Impressão digital #0079: Lana Del Rey

Minha coluna no 2 de domingo foi sobre a “autencidade” (wtf) de Lana Del Rey.

Mentira ou fantasia
O misterioso caso de Lana Del Rey

“It’s you, it’s you… It’s all for you…”. A voz lânguida de Lana Del Rey escorrega-se pelo refrão de “Video Games” como uma diva entediada deslizaria-se numa chaise longue. A música, seu primeiro single, apareceu há dois meses, num vídeo filmado pela webcam e editado por ela mesma, misturando cenas próprias com imagens de arquivo. Em pouco tempo, surgiam novas músicas, todas em vídeo – “Blue Jeans” e “Kinda Outta Luck” –, todas seguindo a mesma estética: Lana fazendo biquinho para mostrar seus beiços grossos, deixando o cabelo cair sobre o rosto para enfatizar o clima retrô, como se fosse uma Jessica Rabbit de carne e osso, sempre com imagens que remetem a uma nostalgia dos anos 50, tão em voga nesses tempos de Mad Men.

Foi o suficiente para que começassem a falar dela, primeiro em blogs de MP3 e depois nos sites, jornais e revistas. E, sem ao menos ter nem um single lançado, ela já era candidata a título de diva de 2012.

E, em seguida, veio a reação. Não era possível que o hype todo viesse sozinho e começaram a fuçar no passado de Lana – e descobriram que esse nome era um pseudônimo e que não era sua primeira incursão ao mercado fonográfico. Chamava-se Lizzy Grant e circulava pelos corredores da indústria – além de ter lábios bem menos cheios. E logo as especulações sobre seu passado se tornaram um certeiro “arrá!” quando, antes mesmo de ter seu single lançado, a cantora anunciou que havia assinado com a gravadora norte-americana Interscope.

E aí chegamos ao ponto central da coluna de hoje: Lana é um artista menor ou pior simplesmente por ter sido “fabricada” por uma gravadora para “enganar” o público que se orienta por música via internet? Reforço as aspas nos verbos pois essa “fabricação” não é necessariamente artificial (Britney Spears é fabricada? E Lily Allen? E Amy Winehouse, também era?) nem essa “enganação” é trapaceira.

Nos tempos de reality show em que vivemos graças à internet – que permite acompanhar passo a passo a vida de qualquer celebridade –, os limites entre realidade e ficção ficaram tão borrados que nos tornamos céticos em relação a qualquer novidade ou notícia que apareça. Há quem diga que esse é o motivo do sucesso dos próprios reality shows, uma vez que novelas, filmes e seriados já foram assimilados a ponto de os distanciarmos da realidade – e não nos envolvermos emocionalmente com eles.

O mesmo acontece na música. E o desafio que Lana Del Rey (seja a artista, seja “o projeto Lana Del Rey”) nos propõe independe do fato de ela ser uma artista de verdade ou um produto fabricado em estúdio. Como escreveu Amy Klein, da banda Titus Andronicus, em seu blog. “Não importa se ela tem algo de real para nos vender porque Lana Del Rey nos fez pensar sobre a relação entre vender uma fantasia e vender mentira. Ela é a mentira que nós mentimos para nós mesmos – e é isso o que os Estados Unidos sempre foram e sempre serão, essa mulher maravilhosa que pode fazer nossos sonhos virarem realidade. Então não importa se ela te ama ou te odeia, porque ela vai pegar todo seu dinheiro e você vai deixá-la ir. Essa é a realidade dela.” Amy está falando dos EUA, mas também sobre o que é música pop.

* A coluna Impressão Digital, do editor do Link Alexandre Matias, é publicada todos os domingos, no Caderno 2

Você pode gostar...

Sem Resultados

  1. Mateus disse:

    Pertinentes as considerações de Amy Klein sobre Lana Del Rey e contexto estadunidense.
    Amy deixou o Titus Andronicus por esses dias (http://amyandronicus.tumblr.com/post/11808052596/a-message-to-titus-andronicus-friends-and-fans)

  2. Ariel Cardeal disse:

    E Ziggy Stardust? E o Daft Punk?
    É a anulação do real.

  3. Cara, eu juro que sabia de tudo isso, mas não admito não gostar dela. A voz, o efeito de seus lábios e seu olhar triste e profundo nos encantam, como um todo. Fico preso nela. Preso em Lana Del Rey, (Lana por ela gostar e Del Rey por ser um amigo querido da Califórnia). Se todas as mentiras forem como essa, eu as aceito.

  4. Alexis disse:

    A garota (lana del rey) se esforça, mas não consigo ver absolutamente nada nela ! Vale mais para os punheteiros ou a punheta do dia …..

    Desculpe o palavreado mas é isso. Ainda não é música (boa) ….

  5. Paulo Diógenes disse:

    Punheta com vídeo da menina???? E o pornhub, o redtube, servem pra quê????

  1. 03/06/2012

    […] que nossa querida diva de plástico Lana Del Rey chamou-se Lizzy Grant em uma encarnação passada, mas alguém já havia ouvido falar nessa tal May Jailer, cujo único disco – batizado de […]