Oito gigas do segundo Juntatribo

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Marco fundamental do rock brasileiro dos anos 90, as duas edições do festival independente Juntatribo ajudaram a fundar nosso underground mais ou menos nos mesmos moldes que o Rock in Rio, uma década antes, havia fundado nosso mainstream. Feito na raça nos anos de 1993 e 1994, no Observatório a Olho Nu no campus da Unicamp, em Campinas, o festival prezava por reunir apenas grupos que trabalhavam por conta própria, sem o aval de gravadoras multinacionais. Era o início dos anos 90 e ainda estávamos saindo das fraldas no que dizia respeito à produção independente brasileira. Os dois festivais se dividiram historicamente como os dois momentos da maioria das carreiras que seguem à margem do mainstream. O de 93 espalhou-se como um segredo entre amigos, um festival quase secreto, com uma mínima repercussão que alimentou o hype da edição de 94, essa sim fora de controle, com gente de toda a espécie querendo entender o que era esse tal de underground. Eis que surge agora um torrent com oito gigas de vídeo com todos os shows daquele festival que reuniu, num fim de semana, luminares dos anos 90 (Little Quail, Virna Lisi, Planet Hemp), pedras fundamentais do indie brasileiro (Beach Lizards, Killing Chainsaw, Relespública, Brincando de Deus, PELVs, Oz), coadjuvantes de peso (Resist Control, Concreteness, Loop B, No Class, Magog, Câmbio Negro, Linguachula) e a nata do hardcore da época (Garage Fuzz, Resist Control, IML), entre outras bandas. Abaixo, o texto do Paulo Marchetti, que editou um Lado B sobre o festival, que acompanha o documento histórico – não sei quem é o autor, que diz ter editado o Lado B da MTV sobre a segunda edição do evento – que pode ser baixado aqui. Aqui tem uma matéria que a afiliada da Globo em Campinas produziu sobre o festival, anos depois.

Sérgio Vanalli foi o idealizador e um dos realizadores do festival Juntatribo que teve duas edições: a primeira em agosto de 1993 e a segunda em setembro 1994.

Escrevendo, logo nessa primeira frase já me veio o gosto da terra que “comi” nas duas edições que fui. Mas fora a terra também tinham as fogueiras que ajudavam na hora do frio e que deixavam as roupas com o horrível cheiro de fumaça.

Sérgio estudava engenharia química na UNICAMP, tocava na banda Heaven in Hell e editava o fanzine Broken Strings. Depois de uma viagem à Inglaterra, Sérgio resolveu organizar um festival alternativo, porque o que ele queria mesmo era viver de música.

O local escolhido foi o Observatório a céu aberto da própria UNICAMP, que não só deu espaço e infra estrutura para o local dos shows, mas também a infra estrutura necessária para as bandas, cedendo espaço para elas dormirem, o refeitório e banheiros.

Pelas minhas contas foram 44 bandas nas duas edições. Mas pra falar delas é preciso lembrar-se do contexto, do qual já filosofei: bandas brasileiras cantam em inglês por verem um país sem futuro. Das 44 bandas, 8 tinham seu repertório em língua portuguesa. E de todas as participantes, as que se deram melhor na carreira foram justamente as que cantavam em português: Raimundos e Planet Hemp. A escalação do festival é o retrato fiel do que aconteceu na cena underground brasileira de 1990 a 1995.

Não lembro muito bem das noites que fui tanto em 1993, quanto 1994. O que lembro é da terra vermelha na cara, do cheiro de fumaça, da confusão que deu com os “punks” durante o show do Garage Fuzz – com guerra de terra que sobrou até para o Farofa, e a boa aceitação do Raimundos. Lembro do monte de carros estacionados, gente pra todos os lados, inclusive tenho certeza que muita gente que foi ao festival, não viu nenhum show. Uma doidêra.

Você vai poder reparar nos vídeos postados aqui o visual grunge do pessoal, e a mistura pacífica entre cabeludos, punks, alternativos – outra característica dos anos 1990.

Juntatribo serviu também para mostrar o quanto o interior era rico em bandas: No Class, Muzzarelas, Línguachula, Killing Chainsaw, Happy Cow, Concreteness. A amizade dessas bandas interioranas com as da capital já existia antes do festival, e depois dele essa interação só aumentou. Para as bandas da capital era normal fazer shows em Campinas, Jundiaí, Limeira, Americana, Santa Bárbara D’Oeste, Piracicaba e era normal ver essas bandas que citei acima tocando no Retrô, Der Temple, Cais, Aeroanta. A 89Fm e o Lado B da MTV também davam a devida força. E foi justamente um festival realizado no interior de São Paulo que acabou marcando de forma definitiva essa cena underground de São Paulo. Mas além das principais bandas de SP, o Juntatribo teve Drivellers (RJ), Brincando de deus (Salvador), Oz (Brasília), Resist Control (Curitiba) e outras de fora.

O clima foi dos melhores, não lembro de nenhum contratempo, nada que tenha marcado negativamente – só o palco que caiu no 1º dia e obrigou as bandas de sexta se apresentarem no sábado (acho que isso aconteceu na edição de 1993). Inclusive pra mim foi um flashback porque entre 1989 e 1990 eu tinha amigos na UNICAMP e costumava ir a festas nas repúblicas de Barão Geraldo, e fiz várias boas baladas noturnas no Observatório.

De madrugada era muito frio, então eram várias fogueiras com muita gente em volta delas fumando e bebendo. Não havia polícia enchendo o saco, e nem precisaria.

Entre as bandas não houve nenhum destaque. Eu gostava de Killing Chainsaw, IML, Garage Fuzz, Croncreteness, Loop B, Happy Cow, OKotô, só pra ficar nas de SP (capital e interior).

Todas elas fizeram bons shows. O vento foi a favor do festival, da organização, do som, e de toda a bagunça feita no Observatório (no bom sentido). Foi de fato o nosso Lollapalooza.

Na edição de 1994, que a MTV cobriu (leia-se Lado B de Reverendo Massari e Daniel Benevides), sobrou pra mim montar o especial com os três dias do festival. Foi uma delícia editá-lo. Eram duas câmeras: uma de frente para o palco fazendo os planos gerais e outra em cima do palco, além das entrevistas que Reverendo fez com todas as bandas. Lembro que comecei o programa com um clipe de imagens gerais com “Tommy Gun” de fundo. Esse material (pelo menos as bandas ao vivo) está todo ele no You Tube.

Como eu tinha casa em Piracicaba, que fica mais perto de Campinas uns 20 ou 30 minutos, nas duas vezes que fui ao Juntatribo, acabei indo dormir em Pira com uma galera. Com todos bêbados e cheirando fumaça, cada um se jogou num canto e dormiu pesado.

Juntatribo 2 (16, 17 e 18 de setembro de 1994)
Dia 16: Cervejas, Pinheads, Intense Manner Of Living (IML), Beach Lizards, Garage Fuzz, Anarchy Solid Sound, Resist Control, Concreteness, No Class
Dia 17: Wry, Drivellers, Magog, Killing Chainsaw, Oz, Pelvs, Brincando de deus, Adventure, Loop B
Dia 18: Lucrezia Borgia, Relespública, Little Quail, Boi Mamão, Virna Lisi, Línguachula, Câmbio Negro, Planet Hemp, Daizy Down

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4 Resultados

  1. Márcio Pires disse:

    Esse texto é do Paulo Marchetti: http://setedoses.blogspot.com/2010/08/serie-anos-90-sp-5-festival-juntatribo.html. O blog do cara é dos bons.

    Abs

  2. Thiago Mello disse:

    Sérgio Vanalli não foi o único idealizador do festival Juntatribo. O fanzine Broken Strings foi produzido em dupla, eu assinava todas as matérias e o Sérgio apenas montava a arte. Na primeira edição do festival tudo foi decidido e criado em dupla, inclusive a escolha das bandas, contando com a ajuda de amigos da universidade, especialmente os irmãos Romero e o amigo Marcelo Nahuz que tocava no Waterball. Na segunda edição, fiquei de fora da organização por não concordar com a idéia do Sérgio de cobrar ingresso, coisa que acabou não ocorrendo felizmente e o festival foi gratuito como a primeira edição. Obrigado a quem postou essas imagens!!!

  3. Não esqueçam de mim! Eu fiz os vídeos!