Talvez seja uma questão de ponto de vista, mas o fato é que o quarto disco do Hot Chip não deve ser encarado como um disco de dance music. Apesar das primeiras faixas a aparecer – o single “Take It In”, a faixa-título num clipe e “Thieves in the Night” que abre o disco – darem a entender que o grupo segue firme na pista de dança, One Life Stand é quase um álbum de baladas que, sinal dos tempos, apegam-se a uma batida. É o clima de melancolia e solidão que une não apenas as faixas citadas como todo o resto do disco, com o grupo regredindo sua personalidade robótica rumo à sombra e à noite do rock inglês dos anos 80. Por isso, não se distraia com o vácuo retrô de “I Feel Better”, que tenta recauchutar “La Isla Bonita” à base do autotune, e vá direto nesta “Slush”, que, apesar do solfejo inicial, resume o clima do disco num piano.
Hot Chip – “Slush“
Esse moleque tem razão: essa “Two Weeks” é fodaça.
…e semana que vem tem os melhores discos e músicas de 2009, todos de uma vez, no mesmo esquema da retrospectiva da década: vídeos e links.
Lembra daquele papo que eu falei do Jimmy Page ter morado em Lençóis nos anos 90? Olhaí em pleno Jornal Nacional:
“Ex-Led Zeppelin” é dureza, mas tudo bem. E esse João Filipe, ninguém acha ele hoje em dia? Fora o áudio dessa jam session, que alguém deve ter gravado… Vamo aê, trabalhem, vai que alguém acha. A pauta é boa… O vídeo foi pinçado pelo embaixador e secretário de turismo espiritual baiano, Luciano Mattos.
Lúcio que veio com essa hoje cedo…
Tudo bem, o Cohen é fodão, mas eu quero saber quem é que vai trazer o Nick Cave…
“A Boy from School”, que já tinha sido regravada pelo Portastatic, ganha essa versão solene e delicada feita pelo Grizzly Bear. Embora a original siga melhor, a versão é nível do GB – fino.
Grizzly Bear – “A Boy From School“
Que show! Três quintos do Cidadão Instigado – o guitarrista Régis Damasceno, o baixista Rian Batista e o baterista Clayton Martin – respondem como Mockers nas horas vagas, um grupo dedicado a tocar apenas versões de músicas dos Beatles de 1966 em diante. Na ativa desde o ano passado, só consegui vê-los em ação nesta quinta, quando o grupo apresentou-se dentro do Toca Aí, o mesmo projeto do Sesc Pompéia que botou o Instituto tocando Pink Floyd.
Por motivo de agenda, o grupo não pode se apresentar na Choperia, onde queriam e vem acontecendo os shows do projeto (o Forgotten Boys tocou Rolling Stones semana passada, não fui, mas já já posto uns vídeos que achei no YouTube do show). Sorte nossa. O Teatro funcionou perfeitamente para o tom ao mesmo tempo austero e informal da apresentação. Ao confrontar os três músicos olhando uns para os outros (devido ao desenho do teatro, cujo palco é ladeado por duas platéias), o show ganhou uma sensação de intimismo que parecia bater de frente com o aspecto clássico do repertório – tom que era quase sempre destruído por Rian, que insistia em dirigir-se ao público em inglês, trazendo todo o humor dos Beatles para um palco estritamente psicodélico.
E como tocam esses três. Mais do que chancelar a química musical que os três já trazem do Cidadão, o show serviu como apreciação de três grandes músicos. Clayton rezou a cartilha de Ringo Starr à risca, trazendo ao palco alguns dos momentos mais brilhantes do subestimado Ringo em seu instrumento – crescido à sombra do rock paulistano influenciado pelos anos 60, Clayton deixou os trejeitos e influências de Keith Moon e Nick Manson (característicos de seu jeito de tocar) para debruçar-se sobre a técnica do baterista beatle como sua única Bíblia pessoal. Rian, mais do que quebrar o gelo com suas piadas geniais e ridículas, tratava o baixo melódico de Paul McCartney com reverência e estilo, além de garantir os vocais mais agudos sem muita preocupação. E Régis, que nasceu abençoado por um timbre de voz que quase, quase, chega ao mesmo do de John Lennon, segurava não apenas as guitarras de John e George Harrison num único instrumento, como ainda o colocava para fazer as vezes dos teclados de algumas canções.
Foi memorável. Consegui filmar quase todas as músicas da noite (com a exceção das três primeiras – “Two of Us”, “She Said She Said” e “Taxman” – e das duas últimas – “Birthday” e “Tomorrow Never Knows” com direito à citação de “Within You Without You”), mas se eu fosse você não perdia o próximo show.