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Como assim, Krautrock?

Krautrock foi o nome que a imprensa inglesa – rótulo martelado com insistência por John Peel – deu às bandas alemãs que começaram a aparecer a partir do fim dos anos 60, mas em vez de republicar mais uma vez o texto que fiz sobre o gênero, vou apenas linká-lo enquanto também os redireciono para o torrent do documentário Kraftwerk and the Electronic Revolution me sugerido pelo João no post original.

Em tempo: “Kraut” pode ser visto como uma forma pejorativa de se referir aos alemães (“Sauerkraut” é o nome original do chucrute) como também é uma piadinha de duplo sentido com a onda viajandona daquela geração, pois, traduzido do alemão, “Kraut” quer dizer “mato” – e era como os contemporâneos do krautrock se referiam à maconha.

Neu!?


Trecho do documentário Krautrock: The Rebirth of Germany, da BBC

Se você nunca ouviu falar no Neu!, talvez esta seja a melhor época para conhecer o grupo (além da época em que a banda estava na ativa, mas aí você tinha que estar na Alemanha no início dos anos 70). Afinal, ele reencarna com esta formação chamada Hallogallo para uma turnê nos EUA (será que algum produtor brasileiro se anima? Psicodelia minimal barulhenta!) como uma forma de divulgar a caixa definitiva com todos os trabalhos do grupo, incluindo um monte de coisas inéditas.

Michael Rother e Klaus Dinger entraram no Kraftwerk quando o grupo havia acabado de sair da sua fase rock progressivo e começava a se dedicar ao ritmo eletrônico e robótico. Resumido à dupla Ralf Hutter e Florian Schneider, o antigo Organisation adotava um nome essencialmente alemão (“usina de força”) e chamaram primeiro um baterista, Klaus, que depois chamou seu amigo Florian para consolidar o novo grupo. Juntos, gravaram dois discos – mais tardes conhecidos apenas como Kraftwerk 1 e 2, que contam com cones de trânsito, um vermelho e outro verde, em cada capa dos discos – antes das duas duplas se separarem. Ralf e Florian lançaram mais um disco (batizado apenas com o prenome dos dois, tipo dupla sertaneja) antes de chamarem outros dois músicos para oficializar sua carreira robótica, iniciada em Autobahn.

Thomas e Klaus seguiram para um caminho mais perigoso e radical. O Kraftwerk havia encontrado rumo no ritmo repetitivo e mecânico que seria o percurso de todos seus discos até hoje e passeia por paragens conhecidas (auto-estradas, ferrovias, o meio digital, a bicicleta, a tecnologia biônica, a energia nuclear) observando-as à distância, quase alien, melancólico, frio, paranóico e distante, mas apreciando a poesia dos ciclos de repetição criados pelos seres humanos. Já o Neu! preferia conduzir este mesmo ritmo – preciso e interminável – para os limites explorados pelo krautrock, O rock alemão dos anos 70 ganhou fama por experimentar fronteiras sônicas que expandiam o conceito da psicodelia para dentro dos conservatórios e para a selva, duas influências explícitas deste gênero. O Neu! ia para os limites de ambas e o barulho – elétrico, eletrônico, humano – era só a textura em que se sentia mais à vontade. A banda durou três discos e fechou as portas nos próprios anos 70, cada uma de suas metades seguindo rumos paralelos: Thomas seguiu carreira solo e Klaus juntou-se ao La Düsseldorf. Quando esta banda terminou em 83, os dois voltaram a se falar e voltaram a gravar juntos, produzindo um disco (Neu! 86) que só foi ver a luz do dia na forma de piratas nos anos 90.

Durante esta década, a influência da banda passou a ser assimilada principalmente entre bandas de rock alternativo nos Estados Unidos e indies ingleses e os discos da banda, que não eram relançados desde 1983, tornaram-se raridade, objetos de culto e, inevitavelmente, reedições piratas. As tentativas de relançar oficialmente o catálogo do Neu! sempre foi motivo de briga entre Klaus e Thomas, que só conseguiram chegar a um acordo sobre os relançamentos em 2001. A partir daí, os dois voltaram a tentar colaborar juntos, sem sucesso. Até que Klaus morreu em 2008, aos 61, de ataque do coração.

A nova caixa, que será lançada este mês, conta com os três discos originais (Neu!, Neu! 2 e Neu! 75), e dois discos que não foram oficialmente lançados (um maxi-single de 72 e Neu! 86), todos em vinil, um livro de 36 páginas e um estêncil para quem sempore quis grafitar o logotipo da banda por aí sair pintando Neu! pelas paredes da vizinhança. Maiores detalhes sobre a caixa no site do grupo.

This is Mashing – João Brasil

E era verdade: João Brasil estava mesmo fazendo um álbum de mashups em cima do ainda não lançado disco do LCD Soundsystem, This is Happening. AC/DC, Michael Jackson, Alanis Morrissette, B-52’s, Eminem, Lily Allen e outros menos cotados se misturam com as faixas do triste terceiro disco da marca de James Murphy. Separei o mashup com a minha atual faixa favorita do disco do LCD, “One Touch”, que mistura-se com a farofa incendiária da “Poker Face” de Lady Gaga. O disco inteiro cê baixa aqui.


João Brasil – “One Poker Touch

Talking Heads ao vivo em Roma, 1980


E já que o clima é o pós-disco do começo dos anos 80, pare o que você está fazendo, siga este link, aperte o play e dê full-screen no player. Você está para entrar em uma outra dimensão, em que a música, conduzida pelo ritmo, ganha um valor emocional superior, transcendental. Esse show dos Talking Heads em Roma (com Andrew Belew desequilibrando na outra guitarra) já tinha sido indicado pelo Thiago no comentário sobre o show do Walkmen no Rio e foi linkado pelo Guilherme quando a Tina Weymouth pintou no jogo das T-Girls (ah, o privilégio de ter bons leitores…). Mas deixa de enrolação: assista ao vídeo de show e torne-se uma pessoa melhor. Abaixo, o repertório.

“Psycho Killer”
“Stay Hungry”
“Cities”
“I Zimbra”
“Drugs”
“Take Me to the River”
“Crosseyed and Painless”
“Life During Wartime”
“Houses in Motion”
“Born under Punches”
“The Great Curve”

Aqui, o torrent. E eu ainda verso sobre esse tema daqui a pouco.

HermetoKraut

Ainda sobre o Steve Shelley, ele é o baterista da atual encarnação de uma das metades do Neu!, o mítico e hermético quinto elemento, ao lado do Kraftwerk, do Faust, do Tangerine Dream e do Can, da fundação do pop alemão como o conhecemos hoje. Michael Rother é a metade que comanda o Hallogallo 2010 e convidou o baterista do Sonic Youth para assumir o motorik nas músicas do Neu!, que são a base do repertório do grupo. E a primeira aparição do Hallogallo 2010 do lado de cá do Atlântico acontece em agosto, na cidade-natal de Shelley, quando o grupo toca no Lincoln Center, em Nova York, dividindo o palco com ninguém menos que Hermeto Pascoal. Shelley comemorou a coincidência blipando a incrível “Música da Lagoa”, do velho mago.

Se você estiver por lá nessa época, não perca.

On the run 67: Daily Session with Steve Shelley

Ainda continuando no clima Nova York, chamo o caçula do Sonic Youth (que mané Jim O’Rourke, esse é só um fã), convocado pelo Daily Session para assumir um setzinho para o site e o cara me sai com essa sequência inacreditável de Darondo com Scott Walker, “Canto de Ossanha” com “Vampire Blues”, Jamaicans com Gainsbourg, Alex Chilton com B.B. King… Muito mestre.

Daily Session with Steve Shelley (MP3)

Gil Scott Heron – I’m New Here
The Monkees – Porpoise Song
Darondo – Didn’t I
Brenda Holloway – Every Little Bit Hurts
Stranger Cole & Patsy Tood – Down The Trainline
The Jamaicans – Baba Boom (Ba Ba Boom Time)
Vivian Stanshall – Calypso To Colapso
Serge Gainsbourg – Pauvre Lola
Olatunji – Kiyakiya (Why Do You Run Away?)
Serge Gainsbourg – Joanna
Chuck Berry – Thirteen Question Method
De Baden e Vinicius – Canto De Ossanha
Jimmy Lewis – The Girls From Texas
Scott Walker – Jackie
Alex Chiton – My Rival
Neil Young – Vampire Blues
Harmonia – Deluxe ( Immer Wieder)
Dan Penn – Nobody’s Fool
Suzie Higgie&Conway Savage – The Letter
The Triffids – Tender Is The Night
Jack Kerouak – On The Road
Dan Penn – Skin
Nina Simone – Tell Me More And More and Then Some
Gil Scott Heron – NewYork Is Killing Me
JIm James&Colexico – Goin’ To Acapulco
Bob Dylan – Wigwam
David Crosby – Traction In The Rain
Fleetwood Mac – Albatross
Big Maybelle – Gabbin’ Blues
Wynonie Harris – Wasn’t That Good
Jimmy Liggins – I Ain’t Drunk
William Devaughn – Be Thankful What You Got
Jimmy Nelson – T99 Blues
Bobby Bland – Share Your Love With Me
BB King – Please Love Me
Tom Waits – Danny Says
Gil Scott Heron – On Coming From A Broken Home (Part 1)
Gil Scott Heron – Me And The Devil