Diomedes, por Lucimar Mutarelli

diomedes

Comentei outro dia por aqui sobre a recente aversão de Lourenço Mutarelli ao mundo dos quadrinhos, o mesmo que o viu nascer e crescer sua reputação às vésperas do prêmio HQ Mix deste ano, que trazia o personagem mais célebre do autor, o detetive particular Diomedes, como símbolo do prêmio em 2015. Lourenço, como anunciado, não foi e mandou sua esposa, a já canônica Lucimar Mutarelli, que leu uma homenagem ao marido:

Se dependesse de mim o Diomedes não existiria
Quando o Lourenço me mostrou o personagem e contou que seria um detetive que não resolveria nenhum caso, eu não gostei
Queria de volta o Thiago de Transubstanciação, Cosme e Damião, o Cãozinho sem pernas e o Champion
Queria o delírio do Matheus, da Confluência da Forquilha
Queria mais histórias do Desgraçados, aquele olhar da Elizabeth e da Paloma
Queria o submundo, o subtexto, o underground, as entrelinhas
As histórias coloridas e biográficas do Mundo Pet. Autorais, pessoais, verdadeiras
Lourenço em pele e osso
Descarnado
Não, eu não queria ler mais uma história de detetive
Lourenço não me ouviu. Foi lá e fez. Como um hobby, a noite, depois de passar o dia ilustrando livros de RPG para garantir o aluguel, ajudar com as coisas de casa e cuidar do Francisco, Lourenço seguia noite adentro escrevendo e desenhando obstinado a história do Diomedes
Quem gostou foi o Seu Lourenço, o pai do desenhista, os dois compartilhavam casos, piadas e segredos
Em 2001 Seu Lourenço morreu sem ver o fim da trilogia. Mesmo fraco, cansado e triste, Lourenço foi lá e concluiu, rezando homenagem
Lourenço teve muitos compadres e padrinhos no meio do caminho
Teve o Marcatti e a Tata, Glauco Mattoso, o Carlos, da Dealer, o Gilberto Firmino, o Douglas e o Mauro da Devir, o Jal e o Gual, a Dani. No Paraná, a incansável Mitie e o Xico. No Rio, Roberto Ribeiro, a Ruth, o Patati, Alan Alex e o Emanuelle. A Ester e o Osni. O primeiro computador veio do Adão, quem deu os primeiros toques foi o Tony e o Heinar da Cyber comics, a Gibiteca Henfil, o Klink e a Silvana. O Sidney Gussman, Professor Waldomiro, o Gaú, o Gonzalez e o Zimbres
Os jornalistas especializados que viravam amigos, Rogério de Campos, Jotabê Medeiros, o Gabriel Bastos Junior
Os amigos Léo, Claudio, André e Anderson viraram personagens, as histórias da família e das namoradas eram metamorfoseadas. Foi comparado com Kafka, Dostoievski e Augusto dos Anjos
Pra mim, é o Machado de Assis dos Quadrinhos. De um realismo fantástico, absurdo e mágico foi se aproximando do Realismo, literalmente, A Caixa de Areia
Teve também muitos ídolos, referências, inspirações, Tardi, Hergé, Will Eisner, Lorenzo Mattoti, Munhoz e Sampaio, Mazzuchelli, o Príncipe Valente, os materiais que conheceu no estúdio do Mauricio de Sousa.
Lourenço vive dizendo que não gosta mais de quadrinhos mas em casa, sozinho, ele entra em transe quando começa a rabiscar no moleskine e sangra desenhando e escrevendo
Expurga seus medos e demônios e nós, fieis seguidores, seguimos, esperando a próxima história, seja em quadrinhos, na literatura, no cinema ou no teatro mas que seja sempre você ♥
Falo por mim e em nome dos seus fãs: Eu te amo, Lourenço Mutarelli

lucimar mutarelli
10 de setembro de 2015

O velho Mutarelli foi lá e postou no Facebook, com essa imagem escrota do Diomedes acima. Típico.

grifo-abdera

Lourenço está com livro novo na praça, o intrincado O Grifo de Abdera, que acaba de sair pela Companhia das Letras. É um quebra-cabeças de identidades que brinca, inclusive, com a do próprio Mutarelli, que teria sido forjada por dois autores, um escritor e outro desenhista, e que encontra uma estranha ligação com um ex-professor de educação física que mora na Pompéia… No site da editora dá pra ler um trecho (aqui, em PDF).

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