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O fim de Lost por Marcio Padrão

Há seis anos um canal de TV norte-americano estreou mais uma série. As primeiras cenas mostravam os primeiros instantes após a queda de um avião em uma ilha aparentemente deserta. Há poucos dias, as cenas finais deste mesmo seriado apresentaram seus personagens principais se reencontrando amigavelmente, longe da ilha. Um final feliz, não há dúvidas. Mas o quanto os fins justificaram os meios neste caso?

Entre 22 de setembro de 2004 e 23 de maio de 2010, a indústria de entretenimento foi tomada de assalto por um dos universos ficcionais mais audaciosos de todos os tempos. Dentro e fora da ilha, J. J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse não tiveram a menor timidez em entupir o programa com mistérios, dúvidas, detalhes e referências das mais diversas naturezas, além de misturar gêneros e montar-desmontar-remontar enredos e estruturas narrativas. Se a pretensão foi muita e o sucesso também, seria evidente que as expectativas seriam imensas e as frustrações idem.

Este texto não pretende se alongar nessa “fase 2″ da discussão, que teve início assim que a tela preta com o logo “L O S T” surgiu pela última vez na ABC. Os significados e interpretações trazidos pelos fãs após o final merecem um cuidado próprio. Por enquanto, vamos nos ater às impressões mais imediatas deixadas pelo episódio duplo em questão.

Mistérios, dúvidas e expectativas à parte, todos os espectadores entraram na viagem de 104 minutos do desfecho querendo saber como o vilão-mor, o Homem de Preto, seria derrotado. A série teve início com o abrir e encerrou com o fechar dos olhos de Jack Shephard. E no penúltimo episódio, foi ele quem – pela enésima e última vez – chamou a responsabilidade, assumindo o cargo de Jacob. Portanto, nada mais natural que o “doc” fosse o artilheiro do gol decisivo, embora como Romário, não teria conseguido sem o passe irretocável do seu Bebeto, o bom escocês Desmond.

Daí em uma sucessão de cenas pouco claras – é “Lost”, lembre-se – Jack não se importou de ver o MIB-Locke executar seu plano de usar Desmond para “tirar o ralo” da ilha, façanha que só ele supostamente seria capaz por ser imune às grandes doses de eletromagnetismo emanadas daquele lugar. Jack sabia/sentia que isso faria a ilha começar a ruir, como o MIB planejara, mas também “desligaria” a mesma energia que transformou aquele homem em uma entidade sobrenatural o tempo suficiente para ele retornar à mortalidade. Era a última e única chance.

Vamos combinar: o quebra-pau entre Jack e o MIB foi arrepiante. Direção, montagem e atuações de primeira. E a conclusão com o tiro de Kate e o chute final de Jack à beira do precipício foi impecável. Um dos grandes momentos da série. A morte do monstro não poderia ter ocorrido melhor.

Uma das justificativas que mais ali a favor do polêmico episódio final é que, “no fim de tudo, a série era sobre aqueles personagens”. Não concordo inteiramente com essa afirmação, que pode ser interpretada como desculpa para negar sua própria insatisfação sobre o que não “deu certo” no programa, mas admito que os personagens foram um dos grandes ativos de “Lost”.

Dito isso, o final acertou em fazer o que a série sempre fez muito bem: dar atenção a quase todos os personagens minimamente cativantes. O “ex-flashsideway” teve seus pontos altos no despertar de memória de todos que ainda não se lembravam da ilha, com destaque para os cinco casais: Jack e Kate; Sun e Jin; Sawyer e Juliet; Charlie e Claire; e Sayid e Shannon. O amor foi fundamental. Nesse processo, os poucos personagens que ainda se sentiam na pior, como Sayid, Locke e o casal coreano, perceberam que o insight não era apenas um retorno de memórias: era em si a chave para sua própria redenção.

Novelesco? Não tenha dúvida. Vai de cada um acatar. Como a direção e as atuações estavam muito boas, pelo menos a mim conseguiram comover.

O complicado, porém, é que esse desfecho, culminando no reencontro na igreja, era falho diante das circunstâncias de produção. Afinal, por que alguns personagens mereciam estar naquele “lugar”, naquele “momento” e tantos outras pessoas que também “caminharam juntas” ficaram de fora? O papo do “eles ainda não estavam prontos” porque tinham “coisas a resolver” é aceitável até certo ponto, pois serve para o cheio de pecados Ben ou para o traíra Michael, mas por que não para Mr. Eko, por exemplo? Apesar da marra e de ter sido um assassino antes da ilha, ele sempre ajudou a todos por lá. Sem teorias aqui, meus caros: Eko “não estava pronto” simplesmente porque o ator Adewale Akinnuoye-Agbaje não aceitou voltar à série. Isso sem falar de Miles, que conviveu com Juliet e Sawyer por anos…

Apesar de triste, achei adequado Jack morrer na ilha. Ele foi o herói trágico do início ao fim. Foi o cara que se sacrificou por todos, mesmo por quem questionava e desprezava sua liderança em todos esses anos. E a companhia de Vincent naquele último instante não foi menos que poética. O doutor descansou em paz porque seu lema – viver junto para não morrer sozinho – foi recompensado.

Não gostei, porém, de Hurley, Desmond e Ben ficarem por lá. Ben até entendo, pois a ilha sempre foi o seu lar mesmo. Mas no penúltimo episódio, Hugo falou claramente que estava aliviado de não ter sido ele o guardião. Daí porque Jack decidiu ficar, ele não só ficou também, como virou o novo Jacob? Não me convenceu. O diálogo dele com Ben ainda deu a entender que eles conseguiriam/conseguiram tirar Desmond da ilha, mas como e em quanto tempo, vai saber…

Aqui é terreno delicado e caro a muita gente. Até porque a própria definição de mistério é muito sutil em uma série como “Lost”, onde o mistério não era um gênero em si, mas uma ferramenta importante e usada à exaustão na série toda.

Todos divergem entre o que foi totalmente, parcialmente ou não explicado, sobre as possíveis interpretações das “respostas” ou mesmo o quão importante tais resoluções eram para curtir o programa. Por enquanto, vou me ater ao que considerei mais crucial na condição de fã.

Acredito, portanto, que os “mistérios” mais importantes foram “resolvidos” – as aspas existem porque, como falei acima, tudo é questão de interpretação e ponto de vista. No “Lostverso”, o planeta Terra concentra uma forte energia eletromagnética com benefícios e malefícios inúmeros. A ilha é o ponto de maior concentração desta energia, que precisa ser guardada por alguém que aceite a responsabilidade e o esforço de protegê-la da cobiça da Humanidade. Um mito moderno, enfim.

Talvez o eletromagnetismo seja o maior motivo da ilha ser tão difícil de ser encontrada. Como o físico Daniel Farady comprovou, essa energia, liberada sob certas condições, permite viagens no tempo. Mas apesar de difícil, não é impossível encontrar a ilha, e diversas gerações de visitantes passaram por lá. A mãe adotiva de Jacob e MIB, depois a mãe natural deles, o Black Rock, a Dharma, o barco Elizabeth, o voo Oceanic e o voo Ajira conseguiram, pois cada um teve a “sorte” de cruzar com as condições certas. Sim, o termo “Triângulo das Bermudas” acende em neon neste momento.

A explicação maior para os números foi mesmo o grau do ângulo de cada nome de candidato no observatório de Jacob. Além disso, no ARG de “Lost” falava-se que os números eram variáveis de uma equação matématica sobre o fim do mundo. Não explica inteiramente todas as coincidências envolvendo tais números, claro. Atribuo isso a traquinagem dos produtores mesmo.

Agora quem era a mãe adotiva de Jacob, por que a fonte emanava aquela luz, como a mesma fonte transformou MIB em um monstro, como Desmond não fritou o juízo com tanto eletromagnetismo, porque Walt tinha poderes, porque Richard pôde envelhecer de novo, que diabo era aquele cavalo de Kate, bla bla bla… enfim, tudo isso vai ficar em aberto mesmo. Se isso resulta na grande farsa dos produtores incompetentes ou em uma obra propositadamente aberta para que os espectadores a preeencham com suas versões, você decide. Mas voltarei a esse ponto crucial do debate em outro texto, como falei acima.

Para resumir muito bem resumido: gostei bastante do episódio final, mas não o considerei um desfecho satisfatório para a série como um todo. Não apenas por todos os pontos negativos já citados aqui, mas também porque não comprei muito terem transformado o flashsideway em um – na falta de um nome melhor – “purgatório”. Nem se trata da sensação de ser “enganado”. Mas acredito que, mais que resolver ou não mistérios, a grande falha de “Lost” foi se afogar nas águas navegadas por suas pretensões.

É, os produtores juraram por anos que a tese do purgatório era infundada. Só aí já dá pano pra muita manga. Mas a minha decepção vai por outro viés. Será que usar um recurso relativamente batido – “Ghost”, “O Sexto Sentido” e “Os Outros” só de relance – é mesmo digno para uma trama tão ambiciosa? E será que foi certo Lindelof e Cuse chegarem no começo da sexta temporada e mudarem o discurso de “as respostas virão no final” para “nem tudo será respondido“?

Apesar de meio “lei da compensação”, há tempos aprecio a ideia que muita gente também vem seguindo: de que o grande barato de “Lost” foi a viagem, não o destino. Não era importante para mim que a série acabasse com todos juntos felizes de volta à civilização – e antecipar esse momento no flashforward foi uma jogada de gênio. Também não era um maníaco por respostas de mistérios. Daí vejo que, assim como “Arquivo X” nos anos 90, “Lost” foi uma série que definitivamente marcou seu lugar no panteão dos grandes conceitos pop por diversos méritos, por mais falhas que tenham apresentado no processo.

Já falei um pouco os motivos disso aqui, mas falando especificamente da história, acho que o programa criou personagens incríveis e de fácil identificação, apesar de complexos nos detalhes. A sensação de estar sempre “perdido” a todo início de episódio, mesmo acompanhando toda semana, era semelhante a pular de 100 metros de altura no bungee-jump: por mais que se repetisse, era sempre um prazer inédito. A estrutura narrativa mutante desafiava positivamente nosso interesse pela trama.

E os detalhes? As frases impagáveis de Hurley, os apelidos de Sawyer, a fé insistente de John Locke, o heroísmo de Jack, a coragem de Kate, o medo de cada aparição do monstro, o (des)agradável cinismo de Ben, os dramas particulares, os romances, as cenas engraçadas… será que todas essas coisas boas não compensaram desastres como “Across the Sea”, os flashbacks chatos de Kate, a dupla Paulo e Nikki, o desfecho meia boca e todas as outras coisas ruins?

Não sei você, mas para mim compensou. No fechar de olhos de Jack Shepherd, é hora de manter os meus abertos. Que venha outro “Lost” em nossas vidas.

* Marcio escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Leco Leite

Estou de volta e quero, preciso, escrever um pouco mais sobre Lost e seu épico Finale. Sim, épico. Lost encerrou a jornada de seus personagens nos mostrando exatamente tudo aquilo que era relevante e fazia parte da história da Ilha. E digo a jornada de seus personagens porque seria impossível contar a estória se não tivesse ninguém na Ilha, certo!?

Nos últimos três dias li vários artigos, de vários sites, sobre o Final. Todos excelentes e com análises bem parecidas com a minha sobre o que vimos no dia 23 de Maio de 2010 e também sobre o que vivemos desde 22 de Setembro de 2004. Percebi que não estava sozinho na forma como percebi o Final. Assim como os nossos losties, alguns fãs se uniram para finalmente “seguir em frente”, enquanto outros ainda precisam de um tempo para “encontrar suas próprias respostas” antes de continuar.

Mas preste atenção, a questão aqui não é ter “entendido” o Final, apenas uma observação minha sobre essa relação que percebi entre os eventos do Sideway com a divisão entre os fãs.

Essa divisão surgiu do tal “final aberto”, da resposta para o Sideway e das pontas soltas que ficaram para trás. Primeiro que, honestamente, não achei assim tão aberto o Final, já que a grande maioria dos fãs (gostando ou não do Finale) entenderam da mesma forma. Segundo, é preciso encarar a resposta para o Sideway como uma resposta da temporada e não o encerramento da série. O Finale aconteceu na Ilha! E terceiro, é preciso pensar em quais questões deixadas para trás são relevantes e poderiam alterar o rumo da série até a sua conclusão.

A parte mais importante da vida de cada personagem foi a estória que nos foi mostrada. Nela vimos os losties envolvidos em algo muito além deles e que não tinham qualquer responsabilidade, mas era preciso sobreviver. Era necessário saber como eles conseguiriam passar por esse momento e seguir com suas vidas. Pelo caminho, vários morreram. Quem ficou, continuou buscando a fuga. Mas fugir não significava exatamente sair da Ilha. Precisavam encerrar o ciclo no qual foram envolvidos e para isso cada um teria sua função e, em conjunto, estariam livres.

Hurley, que sempre foi de certa forma uma “representação” dos fãs entre os losties, agora assumia a posição de “Novo Jacob”, herdando de Jack que se sacrificou para ficar e deixar todos livre. Se Hurley representava os fãs, podemos considerar que todos nós, fãs de Lost, assumimos a posição de defender a Ilha pelo tempo que for possível.

Se o Sideway não teve a resposta que muitos esperavam, e aqui me coloco na lista, fez sentido com o que vimos na temporada e com aquilo que os losties buscavam: a Paz!

Paz que todos nós buscamos e também enfrentamos um caminho cheio de desafios, escolhas, vitórias e derrotas, para alcançar o objetivo. Para mim, a Paz não é como Lost nos mostrou, mas essa é minha visão.

Para mim, Lost é eterno e nos mostrou que, durante a vida, coincidências acontecem e que sempre acreditaremos ter certeza sobre uma resposta, mas as perguntas sempre existirão para nos ajudar a “seguir em frente”…

* Leco escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Daniel Araújo

Lost foi legal pra caralho.

Deve ter um monte de série melhor por aí, mas acompanhar Lost na época em que foi transmitido pela primeira vez foi, como dissemos, legal pra caralho.

Baixar episódio e ficar esperando a filha dormir para poder assistir sem distrações, ficar discutindo teorias com amigos do trabalho, com a Pri (minha mulher e principal companheira de Lost), até com desavisados em bares e restaurantes não era legal? Orra se era! Descobrir detalhes “importantes”, logos Dharma escondidos, números disfarçados, respostas camufladas: muito bom. Essa parte “social”, do esforço coletivo para entender a série, com certeza foi exclusivo de Lost, e eu curti bastante. O ponto alto desse aspecto coletivo foi a heróica rede de amigos gravando a segunda temporada na TV paga para mim, que não tinha cabo, não queria esperar a Globo e ainda não sabia dos torrents. Aê, amigos, valeu! Mas sei que fizeram isso por interesse próprio: se eu não assistisse Lost, eles iriam ter que falar de outra coisa na hora do almoço.

Teve mais coisa legal: a incrível cena inicial nos destroços do avião, a luz da escotilha acendendo pro Locke, o mr. Eko, o “botão”, “NOT PENNY’S BOAT”, o Michael traidor, a volta do Michael na 4a. temporada, the constant, Daniel Faraday, a bomba de hidrogênio, “we have to go back!”, Locke no caixão (duas vezes!), a morte da Alex, Benjamim Linus!, Desmond, o começo da segunda temporada, o cara de tênis vermelho morrendo esmagado, Locke na cadeira de rodas e depois mexendo o pé na praia, “Dude…”, o começo da terceira temporada na vila Dharma, Oceanic 6, deserto da Tunísia, Jacob tocando os personagens, Jacob tecendo uma tapeçaria, o reencontro de Sawyer e Juliet, o monstro de fumaça no templo, o pai do Jack falando “To remember… and to let go”, porra, sei lá, um monte de cenas e seqüências fabulosas.

O último episódio também foi espetacular. Não tem essa de mistérios não-resolvidos. Essa choradeira que o finale não esclareceu nada é ridícula. O finale não era prá explicar nada, era prá servir de despedida. Prá mim, o episódio mais esclarecedor (e o melhor da série), foi o final da 5a. temporada. O que o Jacob fazia ali era a explicação para o que é Lost. Ele pegava o fio da história de cada um daqueles personagens e trançava todas essas histórias entre si numa grande tapeçaria. Aquele tapete que ele aparecia tecendo era a série, era Lost! As “regras”, as imortalidades estranhas, as listas, tudo isso era arbitrário, assim era porque Jacob assim queria, era o desenho que ele queria no tapete.

Aqui nesse ponto entra a minha teoria mirabolante pro fim da série. Jacob teceu a tapeçaria até ser morto, e passou a tarefa pro Jack, que por sua vez passou pro Hurley. E o Hurley, o cara mais gente-boa ever, fez outra tapeçaria, outro desenho no tapete com as mesmas linhas. Na tapeçaria do Hurley, o Jack tinha um filho, Sun e Jin não morriam, Sawyer era decente, Ben era inofensivo, Locke era confiante, todos eram felizes, não tinham problemas com os pais nem com os filhos e ninguém nunca ia para a Ilha. Ora vejam se não era isso mesmo: Hurley se fez o cara mais rico e poderoso e gente boa e sortudo dos flash-sideways, e não é à toa que ele foi o primeiro a ser “despertado” pelo Desmond, não é à toa que o Ben lhe diz que agora ele deve “cuidar das pessoas” e lhe dá a dica que as coisas só eram cheias de regras porque o Jacob queria, não é à toa que ele e Ben se congratulam pelo trabalho bem feito no jardim da Igreja e certamente não será à toa que o epílogo inédito a ser incluído na caixa com o Lost completo vai ser sobre Hurley e Ben na Ilha – como o Michael Emerson já falou numa entrevista. O flash-sideway não era um purgatório, era o final que o Hurley queria para a série, já que aquele fim com Jack e mais um monte de gente mortos, Ji-yeon órfã, Ilha semi-destruída e tudo mais era muito triste. Olha só, o Hurley já tinha dito que não queria a função de Jacob, ele só mudou de ideia porque viu que era a chance dele de reverter tudo!

Não sei se é isso mesmo, mas que ia ser legal pra caralho se fosse, ah ia.

* Daniel Araújo escreveu este texto pra cá.

O fim de Lost por Marcelo Salgado

Eu vi Friends. Mas vi, antes, MacGyver, Magnum, Voyager, A Gata e o Rato, Caverna do Dragão (ok, era desenho e eu coloquei aqui só para sacanear). Vi Super Vicky, Punky – A Levada da Breca (o que diabos quer dizer “breca”?!), Alf – o Eteimoso, Esquadrão Classe A, Blossom, vi até Capitão Marvel e A Ilha da Fantasia (embora essa última nem seja bem da minha época). Vi Mundo da Lua e Anos Incríveis e, provavelmente, foram duas das coisas mais belas que vi na tevê. Vi Married With Children, Fresh Prince of Bel-Air (me recuso a escrever os títulos em português), Todo Mundo Odeia o Chris, Seinfeld e, mais recentemente, vi Angel, Battlestar Galáctica, Roma, Pushing Dasies, The Big Bang Theory, 24horas, Glee, Heroes (forget it), e Arquivo X. Vi muitas séries. Vi séries que nem listei aqui. O texto já está demasiado longo.

Eu não vi Lost. Não vi uma série de tevê, como vi as outras. Durante seis anos acompanhei uma história cativante, uma trilha sonora mágica do mestre Michael Giacchino, roteiros deliciosa e meticulosamente cíclicos, mas, principalmente, vivi os dramas dos muito bem construídos e interpretados personagens. Chorei com Charlie e sua luta mortal para se libertar (não estou falando das drogas). Torci por Michael e Walt, histórias de pai e filho sempre me comovem. Quis acreditar na Sun ao mesmo tempo em que desconfiava com Jin, tudo porque o amor deles era mais forte que qualquer coisa. Cri na bondade do torturador iraquiano, Sayid disfarçava-a como um bom espião. Confiei na sabedoria do olhar contornado de Richard e, mais tarde, na calmaria do de Jacob. Quis ser amigo-irmão de Desmond e amei odiar o Ben. Sawyer trapaceou e tomou a cena durante algum tempo, e foi muito divertido. Kate foi necessária, até a última cena. Locke era quase que a própria ilha e a ilha foi protagonista e antagonista. Hurley era a minha voz, meu medo e minhas lágrimas lá dentro e como dói saber que semana que vem estarei calado. E Jack. Jack era nosso olho.

Eu chorei. Não sei dizer nesse momento se por conta da história de cada personagem, que formou a série toda, ou se por estar órfão dela. Não importa. Whatever, como diriam dois amigos nossos. Algo que gerou tanta comoção, tanta diversão, tanta entrega, tanta discussão, tantos amigos (se você chegou aqui há uma grande probabilidade de ser um meu), não pode ser catalogado, resolvido, totalmente explicado. Não foi. Nunca será. Os clássicos são assim.

Se você esperava um desfecho arquitetado que amarrasse totalmente a trama, sinto muito. Você viu Lost. E esperou por algo que outras séries tentaram entregar. Algumas até conseguiram. Mas se você esperava realmente só isso, sinto muito. Você não teve a mesma sorte que eu. Se fosse do seu jeito, esse texto acabaria na lista do primeiro parágrafo e nós, no final do último episódio. Talvez eu tenha sido um homem de fé e você, de razão. Para a nossa sorte (sim, espero que no futuro seja a sua também), Lost não era sobre causa e consequência realistas. Era sobre o humano. Eu tive a melhor experiência cultural que poderia compreender e ela se expandiu e foi uma experiência humana. A parte física dela acabou, mas uma que ainda não consigo explicar ficou. Está aqui, comigo, agora. Como os grandes momentos da minha vida que, mesmo passados, me acompanham e me tornam o que sou. Eu não vi Lost.

Vi muitas séries e algumas muito boas. Mas não vi Lost. Eu vivi Lost.

E espero vivê-la novamente em outra vida, brotha!

* Marcelo escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Felipe Venetiglio

Quando Lost começou em setembro de 2004, a internet era bem diferente. O Facebook ainda tinha um “the” na url e ainda era restrito a estudantes de ensino superior e médio dos EUA, Twitter estava longe de existir, YouTube ainda demoraria mais seis meses para entrar no ar e o Google tinha acabado de fazer seu IPO. Mudou muito a internet e, com ela, os hábitos dos seus usuários.

E é com uma ferramenta do próprio Google que a gente pode ter uma ideia das mudanças de comportamento que aconteceram em paralelo com o desenrolar da série. O gráfico acima mostra uma tendência interessante. Em 2004, quem queria se aprofundar mais sobre as perguntas da série procurava por spoilers, e não por teorias. Isso acontecia particularmente logo antes e logo depois dos finais de temporada (exibidos sempre na última quinzena de Maio). Com o tempo – apesar de spoilers se manter como o termo mais procurado – os fãs começaram a procurar cada vez mais pelo que seus pares estavam pensando (e publicando) sobre os rumos dos sobreviventes do vôvooo 815: e vemos isso no gráfico, no crescimento proporcional das buscas por lost + theories. Isso reflete a estrutura dramática da série, em que perguntas eram respondidas com mais perguntas, mas também uma mudança mais profunda de comportamento online.

Nesses seis anos, mudou muito a forma como consumimos conteúdo na internet. Blogs já existiam desde, pelo menos, o fim dos anos 90, mas foi no início dos anos 2000 que ganharam cada vez mais destaque em relação aos “antigos” portais de internet. Na mesma época, a Wikipedia passava dos 500.000 artigos e 100 idiomas. Se o modelo dos anos 90 era o consumo de conteúdo de grandes portais, os anos 2000 começaram deixando claro que agora qualquer um poderia produzir (e distribuir) o seu próprio. Não por acaso, o termo Web 2.0 nasce em 2004. E começam a surgir YouTube, Digg, Flickr, Twitter, Yelp, Foursquare, etc. Todas essas ferramentas e outras tantas só existem porque cada vez mais passamos a dar atenção igual e até maior ao que era dito pelos nossos amigos, colegas de trabalho e desconhecidos com interesses em comum.

Se Lost sempre esteve em sintonia com essas mudanças – introduzindo um público de massa (foi veiculada durante todo esse tempo na TV aberta norte-americana) a coisas como ARGs e easter eggs, sendo transmedia antes do termo virar buzzword – era natural que seus fãs também o fizessem. Daí essa mudança: em vez de apenas consumir informação “oficial” vazada antes da hora, passaram a cada vez mais comentar, expor, debater. A criação em conjunto coisas a Lostpedia, uma implementação de wiki, outra coisa que é totalmente nesse caminho. Aliás, os outros fãs sempre foram importantíssimos para uma grande base de fãs que queria assistir aos episódios o mais rápido possível: os que baixavam a série em torrents, muitos usando ainda legendas feitas por equipes amadoras.

No fim, sabendo da comoção que o final da série ia causar na internet, muitos fãs decidiram se isolar até assistirem ao finale e a própria ABC resolveu transmiti-lo no mesmo horário em diversos países. A diferença entre um amigo comentando um episódio e passando um spoiler é se você o viu ou não.

E com um final aberto a interpretações e über-discutido online, Lost ajuda a mostrar que, na internet, ninguém é uma ilha.

Mal pelo último trocadilho, não resisti.

* Felipe escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Sandro Cavallote

Acompanho Lost desde seu primeiro episódio. A cada semana uma nova expectativa. Mistérios e mais mistérios. Interpretações ilimitadas e conjecturas inusitadas. Nos primeiros episódios da temporada final eu já estava me preparando para um novo Twin Peaks, um novo Matrix Revolutions. Em seus minutos derradeiros, eu estava com o canto da boca torcido, característico de quando não estou gostando do andamento de um determinado direcionamento.

E ali, Jack na igreja, um simples vitral ao fundo. Meu eu cauteloso e metódico dá lugar ao interpretativo emocional. Foi naquele instante que eu senti que todas aquelas 6 temporadas valeram a pena. E, superinterpretação ou não, me senti aliviado não pelo término, mas sim pela simplicidade no direcionamento dado pelos roteiristas. Uma artifício pobre? Pode até ser, mas longe do desfecho enfadonho que eu imagina que seria.

Enfim. Foi muito bom ser fã de Lost.

* Sandro publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Adriana Almeida

Já deu? Chega de Lost? Bom, há controvérsias. Ao responder em alguns blogs que falaram do fim de Lost, eu ainda estou recebendo ainda hoje, os novos comentários que esses posts receberam, e notei uma coisa: num primeiro momento era um embate equilibrado sobre quem gostou e quem não gostou, agora, parece que é um assunto em pauta apenas pra quem não gostou.

A idéia é que quem gostou já absorveu isso em suas vidas e tocou em frente, de forma análoga aos personagens da série. Quem não gostou ainda está remoendo a história do fim. E o protesto é sempre o mesmo: Não respondeu às perguntas e foi um final novela das 8. Aí eu peço desculpa pela prepotência: Vocês não entenderam nada! Não é o fato de ter gostado ou deixado de gostar que me diz que vocês não entenderam. Gostar é uma questão de escolha pessoal e pronto. Tem gente que gosta de jiló, tem gente que não.

A questão é que os motivos de vocês não terem gostado remetem ao fato de vocês terem comprado gato por lebre. Lost não é um livro de Ágata Christie, está muito mais pra um de Gabriel Garcia Marques…

GGM é meu escritor favorito e 100 anos de solidão meu livro de cabeceira. Em momento nenhum isso prova a genialidade dele de forma absoluta. Prova apenas pra mim. E por estarmos tratando da mesma vertente literária, era de se esperar que eu gostasse de LOST e quem não gosta de GGM, detestasse…
Mas aí a polêmica fica em outro patamar. O patamar de gostar ou não de um determinado gênero literário. E talvez de ter havido alguma confusão na hora de comprar o produto (ser convencido a assistir LOST). Então vamos falar do processo de venda.

Depois da Sky + eu quase não vejo mais propaganga: gravo meus programas e pulo os comerciais. Mas vez por outra me pego assistindo em especial comerciais de séries que eu assisto e choro de rir. Na própria AXN: os comerciais de Raising the Bar são extremamente focados nos romances entre os personagens dando um ar falso de uma série que tenta ser sexy: a série é sobre os dilemas da defensoria pública e até rola romance, mas num plano secundário: não é barrados no fórum como a propaganda faz parecer. E esse é um exemplo de milhares. Durante muito tempo me perguntei se quem faz as propagandas não podia assistir a série antes de falar tanta besteira. Ingenuidade minha: sexo vende muito mais do que dilemas morais, então no exemplo que dei, a propaganda se concentra nas insinuações de sexo muito mais do que nos dilemas de defender judicialmente quem não pode pagar por caros advogados.

Então entendo que você justifique suas críticas dizendo: Lost foi vendida como uma série de mistérios, e série de mistérios precisam que esses mistérios sejam “resolvidos” no final. Bom, você caiu no conto do vigário, acha mesmo que Activia é mágico e faz ir ao banheiro regularmente e que beber Jonhy Walker faz você ir longe na vida. Propaganda é propaganda e não dá pra confiar cegamente. Alias, vamos combinar, não dá pra confiar e ponto.

Então vamos concordar em um ponto: as propagandas do AXN a cerca de LOST eram “propagandas enganosas” que o levaram a pensar que LOST era uma série scifi com respostas lógicas aos mistérios propostos. Acione o procon, mas não reclame da série.

Lost era uma parábola narrada através do Realismo Fantástico. O fato do capítulo final já ter estado escrito desde o episódio piloto de LOST é a prova que os seus roteiristas não se perderam no meio da série e colocaram um final meia boca porque não conseguiram explicar os mistérios. Eles nunca quiseram explicar nada nesse nível de romance detetivesco… Isso não os faz perfeitos e que não tenham tropeçado aqui ou alí, ou que a série tenha um ou outro erro de continuismo, mas apenas que responder às perguntas levantadas pelos mistérios da série nunca foi a intenção primordial da obra, aliais, nem primordial nem secundária. Eram elementos simbólicos usados pra contar a história e apenas isso.

Realismo Fantástico, também chamado de Realismo Mágico ou Maravilhoso é uma corrente literária do século XX, em especial latino americana, que tem como nomes de destaque Gabriel Garcia Marques (Colômbia, e ganhador do Nobel de literatura), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (Venezuela), José J. Veiga (Brasil), José Luis Borges (Argentina) e Alejo Carpentier (Cuba).
Toda a idéia do Realismo Fantástico é a de fundir duas visões tidas como antagônicas:a cultura da tecnologia e a cultura da superstição e através delas, contar uma história cujo interesse é mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum (Os Losties viajam no tempo, eles acham isso estranho, mas ninguém para e surta e diz: Viajar no tempo é impossível, vamos buscar uma explicação científica pra isso ou melhor, vamos assumir que estamos todos loucos. Ao contrário, eles encaram o improvável como algo factível dada a realidade da ilha) e usar essas passagens como metáforas e críticas sociais.

Diferente do surrealismo, o inesperado irreal é incorporado na realidade e possui coerência interna. Não necessita de uma explicação lógica, mas possui uma explicação mítica (e eventualmente mística) que é compartilhada num nível subconsciente e está em concordância com os demais elementos da história.
Wikipédia básica para a galera… são características do realismo fantástico:

Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;

– Elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
– Presença do sensorial como parte da percepção da realidade;
– O tempo é percebido como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
– O tempo é distorcido, para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
– Transformação do comum e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas;
– Preocupação estilística, partícipe de uma visão estética da vida que não exclui a experiência do real.

Opss, acabo de descrever LOST.

Você tem TODO O DIREITO de não ter gostado de Lost, mas então, desgoste dele pelo que ele é: uma obra de Realismo Fantástico. E para uma obra dessa vertente literária, Lost não possui grandes falhas e cumpre o que se propôs. E (para quem gosta do estilo) foi uma obra prima se pensarmos que foi algo que passou na normalmente rasa e pouco significativa televisão…

Gosto não se discute, mas entendimento sim…

* Adriana escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Gabriel Ritter

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

O Encontro Marcado, de Fernando Sabino.

* Gabriel citou este trecho em seu blog.

O fim de Lost por Ana Maria Bahiana

“This is the end/ beautiful friend/ of everything that dies, the end”
(The End – The Doors)

“And in the end the love you make is equal to the love you take”
(The End- The Beatles)

Vocês já perderam alguém importante na vida de vocês? Eu já . Mais do que posso contar com calma. Para qualquer pessoa que já perdeu alguém importante em sua vida, ou que já teve que enfrentar cara a cara sua própria mortalidade, o episódio final de Lost, no ar ontem as 21h aqui nos EUA, foi um banquete altamente satisfatório e catártico.

Não, as grandes perguntas não foram respondidas – o que, como explico aqui neste texto da UOL TV é, antes de mais nada, um modo muito inteligente e orgânico de manter a mitologia da série viva ab aeternum (para citar outro pedaço da mitologia). Mas A grande pergunta que os show runners Damon Lindelof e Carlton Cuse decidiram abraçar neste fim de série – a própria natureza humana e seu destino – foi completamente respondida, com a eficácia dos bons contadores de história , em volta da fogueira, desde o princípio dos tempos.

Escrever para TV fechada é fácil. (Mentira: é difícil, tão difícil quanto produzir qualquer boa obra audiovisual. ) Difícil mesmo é escrever para TV aberta , com o nível de sofisticação e profundidade que Lost atingiu, consistentemente, nestes seis anos. Escrever para TV aberta durante seis temporadas é ser Scheherazade eternamente adiando a decapitação por ordem do soberano mal humorado e todo poderoso, insatisfeito com os índices de audiência, os indicadores demográficos e o retorno dos anunciantes. Ser capaz de tirar uma história de dentro de outra história de dentro de outra história, fiel ao princípio da narrativa que deu partida a tudo mas capaz de manter o sultão feliz é feito para poucos.

No processo dessas mil e uma noites na Ilha, a visão inicial de JJ Abrams, possivelmente mais Além da Imaginação e Arquivo X do que Livro Tibetano dos Mortos, sofreu as transformações necessárias para sua sobrevivência. O mito da Ilha, construído para servir de base à narrativa e aos arcos dos personagens, tornou-se menos importante do que os personagens em si. Lost estreou numa época difícil – depois do 11 de setembro, tendo como plateia uma sociedade cínica, paranóica,fracionada e profundamente ferida. A virada que Carlton Cuse e Damon Lindelof propuseram conduziu a série na direção de sua humanidade , e não daquilo que era extra ou sobre-humano. É possível fazer uma indagação filosófica sobre o sentido da vida, 50 minutos por semana, três meses por ano, durante seis anos? Por incrível que pareça, é. E em TV aberta.

O que comoveu e permaneceu do último episódio de Lost – além de seu magnífico roteiro, escrito com enorme rigor de estrutura e o tipo de humor entre-dentes que estava fazendo falta na série, ultimamente (“não acredito em muita coisa, mas acredito em fita adesiva”, foi minha fala favorita) – foi a sinceridade com que abraçou o humano em todos nós, dos seus criadores a seus personagens e a toda a platéia. Se aprendermos a viver juntos, não morreremos sozinhos, foi o que restou depois que o último olho se fechou na última e maravilhosa cena. É o oposto do que tudo a nossa volta parece estar dizendo. As forças que nos separam, dividem e isolam não são tão poderosas quanto as forças que nos fazem procurar o Outro e reconhecer nela ou nele sua luz interior, igual à nossa: aloha, e namastê.

Uma palavra final sobre o magnífico trabalho de Michael Giacchino, tão integral ao impacto de Lost que, nos roteiros, suas entradas eram anotadas como “O Giacchino” (assim: “aqui, O Giacchino aumenta a tensão”; “tapete triste de O Giacchino por baixo do diálogo”). A música em Lost era velha-escola, gravada ao vivo no estúdio Eastwood do lot da Warner, com uma orquestra de músicos sinfônicos experientes, que acabou conhecida como Orquestra Lost. Era ao mesmo tempo incrivelmente avant garde e profundamente romântica, respeitosa do trabalho dos atores mas, ela mesma, um ator, adicionando sua voz – a harpa sinistra, os violinos e metais abstratos, o piano pensativo – ao coro dos desempenhos. Mais uma vez, uma lição concreta de colaboração, comunidade, estar junto.

Namastê!

* Ana Maria escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Claudia Croitor

Será que eu morri, fui para um purgatório e minha punição é ter assistido a esse final de “Lost” e eu só vou entender tudo e conseguir fazer a travessia quando eu ler um comentário de um leitor me xingando e aí a luz vai se abrir para mim e eu vou assistir a um episódio que faça jus a tudo o que “Lost” representou desde 2004? Putz, preciso correr para uma igreja asap.

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Pera. O final feliz de Lost foi que todos morreram e foram para o céu? O final da série da queda do voo 815 numa ilha que ninguém sabia onde ficava e onde ninguém conseguia chegar (lembra da paraquedista do Widmore? do pêndulo? do avião recriando as condições do voo 815?) por causa de uma energia eletromagnética absurda que foi liberada quando o Desmond parou de apertar o botão a cada 108 minutos, que tinha a Dharma, os Outros, as mulheres que não podiam engravidar, as crianças que sumiam no meio da mata quando apareciam sussurros, que tinha as estações dharma com um cano que levava os diários para o meio do mato, as viagens no tempo, o Faraday, a constante, que teve o Locke que voltou a andar, que tinha o Walt um garoto especial, que tinha Ben que manipulava a todos, que tinha as regras e o Jacob e o Alpert que não envelhecia, o final dessa série foi o PAI MORTO DO JACK ABRINDO A PORTA DE UMA IGREJA PARA TODOS OS PERSONAGENS MORTOS RUMAREM JUNTOS PARA A LUZ??

Para, vai.

Ó, posso falar? Eu derrubei uma lágrima no final. Por pura emoção de ver ali reunidos os personagens que eu acompanhei por anos, com teorias mil, sobre quem eu debati por incontáveis horas e posts, por ver que eu teria que me despedir deles. No more “Previously on Lost”. Triste. Mas foi meio que uma emoção final de novela, aquelas cenas de casamentos coletivos com madrinhas grávidas e vilões mortos. Porque eu estou inconformada que a realidade paralela, que a gente achou que surgiu da bomba explodida no passado (e da ilha no fundo do mar) era na verdade o além. O purgatório. A ante-sala do céu. Chame como quiser. Parece que eles inventaram isso meia hora antes de começar a gravar.

E qual o sentido de no além a galera ter outra vida, casar com outras pessoas? E o filho do Jack é quem, alguém pode me dizer? Um anjinho que foi fazer figuração para o coração do Jack se alegrar? Aí eles encontraram as almas das pessoas que tinham amado na, hã, outra vida e, com um toque mágico, despertam para a realidade, digo, para o além, para onde estavam e ficaram prontos para fazer a travessia, e entenderam que o que viveram na ilha foi a parte mais importante de suas vidas. Era esse o mistério da realidade paralela? Alguém REALMENTE achou isso genial?

Pensa, please. Os caras planejaram a realidade paralela para ser o céu. Eu desisto. E Michael e Walt não merecem ir para o céu? Nem Ana Lucia? Nem o filho da Penny? ah, eles não estavam prontos, olha que resposta ideal.

O Desmond levou o tal choque da energia eletromagnética no aparelho de Widmore e aí teve a visão do paraíso? Tipo numa experiência de quase-morte? “Lost”, no fim das contas, tem mais a ver com a novela “A Viagem” do que a gente imaginou.

Acho que tudo foi um truque, porque diante disso o resto do episódio final da série sem absolutamente nenhuma resposta sobre mistério nenhum até que fez muito sentido. Porque o Desmond era especial, viajava no tempo, conseguia se conectar em épocas diferentes – não que isso faça alguma diferença para a história que eles contaram – mas ele era especial. Por ser especial, ele conseguiu descer na luz sem virar monstro, por ser especial ele conseguiu arrancar a rolha do lago dourado (era essa a rolha do inferno?), isso permitiu que o Locke-capeta fosse morto, aí o Jack colocou a rolha no lagoa de volta e tudo ficou bem.

Mas oi, o Jacob não podia pensar nisso antes? Arruma alguém para descer lá. Precisava de todo esse drama, séculos a fio, vidas destruídas, morte, tudo vai desaparecer se o Locke-capeta deixar a ilha, nossas filhas irão desaparecer?

Poxa, e tudo isso foi um erro do Jacob, como a gente comentou no episódio passado. Porque o irmão dele só queria sair dali e viajar, só isso. Aí Jack arrumou tudo, se sacrificando por um bem maior, Hurley virou o novo Jacob (o segredo é ter um recipente para beber água suja, veja você, e qualquer um vira o novo Jacob. Basta ter um copo ou uma garrafa à mão), numa dupla do barulho com Ben, almoçando aos domingos com o casal Rose e Bernard, ah que bonito.

Pergunta honesta: se o Jack não tivesse descido na rolha do inferno e tivesse dado um jeito de todo mundo entrar no avião e ir embora da ilha, deixando o Locke-capeta lá sozinho, o mundo ia acabar? Ou o Locke-capeta ia ficar lá sentado esperando outro navio chegar?

Percebe onde eu quero chegar? Tenho a terrível sensação de que nada do que a gente viu nas primeiras temporadas tem a ver com a batalha final. Nada, absolutamente nada. Viagens no tempo? Nem. Coincidências no passado dos losties? Zero? Números? Nem vou entrar nessa. Energia eletromagnética? Putz. Dharma? Quem? Comida Dharma chegando na ilha, lembra? No idea. Viagens no tempo? No fim nem a bomba teve a ver com nada, teve? Porque não era uma nova realidade. Era O PURGATÓRIO.

Triste. Muito triste.

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E a Eloise, que parecia saber de tudo? Serviu para que?

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Pô, e a Nadia? Ela não era o grande amor do Sayid? E aí quem vai pro céu com ele é a Shannon? Sacanagem.

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A Claire da ilha não tava mais limpinha nesse episódio?

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O Aaron não tinha que estar mais velho no céu? Ah é, lá o tempo não existe, foi mal, Christian.

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A luz da porta da igreja é a luz da ilha? Juro, dúvida honesta. Porque a ilha é a rolha do inferno mas guarda a luz do céu?

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Por favor, se o episódio fez sentido para você (não vale “me emocionei com todos juntos”, tem que fazer sentido) explica o porquê nos comentários, com clareza e educação. Eu realmente queria ler opiniões de gente que curtiu.

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Por fim, o que eu tenho a dizer é: por pior que tenha sido essa sexta temporada, e ela foi muito ruim na minha opinião, eu não considero perdido todo o tempo que eu investi nessa série. Em última instância, uma série de TV serve para nos divertir, é entretenimento, e eu me diverti horrores assistindo a “Lost”. Foi divertido demais ficar acordada madrugadas e madrugadas à espera do episódio, dar pause nas cenas para tentar entender os sussurros, fuçar em um milhão de blogs para achar os detalhes escondidos nos quais eu nunca reparava, comprar livros só porque os personagens liam e eu queria ler também, gastar posts e posts escrevendo sobre a série no blog e lendo comentários de leitores e debatendo com meus amigos e debatendo com desconhecidos, lendo entrevistas dos produtores, inventando listas e quizzes (opa, carlão!) divertidíssimos para o Séries Etc.

Para mim, as três primeiras temporadas de “Lost” estão sem dúvida entre as melhores coisas já produzidas na televisão e eu adorei ter acompanhado tudo isso em tempo real, adorei, bem ou mal, ter participado da série mais bombante do século 21, da série que inaugurou um novo jeito de ver TV.

E isso ninguém, nem o Christian Shephard transformado em anjo de luz, vai estragar.

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Última coisa. As cinco primeiras temporadas não serviram para quase nada, né?

* Claudia escreveu este texto em seu blog.