Evil Jobs

Tive de escrever sobre o lado feio, ruim e malvado de Steve Jobs no especial que fizemos sobre ele na edição de hoje do Link, convenientemente esquecido nos últimos dias. Sabe como é, é um trabalho sujo, mas…


Imagem: Lenin’s Tomb

Ser um bom homem de negócios não o torna um homem bom
Aspectos questionáveis do fundador da Apple foram esquecidos nos últimos dias

Muitos ficaram revoltados com a forma como Richard Stallman, pai do movimento software livre, se referiu à morte de Jobs. “Como o prefeito de Chicago Harold Washington disse uma vez sobre o ex-prefeito corrupto Daley, ‘eu não estou feliz que ele está morto, mas estou feliz que tenha ido embora’”, escreveu em seu site, “Ninguém merece morrer – nem Jobs, nem o senhor Bill, nem pessoas culpadas de coisas piores que eles. Mas todos nós merecemos o fim da influência maligna de Jobs na computação das pessoas.”

“Visionário”, “revolucionário”, “gênio”, “imortal”, “Deus”. O show de adjetivos que já havia começado depois que Jobs deixou o cargo de CEO da empresa que fundou, há dois meses, intensificou-se após o site da Apple ter confirmado a morte dele, no início da noite da última quarta. A cobertura – tanto na imprensa tradicional quanto na 2.0, chorada por milhares de fãs do ícone e da empresa pelas redes sociais – assumiu o tom hiperbólico dos anúncios de produtos feitos por Jobs. Quem se dispusesse a ir contra a corrente de benevolências e celebração, como Stallman fez, estaria pedindo para ser apedrejado.

Mas, mesmo sendo radical e desagradável (características típicas de seu próprio personagem), Stallman não falou nenhuma bobagem. Afinal, é bom separar o homem do personagem, uma fusão que o próprio Jobs gostava de alimentar. Pois ele senta-se no extremo oposto de Stallman no espectro da cultura open source. Enquanto o pai da Free Software Foundation advoga por uma internet livre e por uma cultura aberta tanto na parte de hardware quanto de software, Jobs conseguia ser mais radical do que Bill Gates, historicamente o grande antagonista da cultura open source, quando o assunto era a lógica proprietária. Os aparelhos de sua empresa nem funcionavam com peças que fossem fabricadas para outros aparelhos e o condicionamento fechado da App Store, a loja de aplicativos da Apple, foi o que permitiu a ascensão do Google e de seu sistema operacional Android – favorável à mentalidade aberta – no setor de telefonia celular.

Enquanto a natureza aberta da web foi o que permitiu sua popularização, a Apple funcionava como um condado medieval, erguendo muros altos e fortes para controlar seu próprio reino.

E isso é só um aspecto do “mau Jobs” convenientemente esquecido nesses dias de luto.

Pessoalmente, ele era tido como um chefe cruel, intolerante, desumano. Em uma reportagem do jornal inglês Guardian, um ex-funcionário da Apple comparava a convivência com Steve Jobs a trabalhar sob a mira de um lança-chamas. Orgulhava-se de não fazer caridade e estacionava na vaga de deficientes, só porque podia.

Isso sem contar a censura no ambiente digital que criava. Nudez, nem em quadrinhos. Só para ficar num caso mais clássico, quando, em 2010, a empresa censurou uma versão em quadrinhos do Ulysses, de James Joyce – ironicamente o maior romance do século 20 já havia ido a julgamento, em 1933.

E nem é preciso entrar em detalhes sobre a taxa de suicídios na Foxconn, empresa que fabrica os aparelhos da Apple na China, e nas condições sub-humanas em que os produtos de sua empresa eram fabricados.

Isso não tira a genialidade do morto. Mas é bom separar uma coisa da outra. Um bom homem de negócios não é, necessariamente, um homem bom.

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  1. silvio disse:

    Isaac Newton era um fdp e defendia seus próprios interesses, mesmo que isso destruísse a vida de outras pessoas, como foi o caso de Gottfried Wilhelm Leibniz, inventor do cálculo diferencial, que foi prejudicado de todas a formas por Newton. Esse é só um dos vários exemplos de gênios que eram, no fundo, humanos e, como tais, grandes fdps. No caso de Jobs, não foi diferente. Se ele foi egoista, idiota, mal-educado, etc, por outro ele foi realmente um gênio, por enxergar à frente de todos. Graças a ele, hoje usamos interfaces gráficas em nossos computadores e não comandos de DOS. Sei que muitos vão dizer que o conceito de interfaces gráficas já existia (foi criado pela Xerox), mas esse projeto iria para o limbo se Jobs não tivesse roubado (olhaí a palavra que estou usando) e colocado em seu projeto Mackintosh. E essa é apenas uma das sacadas que esse cara teve. Caráter não tem nada a ver com genialidade, é esse o meu ponto de vista. Se o Richard Stallman defende o software livre, esquece que empresas como o Google controem suas fortunas em cima desse conceito, porque essa empresa viu, como Bill Gates anos atrás, que o que importa é a base de usuários da plataforma e não a quantidade de maquinas vendidas e a falácia de uma internet livre é apenas um sonho quixotesco, visto que tudo o que produzimos passa, necessariamente, por redes privadas, como as da Cisco. A morte de Steve Jobs deve ser lamentada pela perda de um dos exponenciais do avanço nas computação e nas possibilidades criativas do mundo. Agora, esse endeusamento a nível messiânico eu concordo que é um exagero.

  2. Pedro disse:

    Não querendo defender mas esse negócio de estacionar em lugar de deficiente era pra evitar que uma das equipes da apple na época (anos 80) riscasse o carro dele.

  3. YCK disse:

    Como o Ford, outro homem de negócios, comparado muito com Jobs pelo fato de ter criado um estilo de vida e que também não era um cara gente finissíma.
    Um criou o carro pessoal e o outro o que distrai o cara enquanto ele dirige.

  4. Figo disse:

    Quando um homem é alçado a categoria de gênio porque criou um aparelho bonitinho que te proíbe de fazer dele o que quiser – e nas condições em que o produto é desenvolvido – você realmente tem a convicção de que vive numa cultura doente.

  5. Daniel Araujo disse:

    Matias, teus textos sobre o Jobs tão matando a pau. Esse do “Lado Mau” do cara foi o melhor.

    Sou consumidor da Apple e tal e coisa, admiro o sr. Jobs e tudo, mas a verdade é que ele foi talvez a jóia mais brilhante do capitalismo: modernidade, tecnologia e genialidade edificadas sobre uma base de mão-de-obra explorada e funcionários maltratados.

  6. Horace Andy disse:

    Money Money Money….Root of all Evil!

  7. Guilherme disse:

    Alexandre,
    Excelente texto, parabéns!
    Tenho um blog de história, que uso como ferramenta auxiliar de ensino.
    Gostaria de postar esse texto lá, com as devidas referências. Pode ser? Obrigado.