In Rainbows, o disco da década

Vamos falar a verdade – o Radiohead só passou a existir a partir do segundo semestre de 1997, quando OK Computer definiu uma fronteira ainda inconsciente. Ali terminava a carreira de uma banda do terceiro escalão da geração britpop, que se esforçava para suprir a lacuna deixada pelo U2 à medida em que Bono e companhia mergulhavam na dance music. Mesmo com algumas boas faixas em The Bends, o Radiohead era menos do que nota de rodapé na história do rock, fadado a ser lembrado mais por “Creep” do que por faixas infinitamente superiores, como “High and Dry”, “Fake Plastic Trees” ou “Just”. Até que, em um disco, mudaram completamente a abordagem de sua música, sua própria noção de importância e a consciência de perspectiva histórica. OK Computer era uma coleção de faixas que soavam tão inquietas quanto clássicos do rock, devendo tanto ao stress existencialista da geração X e à paranóia consumista dos anos 90 quanto aos discos solo dos Beatles e os discos certos do rock progressivo. E toda poeira retrô que pairava sobre as canções do último álbum da história do rock soa setentista ao mesmo tempo em que flutua pós-moderna, como se letra e música fossem atiradas à ausência de gravidade e humanidade de uma etapa cinzenta a seguir. Imagine o estado da banda ao conduzir versões com 14 minutos de uma “Paranoid Android” ainda não gravada para o público da primeira turnê americana de Alanis Morrissette, de quem foram o show de abertura.

Mal sabíamos como aquele OK Computer seria definitivo: surrupiada de Douglas Adams, a frase funcionava como um epitáfio para o mundo pop como o conhecíamos, de artistas inatingíveis, canções que soam como hinos, discos para serem ouvidos de cabo a rabo, a indústria fonográfica em particular e o mercado de entretenimento como um todo. Tudo começaria a ruir naquele semestre. Ao mesmo tempo em que as letras da banda pareciam concretizar-se, novas estradas digitais eram erguidas. A ausência de resistência do título não era apenas um último suspiro, uma trégua final – também anunciava o início de novas regras no jogo do pop. Afinal, o computador não era apenas a caixa cinzenta de plástico que passaria a nos conectar através de uma rede neurológica planetária artificial, mas também cada um de seus usuários. Ao ceder ao computador, a banda estava encerrando também o ciclo de relação da banda com o ouvinte passivo, afinal, a partir dali ele também inseriria dados na equação do sucesso de determinado artista que iam além da simples compra de ingressos ou de discos.

O próprio Radiohead foi cobaia desta nova realidade ao ver o disco posterior a OK Computer aparecer online antes de ter sido lançado. Quatro anos após ter subido degraus consideráveis em importância no mundo pop graças a um único disco, o Radiohead armava a contagem regressiva para o lançamento de um disco que a indústria esperava ser campeão de vendas com notícias que diziam que o disco seria hermético e experimental. E a expectativa aumentava quando gravações com as novas faixas tocadas em shows começaram a aparecer na internet –que culminou com o próprio vazamento de Kid A quase dois meses antes de seu lançamento oficial. Aquela novidade era uma prática que já vinha acontecendo com artistas menores, mas, com a chegada do Radiohead ao primeiro escalão do pop, abriu as possibilidades de ver a internet como vilã, ao minar as possibilidades de um artista de grande porte vender ainda mais discos. O resultado foi um esgar inicial à complexidade e densidade das canções, avessas ao classicismo de OK Computer, que rendeu notícias anunciando a morte prematura do disco. Mas foi o tempo necessário para o público digerir o álbum e seu conceito antipop para que Kid A, contrariando todas expectativas, se tornasse um dos discos mais vendidos do ano 2000 no mundo inteiro.

Com Kid A, o grupo virou as costas para o que havia pregado em OK Computer e partiu para o que mais havia de vanguarda na época. Lembro da Wire, bíblia da música experimental, estampar Thom Yorke em sua capa com um misto de admiração e culpa, pois a banda de rock mais popular do planeta tinha levado para seu aguardado disco parte do universo de exploração e experimentos endeusados pela revista. A música mais “fácil” de Kid A não ajudava muito, ao criar um neologismo que fundia idiotice com discothéque, numa crítica nada sutil à pista de dança. Pesado e de poucos amigos, Kid A é um salto no escuro tão radical quanto os álbuns negros do Prince e do Metallica – embora não tenha errado tanto quanto o primeiro nem acertado tanto quanto o último. Em seu quarto disco, o Radiohead tinha deixado de ser uma banda pop aspirando o Olimpo para assumir a expressão de uma esfinge, uma Mona Lisa de olhos tortos que ri de/com/para algo – e você não sabe do quê.

Os discos seguintes continuaram a trilha, abrindo-a para os lados. Amnesiac é o lado B de Kid A e o disco ao vivo I Might Be Wrong compila as músicas dos discos anteriores que poderiam ter feito o sucessor de OK Computer um disco palatável – mas desimportante por ser muito parecido. Com Hail to the Thief, eles ampliam ainda mais suas discussões ao assumir posições políticas ao mesmo tempo em que costuram o experimentalismo com sua maior qualidade, as canções.

Sete anos depois do abismo Kid A, o grupo dá um passo ainda mais ousado – talvez até mesmo que o de OK Computer. Tudo estaria resolvido em menos de um mês. Em setembro de 2007, pouco se falava sobre o próximo disco do Radiohead e no mês seguinte a banda dominava o imaginário mundial. Começou com o mínimo de barulho num site chamado www.radiohead7lp.com, que computava uma contagem regressiva para alguma coisa. Sim, era o sétimo disco do Radiohead que estava para ser lançado, mas logo a própria banda vinha em seu site para dizer que não tinha nada a ver com aquela contagem regressiva. Em alguns posts anteriores, o grupo apenas lançava mensagens enigmáticas, criptografadas – uma delas foi traduzida como sendo MARCH WAX, o que levava a crer que o próximo disco da banda sairia apenas em vinil, seis meses depois.

Ou não. Eis que o tal cronômetro chegou ao zero, revelando a frase – THE MOST GIGANTIC LYING HOAX OF ALL TIME (O MAIS GIGANTE E MENTIROSO BOATO DE TODOS OS TEMPOS, tudo em caixa alta mesmo) linkada a um vídeo do YouTube, que nos fazia cair no clipe de “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley, num primeiríssimo Rick Roll’d em larga escala. Ao mesmo tempo, o próprio site da banda revelava a seguinte mensagem:

“Hello everyone.
Well, the new album is finished, and it’s coming out in 10 days;
We’ve called it In Rainbows.
Love from us all.
Jonny”

Dali você era redirecionado para o site InRainbows.com, que escreveria uma nova página na história do capitalismo. No momento em que você optava por comprar o álbum, o site lhe oferecia a opção de escolher o preço que queria pagar. Não era simples altruísmo: assim, o que o Radiohead admitia era o fato de que, uma vez feito, o disco já estava lançado – pagaria quem se dispusesse a faze-lo. Mais do que ter o preço avaliado pelo comprador – o que é um conceito inovador em si –, In Rainbows foi dado de graça. Quem quisesse, poderia pagar pela comodidade de receber, além das dez faixas disponibilizadas em MP3, um pacote com o disco em vinil em edição especial, que ainda incluía um disco extra. Calibrando suas faixas com um bitrate específico (160 – ao contrário dos 320, 192 ou 128 que são usados como padrões), eles logo dominavam a rede com o mesmo disco em milhões de HDs diferentes. Ao contrário do vazamento involuntário, que pode pular uma das etapas do processo de produção do disco e vir com algo menos (títulos definitivos, masterização, ordem das músicas, etc.), In Rainbows chegou inteiro e ao mesmo tempo para todo seu público – e exatamente como queriam seus autores. Em um fim de semana, o sétimo disco do Radiohead deixava de ser uma conspiração decodificada por fãs para se tornar um novo paradigma para a cultura pop.

In Rainbows ainda tem outro mérito – o de mostrar que download gratuito não pressupõe pirataria, como desinformava a guerra de nervos promovida pela indústria do disco no início da década, quando insistia em jogar na internet a culpa da má gestão de seus próprios negócios nos anos 90 e trata-la como vilã. Assim, se uma incauta geração inteira baixava MP3 como se não houvesse amanhã, outra, precavida, comprava seus MP3 com medo de prejudicar seus artistas favoritos. O Radiohead deu a esta última a chance de baixar não apenas uma música, mas um disco inteiro, de um artista estabelecido – de graça, sem dor.

O feito transformou o Radiohead em novo paradigma digital. Não apenas o universo musical, mas todos conscientes do papel da internet ouviram falar da nova estratégia da banda, que em uma semana, teve mais de um milhão de downloads só do site oficial, dominou a parada da Last.fm e apresentou-se para gente que nunca tinha sequer parado para ouvir o grupo. Além de impulsionar uma safra de artistas a adotar o formato.

Há quem desmereça o feito como mero recurso técnico feito para distrair a atenção da essência artística – reação usada para esvaziar os efeitos de Guerra nas Estrelas ou de Dark Side of the Moon, a cor em O Mágico de Oz, a pompa de Sgt. Pepper’s, o timbre de João Gilberto, a falta de respostas em Lost ou a filosofia de araque em Matrix. Os detratores do pop desvinculam tais elementos de suas obras originais de forma a torná-los ridículos para quem acompanha o fenômeno de fora, sem perceber que é justamente esse o elemento responsável por ampliar o público para longe do nicho, rumo às massas. E por mais óbvio que pareça ter sido o salto dado por In Rainbows, ele foi crucial, pois quebrou o parâmetro linear de produção da era analógica, que inevitavelmente faria o disco ser lançado mesmo em março de 2008, caso a banda entregasse o disco à gravadora, e não ao público. A sensação de desnorteamento foi tamanha, que havia quem considerasse o lançamento digital do disco um híbrido improvável batizado de “vazamento oficial” – sem perceber a contradição no termo. Como provocação, a banda ainda marcou o lançamento oficial do CD para o primeiro dia de 2008 – como se perguntasse a quem falou em “vazamento oficial” de quando é que eles vão datar o CD, 2007 ou 2008? Endossando a provocação, o Radiohead ainda fechou um acordo com a CurrenTV de Al Gore para transmitir um show gravado no estúdio da banda no último dia de 2007. Poucas horas antes do disco chegar às prateleiras das lojas do mundo, milhares de fãs da banda em todo o planeta cantavam todas as músicas de um disco que ainda não existira fisicamente, apenas de forma digital.

Mas o fato é que todo esse rebuliço não seria tão importante caso In Rainbows não fosse bom. Tanto que logo depois o Nine Inch Nails lançou um disco de forma ainda mais ousada – tanto em termos mercadológicos quanto em se tratando de narrativa – e ninguém mal ouviu falar do disco. Por que é ruim? Não, afinal de contas, o trabalho de Trent Reznor é sério. Mas por que não se conecta de forma tão intensa com a própria época como o do Radiohead.

E chamar In Rainbows de um bom disco é exagerar na modéstia. In Rainbows é o melhor álbum dos anos 00.

Pois todo experimentalismo da virada do milênio já havia sido digerido pela própria banda. Expurgando a possibilidade de se repetir ao cogitar discos de vanguarda em vez de álbuns de rock, o Radiohead aos poucos abandona a experimentação e o improviso, rumo ao artesanato cancioneiro. As texturas e timbres alienígenas de Kid A/Amnesiac surgem nas entrelinhas, nos arranjos, nos detalhes de In Rainbows – que é, essencialmente, uma continuação de OK Computer. Há uma linha de raciocínio que inclusive busca ligar ambos discos e fãs do grupo são instigados a procurar sentido em coincidências como o fato dos dois discos serem batizados com expressões com duas palavras, uma com duas letras e outra com oito. Já cogitaram até mesmo que a audição entrelaçada das faixas dos dois discos abre uma nova dimensão entre suas canções – mas o efeito é mais lúdico do que racional e poderia funcionar com quaisquer faixas dos últimos discos da banda (sinal da coesão de sua sonoridade). Mas há ainda quem veja coincidências nos detalhes – e há uma ênfase no número 10 que sugere alguma referência à linguagem binária no Código Radiohead. Além dos discos terem 10 faixas cada (OK Computer tem onze, sendo que uma, “Fitter Happier”, é um interlúdio), OK Computer e In Rainbows foram lançados com dez anos de diferença entre si – e o último lançado exatamente no dia 10 de outubro (o mês 10) de 2007. E mais: o fato do título dos discos começarem com as letras “O” e “I” também seria outro aceno ao código binário. “Down is the New Up” – parece que tem mesmo algo aí.

Mas, principalmente, há a música – e ela se mostra a princípio hermética. In Rainbows abre fechando-se com uma rajada de beats tortos, primos da gravadora Warp, que tanto bateu no grupo no início da década. “Como posso terminar onde comecei?”, pergunta-se Yorke, sem se preocupar em nos dar as boas vindas. “15 Step” aparentemente nos guia para outro beco sem saída experimental. Mas aos 40 segundos, deixa a guitarra jazzista de Jonny Greenwood superpor-se à percussão esquizofrênica – e a de Ed O’Brien logo surge funcionando como segunda voz, junto com uma sinuosa linha de baixo e uma melodia direta e reta, oposta a seus versos de abertura. “Tudo estava bem/ O que aconteceu? O gato comeu sua língua?”, pergunta o vocalista sobre a mudez espiritual de nosso tempo. “Etc. etc./ Fatos ou o que for”. O clima apático e tenso parece dissolver-se numa melancolia pós-milênio que filtra todo o disco – um sentimento que é um vazio existencialista parente da apatia cantada por Kurt Cobain e de um blues robô, que une Kraftwerk, Daft Punk, Aphex Twin e Brian Eno numa espécie de eletrônica autoral, em que o ritmo tem mais sentido do que sensação. Mas se essa sensação oca era a mesma que causava desespero e náusea em OK Computer, em In Rainbows ela parece menos caótica e mais precisa – como se tivesse completado um ciclo (os “15 passos” seriam um programa?).

“Bodysnatchers” segue dura e rock, com seu riff distorcido conduzindo o ritmo como um cavalo selvagem, acompanhado em seguida por toda a banda. Esta alterna entre o pique inicial (cuja letra revela seu protagonista catatônico – “pisque seus olhos/ Uma vez para ‘sim’/ Duas vezes para ‘não’/ Eu não faço idéia do que você esteja falando”) e uma clareira de ritmo, quase zen, quando uma guitarra saída de um disco do Cure ou um teclado fantasmagórico sublinha os gemidos de Yorke. “A luz apagou pra você?/ Pra mim, apagou/ É o século 21”, canta numa performance, que vai do grunhidos ao sussurro, sua voz tão solta na parte final da canção como qualquer outro instrumento da banda, tão importante à formação sonora quanto as três guitarras, os teclados ou a cozinha decidida – e é ela quem encerra a faixa repetindo “eles estão vindo!”, como se impressionada com a coesão e força da usina de som que lidera, logo depois de concluir “eu estou vivo”.

“Nude”, conhecida pelos fãs de shows com outro título, “Big Ideas”, começa superpondo vocais, samples de corais, cordas sintéticas para criar um clima de catedral, que é logo esvaziado – deixando apenas Yorke com o baixo de Colin Greenwood e a bateria de Phil Selway, criando uma atmosfera bucólica e tranqüila (embora a letra cante que por mais que você se apronte,“sempre algo estará faltando”), em que as duas guitarras entram como se fossem uma só, alternando detalhes dedilhados como nas baladas mais hipnóticas do Velvet Underground ou as canções mais pastoris do Pink Floyd. E logo essa estrutura instrumental serve como base para as mesmas cordas, samples e vocais que abriram a canção voltarem – e quando Yorke deixa sua voz soar sem letra, há um minuto do fim, estamos ouvindo um dos trechos musicais mais bonitos de nossa época, quase uma revelação sentimental, sentimentos que só a música consegue traduzir – palavras falham.

O disco retoma à contagem de tempo antes da bateria assumir o ritmo incessante kraut que funciona como tela em branco para três guitarras superporem dedilhados, completando-se em “Weird Fishes/Arpeggi”. Não consigo dissociar não apenas essa faixa, mas diversos momentos de In Rainbows, da descoberta do violão feita pelo Legião Urbana em seu segundo disco – até porque a própria trajetória do Radiohead ultrapassa um arquétipo vivido pelo grupo de Renato Russo, que é quando uma banda guitarreira descobre a eficácia da harmonia em detrimento do ritmo e a sutileza do instrumento acústico em contraste à histeria elétrica. “Weird Fishes” é parente bastarda de “Andréa Doria” e “Plantas Debaixo do Aquário”, as mesmas texturas instrumentais, mesma sensação de esperança disfarçada de desespero, mesma abordagem temática do mar (Andréa Doria era o nome de um barco italiano que afundou em 1956, perto de Nova York).

De andamento quase fúnebre, “All I Need” é outra bomba-relógio – ela parece prenunciar uma música tensa e solene, quando, na verdade, é a balada mais pop que o grupo já fez; uma canção pronta para aquecer corações, escorada em um arranjo com cara de Björk: bateria minimal, piano soturno, efeitos sonoros, ecos, muitos vazios. Ela termina em “Faust Arp”, uma microcanção em que o arranjo de cordas a deixa com ar ainda mais pastoril, nickdrakeano, onde o grupo faz valer seu anglicismo.

A linda “Reckoner” é outra música que vai sendo construída lentamente entre nossos ouvidos, cada camada de instrumento sendo disposta de forma didática, nos ajudando a ouvir o que cada um faz na banda e nos explicando sentimentalmente o que é que precisa nos afeiçoar em uma canção para que ela torne-se universal – neste caso, apenas o andamento e a melodia, todo o resto é assessório. O vocal de Thom em especial deixa a aparente psicopatia de lado e atinge seu grande momento – em especial quando, na segunda parte da faixa, canta consigo mesmo e entoa, quase em segredo, o nome do disco. “House of Cards” não deixa cair – e vai pela mesma fórmula da canção anterior nos fisgando sem pensar. Desta vez o ritmo é determinado pela guitarra, que é apenas seguida pela bateria, deixando Thom Yorke ter seu outro grande momento, cantando em tom grave, oposto ao falsete de “Reckoner”. Há tanta referência – e reverência – ao folk dos anos 70 quanto à música ambient da virada do milênio, em outra canção irretocável.

“Jigsaw Falling Into Place” é o grande momento do disco, como se fosse uma “Paranoid Android” amadurecida em dez anos – as mudanças entre as faces da música são menos abruptas e suas diferentes caras soam complementares, não antagônicas. Ela aponta para uma certeza que toma conta do disco – de que estamos finalmente vendo as coisas do jeito que elas são. Caem as máscaras erguidas pela comunicação e aos poucos conseguimos ver quem é quem, como se o ataque de pânico de OK Computer fosse substituído por uma sabedoria cínica, algo Tyler Durden, um sociopata disposto a derrubar tudo por dentro – a princípio o tom é sóbrio:

“Logo que você segura minha mão
Logo que você anota o número
Logo que as bebidas chegam
Logo que eles tocam sua música favorita
A mágica desaparece”

A letra continua dissecando toda a tensão da sociedade moderna do mesmo jeito em que a banda cresce – instrumentos acústicos e vocais que cantarolam começam a ser trocados por berros, solos de guitarra e cordas dramáticas e a música ganha um volume e densidade que no início era apenas referido. A letra invade um outro país das maravilhas de Alice, de paredes que perdem forma e gatos que sorriem mas também de ruído, ritmo e câmeras de circuito fechado. “Nunca fui lá/ Só fingi que fui”, “antes que você entre em coma/ Antes que você fuja de mim”, “Pra que servem instrumentos?/ Palavras são armas de cano serrado”, Yorke nos induz ao transe dervixe inglês antes de sentenciar que o quebra-cabeças começa a fazer sentido: “As peças se encaixam/ Não há nada a ser explicado”, canta como um guru psicodélico que guia um novato em uma viagem alucinógena – mas a viagem que a banda propõe é justamente abandonar o excesso de referências que polui e superlota nossas cabeças para “desejar que o pesadelo se vá”, pois “você tem uma luz e pode senti-la”. E ele não está sendo esotérico, como dá pra perceber.

“Videotape”, devagar quase parando, encerra o disco com a melancolia de um velho VHS, Thom Yorke vê-se póstumo ainda querendo ater-se à vida que acabou de perder (“quando eu chegar às portas do céu/ Isso estará gravado em vídeo/ Mefistófeles logo abaixo/ Tentando me puxar”), nos fazendo pensar em nostalgia e como nos apegamos mais ao passado do que ao presente. Os acordes congelados ao piano são emoldurados por ruídos e texturas, sem nunca superpor-se à canção.

In Rainbows é um conjunto perfeito de 10 canções perfeitas. Elas conversam entre si exatamente como falam das sensações que todos sentimos nos dias de hoje – um medo opressor cuja natureza é indeterminada, a tensão de ser humano – animal ou racional? – na medida em que a civilização entra em colapso, uma sensação vazia que se sobrepõe ao excesso de tudo. São os mesmos sentimentos desenhados em OK Computer, o que muda é a relação da banda com eles – se no primeiro disco parecia espantar-se e cogitar o suicídio, neste percebe que todo o ruído e poluição é só a casca de uma pseudo-realidade – e que o que há por trás do excesso de informações e caos de consciência que distorce nossa rotina é muito simples, claro e fácil.

Alie isso ao fato de In Rainbows não ser um disco de inéditas. Conhecidas de seu público através de shows, quase todas as faixas já haviam aparecido mais de uma vez e já tinham vídeos no YouTube, letras em sites de fã e seqüências de acordes em repositórios online de canções cifradas para violão. Não era seu ineditismo que as tornava especiais em In Rainbows – mas a forma em que elas foram dispostas, sua produção, seus arranjos, o sentido que fizeram umas juntas às outras. Uma outra leva de músicas ainda podia ter se juntado à coleção inicial mas terminou como uma espécie de conteúdo extra – o segundo disco do vinil duplo vendido através do site – mas que, quis o destino, não era In Rainbows.

In Rainbows é um conceito fechado, uma declaração de princípios, um manifesto estético. Mais do que um disco que assumiu-se digital por natureza e copiável por definição, é uma coleção de canções que não apenas traduzem certas sensações que permeiam nosso dia a dia, como faz isso com estilo, bom gosto, senso de importância e perspectiva histórica. Uma obra que ainda faz valer a existência de um formato, a prova de que o fim do CD não pressupõe o fim do álbum. E, por tudo isso, é o disco mais importante da década.

Nos anos 90, o Radiohead não chegou perto deste título pois seus padrões foram estabelecidos logo no início – e OK Computer teria de competir com obras-prima como Blue Lines, Nevermind, Check Your Head, Loveless, The Chronic, Screamadelica e BloodSugarSexMagick. A década seguinte também talhou seu modus operandi de cara – e, desde o início, descartou o álbum como formato. Medidos em canções, os anos 00 esvaziaram o formato álbum de diferentes formas – de bandas que movimentam-se exclusivamente por singles (como toda a geração novo rock nascida após os Strokes) a artistas que se lançam por etapas, adicionando elementos extra à medida em que envolvem o ouvinte (pense nas carreiras de Dangermouse, Jack White, Marcelo Camelo ou Nick Cave – e suas muitas camadas de apresentação ao público). Quando o Radiohead se propôs a lançar In Rainbows como o lançou, sabia onde queria estar.

A expectativa para os shows do Radiohead no Brasil essa semana não é à toa: estamos às vésperas de assistir à maior banda do planeta hoje tocar o show da turnê do disco da década.

***

O texto acima faz parte da contagem regressiva que o Marcelo Costa está fazendo para o show da banda, no Scream & Yell. Além de eu escrevendo sobre o In Rainbows, todos os outros discos da banda foram comentados: o Pablo Honey caiu na mão do Palandi, o The Bends foi para a Renata, o Tiago escreveu sobre o OK Computer, o Kid A ficou com Luís Henrique Pellanda, o Amnesiac com Marco Tomazzoni e o Hail to the Thief com o próprio Marcelo.

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Sem Resultados

  1. Ricardo Pereira disse:

    Muito bom o texto! Aumentando a expectativa (que já é imensa) pra sexta…

  2. mauricio disse:

    Matias, não me leve à mal, mas não aguentei ler seu o texto inteiro.
    Mas é muito exagerado. Ok, bacana lançar o disco como eles fizeram, mas isso não significa qualidade. (Isso nem vem ao caso, mas pessoalmente acho esse disco bem ruinzinho). Tudo isso me parece mais uma carência danada. Carência por um grupo assobiável que ainda não havia tido paciência de tocar no hemisfério sul.

  3. mateus disse:

    nossa, tem em pdf?

  4. Leno disse:

    mauricio, é por isso que vc critica, vc não leu o texto todo, achou q o Alexandre focou apenas na revolução comercial do disco e perdeu um texto antologico sobre a arte do disco, me perdoe, aposto que vc ficará so no “ruizinho”, termo simplista e limitado. Sera reflexo de vc mesmo?

  5. Diego Maia disse:

    Foda, hein, Matias. Muito bom.

  6. Maday disse:

    Thrill pré-show no Brasil, o disco de qlqr banda estrangeira se torna melhor apartir de quando se tem a confirmação q eles venham fazer show em um país como o nosso fora do circuito internacional e quando vamos a esse msm show. Felizmente os criticos la de fora não sofrem disso….

  7. Maday disse:

    ” maior banda do planeta hoje tocar o show da turnê do disco da década.”

    oh céus…

  8. MayDay = fan de Animal Collective = liga junior = cafe com leite = nao conta

  9. Maday disse:

    é claro o radiohead foi o que originou lost e seus numeros amaldiçoados assim como o arg q o acompanha,

    “Já cogitaram até mesmo que a audição entrelaçada das faixas dos dois discos abre uma nova dimensão entre suas canções – mas o efeito é mais lúdico do que racional e poderia funcionar com quaisquer faixas dos últimos discos da banda (sinal da coesão de sua sonoridade).”

    – Some records are better when U listen then on Ecstasy

  10. Isso, perde seu tempo comigo… Ta vendo como vc me acha importante?

  11. Liv disse:

    Opa, esse texto vai parar em uma certa monografia sobre o In Rainbows por aí… 😛

  12. mauricio disse:

    a ‘arte’ do in rainbows não interessa a todos.

  13. Leno disse:

    ah mauricio, saquei, vc só quer discutir, porém filho, argumentos não lhe interessam…

  14. David Gomes disse:

    tirando a comparação com Legião urbana ta perfeito!
    mt bom mesmo

  15. PAblo disse:

    Olha, eu teria tesão em ler esse texto todo se tivesse em ouvir o radiohead. Mas aí, por que os fãs do radiohead me parecem como os do Pink Floyd? Parece que as bandas fizeram algo místico, algo indecifrável para mentes normais.

  16. Guilherme disse:

    bravo.

  17. Strato disse:

    EEEEEEEEEEÊ!

    ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ! ALÊ!

    Belo texto! Pode beber umas biritas por minha conta!

    Tudo bem que o “In Rainbows” ainda não é meu disco preferido do Radiohead, mas tive sempre a certeza de que essa opinião se transformaria após eu assisti-los ao vivo!

    E esse seu texto me serve como um indício de que a experiência ao vivo será ainda mais estupefaciante e satisfatória! Por isso, fiz questão de vê-los tb na Apoteose, palco de alguns dos espetáculos mais memoráveis que tive a oportunidade de presenciar.

    Qto ao texto, eu só adicionaria uns entretítulos, para facilitar a vida dos preguiçosos!
    abs

  18. Muito foda o texto…devia escrever mais sobre rock…hehehehe…sempre achei a batera desse disco meio Neu, meio Can…agora que o Alexandre Matias falou em kraunt vou poder dizer quando me criticarem, “vê lá no Trabalho Sujo”…Falou!

  19. vilmarluiz disse:

    revolução sonora e comercial, in rainbows é certamente um clássico desde já, para sempre, mostrando uma banda no auge, com um trabalho sem defeitos retratando o mundo como ele é hoje.

    que venha logo o show. o show da década.

  20. mauricio disse:

    leno, talvez seja chato mesmo vir até aqui pra dizer que nao gosto do disco em questao – ainda mais quando se trata de um disco de uma banda tao cheia de asseclas, etc e etc. mas enfim, a internet ainda é democratica. bom, se vc gosta ou ama o in raibows, se isso te faz feliz, se isso te deixa excitado, se os argumentos do texto do matias te fortalecem ainda mais na defesa de seus principios e convicçoes musico-ideologicos nas discussoes com a sua turma, otimo pra vc. continuo achando o disco ruim e pouco me importo com os seus argumentos ou os de quem quer seja. acho que gostar ou nao gostar de uma musica, de um disco ou banda nao passa por ai. se te incomodou chamar de exagero todo esse circo que montam para o radiohead – exagero inflado pela carencia e pelo deslumbramento do povo dai com a banda – prometo ser mais comedido quando alguem escrever sobre o proximo melhor disco da decada. Agora, contra o teu ‘filho’, realmente nao tenho argumentos.

  21. Strato disse:

    Belo texto, caro colega!

    Tudo bem que “In Rainbows” ainda não é o meu disco preferido do Radiohead. Mas acredito que dificilmente não o será após a experiência de ver a banda ao vivo.

    O perfil político da obra é inegável e isso é história.
    abs
    PS: Vê se publica o comment desta vez, já que tirei as lekices do comment anterior.
    Strato

  22. Comecei a leitura achando o título exagerado, mas acompanhar a leitura com a audição do disco foi quase como peneirar suas diferentes camadas, separar seus instrumentos e definir o que estava aonde.

    Agora concordo. Excelente texto. E disco tb. Vemo-nos todos no Radiohead.

  23. Leno disse:

    meu filinho mauricio, não perca tempo comigo, não te “critiquei” por não ter gostado do disco (tanto faz pra mim e principalmente pro disco e pra banda) mas, comentarios simplistas em relação ao Radiohead já são clichês demas, aí filho, isso é verdade.

  24. Paulo disse:

    o Radiohead, não passa de uma banda progressiva com guitarras indie, Pink Floyd + Nirvana = Radiohead

  25. Daniel disse:

    O Paulo não deixa de ter razão… mas, convenhamos, que PUTA banda progressiva com guitarras indie!

  26. Pedro Acosta disse:

    Li o texto enquanto ouvia In Rainbows. Foi vertiginoso. É brilhante defender que o modo de lançamento faz parte de um disco, o 3D da cultura pop. E In Rainbows é mesmo lindo. Mas vc troca angústia por sabedoria. Quando ouviu “Paranoid Android”, pensou “música ótima! mais dez anos de amadurecimento e vai ficar genial!”? Esta década é a reveladora boa-execução de idéias lançadas nos anos 90 e que foram revolucionárias lá? Musicalmente, In Rainbows é.

  27. zeca azevedo disse:

    Discordar é importante. Discordo da afirmação que o modo de distribuição do In Rainbows transformou o Radiohead em um “novo paradigma digital”, como diz o texto. Concordo com as críticas que o Robert Smith fez ao Radiohead sobre este assunto. O que o Radiohead fez com o “pague o quanto quiser” pelo In Rainbows é mais ou menos como passar o chapéu ao final de uma apresentação ao vivo em vez de cobrar um valor fixo pela entrada. Pensando do ponto de vista do artista, é uma indignidade. O Radiohead fez o lance do “pague se quiser” porque é uma banda milionária, com fãs em escala planetária. Já havia conquistado fortuna com o esquema “tradicional” de venda de discos. Para artistas que não tiveram a mesma sorte ou para artistas desconhecidos, o lance do “pague quanto quiser” não é viável. A “solução” do Radiohead é coisa de banda rica.

    Discordo radicalmente do tom apologético, “heróico”, do texto acima (“In Rainbows, o Disco da Década”). Acho perturbadora essa mania de transformar o trabalho da banda que se admira em algo maior que a vida. Quem lê o texto pensa que os caras do Radiohead são deuses que nos abençoam com sua presença na Terra, o que é uma verdadeira tolice. É o que acontece quando um seguidor fanático decide escreve sobre seus guias espirituais. Esses mesmos cordeirinhos adoram criticar sofregamente os evangélicos que defendem com ardor a igreja Universal… a fé que os Radioheadettes têm no Radiohead é de fazer inveja a qualquer evangélico. Um pouquinho de distanciamento não faz mal a mninguém.

    Disco da década? Não é um julgamento um tanto apressado? Falta mais de um ano e meio para acabar a década. E acho que faltou um complemento: disco da década PARA QUEM?

    Não quero nem chegar perto da platéia desse show do Radiohead e do Los Hermanos. O índice de fanáticos será de quase 100%. Tô fora.

  28. zeca azevedo disse:

    “É o que acontece quando um seguidor fanático decide escreve sobre seus guias espirituais.”

    Faltou um “r” ao final do verbo escrever na frase acima. Ele, o “r”, foi ao banheiro, mas já está de volta:

    r

  29. zeca azevedo disse:

    Um pequeno adendo: inteligência não é apanágio exclusivo dos fãs do Radiohead.

  30. zeca azevedo disse:

    “Falta mais de um ano e meio para acabar a década.”

    Correção: falta mais de meio ano para acabar a década. Escrever às quatrod a manhã é f*da.

  31. Altair disse:

    Acho que exageram demais quando falam de Radiohead. Sim são bons, mas não são nada de grandioso muito menos o In Raibows pode ser considerado o disco da decada. Pára com isso gente. Voces não houvem outras coisas não?

    Pra mim é o melhor disco gratuito da decada, só

  32. Ricardo Pereira disse:

    “Pra mim é o melhor disco gratuito da decada”, logo é o melhor disco da década, visto que desde o vazamento do kid a, todo disco passou a ser gratuito… 🙂

  33. PAblo disse:

    Desde quando invetaram o Napster, todo disco, pelo menos pra mim, é gratuito.

  34. ” maior banda do planeta hoje tocar o show da turnê do disco da década.” [2]

    Parabéns pelo texto, Matias. Excelente! Seus argumentos estão claros, e a sua visão/sensação/metáfora das canções In Rainbows é bastante condizente com o que eu acredito.

    Valia a tradução em inglês e o envio pro Ed, que é um camarada de acesso tranquilo.

  35. marcelo de almeida disse:

    Vou ficar por aqui ouvindo “PULP” “THIS IS HARDCORE”

  36. Drex disse:

    Zeca Azevedo,

    Muito sincero e digno seu comentário sobre a valorização do artista. Mas o jeito como vc encara isso está, simplesmente, ultrapassado

    O Radiohead simplesmente se ligou que passar o chapéu depois da apresentação é a ÚNICA coisa a ser feita. Como o Robert Smith pretende continuar a cobrar seus ingressos se não existem mais porteiros, seguranças, barreiras, cordões de isolamento, casas fechadas, arenas cercadas, clubes ou estádios?

    Como o Pablo bem disse aí em cima, hj em dia, em termos de registros musicais, não é “pague o que quiser” é PAGA QUEM QUER.

    Isso já há muito tempo. A grande sacada do Radiohead foi fazer algo que, de tão óbvio, era genial. Acho que um grande artista faz isso: pesca o espírito do tempo e condensa, cataliza, explicita aquilo nas sua obra e nas suas ações.

    E, convenhamos, além de demonstrar essa sensibilidade, foi uma excelente ação mercadológica também. Os caras são ricos, mas não rasgam dinheiro.

  37. jorge disse:

    Cocnordo pleinamente. O disco da década! Tal como foi Ok computer nos 90s.

    Depois de ver ao vivo ainda mas me conveço desta opinião! Não me lembro de nenhuma banda com discos geniais como Ok ccomputer, in rainbows e kia A, excelelntes discos como Amnesiac e the bands e muito bons como hail to the thief e amnesia e um bonzinho como o pablo honey!

    Apesar de tudo em Portugal (um país com muitos fâs), só vierem duas vezes em 1997 e 2002, no entanto vieram a espanha em 2008, e convenhamos que é mais perto de que atravessar um estado no brazil! É a vantagens de na europa haver países pequeninos…
    Abraços

  38. A música e a publicidade | CASA DO GALO - O animal da publicidade #2 disse:

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