, stillness, distance. They’ve become visual states of mind. I’m not sure what that means. I keep seeing figures in isolation, I see past physical dimension into the feelings that these words engender, feelings that deepen over time. That’s the other word, time.

I drove and looked. He stayed at the house, sitting on the creaky deck in a band of shade, reading. I hiked into palm washes and up unmarked trails, always water, carrying water everywhere, always a hat, wearing a broadbrimmed hat and a neckerchief, and I stood on promontories in punishing sun, stood and looked. The desert was outside my range, it was an alien being, it was science fiction, both saturating and remote, and I had to force myself to believe I was here.

He knew where he was, in his chair, alive to the protoworld, I thought, the seas and reefs of ten million years ago. He closed his eyes, silently divining the nature of later extinctions, grassy plains in picture books for children, a region swarming with happy camels and giant zebras, mastodons, sabertooth tigers.

Extinction was a current theme of his. The landscape inspired themes. Spaciousness and claustrophobia. This would become a theme.

O livro sai lá fora no mês que vem e, ao contrário dos livros mais clássicos de DeLillo, é um volume curto, com menos de duzentas páginas.

O que é Ponto Ômega?

Ih, senta que lá vem história. Resumindo bem, é uma teoria do teólogo, paleontologista e padre jesuíta francês Pierre Teilhard de Chardin, que advoga que a evolução humana tem sim um ponto final, que é quando todas as consciências se fundirão numa só e que a humanidade é um só ser, que habita o planeta inclusive fora de nossos corpos e mentes. Muita loucura? Vou citar a Wikipedia:

In this theory, the universe is constantly developing towards higher levels of material complexity and consciousness, a theory of evolution that Teilhard called the Law of Complexity/Consciousness. For Teilhard, the universe can only move in the direction of more complexity and consciousness if it is being drawn by a supreme point of complexity and consciousness. Thus Teilhard postulates the Omega Point as the supreme point of complexity and consciousness, which is not only as the term of the evolutionary process, but is also the actual cause for the universe to grow in complexity and consciousness. In other words, the Omega Point exists as supremely complex and conscious, independent of the evolving universe. I.e., the Omega Point is transcendent. In interpreting the universe this way, Teilhard kept the Omega Point within the orthodox views of the Christian God, who is transcendent (independent) of his creation.

Teilhard argued that the Omega Point resembles the Christian Logos, namely Christ, who draws all things into himself, who in the words of the Nicene Creed, is “God from God”, “Light from Light”, “True God from true God,” and “through him all things were made.”

Teilhard de Chardin’s The Phenomenon of Man states that the Omega Point must possess the following five attributes. It is:

  • Already existing – Only thus can the rise of the universe towards higher stages of consciousness be explained.
  • Personal – an intellectual being and not an abstract idea. The complexification of matter has not only led to higher forms of consciousness, but accordingly to more personalization, of which human beings are the highest attained form in the known universe. They are completely individualized, free centers of operation. It is in this way that man is said to be made in the image of God, who is the highest form of personality. Teilhard expressly stated that in the Omega Point, when the universe becomes One, human persons will not be suppressed, but super-personalized. Personality will be infinitely enriched. This is because the Omega Point unites creation, and the more it unites, the more the universe complexifies and rises in consciousness. Thus, as God creates the universe evolves towards higher forms of complexity, consciousness, and finally with humans, personality, because God, who is drawing the universe towards Him, is a person.
  • Transcendent – The Omega Point cannot be the result of the universe’s final complexification of itself on consciousness. Instead, the Omega Point must exist even before the universe’s evolution, because the Omega Point is responsible for the rise of the universe towards more complexity, consciousness and personality. Which essentially means that the Omega Point is outside the framework in which the universe rises, because it is by the attraction of the Omega Point that the universe evolves towards Him.
  • Autonomous – that is, free from the limitations of space (nonlocality) and time (atemporality).
  • Irreversible, that is, attainable.

Isso tudo pode ser entendido como uma metáfora para a apoteose (quando o Homem vira Deus – pensando que Deus não é uma entidade idosa que mora numa nuvem, mas uma espécie de alma do universo) do mesmo jeito que o Big Bang é um jeito nerd de explicar o Gênesis bíblico. Isso tem a ver com a teoria do Jesus Saltador (que o conhecimento humano está se acelerando cada vez mais e que isso pode ser medido numa unidade que o saudoso Robert Anton Wilson chamava de “Jesus” – escrevi sobre isso num texto pra versão em papel do falecido e-zine BScene, que foi citado pelo Petillo nesse texto no Digestivo Cultural) e com a velocidade do avanço tecnológico descrita pelos irmãos McKenna. A teoria também conversa com a dupla budismo/física quântica (“tudo é luz” equivale a “e=mc²”) e com o Aleph do Borges. E também tem a ver com a rede neural planetária que estamos vendo surgir com o avanço da internet – não é à toa que a teoria de Chardin influenciou ninguém menos do que o Karl Marx do mundo digital, nosso querido papa Marshall McLuhan. E pode até ter a ver com o tal “fim do mundo” dos maias, em 2012.

O certo é que tem algo que vai mudar tudo em breve. Não sei quão breve, mas se você acha que computador + internet foram um salto evolutivo violento, eu aposto que essa dupla é só um degrauzinho baixo comparado com o que vem por aí.

Lost: Os três cisnes negros

Enquanto não deschavo minha teoria, que tal embarcar em outra piração alheia? Desta vez quem propõe é o blogueiro Eye M Sick, que batiza sua especulação de A Teoria dos Três Cisnes Negros. Resumindo, ele diz que já aconteceram dois incidentes quase impossíveis de acontecer (como o nascimento de um cisne negro) na série: o primeiro seria o incidente em 1977 que vimos no final da temporada passada, que, em vez de prevenir a queda do vôo 815, torna-se sua causa; o segundo aconteceria antes da queda do avião, quando Desmond não vira a chave na escotilha e torna o céu roxo. O terceiro, que veríamos na próxima temporada, aconteceria em 2031 (!?) e seria o casamento de duas pessoas que conhecemos bem desde pequenos – Aaron e Ji Yeon – e o casamento de ambos acelerariam aquilo que muitos chamam de Ponto Ômega: o fim da evolução humana. Loucaço (e em inglês – se alguém traduzir, eu posto aqui).

A última ceia de Lost

E aos poucos a última temporada de Lost começa a dar as caras – mesmo que em uma imagem de divulgação, como esta acima, pinçada no TV Squad. O seriado volta para terminar tudo em menos de um mês e aqui assumo outra promessa: meu tão esperado texto sobre o último episódio da quinta temporada de Lost, mais minhas especulações sobre a próxima temporada. Ah sim, e claro: teremos a volta do bom e velho Comentando Lost. Sim, Ronaldo vai voltar a xingar em frente à TV, ahahahah

Os anos 10

A era da inocência?

E aí, como foi a virada, tudo certo? Os amigos, os amores, a família… tudo direitinho? Comigo, tudo ótimo – descansado, pronto pra nova década. Fechei ontem uma série de posts que deixei programados desde que saí de folga (que deram uma geral tanto nas 300 melhores músicas da década quanto nos 100 melhores discos dos anos 00), antes do natal, e gostei tanto desse papo de lista da década que emendarei este ano com mais uma outra: os 300 maiores nomes de nossos anos 00. Começou com uma lista dos artistas mais importantes (entre bandas, músicos e intérpretes), mas quando eu cheguei â conclusão de que Britney Spears era o nome mais importante da música destes dez anos, vi que tinha algo faltando. Britney passava, fácil, mestres como Daft Punk, LCD Soundsystem e Radiohead em importância, onipresença e constante reinvenção da própria personalidade – imagine um David Bowie sem alma, que sabe que é um personagem inventado por alguém. Aí depois lembre-se que este mesmo personagem – vazio, – protagoniza mais hits do que outros grandes nomes no quesito musical (como Strokes ou Amy Winehouse, para ficar em dois exemplos populares), músicas que traduzem bem a época em que vivemos: da sensualidade como parâmetro de status, de uma dance music que finalmente vê o hip hop diluindo-se na música eletrônica, de uma cobertura de celebridades que é o maior reality show da história da TV.


Britney Spears: artista da década?

Mas o fato de Britney Spears reinar solitária como principal artista musical da década é sintomático de outra característica desta década – a de como os valores de importância sentimental da cultura pop mudaram drasticamente. Ao mesmo tempo em que a internet tornou-se mainstream, música e cinema foram perdendo a importância em captar o imaginário coletivo mundial devido primeiro ao fato dos meios de produção e de divulgação terem se multiplicado em potências nunca vistas (criando uma quantidade gigantesca de novos artistas) e depois pelo fato do lucro de suas indústrias ter desabado graças ao download ilegal e irrestrito de discos e filmes. Na paralela, a televisão ganhou audiência planetária e assumiu uma maturidade que já vinha ensaiando na década anterior – e seriados ganharam uma importância inédita no cenário pop da década, em muito caso mais importantes que filmes de autores consagrados. A explosão dos reality shows veio acompanhada pela abertura do interesse por nichos recém-chegados à escala planetária (moda, gastronomia, decoração, turismo e até ciência tiveram dezenas de novos popstars apresentados ao público na década passada). O elemento de autopublicação da internet também permitiu um aparecimento de um novo tipo de artista, que, em vez de ser “descoberto”, ele mesmo se apresenta para o público. Complete isso com o refinamento e a complexidade que tanto os quadrinhos quanto os games, ambos em plena maturidade (como a própria televisão), inventando seus anos 60, atingiram nos últimos dez anos e você tem uma escala de valores virada do avesso, se compararmos com décadas anteriores.




Games, TV e quadrinhos: plena maturidade

Tudo isso para reunir numa mesma enorme lista nomes contemporâneos que são importantes para quem eu imagino que seja meu leitor. Você já deve ter percebido que o assunto do Trabalho Sujo não é música, nem cinema, nem modas da internet, quadrinhos, games ou minha própria vida. São só coisas que eu acho legais – simples assim. Me sinto confortável no papel de ímã deste tipo de informação – coisas legais – e diariamente sou bombardeado por amigos, leitores e desconhecidos com links de notícias, vídeos, discos e sites para coisas que estes acham que eu poderia achar legal. Eu bem podia só ficar recebendo isso, desfrutando estas novidades solitário em um pequeno círculo social, mas gosto de compartilhar, de passar para a frente, de eu mesmo mandar para os meus amigos – tanto que alguns deles ficam sabendo das notícias antes mesmo de eu abrir o post. E não é só online não, embora eu tenha decidido não mais exercer a minha onipresença fora da internet.




Animal Collective, Susan Boyle e Coldplay: melhor sem

Daí que esta lista – e todo o Trabalho Sujo, portanto – estar relacionado ao meu filtro pessoal do que eu considero legal ou não. Os anos 00 também foram bons para artistas como Coldplay, Susan Boyle e Animal Collective? Inegável. Mas não esperem que esse tipo de nome surja no meu dia-a-dia. Se não bateu, não tem porque eu passar para frente (e o mesmo vale em relação a falar mal destas coisas – quem gosta desse tipo de polêmica, no fim das contas tá mais querendo chamar atenção para si mesmo do que realmente discutir estes assuntos; por isso eu prefiro nem registra-los). Mas isso quer dizer que eu não queira conversar com quem gosta de coisas que eu não gosto? Nah, não tenho mais 16 anos há muito tempo e não defino minhas companhias pelo jeito que elas se vestem ou pelo tipo de músicas que elas ouvem – mas sim pelo fato de elas respeitarem o que eu gosto e não me julgarem por isso. É meio óbvio isso, mas às vezes precisa ser dito. Afinal, o que não falta é gente pagando de adulto e sofisticado com o discernimento de bebês.

Pra confundir, a lista que começa ainda hoje, mas pro final do dia, tem sim uma ordem de importância (completamente subjetiva, mas enfim), só que eu vou apresentá-la de forma um pouco diferente, randômica. E seu último deadline é o fim deste ano que acabou de começar. Me comprometo a 300 comentários feitos sobre estes 300 nomes durante todo 2010, na maioria de seus dias úteis, quase sempre que estiver de frente ao computador. Se alguém quiser depois colocá-la na ordem, fique à vontade. O mesmo vale para quem quiser juntar a lista dos melhores discos da década num mesmo torrent e ou a lista das melhores músicas dos anos 00 num mesmo zip. Pra mim, é muito trabalho, mas se alguém se dispor, linko aqui. E se alguma editora quiser juntar essas listas num livro, entre em contato por email, tou aberto a negociações (he).

Falando em aleatória, muda também o comportamento do meu Twitter. Ele oficialmente passa a twittar apenas os posts do Sujo, do resto dOEsquema e do Link como, ao mesmo tempo, entro no tal diálogo contínuo como havia prometido. Neste início de semana vem mais links do Link, que não parou durante as festas, e logo, logo pintam os posts do Sujo. Esta mudança significa também o fim da listagem dos últimos tweets aí na coluna do meio do site – ficando só com o link para o Twitter. A partir disso também começo também uma nova seção durante o miolo do dia, um post contínuo que junta notícias desde o fim da manhã até as já clássicas 4:20 (no caso, 16:20). Mas ele não vem de cara, é uma seção que criarei com o passar dos dias e que, presumo, estará prontinha ao final do mês. Isso quer dizer uma leve redução na velocidade de postagem, mas que caminha junto com um exercício de escrever mais para cá, coisa que deixei meio de lado desde que assumi a edição do Link, em maio (não sei se você percebeu, mas a quantidade de vídeos e JPGs deixou o site com cara de Tumblr, em 2009).

E essa lista dos melhores da década já é o início deste exercício – e de outro, que diz respeito à necessidade de se falar de algo na hora em que ele aparece. Cansamos de ver exemplos de obras que vão se mudando com o tempo, graças à interferência alheia direta na obra ou em sua divulgação. Quantos artistas e obras nos passaram batido pelo simples fato de não termos tempo? Ou de não estarmos com paciência para aquele assunto naquela hora, ou por ele se desdobrar ao mesmo tempo em que algo bem mais interessante parecia acontecer? De novo, volto ao tema deste novo “agora”, uma nova recontextuação deste período de tempo que tem muito a ver com o que eu estava falando há pouco sobre o “tema” do Trabalho Sujo. Nos últimos dez anos, como qualquer outra pessoa, pude desfrutar de momentos ótimos que só consegui compartilhar com pessoas mais próximas. Com essa lista, em vez de simplesmente linkar um vídeo ou uma imagem com um link (embora estes formatos aparecerão), vou falar um pouco sobre estas obras e personalidades que eu gostaria que você desse um tanto de sua atenção para tornar sua vida mais divertida.

Não, eu não vi todos os filmes, nem todas as séries, nem ouvi todos os discos – mais um gole da obviedade que precisa ser dita. Nem eu, nem ninguém que faz suas próprias listas pessoais. Se ouviu tudo, pode ficar tranqüilo, ouviu mal. Daqui a cinco anos, talvez minha lista das 300 melhores músicas dos anos 00 seja bem diferente dessa de hoje. Mas ninguém é uma estátua parada no tempo e se até as obras podem mudar (do bigode na Mona Lisa do Duchamp ao Grey Album, passando por “We Are Your Friends” e o ringtone do sapo), vamos deixar de bobagem e assumir que também mudamos. Apesar de termos nomes próprios que tratamos como substantivos possessivos, talvez devêssemos aceitar nossa natureza de verbo e assumir as próprias conjugações. Você era uma pessoa bem diferente há dez anos – talvez sinta vergonha, talvez orgulho -, mas aceite isso: mudamos o tempo todo. Não seja tão rígido com suas convicções, solte um pouco a respiração, ninguém está te vigiando por cima do seu ombro. E daí que o melhor disco de todos os tempos da sua vida já mudou umas cinco ou seis vezes? Não foi assim com seus amigos, amores e a família?

Fora que ninguém consegue acompanhar tudo. E esse tudo ainda exclui tudo aquilo que foi produzido antes de hoje, que pode e deve ser revisitado constantemente. Por isso, passo a dedicar mais a escrita ao Trabalho Sujo, posts curtos de não-ficção de coisas velhas e novas que estou lendo/vendo/ouvindo para equilibrar essa velha conhecida sanha de escrever textos gigantescos como este que você atravessa. Dá para pensar numa rotina de publicação que inclui dois destes posts curtos, a tal nova seção do meio da tarde, os dois tradicionais 4:20 diários e ocasionais vídeos e JPGs, sempre de segunda a sexta, fechado durante os findes. Mas, como sempre, eu não garanto nada.

Junto a isso, ainda abro a possibilidade de posts fotográficos e desenhados (e a transformação do Flickr do Trabalho Sujo em um Flickr de fato – as fotos talvez até renderão um post diário). O desenho é uma atividade que deixei em segundo plano em minha vida, mas que foi responsável pelo pagamento de minhas contas por mais de três anos durante os anos 90 e que, agora, espero voltar a praticar. Já venho desenhando bastante em casa (2009 foi um ano de rascunhos neste sentido inclusive) e começo a desovar esse tipo de produção no Sujo pela primeira vez online (já que o próprio Sujo impresso contou com desenhos meus). O coelho que ilustra este post é um deles. E isso sem contar um janeiro que tem a CES, a Campus Party e uma ótima novidade no Link nas próximas semanas – Link este que finalmente chegou a uma equipe concisa e fodaça, pronta para encarar 2010 com gosto -, e a possibilidade de duas Gente Bonita fora de São Paulo (fora a do meu aniversário, que vai ser aqui e eu tou vendo onde pode ser…).

Quando resenhei o Kid A no ano 2000 falei que estávamos às vésperas da década da verdade, em que todas as máscaras iriam cair, todas as verdades iriam ser ditas. Uma brusca reação à década anterior, da ironia. E, de fato, os anos 00 foram anos do desmoronamento da privacidade contra a transparência compulsória. O momento que melhor sintetiza isso talvez seja protagonizado por David Letterman, que abriu seu programa no final de 2009 para assumir que vinha sendo vítima de extorsão por ter trepado com funcionárias de seu programa. Em vez de se submeter ao escrutínio público, deu um cavalo de pau nas expectativas e veio ele mesmo contar o que houve. Mas isso esteve em todos os cantos da década passada, na Guerra do Iraque, na questão do aquecimento global, nas eleições de Lula e de Obama, nos reality shows, nos discos e filmes que vazaram antes de serem lançados. Goste ou não, verdades foram ditas, na sua cara.

É hora de, depois de uma década traumática e de auto-análise constante (pela primeira vez na história a humanidade se percebeu como uma só), abraçarmos o admirável mundo novo – e uma nova inocência. Essa é a minha aposta para os anos 10: as novas tecnologias que mudarão ainda mais nosso dia-a-dia, mas em vez de nos agarrarmos ao que vai sucumbir no novo processo, iremos abraçar o novo com mais curiosidade e menos preconceito. Isso parece se referir a hábitos digitais, mas no fim das contas está relacionado com diferentes facetas da rotina de cada um de nós. É claro que isso não significa abandonar o ceticismo, mas este virá com menos cinismo e com mais disposição.

E, antes de começar os trabalhos de verdade por aqui, lembro que dedico janeiro aos melhores discos e músicas de 2009. Para não me alongar como em 2008, repito o formato da retrospectiva da década: vídeos para as melhores músicas, capas de disco para os melhores álbuns. E também vou começar – ainda hoje – a perguntar o que já podemos esperar de legal para 2010. Alguns posts vão com especulações minhas (umas são óbvias, como o post a seguir), em outros vou convidar palpiteiros de fora. Mas eu queria ouvir também o que você, que lê o Sujo, tá esperando desse ano.

Acho que, por enquanto, é só. Feliz ano novo e se prepara: essa década vai ser ainda melhor que a anterior.