Lucas Vasconcellos e um violão

LucasVasconcellos

“Vim morar no Rio em 2001”, me explica Lucas Vasconcellos quando lhe pergunto sobre o que está acontecendo com a cena musical da cidade em que ele escolheu morar. “Quando eu cheguei, a moda do forró já tava passando e muitos artistas interessantes estava fazendo show em lugares como o Garage e o Ballroom. Tinha muito menos espaço pra tocar, gravar ainda era super caro e mesmo assim ouvia demos brilhantes do Zumbi do Mato por exemplo. O funk proibidão apontava insights de criatividade absurdos tanto na poesia como na forma de fazer uma montagem, os músicos com perfis mais experimentais tinham projetos bastante ousados – como o +2 – e o rock se alinhava com outros estilos, deixando de ser algo ‘puro’ e cheio de referências gringas pra se acoplar a outros gêneros e forjar altas novidades.”

Ele resume rapidamente as transformações iniciais que fizeram mudar a cara do Rio de Janeiro, que atualmente atravessa uma década de importante ebulição musical, depois de um período de entressafra. E ele é um dos nomes mais ativos desta nova cena, seja como guitarrista e compositor primeiro no Binário e depois no Letuce, além de ter tocado com Lucas Santtana e Rodrigo Amarante, e, claro, de sua própria carreira solo, que agora chega ao terceiro disco, o introvertido ao vivo Silenciosamente, que você ouve pela primeira vez com exclusividade aqui no Trabalho Sujo.

Gravado ao vivo quando ele apresentou-se usando só o mesmo violão que era de seu pai desde os 12 anos, Silenciosamente é um disco de autoterapia, em que Lucas visita músicas de seu repertório solo, além de versões para músicas importantes em sua formação, como “Teatro dos Vampiros” do Legião Urbana, o clássico da bossa nova “Você e Eu”, “Lady Greening Soul” de David Bowie e “Na rua Na Chuva Na Fazenda” de Hyldon. “Achei natural fazer um retrospecto dessas canções que fiz ao longo dessa jornada solo e mistura-las com outras que me acompanharam desde muito cedo. Hoje já me sinto capaz de me apropriar delas com alguma assinatura”, explica, embora não considere esse disco especificamente terapêutico. “Todo disco que faço é de alguma maneira terapêutico. Nunca me interessou fazer parte de nenhum movimento ou orientar minha criatividade pra algum alvo mercadológico. Faço discos pra entender melhor a vida e sofrer menos, pra desenvolver meu afeto, minha disciplina, ter prazer e me comunicar com o universo. Isso pode ser chamado de terapia. Então, esse disco tem 100% de terapia. ”

“A vida de um artista é feita de ciclos”, ele continua. “Estou envolvido com gravações e experimentações desde sempre, tendo bandas e colaborando com inúmeros projetos. Meu desejo por um isolamento é mais recente e me trouxe outro escopo a respeito da minha própria capacidade como criador. Ao mesmo tempo o violão e o piano foram, há mais de vinte anos, minhas pontes pra compreensão desse que se tornou meu trabalho. O violão especificamente promove uma independência, não demanda eletricidade, é portátil e capaz de resolver harmonias e melodias simultaneamente. Cantar e tocar violão me devolve a sensação matricial de envolvimento com a musica, com a canção. Talvez eu esteja com essa saudade: de me encantar com minha profissão novamente, porque depois de algum tempo, a necessidade e a obrigação acabam mascarando o prazer natural que me levou a essa escolha tão contundente e que moldou e determinou minha personalidade e meu destino. Ser um músico foi uma aposta muito arriscada, porque eu não tive uma formação acadêmica e também não tenho em minha linhagem familiar um aporte seguro que me introduzisse no mercado da música. Fico feliz que esteja dando certo.”

O novo disco solo também aproveita-se de um pause no Letuce, a banda que fundou com a ex-mulher Letícia Novaes, e lançou o ótimo Estilhaça no ano passado. “Tivemos problemas de agenda que não deixaram o fluxo de shows da banda correr mais forte. No segundo semestre imagino que as coisas voltarão ao normal. Letuce tem um público muito fiel e o disco novo reverberou bastante. Abrir frente com um projeto dessa natureza é sempre complicado, porque fazemos questão dessa singularidade, dessa forma de escrever e tocar que não se adequa a nenhum estilo específico. O mercado ainda deseja e reage mais facilmente ao que tem rótulo. Nunca contamos com um escritório de agenciamento poderoso muito menos com a máquina de uma gravadora pra impulsionar nossa música. Isso faz as coisas andarem mais lentas mesmo. Nós sabemos e ‘temos nosso próprio tempo’.”

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