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O fim de Lost por Felipe Venetiglio

Quando Lost começou em setembro de 2004, a internet era bem diferente. O Facebook ainda tinha um “the” na url e ainda era restrito a estudantes de ensino superior e médio dos EUA, Twitter estava longe de existir, YouTube ainda demoraria mais seis meses para entrar no ar e o Google tinha acabado de fazer seu IPO. Mudou muito a internet e, com ela, os hábitos dos seus usuários.

E é com uma ferramenta do próprio Google que a gente pode ter uma ideia das mudanças de comportamento que aconteceram em paralelo com o desenrolar da série. O gráfico acima mostra uma tendência interessante. Em 2004, quem queria se aprofundar mais sobre as perguntas da série procurava por spoilers, e não por teorias. Isso acontecia particularmente logo antes e logo depois dos finais de temporada (exibidos sempre na última quinzena de Maio). Com o tempo – apesar de spoilers se manter como o termo mais procurado – os fãs começaram a procurar cada vez mais pelo que seus pares estavam pensando (e publicando) sobre os rumos dos sobreviventes do vôvooo 815: e vemos isso no gráfico, no crescimento proporcional das buscas por lost + theories. Isso reflete a estrutura dramática da série, em que perguntas eram respondidas com mais perguntas, mas também uma mudança mais profunda de comportamento online.

Nesses seis anos, mudou muito a forma como consumimos conteúdo na internet. Blogs já existiam desde, pelo menos, o fim dos anos 90, mas foi no início dos anos 2000 que ganharam cada vez mais destaque em relação aos “antigos” portais de internet. Na mesma época, a Wikipedia passava dos 500.000 artigos e 100 idiomas. Se o modelo dos anos 90 era o consumo de conteúdo de grandes portais, os anos 2000 começaram deixando claro que agora qualquer um poderia produzir (e distribuir) o seu próprio. Não por acaso, o termo Web 2.0 nasce em 2004. E começam a surgir YouTube, Digg, Flickr, Twitter, Yelp, Foursquare, etc. Todas essas ferramentas e outras tantas só existem porque cada vez mais passamos a dar atenção igual e até maior ao que era dito pelos nossos amigos, colegas de trabalho e desconhecidos com interesses em comum.

Se Lost sempre esteve em sintonia com essas mudanças – introduzindo um público de massa (foi veiculada durante todo esse tempo na TV aberta norte-americana) a coisas como ARGs e easter eggs, sendo transmedia antes do termo virar buzzword – era natural que seus fãs também o fizessem. Daí essa mudança: em vez de apenas consumir informação “oficial” vazada antes da hora, passaram a cada vez mais comentar, expor, debater. A criação em conjunto coisas a Lostpedia, uma implementação de wiki, outra coisa que é totalmente nesse caminho. Aliás, os outros fãs sempre foram importantíssimos para uma grande base de fãs que queria assistir aos episódios o mais rápido possível: os que baixavam a série em torrents, muitos usando ainda legendas feitas por equipes amadoras.

No fim, sabendo da comoção que o final da série ia causar na internet, muitos fãs decidiram se isolar até assistirem ao finale e a própria ABC resolveu transmiti-lo no mesmo horário em diversos países. A diferença entre um amigo comentando um episódio e passando um spoiler é se você o viu ou não.

E com um final aberto a interpretações e über-discutido online, Lost ajuda a mostrar que, na internet, ninguém é uma ilha.

Mal pelo último trocadilho, não resisti.

* Felipe escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Sandro Cavallote

Acompanho Lost desde seu primeiro episódio. A cada semana uma nova expectativa. Mistérios e mais mistérios. Interpretações ilimitadas e conjecturas inusitadas. Nos primeiros episódios da temporada final eu já estava me preparando para um novo Twin Peaks, um novo Matrix Revolutions. Em seus minutos derradeiros, eu estava com o canto da boca torcido, característico de quando não estou gostando do andamento de um determinado direcionamento.

E ali, Jack na igreja, um simples vitral ao fundo. Meu eu cauteloso e metódico dá lugar ao interpretativo emocional. Foi naquele instante que eu senti que todas aquelas 6 temporadas valeram a pena. E, superinterpretação ou não, me senti aliviado não pelo término, mas sim pela simplicidade no direcionamento dado pelos roteiristas. Uma artifício pobre? Pode até ser, mas longe do desfecho enfadonho que eu imagina que seria.

Enfim. Foi muito bom ser fã de Lost.

* Sandro publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Adriana Almeida

Já deu? Chega de Lost? Bom, há controvérsias. Ao responder em alguns blogs que falaram do fim de Lost, eu ainda estou recebendo ainda hoje, os novos comentários que esses posts receberam, e notei uma coisa: num primeiro momento era um embate equilibrado sobre quem gostou e quem não gostou, agora, parece que é um assunto em pauta apenas pra quem não gostou.

A idéia é que quem gostou já absorveu isso em suas vidas e tocou em frente, de forma análoga aos personagens da série. Quem não gostou ainda está remoendo a história do fim. E o protesto é sempre o mesmo: Não respondeu às perguntas e foi um final novela das 8. Aí eu peço desculpa pela prepotência: Vocês não entenderam nada! Não é o fato de ter gostado ou deixado de gostar que me diz que vocês não entenderam. Gostar é uma questão de escolha pessoal e pronto. Tem gente que gosta de jiló, tem gente que não.

A questão é que os motivos de vocês não terem gostado remetem ao fato de vocês terem comprado gato por lebre. Lost não é um livro de Ágata Christie, está muito mais pra um de Gabriel Garcia Marques…

GGM é meu escritor favorito e 100 anos de solidão meu livro de cabeceira. Em momento nenhum isso prova a genialidade dele de forma absoluta. Prova apenas pra mim. E por estarmos tratando da mesma vertente literária, era de se esperar que eu gostasse de LOST e quem não gosta de GGM, detestasse…
Mas aí a polêmica fica em outro patamar. O patamar de gostar ou não de um determinado gênero literário. E talvez de ter havido alguma confusão na hora de comprar o produto (ser convencido a assistir LOST). Então vamos falar do processo de venda.

Depois da Sky + eu quase não vejo mais propaganga: gravo meus programas e pulo os comerciais. Mas vez por outra me pego assistindo em especial comerciais de séries que eu assisto e choro de rir. Na própria AXN: os comerciais de Raising the Bar são extremamente focados nos romances entre os personagens dando um ar falso de uma série que tenta ser sexy: a série é sobre os dilemas da defensoria pública e até rola romance, mas num plano secundário: não é barrados no fórum como a propaganda faz parecer. E esse é um exemplo de milhares. Durante muito tempo me perguntei se quem faz as propagandas não podia assistir a série antes de falar tanta besteira. Ingenuidade minha: sexo vende muito mais do que dilemas morais, então no exemplo que dei, a propaganda se concentra nas insinuações de sexo muito mais do que nos dilemas de defender judicialmente quem não pode pagar por caros advogados.

Então entendo que você justifique suas críticas dizendo: Lost foi vendida como uma série de mistérios, e série de mistérios precisam que esses mistérios sejam “resolvidos” no final. Bom, você caiu no conto do vigário, acha mesmo que Activia é mágico e faz ir ao banheiro regularmente e que beber Jonhy Walker faz você ir longe na vida. Propaganda é propaganda e não dá pra confiar cegamente. Alias, vamos combinar, não dá pra confiar e ponto.

Então vamos concordar em um ponto: as propagandas do AXN a cerca de LOST eram “propagandas enganosas” que o levaram a pensar que LOST era uma série scifi com respostas lógicas aos mistérios propostos. Acione o procon, mas não reclame da série.

Lost era uma parábola narrada através do Realismo Fantástico. O fato do capítulo final já ter estado escrito desde o episódio piloto de LOST é a prova que os seus roteiristas não se perderam no meio da série e colocaram um final meia boca porque não conseguiram explicar os mistérios. Eles nunca quiseram explicar nada nesse nível de romance detetivesco… Isso não os faz perfeitos e que não tenham tropeçado aqui ou alí, ou que a série tenha um ou outro erro de continuismo, mas apenas que responder às perguntas levantadas pelos mistérios da série nunca foi a intenção primordial da obra, aliais, nem primordial nem secundária. Eram elementos simbólicos usados pra contar a história e apenas isso.

Realismo Fantástico, também chamado de Realismo Mágico ou Maravilhoso é uma corrente literária do século XX, em especial latino americana, que tem como nomes de destaque Gabriel Garcia Marques (Colômbia, e ganhador do Nobel de literatura), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (Venezuela), José J. Veiga (Brasil), José Luis Borges (Argentina) e Alejo Carpentier (Cuba).
Toda a idéia do Realismo Fantástico é a de fundir duas visões tidas como antagônicas:a cultura da tecnologia e a cultura da superstição e através delas, contar uma história cujo interesse é mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum (Os Losties viajam no tempo, eles acham isso estranho, mas ninguém para e surta e diz: Viajar no tempo é impossível, vamos buscar uma explicação científica pra isso ou melhor, vamos assumir que estamos todos loucos. Ao contrário, eles encaram o improvável como algo factível dada a realidade da ilha) e usar essas passagens como metáforas e críticas sociais.

Diferente do surrealismo, o inesperado irreal é incorporado na realidade e possui coerência interna. Não necessita de uma explicação lógica, mas possui uma explicação mítica (e eventualmente mística) que é compartilhada num nível subconsciente e está em concordância com os demais elementos da história.
Wikipédia básica para a galera… são características do realismo fantástico:

Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;

– Elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
– Presença do sensorial como parte da percepção da realidade;
– O tempo é percebido como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
– O tempo é distorcido, para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
– Transformação do comum e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas;
– Preocupação estilística, partícipe de uma visão estética da vida que não exclui a experiência do real.

Opss, acabo de descrever LOST.

Você tem TODO O DIREITO de não ter gostado de Lost, mas então, desgoste dele pelo que ele é: uma obra de Realismo Fantástico. E para uma obra dessa vertente literária, Lost não possui grandes falhas e cumpre o que se propôs. E (para quem gosta do estilo) foi uma obra prima se pensarmos que foi algo que passou na normalmente rasa e pouco significativa televisão…

Gosto não se discute, mas entendimento sim…

* Adriana escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Gabriel Ritter

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.

O Encontro Marcado, de Fernando Sabino.

* Gabriel citou este trecho em seu blog.

O fim de Lost por Ana Maria Bahiana

“This is the end/ beautiful friend/ of everything that dies, the end”
(The End – The Doors)

“And in the end the love you make is equal to the love you take”
(The End- The Beatles)

Vocês já perderam alguém importante na vida de vocês? Eu já . Mais do que posso contar com calma. Para qualquer pessoa que já perdeu alguém importante em sua vida, ou que já teve que enfrentar cara a cara sua própria mortalidade, o episódio final de Lost, no ar ontem as 21h aqui nos EUA, foi um banquete altamente satisfatório e catártico.

Não, as grandes perguntas não foram respondidas – o que, como explico aqui neste texto da UOL TV é, antes de mais nada, um modo muito inteligente e orgânico de manter a mitologia da série viva ab aeternum (para citar outro pedaço da mitologia). Mas A grande pergunta que os show runners Damon Lindelof e Carlton Cuse decidiram abraçar neste fim de série – a própria natureza humana e seu destino – foi completamente respondida, com a eficácia dos bons contadores de história , em volta da fogueira, desde o princípio dos tempos.

Escrever para TV fechada é fácil. (Mentira: é difícil, tão difícil quanto produzir qualquer boa obra audiovisual. ) Difícil mesmo é escrever para TV aberta , com o nível de sofisticação e profundidade que Lost atingiu, consistentemente, nestes seis anos. Escrever para TV aberta durante seis temporadas é ser Scheherazade eternamente adiando a decapitação por ordem do soberano mal humorado e todo poderoso, insatisfeito com os índices de audiência, os indicadores demográficos e o retorno dos anunciantes. Ser capaz de tirar uma história de dentro de outra história de dentro de outra história, fiel ao princípio da narrativa que deu partida a tudo mas capaz de manter o sultão feliz é feito para poucos.

No processo dessas mil e uma noites na Ilha, a visão inicial de JJ Abrams, possivelmente mais Além da Imaginação e Arquivo X do que Livro Tibetano dos Mortos, sofreu as transformações necessárias para sua sobrevivência. O mito da Ilha, construído para servir de base à narrativa e aos arcos dos personagens, tornou-se menos importante do que os personagens em si. Lost estreou numa época difícil – depois do 11 de setembro, tendo como plateia uma sociedade cínica, paranóica,fracionada e profundamente ferida. A virada que Carlton Cuse e Damon Lindelof propuseram conduziu a série na direção de sua humanidade , e não daquilo que era extra ou sobre-humano. É possível fazer uma indagação filosófica sobre o sentido da vida, 50 minutos por semana, três meses por ano, durante seis anos? Por incrível que pareça, é. E em TV aberta.

O que comoveu e permaneceu do último episódio de Lost – além de seu magnífico roteiro, escrito com enorme rigor de estrutura e o tipo de humor entre-dentes que estava fazendo falta na série, ultimamente (“não acredito em muita coisa, mas acredito em fita adesiva”, foi minha fala favorita) – foi a sinceridade com que abraçou o humano em todos nós, dos seus criadores a seus personagens e a toda a platéia. Se aprendermos a viver juntos, não morreremos sozinhos, foi o que restou depois que o último olho se fechou na última e maravilhosa cena. É o oposto do que tudo a nossa volta parece estar dizendo. As forças que nos separam, dividem e isolam não são tão poderosas quanto as forças que nos fazem procurar o Outro e reconhecer nela ou nele sua luz interior, igual à nossa: aloha, e namastê.

Uma palavra final sobre o magnífico trabalho de Michael Giacchino, tão integral ao impacto de Lost que, nos roteiros, suas entradas eram anotadas como “O Giacchino” (assim: “aqui, O Giacchino aumenta a tensão”; “tapete triste de O Giacchino por baixo do diálogo”). A música em Lost era velha-escola, gravada ao vivo no estúdio Eastwood do lot da Warner, com uma orquestra de músicos sinfônicos experientes, que acabou conhecida como Orquestra Lost. Era ao mesmo tempo incrivelmente avant garde e profundamente romântica, respeitosa do trabalho dos atores mas, ela mesma, um ator, adicionando sua voz – a harpa sinistra, os violinos e metais abstratos, o piano pensativo – ao coro dos desempenhos. Mais uma vez, uma lição concreta de colaboração, comunidade, estar junto.

Namastê!

* Ana Maria escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Claudia Croitor

Será que eu morri, fui para um purgatório e minha punição é ter assistido a esse final de “Lost” e eu só vou entender tudo e conseguir fazer a travessia quando eu ler um comentário de um leitor me xingando e aí a luz vai se abrir para mim e eu vou assistir a um episódio que faça jus a tudo o que “Lost” representou desde 2004? Putz, preciso correr para uma igreja asap.

*

Pera. O final feliz de Lost foi que todos morreram e foram para o céu? O final da série da queda do voo 815 numa ilha que ninguém sabia onde ficava e onde ninguém conseguia chegar (lembra da paraquedista do Widmore? do pêndulo? do avião recriando as condições do voo 815?) por causa de uma energia eletromagnética absurda que foi liberada quando o Desmond parou de apertar o botão a cada 108 minutos, que tinha a Dharma, os Outros, as mulheres que não podiam engravidar, as crianças que sumiam no meio da mata quando apareciam sussurros, que tinha as estações dharma com um cano que levava os diários para o meio do mato, as viagens no tempo, o Faraday, a constante, que teve o Locke que voltou a andar, que tinha o Walt um garoto especial, que tinha Ben que manipulava a todos, que tinha as regras e o Jacob e o Alpert que não envelhecia, o final dessa série foi o PAI MORTO DO JACK ABRINDO A PORTA DE UMA IGREJA PARA TODOS OS PERSONAGENS MORTOS RUMAREM JUNTOS PARA A LUZ??

Para, vai.

Ó, posso falar? Eu derrubei uma lágrima no final. Por pura emoção de ver ali reunidos os personagens que eu acompanhei por anos, com teorias mil, sobre quem eu debati por incontáveis horas e posts, por ver que eu teria que me despedir deles. No more “Previously on Lost”. Triste. Mas foi meio que uma emoção final de novela, aquelas cenas de casamentos coletivos com madrinhas grávidas e vilões mortos. Porque eu estou inconformada que a realidade paralela, que a gente achou que surgiu da bomba explodida no passado (e da ilha no fundo do mar) era na verdade o além. O purgatório. A ante-sala do céu. Chame como quiser. Parece que eles inventaram isso meia hora antes de começar a gravar.

E qual o sentido de no além a galera ter outra vida, casar com outras pessoas? E o filho do Jack é quem, alguém pode me dizer? Um anjinho que foi fazer figuração para o coração do Jack se alegrar? Aí eles encontraram as almas das pessoas que tinham amado na, hã, outra vida e, com um toque mágico, despertam para a realidade, digo, para o além, para onde estavam e ficaram prontos para fazer a travessia, e entenderam que o que viveram na ilha foi a parte mais importante de suas vidas. Era esse o mistério da realidade paralela? Alguém REALMENTE achou isso genial?

Pensa, please. Os caras planejaram a realidade paralela para ser o céu. Eu desisto. E Michael e Walt não merecem ir para o céu? Nem Ana Lucia? Nem o filho da Penny? ah, eles não estavam prontos, olha que resposta ideal.

O Desmond levou o tal choque da energia eletromagnética no aparelho de Widmore e aí teve a visão do paraíso? Tipo numa experiência de quase-morte? “Lost”, no fim das contas, tem mais a ver com a novela “A Viagem” do que a gente imaginou.

Acho que tudo foi um truque, porque diante disso o resto do episódio final da série sem absolutamente nenhuma resposta sobre mistério nenhum até que fez muito sentido. Porque o Desmond era especial, viajava no tempo, conseguia se conectar em épocas diferentes – não que isso faça alguma diferença para a história que eles contaram – mas ele era especial. Por ser especial, ele conseguiu descer na luz sem virar monstro, por ser especial ele conseguiu arrancar a rolha do lago dourado (era essa a rolha do inferno?), isso permitiu que o Locke-capeta fosse morto, aí o Jack colocou a rolha no lagoa de volta e tudo ficou bem.

Mas oi, o Jacob não podia pensar nisso antes? Arruma alguém para descer lá. Precisava de todo esse drama, séculos a fio, vidas destruídas, morte, tudo vai desaparecer se o Locke-capeta deixar a ilha, nossas filhas irão desaparecer?

Poxa, e tudo isso foi um erro do Jacob, como a gente comentou no episódio passado. Porque o irmão dele só queria sair dali e viajar, só isso. Aí Jack arrumou tudo, se sacrificando por um bem maior, Hurley virou o novo Jacob (o segredo é ter um recipente para beber água suja, veja você, e qualquer um vira o novo Jacob. Basta ter um copo ou uma garrafa à mão), numa dupla do barulho com Ben, almoçando aos domingos com o casal Rose e Bernard, ah que bonito.

Pergunta honesta: se o Jack não tivesse descido na rolha do inferno e tivesse dado um jeito de todo mundo entrar no avião e ir embora da ilha, deixando o Locke-capeta lá sozinho, o mundo ia acabar? Ou o Locke-capeta ia ficar lá sentado esperando outro navio chegar?

Percebe onde eu quero chegar? Tenho a terrível sensação de que nada do que a gente viu nas primeiras temporadas tem a ver com a batalha final. Nada, absolutamente nada. Viagens no tempo? Nem. Coincidências no passado dos losties? Zero? Números? Nem vou entrar nessa. Energia eletromagnética? Putz. Dharma? Quem? Comida Dharma chegando na ilha, lembra? No idea. Viagens no tempo? No fim nem a bomba teve a ver com nada, teve? Porque não era uma nova realidade. Era O PURGATÓRIO.

Triste. Muito triste.

*

E a Eloise, que parecia saber de tudo? Serviu para que?

*

Pô, e a Nadia? Ela não era o grande amor do Sayid? E aí quem vai pro céu com ele é a Shannon? Sacanagem.

*

A Claire da ilha não tava mais limpinha nesse episódio?

*

O Aaron não tinha que estar mais velho no céu? Ah é, lá o tempo não existe, foi mal, Christian.

*

A luz da porta da igreja é a luz da ilha? Juro, dúvida honesta. Porque a ilha é a rolha do inferno mas guarda a luz do céu?

*

Por favor, se o episódio fez sentido para você (não vale “me emocionei com todos juntos”, tem que fazer sentido) explica o porquê nos comentários, com clareza e educação. Eu realmente queria ler opiniões de gente que curtiu.

*

Por fim, o que eu tenho a dizer é: por pior que tenha sido essa sexta temporada, e ela foi muito ruim na minha opinião, eu não considero perdido todo o tempo que eu investi nessa série. Em última instância, uma série de TV serve para nos divertir, é entretenimento, e eu me diverti horrores assistindo a “Lost”. Foi divertido demais ficar acordada madrugadas e madrugadas à espera do episódio, dar pause nas cenas para tentar entender os sussurros, fuçar em um milhão de blogs para achar os detalhes escondidos nos quais eu nunca reparava, comprar livros só porque os personagens liam e eu queria ler também, gastar posts e posts escrevendo sobre a série no blog e lendo comentários de leitores e debatendo com meus amigos e debatendo com desconhecidos, lendo entrevistas dos produtores, inventando listas e quizzes (opa, carlão!) divertidíssimos para o Séries Etc.

Para mim, as três primeiras temporadas de “Lost” estão sem dúvida entre as melhores coisas já produzidas na televisão e eu adorei ter acompanhado tudo isso em tempo real, adorei, bem ou mal, ter participado da série mais bombante do século 21, da série que inaugurou um novo jeito de ver TV.

E isso ninguém, nem o Christian Shephard transformado em anjo de luz, vai estragar.

*

Última coisa. As cinco primeiras temporadas não serviram para quase nada, né?

* Claudia escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Bruno Carvalho

Eu comecei incrédulo o último episódio de Lost, confesso. O turbilhão de informações, histórias, retornos e caminhos cruzados na jornada final para impedir que o Homem de Preto destruísse a ilha não me deixaram conectar de início com a essência da série. Mas isso foi de propósito. Afinal, não era essa a história que Carlton Cuse, Damon Lindelof e toda a equipe que escreveu uma das maiores sagas da televisão mundial quis contar. Claro, tivemos os momentos apoteóticos com Desmond, “Locke” e Jack no coração da ilha; os retornos de Boone, Shannon, Juliet, Rose, Bernard e Vincent; a libertação de Richard Alpert de seu encargo eterno; a auto condenação de Ben pelos seus erros e muito mais. A primeira parte foi vibrante e intensa a cada tiro e soco, mas à medida que o episódio avançava as iterações, aliterações, mistérios e mitologias foram tomando conta da tela. E assim, os borrifos de sangue foram se transformando em toques; os gritos em abraços e as palavras de desespero em momentos de conforto enquanto os eternos sobreviventes do voo 815 se reencontravam na outra realidade.

E como nós não percebemos pra onde tudo caminhava? Esperávamos o quê? Que um vídeo de orientação da Dharma Initiative aparecesse para nos guiar? Não. Precisávamos ser guiados pela emoção, pois no fim das contas estamos todos indo para um outro lugar, queiramos ou não. E foi esta a história que LOST contou nos últimos seis anos de nossas vidas: a jornada de pessoas que nasceram, viveram e morreram. Jack, Kate, Sawyer, Juliet, Jin, Sun, Hurley, Libby, Desmond, Penny e tantos outros foram levados à ilha para cumprir uma missão. E cumpriram. E uma a uma, sistematicamente, foram morrendo desde o início da série, como uma contagem regressiva que recusamos enxergar. E por quê? Por que todos morrem, inevitavelmente. E no fim não mais importaram os números, as teorias, os mistérios ou mitos. A realidade paralela foi apenas um ponto de encontro daqueles que a todo custo viveram juntos e não queriam morrer sozinhos, a “antessala” do paraíso para os que precisam dar um nome a tudo. Mas o maior feito deste final foi o de criar algo atemporal, completo e ainda assim aberto para (milhões de) interpretações. E falando em uma antessala, um dos poucos detalhes deste final que citarei é o local onde o caixão de Christian Shephard estava, com as diversas representações físicas de várias religiões.

Existem mais informações nos minutos, segundos e milésimos finais de LOST do que muitos conseguirão imaginar. A cena final, então, é ao mesmo tempo fantástica, enigmática e triste. Jack acordou naquele bambuzal confuso e pronto para uma grande aventura e no mesmo local seus olhos cheios de dor e conhecimento se fecharam. Com isso, a série e sua intenção permanecerão, invariavelmente, incompreendidas. O que foi real, irreal, imaginário ou não, no fim das contas, caberá a cada um. A ilha é um teste? O purgatório? Uns chamam de final aberto por não esgotar tudo como se fosse um drama investigativo. Eu chamo de final ideal, digno das melhores obras de ficção. Aqueles que não acabam quando realmente chegam ao fim, pois o que realmente importa é a jornada. Não foi um final fácil ou óbvio. Foi um final corajoso que fez jus aos seis anos da série. Afinal, estamos todos indo para algum lugar, não? Sim? Não? Vejo vocês em uma outra vida, brothas!

Que jornada. Que jornada.

* Bruno publicou este texto em seu blog.

O fim de Lost por Carlos Alexandre Monteiro

“Onde estamos, pai?”

“Esse é um lugar em que todos vocês criaram juntos para que pudessem encontrar uns aos outros. A parte mais importante de sua vida foi o tempo em que você passou com essas pessoas. É por isso que todos vocês estão aqui. Ninguém consegue fazê-lo sozinho, Jack. Você precisava de todos eles, e eles todos precisavam de você”.

“Para quê?”

“Para se lembrarem… e para seguir adiante”.

O que faz isso tudo por que passamos, sentimos, experimentamos valer a pena? Minha resposta é direta: por acreditar em que tudo acontece por um motivo e que por trás desta gigante e inexplicável razão existe a simples necessidade de encontrarmos a felicidade. Estas são duas verdades pessoais que trago comigo desde antes de “Lost” e que foram erguidas como nunca em “The End”, o emocionante e inesquecível desfecho da série.

De seu início à comovente cena final, no ocaso de uma odisseia, “Lost” consagra a certeza de que, por incríveis seis temporadas, vivenciamos uma fábula sublime e unicamente grandiosa a respeito de nossa busca pela felicidade, procura ora consciente ora inconsciente, mas nunca de fato estagnada. Uma luz que, em tese, deveria nos ser facilmente encontrável por estarmos frequentemente mergulhados no escuro, mas que por muitas ocasiões desaparece por nos deixarmos cegar por este breu que é tão humano quanto os personagens que nos conduziram, através de suas jornadas, por um encontro com nossas próprias histórias.

“The End” comprova um ritual de seis anos de duração em que nos foi dada uma chance, uma escolha: a de nós e eles nos tornarmos um só. E, uma vez fechado o livro, me sinto plenamente feliz por ter me servido do copo e ver que não estive, ver que não estou sozinho. Muitos, somos Locke em crenças inabaláveis; somos Hurley no amor à inocência; somos Sawyer quando ora renunciamos, ora revelamos o que trazemos; somos Kate ao acertarmos errando; somos Sayid ao encontrar pesadelos que contam nossa história mas não nos mostram; somos Charlie ao sucumbirmos diante de nossas fraquezas e ao conseguirmos nos fortalecer diante delas; somos Desmond na luta pelos amores que nos dão constantes de vida; somos Jack em transformações que, mesmo em morte, nos apontam a direção.

Em seu encerramento, “Lost” desfaz-se em definitivo de supostos embates para atar laços fundamentais: ciência como caminho para chegarmos à fé, esse patamar alcançável de uma força que nos transcende; e livre arbítrio que nos permite antecipar ou retardar o destino, que se torna dharma ou karma de acordo com o que merecemos. Tudo ao sabor da epopeia de nossos personagens, contada através deles; vivida por todos nós, losties que sempre fomos.

E por fim, nem a mais generosa noção do nosso merecimento poderia antecipar a força e o sentido das lágrimas dos momentos finais, donas da mais pura e alcançável felicidade. Nada vai nos roubar a emoção de estar naqueles abraços que celebraram o amor e a paz que envolvem os que seguem juntos dos seus para um voo maior. Nada vai nos tirar a sensação de que, após uma saga de dúvidas e fé, desilusão e esperança, quando os olhos se fecharam, a luz de “Lost” se fez presente não pela última e mais bela vez, mas para sempre. Para todo o sempre.

* Carlos Alexandre Monteiro escreveu este texto em seu blog.

O fim de Lost por Alexandre Versignassi

Foi passar meia-dúzia de episódios da primeira temporada para todo mundo ter certeza de que a ilha era o purgatório (o lugar onde você tem que fazer estágio antes de ser aceito no céu). Tinha sentido: os primeiros flashbacks mostravam os pecados e as frustrações de cada personagem. E a ilha era o lugar das redenções. Purgatório.

Seria um bom final para uma minisérie com uma dúzia de capítulos. E era para ser isso mesmo: os produtores tinham certeza de que Lost não passaria da primeira temporada, disseram isso várias vezes.
Mas aí veio o problema: o povo gostou demais da série. E os produtores ganharam um contrato para continuar por anos no ar (num primeiro momento, a ABC queria que Lost fosse eterno, enquanto durasse a audiência). Mas e agora? Como enrolar anos pra terminar com um final que todo mundo já tinha adivinhado?

Desmentir esse final, ué! Foram várias entrevistas dizendo que, não, eles não estão mortos. Que tudo ali era real e blá blá blá. Segundo passo: bolar histórias que se fechem em si mesmas, na medida do possível, enquanto o final original, o do purgatório, esperava na geladeira. E aí tome estações da Dharma, vila dos outros, tribo dos hostis, estátua, templo, Jacob, Samuel… Ah, pegadinha: esse era o nome do Homem de Preto nos scripts. Só não usaram na história para fazer charme, para inventar “mistério” onde não havia nada.

Aí veio o último capítulo e descobrimos que realmente não havia nada. A cabeça dos criadores estava vazia. Todos os mistérios importantes eram falsos. Tinham sido concebidos sem conclusão. Claro. Se a ideia original era a de que a própria ilha fosse o purgatório, quando ela deixa de ser, por decreto dos produtores, ela própria deixa de fazer sentido. Por isso a série acabou sem falar nada sobre a natureza mitológica da ilha. Transformaram ela num mundo “Caverna do Dragão”. Uma terra sobrenatural sem um propósito convincente.

E aí… chegou a hora de o programa terminar. Mickey Mouse tinha que partir. E o que fizeram? Em vez de bolar alguma coisa que amarrasse o mínimo que fosse as (ótimas) histórias que tinham criado para ganhar tempo, os produtores pularam fora do próprio barco. Resolveram manter aquele que seria o final original. Mas com outro purgatório, a realidade alternativa, já que a ilha tinha ganho o status de “lugar real”.

Fizeram provavelmente o mesmíssimo final que tinham na cabeça lá atrás. Christian Shephard é a maior evidência disso. Vemos o caixão dele vazio logo no comecinho da série. E o próprio Christian surge para Jack no mato – mas ainda sem falar nada.

Ele só falaria no final da primeira e única temporada imaginada originalmente para Lost. A cena: Jack encontraria Christian na praia (ou em uma eventual igrejinha que tivessem contruído na ilha). E…

– Pai, o que vc está fazendo aqui se está morto?
– O que VOCÊ está fazendo aqui, Jack?
– Então eu morri! Todo mundo aqui morreu…

Fim.

E seria bom. O problema foi colocar esse final agora, improvisado, como se nada tivesse acontecido entre a primeira e a última temporada.

É disso que boa parte dos fãs reclamou. Só que, na real, não aconteceu nada mesmo entre a primeira e a última. Histórias inconclusivas não são histórias. São passatempos. As viagens no tempo, os templos, a coisa de apertar o botão a cada 108 minutos para salvar o mundo… Foram brincadeiras bem legais. Mas soltas, sem nenhuma relevância para a história que tinham para contar.

Vender essas brincadeiras como elementos que formariam uma saga foi estelionato. Para piorar, a própria Lostpedia estava cheia de idéias de fãs que dariam conta de resolver tudo. De fundir aquela miríade de histórias sem pé nem cabeça numa narrativa coerente. A criatividade coletiva dos fãs tinha ultrapassado com folga a dos produtores. Mas eles preferiram fechar os olhos. Para um pecado desses, não tem purgatório.

* Versignassi escreveu este texto no blog da revista que edita.

O fim de Lost por Márvio dos Anjos

Eu não vi Lost. Mas admito que tentei.

Cedi à experiência de assistir pois havia tamanho frenesi por parte de amigos meus a respeito da série, que já causava furor nos EUA. Não sou afeito a novelas e séries, mas me interessei pela sensação de um fato inovador na teledramaturgia, seguido mundialmente.

Acho que parei no quarto capítulo, quando surgiu um urso polar naquela ilha tropical. Revoltou. Tive a impressão de que os roteiristas queriam me transformar no ratinho da roda do laboratório. Comigo, não.

E, por seis temporadas, foi um sucesso de audiência, tanto na TV quanto no fluxo de downloads pela internet. Notei muitos madrugando atrás dos arquivos e das legendas para verem em seus laptops – essa, sim, a inequívoca revolução na maneira de absorver um conteúdo televisivo. E meus amigos teorizavam, debatiam, alguns até ganharam dinheiro blogando sobre isso. E colecionaram perguntas que esperavam ver respondidas.

Pelo que leio na maioria dos comentários sobre o fim de Lost, há um grande cisma entre os telespectadores: muitas questões abertas foram tratadas como aspecto menor pelos roteiristas. Os fãs se dividem hoje entre o triunfo final de uma série apaixonante e a frustração por ter faltado algo, digamos, mais apropriado à expectativa gerada.

Traçar julgamentos sobre o valor dramatúrgico da série é tarefa que não posso desempenhar. Mas tampouco negaria o fenômeno pop que Lost representa, sua capacidade de mobilização de audiência – segmentada – de milhões de pessoas. Que debatem cientificamente cada detalhe, cada cena e cada fala. Tornaram-se especialistas.

E vão continuar divagando e gerando bibliografia – principalmente virtual – sobre o que eles acham que a tal da ilha era. Talvez não cheguem a nenhum consenso (aliás, é bem provável, pelo que tenho acompanhado). E talvez aí resida o maior valor de Lost.

A que mais pode almejar uma obra de arte senão essa existência para além do momento em que foi absorvida? Senão essa permanência viva em corações e mentes, alimentada pela paixão nostálgica de reviver, explorar e até destruir os êxtases inesperados que tal obra revelava? E ainda, uma audiência qualificada, disposta a debatê-la ao infinito, com espírito enciclopédico, procurando referências e comparações em tudo? Pela memória e pela disposição de seus fãs, Lost entrará no cânone das grandes obras do homem. Mas não para mim. Urso polar em ilha tropical? Não.

* Márvio publicou este texto em sua coluna.