O fim de Lost por Vanessa Medeiros

Quem passou boa parte da última semana roendo as unhas de ansiedade pelo último episódio de Lost se enganou. A série das grandes perguntas nunca foi a série das grandes respostas. E, por isto, boa parte dos fãs da atração, que encerrou sua jornada no último domingo, dia 23, se decepcionou com o capítulo final, exibido no Brasil dois dias depois pelo canal pago AXN.

Isto porque, se Lost passou seis anos fazendo perguntas, nunca prometeu respondê-las. Foram seis anos exatamente explorando este tipo de ficção mais interessante do que o simples, o linear, o texto com começo, meio e fim. Mas, ao sofisticar sua narrativa na medida em que as temporadas saíam do forno, Lost incorreu em outro erro: o da massificação de uma proposta que não atende o interesse das massas.

Quando deu seu pontapé inicial, lá em setembro de 2004, a premissa era a seguinte: um grupo de 48 passageiros de um avião cai em uma ilha em um ponto qualquer do Oceano Pacífico. E estes sobreviventes precisam lidar com as necessidades óbvias de um acidente nestas proporções – encontrar água, comida e um abrigo no meio da floresta. O problema é que esta floresta não é muito amigável. Já nos primeiros episódios, descobre-se um urso polar no meio da selva tropical e um monstro de fumaça que intrigou a todos por muitas temporadas.

A tal premissa atraiu todo e qualquer telespectador com uma queda por histórias de suspense, o que não é pouca coisa. A movimentação em torno da série veio daí: do desejo que o consumidor mediano de ficção tem de, já que uma pergunta foi feita, que ela seja respondida. Mas, como diz o brilhante detetive Hercule Poirot em praticamente todos os livros de Agatha Christie, você está lendo muitos romances baratos, meu caro.

Lost, se ainda não ficou claro, não é um romance barato de detetives. O que os criadores da série querem aqui não é construir uma narrativa que subestime o telespectador. O objetivo é exatamente instigar seu poder dedutivo e, mais do que isso, celebrar alguns dos temas mais explorados pela ficção universal. Daí o embate entre o bem e o mal, a criação do mundo, a essência do humano, o misticismo em torno dos objetos e dos seres, todos elementos que marcaram a série desde o começo, mas que foram se intensificando ao longo das temporadas.

Aquele fã de Lost que se interessou apenas pela premissa, pelo suspense, pela vontade de observar como um grupo de sobreviventes deixaria uma ilha depois de um acidente de avião, não cabe na frente desse tipo de TV. No dia seguinte à exibição, escutei de pelo menos quatro pessoas diferentes, no trabalho, na rua, entre os amigos, a pergunta: “Então, me conta, afinal o que era a ilha?”

E comecei, a partir daí, a pensar se é um problema meu ou se o mundo está mesmo sofrendo de uma falta crônica de imaginação. A ilha era um lugar sobrenatural, mágico, com poderes curativos e alta densidade de energia magnética. Se você não aceitou essa resposta, você está sofrendo da tal falta crônica de imaginação. Ficção, fantasia, não precisa ter correspondente na realidade, trazer tudo para um mundo verossímel e simplista. A boa ficção, na verdade, tem o dever de fugir desse caminho com a alma. De fazer você se esforçar para sair da mesmice do reconhecível, do perfeitamente possível, e se aventurar no mundo do absurdo, do intangível.

Mas uma ficção nesse nível não foi feita para a massa. Não é blockbuster, não é para ser consumida com rapidez, mastigada e cuspida fora com o mesmo desprendimento. Assistir a Lost é abrir mão de pegar o controle remoto logo em seguida e passar para o próximo canal. É parar na frente da tela por mais dois minutos, e pensar no que ficou ali. É entender, principalmente, que o mundo não é linear e bonitinho e cheio de pontas ligadas e conectadas no final. Existe um modelo de ficção que circula por aí que diz que o certo é contar uma história com começo, meio e fim. Por séculos, qualquer coisa que fugisse desse modelo estava errado, era atirado na fogueira. Livrar-se dessa amarra é, no entanto, uma das principais vantagens que um escritor tem naquilo que a gente chama de modernidade. Conhecer o modelo e superá-lo é tarefa para poucos, e não pode ser gratuita.

Lost contou a história da experiência humana, como todo mundo por aí tem tentado fazer. Imaginação é fazer isso através de um conjunto de histórias fabulosas, fantásticas, literárias, ao invés de me apresentar uma minissérie HBO sobre a Idade da Pedra. É fazer um tratado sobre a circularidade do tempo enquanto joga elementos quase despretenciosos aqui e ali durante seis temporadas. É deixar pontas soltas porque a vida não amarrou todas elas. Boa parte da literatura moderna surge a partir de um grupo de pensadores que descobriu que não há coerência em ser coerente. Aviso novamente àqueles que não prestaram atenção: a vida não amarra pontas.

Se você não gostou de Lost, é um direito seu. E é um direito meu ficar preocupada com as críticas que andei lendo por aí. De fãs de todos os cantos revoltados porque as perguntas não se fecharam, porque a história não foi simples e fácil de engolir. Porque foi sobre personagens, sobre pessoas. Leia de novo: telespectadores criticando Lost porque foi uma história sobre pessoas, rumo que, era só prestar um pouquinho mais de atenção, estava anunciado desde o começo, seja na direção de J.J. Abrams da primeira temporada seja na sensível trilha sonora de Michael Giacchino.

Uma antiga professora minha dos tempos de faculdade costumava brincar que, daqui a pouco, os pais não iriam mais ler Chapeuzinho Vermelho para seus filhos porque lobo não fala. É uma anedota, um exagero, que explica bem o motivo da minha preocupação. Um mundo que não consegue dar valor à ficção e não consegue admirar o prazer de se contar uma história só por ser contada é um mundo que não precisa de escritores. Daí meu manifesto. Viver Lost foi a minha maneira de reconhecer o poder transformador das coisas que não existem.

* Vanessa publicou este texto em seu blog.

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