O último show dos Pin Ups

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O Pin Ups é um marco zero para uma geração inteira de bandas no Brasil e escolheu 2015 para encerrar oficialmente sua carreira com um último na choperia do Sesc Pompéia, neste sábado, 14 de novembro. A banda marcou a transição entre o rock brasileiro dos anos 80 – e especificamente a geração pós-punk paulistana, que lançava disco pela Wop Bop e Baratos Afins – e a geração Juntatribo, e durante este hiato foi a pioneira de uma safra de bandas brasileiras que cantavam em inglês que formariam a base do que ainda nos referimos, até hoje, como indie brasileiro. Atrás deles vieram Killing Chainsaw, Mickey Junkies, Second Come, Cigarrettes, PELVs, entre outros, que ajudaram a forjar a primeira fase de estruturação de um mercado independente no Brasil. A banda parou de gravar há quinze anos e tem feito shows tão esporadicamente que preferiu pendurar as guitarras num show com participações especiais e sem a presença do primeiro vocalista, Luiz Gustavo. Conversei com o Zé Antonio, que também foi diretor do mítico Lado B na fase áurea da MTV brasileira, sobre este desfecho e a influência da banda.

Por que terminar a banda? Qual foi o estalo que fez vocês pensarem num fim?
O Pin Ups não tem tocado com muita regularidade nos últimos anos, mas nunca havíamos declarado o fim. Neste ano até chegamos a pensar se voltaríamos ou não, muitas bandas da nossa geração estão voltando à ativa, ha dois documentários sobre aquela época que estão sendo finalizados e um livro, Rcknrll, do Yury Hermuche, terá uma capítulo inteiro dedicado à nossa história. Mas depois de muita reflexão achamos que só valeria a pena voltar se tivéssemos condições de nos dedicar integralmente à banda e isso não é possível.
Pensamos então que deveríamos fazer um show de despedida e agradecimento por toda esta lembrança e também para poder tocarpelo menos uma vez para pessoas das novas gerações que nunca nos viram ao vivo. Fechamos com o Sesc Pompeia onde fomos muito bem recebidos e temos a certeza de que encontraremos as condições necessárias pra fazer um bom show. E pra tornar tudo mais especial teremos alguns convidados especialíssimos, que fizeram parte da nossa história de alguma maneira: Adriano Cintra, Rodrigo Carneiro, do Mickey Junkies, Rodrigo Gozo do Killing Chainsaw, e o Mario Bross, do Wry. Vai ser uma festa boa.

Antes desse último show qual foram as últimas coisas que vocês fizeram?
Nosso último disco é o Bruce Lee, de 2000. Os últimos shows foram no Sesc Belenzinho e na Virada Cultural há mais ou menos uns três anos. A formação mais recente, e a que mais durou na história da banda, é quase a mesma que vai se apresentar no show do sábado, Eu, a Alê e o Flávio. Só a Eliane não participa porque está morando em Londres.

Dá para comparar a época em que vocês começaram com os dias de hoje?
Dá sim, hoje é bem melhor! Acho que a principal diferença é que naquela época não havia tantas possibilidades. Ninguém esperava nada de uma banda alternativa a não ser tocar e se divertir. Os lugares, na maioria das vezes, tinham uma estrutura sofrível, a divulgação era na raça com flyers e fanzines e a internet não existia e a comunicação era muito mais demorada. Tocar fora de sua cidade era um privilégio, fora do país impossível.
Hoje eu vejo que as novas bandas tem muito mais possibilidades e fico feliz com isso. Existem uns saudosistas que acham que hoje é tudo muito mais fácil, mas eu discordo. Se por um lado a divulgação é mais rápida, os instrumentos mais baratos, etc, também existe uma cobrança maior em relação à qualidade e profissionalismo. Não que isso não existisse em nossa época, mas hoje o alcance das bandas é muito maior.

Fala sobre o começo dos Pin Ups – como a banda nasceu, quais foram as referências originais, os trabalhos anteriores…?
Eu já havia tocado em algumas bandas mas nunca acontecia nada. Um dia eu estava em uma loja de discos, a extinta Bossa Nova, com o Luiz quando vi um anúncio de duas garotas querendo formar uma banda. Elas citavam várias bandas que eu gostava como referência e resolvi ligar pra elas. Marcamos um ensaio e como não tinha baterista o Luiz se ofereceu pra fazer algo tipo Velvet. Depois de duas tentativas vimos que não ia rolar nada. O Luiz lamentou dizendo que iria rolar um lançamento da revista Monga no (Madame) Satã e que podíamos tocar, já que ele era um dos desenhistas da revista. O Satã na época era um lugar muito bacana pra ser desprezado. Fiz uns riffs, uma linha de baixo que o Luiz decorou em uma semana e ele fez umas letras com colagens de frases da NME. Chamamos um baterista e um amigo pra cantar e lá fomos nós, tocar antes do Ratos de Porão. No final foi bom, algumas pessoas vieram falar com a gente e aí nasceu a banda… O resto é história! As referências naquela época eram principalmente Jesus and Mary Chain, Stooges, MC5 e Velvet Underground. Gostávamos de barulho.

Time Wil Burn é um dos marcos do que hoje chamamos de indie brasileiro, conta a história desse disco.
A história é que quando começamos a tocar, por algum motivo chamamos a atenção de algumas pessoas, entre elas o Thomas Pappon, que na época era diretor artístico da Stilletto, um selo que acabava de estrear no Brasil. Ele mostrou nossas demos ao Lawrence Brennan, um produtor inglês que era o dono do selo, ele se animou e resolveu lançar nosso disco. Mas a verdade é que gravamos umas poucas músicas, a maioria do que se ouve no disco são demos gravadas em um (gravador) Tascan de quatro canais, por isso o som é tão sujo. Éramos muito ingênuos em relação a estúdios de gravação, mas posso dizer que fizemos tudo aquilo com vontade.

O Pin Ups iniciou uma época em que as bandas começaram a cantar em inglês – até como uma forma de protesto. Como vocês encaravam isso na época? Quando que vocês acham que essa tendência mudou?
Pois é… na verdade nunca pensamos nas letras em inglês como forma de protesto, era mais uma questão de sonoridade. Mas sofremos com isso, pois o BRock ainda era forte e os produtores e as rádios só queriam quem cantasse em português. Um produtor famoso chegou a dizer que nos contrataria se mudássemos de idéia, mas nós recusamos. Eu não sei se consigo precisar em qual momento essa coisa do inglês surgiu, mas acho que de certa forma isso foi natural. Nossa geração veio logo depois daquela cena de bandas como Fellini, Akira S, Voluntários da pátria, etc, que era formada por jornalistas e intelectuais que escreviam muito bem, faziam boas letras e tinham muito mais a dizer do que nós, um bando de moleques influenciados por My Bloody Valentine e Jesus and Mary Chain cujos vocais eram sempre enterrados sob uma parede de som. A voz era só um instrumento, nossa voz era o barulho.

Quem são os filhotes diretos e indiretos do Pin Ups na cena hoje?
Olha, alguns músicos nos citam como influência, mas eu não saberia te responder isso de forma precisa. Vejo bandas que eu gosto como o Biggs, Twin Pines, Single Parents, Zefirina, etc, que tem uma atitude parecida com a nossa mas dizer que são nossos filhotes talvez seja muita pretensão. Os filhotes diretos na maioria nem existem mais, como o Lava, da Ale e Eliane, o Butcher’s Orchestra do Marquinhos, etc.

Se vocês estivessem começando uma banda hoje, o que iriam fazer?
Iria aproveitar todas as oportunidades. Hoje uma banda alternativa pode tocar em um grande festival,aqui e no exterior, disponibilizar suas músicas para o mundo todo,comprar bons instrumentos, etc. E hoje o cenário é muito mais colaborativo, as bandas se ajudam e isso é lindo. Com tudo isso os desafios são bem maiores e as apostas também. Nós sempre gostamos de desafios, então acho que a gente poderia se dar bem.

O Luiz não foi convidado para o show?
Convido o Luiz há anos pra fazermos músicas, mas nos últimos tempos ele sempre recusa por questões pessoais. Não insisti por uma questão de respeito, mas obviamente ele faz parte da nossa história e é sempre bem vindo. O Luiz – não consigo chamar ele de Luigi – é uma figura divertida, querido por todos nós da banda.

Há alguma novidade para o show? Alguma música que vocês não tocavam há muito tempo?
Tem uma música do primeiro álbum que nunca tocamos, Sonic Butterflies, que será apresentada com um arranjo um pouco diferente. Para esse show resolvemos fazer um setlist com músicas de todos os discos, então tem algumas como Loneliness, que não tocávamos há muito tempo. Está sendo interessante retomar tudo isso.

Pretendem lançar algo para fechar esse ciclo?
No início do ano que vem será lançado o documentário Guitar Days, do Caio Augusto, e ele pediu às bandas que cedessem uma faixa inédita. Vamos gravar uma música para esta trilha sonora ainda este ano, mas essa será nossa última música. Nada de disco.

Quem quer ouvir Pin Ups hoje encontra o que onde? Tem algo nos aplicativos de streaming? Videos no YouTube? Os vinis e os CDs já são raridades?
Estamos conversando com o Rodrigo Lariú, da Midsummer Madness, que está nos ajudando a colocar as músicas em várias plataformas digitais. Isso deve acontecer em breve. Por enquanto o único jeito é procurar os discos no YouTube ou em blogs musicais. Vários deles disponibilizaram nossos álbuns para download, e achei isso demais, pois permitiu que muita gente nova ouvisse os nossos discos. Nossa discografia é difícil de achar mesmo… Os vinis são bem raros. O primeiro, Time Will Burn, nem eu tenho. O Gash, nosso segundo álbum, sumiu mas sei que a Locomotiva Discos tem cópias novas, que eles acharam em algum estoque ou algo do gênero.

E se o show rolar superbem corre o risco de ter uma turnê de despedida?
Olha, em princípio esse é mesmo o último show da banda, mas já recebemos convites para shows em outras capitais e até para um festival. Em São Paulo certamente será o último. Não pretendemos tocar em outros lugares, mas sei lá… como diz a velha música…

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2 Resultados

  1. Daniel disse:

    Podi cre. Conheci a banda a pouquíssimo tempo. A pergunta é clara: mas que porra eu estava fazendo!? Ah claro devia estar hipnotizado pelo mainstream e consumido pela televisão ;|.

  1. 14/11/2015

    […] Entrevista ao Trabalho Sujo sobre o show de “despedida”: http://trabalhosujo.com.br/o-ultimo-show-dos-pin-ups/ […]