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Lost por Alexandre Versignassi

Tá meio frustrado com esse final? Ainda bem. Estranho seria se não estivesse. Só tem uma coisa: isso é mérito do Lost. Nunca um produto da cultura pop (ou da não-pop) atiçou tanto a imaginação de tanta gente. Tudo bem que exista uma quantidade surpreendente de donos de sabres de luz ou de pessoas fluentes em Klingon por aí (eu conheço um cara que fala Klingon e a língua dos elfos do Senhor dos Anéis, além de grego clássico, mas não posso dizer quem é). Só que beleza: são coisas de nicho. E nicho tem pra tudo. Lost é diferente. É para a massa. Dá para puxar conversa no metrô sobre o que está acontecendo na ilha. Alguém vai ter uma teoria.

E esse é o ponto. Se cada um tivesse a sua teoria e ficasse em casa com ela não haveria tanta frustração com os últimos episódios. O problema é que a troca global de teorias, principalmente via Lostpedia, criou algo inédito: uma seleção natural de teses em que só as melhores sobreviveram. Darwin puro: as ideias mais redondas se juntaram com outras tão boas quanto e deixando descendentes ainda mais brilhantes. Tão bem-adaptadas ao ambiente da série que, em alguns casos, a teoria chegou a superar a prática (a história que estava na cabeça dos roteiristas).

A minha favorita dizia que o Jacob era um Aaron do futuro, que teria voltado ao passado mais remoto da ilha e começado a parada toda. O Homem de Preto? Fácil: era o Aaron da realidade alternativa. O bebê ainda não tinha nascido no universo paralelo e, como todo mundo teve uma vida pregressa ao vôo 815 um pouquinho diferente (Jack teve um filho, por exemplo, provavelmente com a Juliet), o pai da criança seria outro. E ele nasceria moreno. Seria um Jacob Bizarro… O Homem de Preto, enfim. E um não poderia matar o outro porque, poxa, eles seriam a mesma pessoa.

Aí veio o episódio da semana passada, o Across the Sea, e matou a teoria que eu gostava. Tive de me contentar como o fato de que eles não são filhos da Claire, mas de uma romana xis, e que não podem matar um ao outro por causa de uma porcaria de um passe de mágica. Pô…

Mas ok. Importa mais saber que o desfecho não é um Frankenstein roteirístico criado a partir do que os fãs acham. Está claro que pelo menos a essência do que imaginam pro fim já estava na cabeça dos caras. Olha aqui que você vai ver. Nesta cena do 1º episódio da 1ª temporada fica óbvio que o personagem ali jogando gamão com o Walt não é o Locke, mas o Homem de Preto mesmo. Os produtores tinham medo de a série ser cancelada depois de 12 episódios. Então era natural, então, que já pusessem o irmão do Jacob no corpo do Locke de uma vez. Até por isso tinha aquele mistério de o John ser um paralítico que voltou a andar. Voltou a andar porque quem estava no controle do corpo dele era a entidade. Mais para o final da temporada, com contrato renovado com a ABC e tudo ok para produzir mais dezenas de episódios, a coisa muda de figura. Terry O´Quinn, o ator que faz o Locke, muda o jeito de interpretar seu personagem. O Locke da ilha vira um homem frágil, igual o Locke dos flashbacks. Perde o olhar de onisciência que fazia nas primeiras cenas. E o homem de preto só toma mesmo o corpo do Locke lááá na frente, na 5ª temporada.

Bom, os produtores nunca disseram isso. Nem desdisseram, porque ninguém perguntou. É só uma teoria. Mas isso é o que interessa no Lost: ele bota as nossas cabeças para funcionar o tempo todo, não só enquanto um episódio está passando. Teorizar o passado e no futuro da trama é tão bom quanto assistir capítulo novo. Até melhor, às vezes. Pena que, agora, é só até domingo 🙁

* Alexandre Versignassi é editor da Superinteressante, onde ele está fazendo um especial sobre a série, saca só.

Lost por Alexandre Maron

A gente fica falando e falando sobre o quanto Lost é relevante, revolucionário, multiplataforma, transmedia, enigmatico e tudo mais. Mas o que importa, o que sempre fez toda a diferença do mundo, é que Lost é bom demais. Simples assim.

Agora, jogar adjetivos ao vento é simplificar demais. Por que “bom demais”? Poucas vezes eu vi um equlíbrio tão preciso entre história (o episódio da semana e a grande trama que serve de pano de fundo) e caracterização (as personalidades complexas dos personagens que movem a história). Os escritores se deram a chance de explorar sem pressa cada item que julgavam importante para a história que queriam contar. Convenhamos que isso não é comum para um programa exibido na TV aberta Americana, a mais impiedosa do mundo quanto ao resultado de sua programação.

Durante essa jornada, a trama inicialmente nebulosa foi tomando forma e os segredos sendo revelados. Os escritores habilmente manobraram as expectativas das tribos de fãs oferecendo, lá e cá, fé e ciência, mas quem ia vendo sua teoria de estimação descartada, muitas vezes se desinteressava pelo programa. Era o choque dos homens de fé (as teses místicas) e os de ciência (os ratos do sci-fi). Quem achava que eles estavam mortos, ou que eles eram avatares, ou que habitavam um limbo espiritual, ou ou ou…

Nessa jornada, aprendemos a jogar de uma maneira nova. Muita gente nunca se tocou que um romance de mistério, um “whodunit” clássico, é um jogo entre o leitor e o escritor. Estão brincando uma mistura de Esconde-esconde e, sei lá o nome daquela brincadeira de “tá quente-tá frio”. Lost trouxe isso pro terreno da multimedia-multiplataforma e explodiu as cabeças de uma geração que achava que só havia um jeito de acompanhar uma trama. Quando alguém tenta explicar o que é esse negócio de narrativa transmedia, Lost é o exemplo perfeito, o estudo de caso. Pense nisso: uma geração de espectadores do mundo todo aprendendo a jogar com sua série. Uau.

Mas chamar uma audiência de milhões de pessoas para… jogar? Era óbvio que a coisa ia filtrar seu público. Sobramos nós, que ouvimos o chamado de Darlton (o nome ridículo dado à entidade formada por DAmon Lindelof e CARLTON Cuse) materializado no refrão da música “Make Your Own Kind Of Music”, cantada por Mama Cass Elliot, tocada na primeira cena do primeiro episódio do segundo ano:

“You gotta make your own kind of music
Sing your own special song
Make your own kind music
Even if nobody else sings along”

Esperamos semanas entre episódios que entregavam uma gota de informação, meses entre temporadas. Minha mulher, irritada com as doses homeopáticas de informação no segundo ano da série, cunhou a frase: “é muito pouco pela minha fidelidade” (Hummm, penso sempre nessa frase em outros contextos e fico bem espertinho, sabe. Mais uma informação importante que Darlton me deu).

E, caramba, como somos globais, somos muitos. Dezenas de milhões em todo o mundo. Gente que aprendeu a fazer downloads e catar legendas, operar gravadores digitais, ressuscitar videocassetes, ficou de olho na tela do AXN, acompanhou a exibição diária na Globo no início do ano ou esperou pelos lançamentos anuais das caixas de DVDs. Tudo para saber o que estava por trás daquele fatídico acidente do vôo 815 da Oceanic Airlines. Ou da escotilha, ou o que acontecia na outra ilha, ou porque os Oceanic Six tinham que voltar ou agora: o que diabos é aquela luz no coração da Ilha? Agora queremos saber como vai ser nossa vida depois de, bem, do fim.

Somos talvez menos do que quando Lost podia ser qualquer coisa, naqueles primeiros e nebulosos dias. Mas agora estamos em todo lugar, conectados por um programa revolucionário, genial e que, na essência, pode ser definido, depois de tantos rodeios, como smplesmente bom demais.

* Alexandre Maron é do tempo em que se orgulhar de ser nerd era motivo de vergonha.

Lost por Gustavo Miller

Todo relacionamento amoroso tem lá suas falsas promessas. O meu, durante três anos, foi um só: ver Lost. A Bem Amada, com quem conversava de cinema, cultura trash, televisão e qualquer bobagem, do dia pra noite resolveu só falar dessa porra, que em 2004 me parecia ser apenas um derivado do filme Náufrago.

Ela passava finais de semana fazendo as tais maratonas, tentava me explicar o que era RMVB, Lost in Lost, Equação de Valenzetti, Buracos de Minhoca… E eu ainda de luto pelo final de Friends (pois é).

Em 2007, em uma semana de folga no estágio, que deveria servir para eu começar o TCC, resolvi alugar na locadora da esquina a 1ª temporada de Lost. “A nível de” curiosidade. Antes de pôr o disco no DVD player, ainda liguei e fiz piada.

Aqui estou, três anos depois, sem nunca ter visto um novo episódio longe dela novamente…

Lost teve um tremendo impacto na minha vida, não apenas na pessoal – inclusive ajudou a desenferrujar meu #nerdpride. Mas também na profissional. Virei, veja só, repórter de séries: Lost me apontou que as melhores histórias, aquelas mais ousadas, dispostas a fazer o meu cérebro explodir, estavam na TV (americana), não mais no cinema.

Antigamente o sucesso de um programa televisivo era medido por conversas de bares, bordões que se espalhavam pelas escolas, telefonemas pro Projac sobre o nome do estilista da protagonista da novela das oito. Com Lost a medição foi feita no Orkut, fóruns, Twitter, ARGs, podcasts, blogs, YouTube… O programa foi uma síntese da comunicação deste começo de século. Lost foi um universo, uma espécie de hub, que fez da internet a sua rua.


Foto do Gustavo

No começo deste ano, tive a oportunidade de participar de uma coletiva em Pasadena com o elenco e com os produtores/cabeças Carlton Cuse e Damon Lindelof. Sabia que tinha tempo para uma única pergunta, mas os jornalistas americanos me engoliam, a fim de conseguirem alguma novidade sobre a 6ª temporada.

Não parava de olhar para o relógio, morrendo de medo de perder a única oportunidade de falar com os responsáveis por minha série predileta. Talvez a ilha tenha desejado, sei lá, mas tomei coragem, peguei o microfone, ergui o tom da minha voz o máximo que pude e avisei que tinha vindo do Brasil só para falar com eles.

A sala ficou quieta e fiz uma pergunta que nem tinha anotado: o legado futuro de Lost. “Desejamos que as pessoas lembrem da experiência de assistir a Lost, e de como elas se sentiram gratificadas e felizes por terem dedicado 120 horas de tempo e energia a ele”, resumiu Lindelof.

Foi a melhor resposta que eu podia ter.

* Gustavo Miller também é cria do Link e fez a matéria sobre a última temporada da série no início deste ano, quando entrevistou Carlton e Damon – e hoje está no G1, também falando de Lost.

Lost por Babee

“Think of the island as a record, spinning on a turntable, only now, that record is skipping.”

Viagem no tempo é um dos assuntos que mais me interessam, mesmo quando as histórias não fazem muito sentido. Seja em filmes, em séries, nas teorias científicas mais mirabolantes ou em um simples sonho. Quem nunca imaginou ver um show histórico da sua banda preferida? Rever um querido que morreu? As possibilidades são infinitas.

Em Lost, conhecemos pelo menos três tipos de viagem no tempo: os flashes mentais de Desmond, os personagens viajando pelo passado dentro da própria Ilha e os flashbacks/flashfowards, que funcionam como narrativa de viagem no tempo e nos mostra que uma nova linha-do-tempo não é criada – os personagens só visitam um ponto diferente nessa linha que sempre vai existir.

A série não assassina a principal lei dos time-travellers: de que o passado não deve ser alterado. Vai além, todas as situações do passado parecem ser perfeitamente coerentes. Em um dos vídeos da Dharma, quando Dr. Chang diz que os eventos da Ilha são resultado da “matéria exótica“, ele se utiliza da única maneira que um físico real explicaria estas experiências surreais. Portanto, fica claro que os realizadores da série tiveram muito cuidado ao abordar o assunto.

Citações feitas ao longo da série mostram que o passado é sagrado. “O que aconteceu, aconteceu” (Faraday), “O que foi feito, foi feito” (Sawyer), “Não seja louco! Existem regras”(Dr. Chang) são bons exemplos de que não se pode mudar o que está no lá atrás. E se o desejo de alterar o passado está bombando nas veias, sabe-se que fazê-lo “simplesmente” criaria uma realidade paralela e o passado permaneceria intacto. É como se duas agulhas tocassem um só disco ao mesmo tempo, em rotações diferentes.

Lost usa viagem no tempo como metáfora para a luta entre livre arbítrio vs. destino. Como humanos, temos a necessidade de fazer nossas próprias escolhas, trilhar os nossos caminhos. Mas o pensamento de que algumas coisas acontecem porque simplesmente devem acontecer não nos deixa em paz. Em que devemos acreditar, Razão ou Coração? Sempre o velho dilema.

Os Losties escolheram o vôo 815 ou já estavam destinados a embarcar no mesmo avião? Jack escolheu ser guardião da Ilha ou estava escrito que seria ele? A única certeza que temos é que nem sempre nossas escolhas trazem o resultado – ou a realidade – que queremos.

Todos os personagens são variáveis e cada um vive seu presente, independente do tempo ou lugar. A pergunta é: onde estarão no último episódio?

* Babee é a DJ do Boo Monster Bop e faz o melhor podcast do Brasil, o Boombop Shuffle.

Lost por Daniel Araújo

Assisti a primeira temporada de LOST na TV aberta. Sem paciência de esperar a Globo exibir a segunda e sem TV a cabo em casa, organizei um tráfico de fitas VHS gravadas por amigos para poder continuar acompanhando a série. Quando os amigos não puderam gravar o season finale da segunda temporada, peguei um DVD pirata comprado no centro por um colega de trabalho. Na terceira temporada, comecei emprestando episódios baixados por um amigo hacker e no final, no famoso “we have to go back!”, eu já estava um expert em torrent. E a partir da 4a. temporada, pelo menos para mim, já não fazia o menor sentido chamar LOST de “programa de TV”. Acredito que não foi só para mim que a série foi se desincorporando da TV.

A única maneira, hoje em dia, de ter a genuína “experiência LOST” – assistir um episódio sem saber de nada – é assistir pela internet. Quando a TV brasileira exibe o episódio, uma semana depois, já é praticamente reprise, todo mundo já leu na Internet tudo que aconteceu. Pô, quando a TV americana exibe o episódio inédito já é quase reprise, menos de uma hora depois de passar no Canada!

O mais legal de LOST sempre foi extra-TV. Acompanhar e tentar entender LOST sempre foi um esforço coletivo. A série não tem a menor graça para quem não corre pra internet depois de assistir, não debate com uns amigos, não vai atrás das referências espalhadas nos episódios, nunca jogou os joguinhos de realidade alternativa (nome interessante, levando em conta a ultima temporada) ou nunca acessou o site da Oceanic ou da banda do Charlie. Ou se nunca jogou os “números” na mega-sena esperando que algo mirabolante acontecesse. O legal da série era te deixar em “modo LOST” por muito tempo depois do fim do episódio. E para mim o que media a qualidade de um episódio não era o episódio em si – direção, roteiro, fotografia – mas a capacidade do episódio de me deixar encafifado depois que ele terminasse. LOST sempre foi legal pelo que gerava além da TV, e agora chega ao final dispensando totalmente a TV. Talvez ainda não haja um nome para que tipo de obra é LOST, mas certamente já não é mais um “programa de televisão”.

O que eu espero do season finale é isso. Não quero explicações, quero ficar encafifado, pensando durante muito tempo sobre o que foi que eu assisti. Quero o velho “nó LOST” na cabeça. Se o final for
mastigadinho, vai ser muito frustrante.

Até porque, se LOST se espalha para além da TV como o monstro de fumaça, o último episódio não vai ser o fim, vai ser no máximo o começo do fim. Enquanto estiverem discutindo e destrinchando o season finale e a série como um todo, ela não vai ter terminado. Se a série já dispensou a TV para existir, por quê o mero fim dos episódios inéditos iria acabar com ela?

* Daniel Araújo é o ouvinte número 1 do Comentando Lost. Sempre comentou todos os episódios – fiz questão de chamá-lo para escrever. E a ilustra é dele.

Lost por Carlos Merigo

Eu chego ao final de Lost certamente como cada uma das pessoas que acompanhou a série por 6 anos chegará: com uma sensação de vazio. Afinal, por mais que tenhamos buscado respostas por todo esse tempo, não é fácil abandonar o universo e personagens que aprendemos a gostar.

Lost foi a única série em que eu sempre precisei estar atualizado. Não podia esperar acabar a temporada ou acumular episódios para assistir tudo de uma vez, tinha que ser o ato religioso semanal. Adiar Lost era não ter assunto com os amigos ou então precisar fugir de qualquer texto sobre a série na internet.

Eu sempre gosto de dizer que, independente de seu final, Lost é um produto que alterou para sempre a indústria do entretenimento. Para produtores, espectadores, emissoras de TV, cinema, games, marcas, etc. Tudo foi atingido de algum maneira pelo blockbuster colossal da ABC.

E sim. Queremos as respostas nesse domingo. Não as teremos, obviamente, pelo menos não a maioria delas, mas fica a sensação de que J.J. Abrams tinha razão o tempo todo: o que mais importou foi a jornada, e não o final. Até porque, Lost sempre foi muito mais eficiente em criar mistérios e expectativa do que dar respostas.

Algo que me decepcionou muito na série foi a total queda para o lado místico, para o sobrenatural. Isso contrariou totalmente os que os próprios roteiristas tinham afirmado na primeira temporada: de que tudo poderia ser respondido cientificamente. Eu nunca engoli a história da fumaça, do pêndulo da Dharma, e – SPOILER – ainda não fui com a cara dessa misteriosa caverna luminosa.

Não que eu seja avesso a ficção, pelo contrário, mas não é o que me foi prometido há 6 anos atrás. E quando tudo vira uma questão de fé, os roteiristas podem colocar qualquer coisa na tela, porque acreditar ou não só vai depender de você.

Mas sinceramente, isso não importa mais, e é algo que me ficou ainda mais provado depois do dramático episódio 14 dessa sexta temporada, “The Candidate”.

A ilha, ursos polares, Dharma, fumaça, viagens no tempo ou seja lá mais quais forem as nossas dúvidas, tudo isso ficou em segundo plano. Eu quero é saber o que vai acontecer com os personagens. Quero é entender o destino dessas pessoas que aprendemos a gostar, torcer e odiar pelos seis anos. Porque se existe muita curiosidade em desvendar os mistérios de Lost, também nos deparamos com a questão fundamental de qualquer boa história: com quem o mocinho vai ficar no final? Seja ele qual for.

* Carlos Merigo é manda e desmanda no Brainstorm 9.

Lost por Sérgio Carvalho

Toda vez que ouço falar sobre Lost penso em Jornada nas Estrelas. Até acho legal esse público fiel, que acredita em todo um universo, cria toda uma linguagem que só quem acompanha entende. Na verdade, não assisti a tantos episódios Lost assim, mas esse negócio de tudo girar em torno de uma ilha me faz pensar na turma do Sr. Spock (de forma rasa, que fique bem claro, pois lá tudo acontecia em torno da Enterprise). Mas, na verdade, sou nerd da ala Jedi. Assim como sou muito mais Two And A Half Men do que Lost.

* Serjão é um dos poucos caras (o outro é o Roni) que podem dizer que fizeram parte da equipe do Trabalho Sujo.

Lost por Marcos Piangers

Assumo um preconceito injustificado com séries americanas. Nos meus early twenties achava uma forma de arte menor, como gibis, novelas da globo e filmes com o Mark Wahlberg. Foi vendo o Mutley correndo pra casa pra assistir Friends que eu dei chance pra essa coisas, ainda reticente com a possibilidade de ser um tremenda BICHICE. (Antes, pra mim, só havia Seinfeld, que eu e um amigo gravávamos em VHS todos os dias, em dois horários na Sony, o que nos fazia chegar atrasados no trabalho regularmente. Imagina nossa cara quando lançaram a coleção completa em DVD).

Lost não escapava de me fazer sentir NOVELEIRO. Assumo que assisti as partes mais açucaradas, os episódios do Jin e da Chan e praticamente toda a terceira temporada apertando o FF do controle remoto. Nego gosta de dizer que Lost é um seriado sobre pessoas – o que me deixa meio puto já que TODOS os seriados são sobre pessoas (tirando o Geeks and Chicks). Lost é sobre mistério. FODA foi ver um monstro matando o piloto; Locke andando; um urso polar no meio do mato; um avião cheio de drogas; outros sobrevivente na calda; Os Outros; o lance com mulheres grávidas; os vídeos da Dharma; a porra dos números; brasileiros no gelo; “We have to go back!”. Tira isso e seria um seriado sobre escotismo.

A habilidade pra colocar até o fã mais nerd de cabeça pra baixo foi o que fez de Lost esse CULTO. Infelizmente na sexta temporada o nível de ansiedade da tchurma era tão absurdo que a gente já sabia o que ia acontecer antes de ver o episódio. E, ao vê-lo, decepção inevitável. Qualquer teoria dos fãs era mais ducaralho que essas respostas oficiais. Meu polegar passeou pelo FF do controle remoto algumas vezes. Mas não é hora de apertar o botão. É hora de esperar a contagem terminar pra ver o que vai acontecer. Apertem os cintos.

* Marcos Piangers manda no Espelunca.

Lost por Arthur Dantas

11 Pontos para desconstruir LOST

(Ou como não falar do assunto proposto para apontar caminhos em termos nativos para a criação/destruição).

O Matias, esse sim experto das teorias cultura pop, me pediu um texto sobre o Lost. Tentei ser o homem dos 20 mil caracteres para jogar à altura do patrono, mas aqui é mais pá-pum, falta fôlego e dedo indicador para digitar. Assim, vai um texto com gosto de convite para conversa de nerds obsessivos e parcamente ilustrados e deformados.

Saí confuso depois do penúltimo episódio. Mas adianto: o único personagem “forte” pra valer nessa brincadeira toda depois de tanto enrola-desenrola é o Desmond Hume! Não vou arriscar futurologia – por mais óbvio que aparentemente pareça o fim da série –, porque acho desnecesário.

Resolvi prestar homenagem ao falecido e superlativo Ricardo Rosas, criador do portal rizoma.net – que, com certeza, estaria curtindo muito essa farra toda de 6 anos de duração e rivalizaria com o Matias nas observações sobre essa série fenômeno.

1. Lost in The Supermarket – no tiroteio das referências, essa música do The Clash serve como balizador da ideologia/projeto/conceito da série. E, ironia das ironias, reverbera novamente o filho de diplomata: o futuro não está escrito. Evoé Joe Strummer!

2. Lost = Charles Dickens. Sentimentalista e melodramática, jogos de moralidade. Inglaterra chega aos Estados unidos moderno – a crítica social e de costumes para a sarjeta. Da era vitoriana para o fundamentalismo cristão pós-moderno. Linhagem enviesada, linhagem enfraquecida. Muito a que se observar. A equação entre Orwell e Alan Moore, de Revolução dos Bichos à V de Vingança, linhagem coerente e sintomática de nosso tempo. Política. Ah, a Inglaterra. Soprano e Crime e Castigo. Bernard Shaw e Monty Python. Mark Twain e David Chapelle. Lost consolida e/ou encerra o período áureo das grandes narrativas em séries/folhetins teledramatúrgicos.

2. Nada é sagrado, tudo é permitido. Sincretismo religioso careta – nada que assuste a nós, brasileiros. Nos bastidores, o zeitgeist da cruza entre estadunidenses democratas, liberais, e judeus expatriados do grande capital do enterteinment. Nunca a religião se prestou tanto a ficção sem potência alguma.

3. Assim, se a religião foi o ópio das massas, hoje nosso ópio realmente está na TV – sem medo de parecer retórica esquerdista circa 1960. Medo e delírio. A banalização do bem e do mal – ou a elasticidade desses onceitos. Viva o ópio, viva o torpor. A religião para “religarmos” a TV.

4. a síntese máxima da conjunção do melhor que a literatura especulativa produziu (Fantasma de Lee Falk/HQ Adulta pós Gaiman-Moore-Morrison aportarem na Amérikkka/Hollywood dos filmes em série) – deslumbre com as possibilidades cênicas do capitalismo pós-fordista/limitações estruturais e/ou estruturantes, a ficção pós-moderna em seu ápice: constrói-se uma fortuna narrativa exemplar sem nenhum poder constituinte.

5. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica ad exaustão. Arte/mercadoria. Walter Benjamin rolando no túmulo. Os donos da série em orgias homéricas em mansões de L.A, curtição no Havaí. Espectadores ansiosos – a ansiedade alimentada pela indústria farmacêutica chega à TV Paga. Mal aí, Escola de Frankfurt: alienação wins!

6. Ainda em termos pós-modernos: o revés da ideia multitudinária ainda que plena em LOST – o revés da própria teoria ímplicita. A ilha como o Leviatã hobbessiano. Sawyer e Ana Lucia, Hugo e Libby, Sayid e a loira. Descontração no meio do pesadelo. A resolução pouco importa. Locke – vejam bem, Locke! – mata as possibilidades sociológicas radicais do texto. Logo, Bakunin é um personagem do quarto escalão com poucos recursos cênicos. O inconsciente estadunidense – essa besta com bombas atômicas comandando sinapses e o Apocalipse. Lost poderia ser a encenação do apocalipse bíblico. Não será.

7. Encruzilhadas do Labirinto. Cá entre nós: vale a pena pinçar cada uma das armadilhas em exercício mental botequeiro? Lost prova a descontinuidade do raciocínio e da historicidade como um exercício inevitável para o homem médio. Deixa Lost me levar, lost leva eu…

8. Ficção científica e a ideia de não estarmos sozinhos no universo. Bullshit. Mais um mote para a lata de lixo da história. O estranho em nós. Um, nenhum, cem mil. Personagens lineares: Jack e Hugo. A Amérikka profunda e débil, flácida em sua estupidez. Sedutora e engraçada, companheira, ao mesmo passo. O sonho americano – aqui cada vez mais tedioso e lento e contínuo como um elefante – em chave maior.

6. Seis anos e alguns estudos de caso da moralidade estadunidense – infelizmente – implícita. Pretos amarelos e terceiro mundistas explodidos, soterrados, afogados. Mortes violentas. Mesmo o consenso hollywoodiano democrata e o liberalismo judaico ressoando em cada episódio. Fim trágico do multicultarismo como promessa de um mundo globalizado.

7. o mundo não suporta/quer/demanda grandes narrativas estruturantes – foda-se Balzac e Proust e cavalgando alucinadamente da outra ponta mas em direção convergente, o Pynchon também – o que se espera/suporta/necessita-se são grandes narrativas não-constituintes. Será uma grande biblioteca de Alexandria de ponta cabeça, desorganizada, um remédio consentido entre as partes para finalmente enterrarmos a história, pra aliviar nossas dores?

8. Lost como cume de uma grande espiral de um gênero que se pretende como o “das ideias” em nosso tempo, a ficção especulativa, e mais centralmente a ficção científica, devidamente dopado e sintetizado ao DNA de uma cultura viciada e analgésicos e aliviadores de consciência – do Prozac aos construtores de consenso manufaturado. Transcender essa espiral, assim espero, somente com as surpresas dos samurais oriundos do Oriente profundo – para vingar os amarelos, negros, terceiro mundistas e demais párias devidamente jogados para debaixo do tapete da série para que soçobre um heroi bundinha tipicamente americano (eleja-se do caipira racista Elvis Presley, ao Ciclope dos X-men ao sem sal emolóide Jack Sheppard de LOST) que diz muito sobre o anima de um império decadente. Nem Obama nem Mao Tsé Tung. A devir, se ele guarda algo de grandioso para nosotros, terá mais que ver com uma narrativa Luther Blissetiana.

9.O caos reina. A cultura pop ganhando vulto de alma popular.

10. Diversão descompromissada? Jamais, Siegel e Shuster, Crumb e Shelton, irmãos Wachowski, irmãos Coen, irmãos Marx, Moore e Morrison, Pelé e Coutinho, Maradona e Careca, descontração e sedução de inocentes.

11. Inocentes? Ninguém é inocente, diria Sayid Jarrar, o personagem de onde começaria uma narrativa a moda do Brasil pós-Lula – o meu herói da série. Viva Lost!

P.S: um comentário ingênuo e objetivo: no meio da última temporada me sentia enganado, mas acabarei no domingo plenamente recompensado.

* Arthur Dantas é o Velot Wamba. Ou é o contrário?