Dreampop da ilha

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Que alegria descobrir que as meninas do quarteto catarinense La Leuca transformaram o show que fizeram no ano passado no Centro Cultural São Paulo, quando eu era curador de música de lá, em um disco ao vivo, lançado em plena quarentena. Em Ao Vivo @ CCSP elas exibem sua doce e frágil psicodelia indie ao mesmo tempo em que nos hipnotizam com riffs e solos de guitarra.

Abaixo, o vídeo que fiz desta mesma apresentação:

Patti Smith é uma fofa!

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Antes de falar sobre o Popload Festival que aconteceu nesta sexta-feira no Memorial da América Latina, vamos direto ao grande final: Patti Smith mostrou que não senta-se majestática no trono do rock à toa. Mas ao contrário do que sua aura divina poderia prever, ela não pairava distante sobre os súditos que fomos vê-la. Mais do que a visita de uma entidade sobrenatural a meros mortais, a grande qualidade do terceiro show que Patti fez no Brasil era sua afetividade maternal, a forma como se entregou ao público de forma carinhosa e intensa. Mesmo depois de quebrar tudo no medley que juntava duas faixas épicas de seu clássico Horses, sorria feliz e satisfeita. “Sejam livres!”, despediu-se depois de declarar, seguidas vezes, o quanto estava apaixonada por aquele público – que devolvia a paixão intensamente.

A mera aparição de Patti Smith no palco do mudou completamente o clima do festival. Se antes era de celebração e festa, a simples visão da madre superiora do rock fez o público entregar-se em reverência à nossa senhora, mas ela fez questão de descer do altar. Mostrou-se mundana, humana e, mais que isso, matriarcal. Ela equilibrava-se entre os clichês da bruxona e da vovozinha, provando que, na prática, as duas são a mesma coisa: o colo e a praga, o acalanto e o esporro.

Vê-la derretendo-se pela plateia brasileira em vários momentos, sorrindo francamente a felicidade de estar junto a um público seu, a deixou completamente à vontade para o que ela melhor sabe fazer: contar uma história. E assim ela foi contando, enfileirando os tijolos do repertório como se mostrasse do que é feito sua obra.

Abriu com “People Have the Power” e emendou com “Dancing Barefoot” logo de cara, sem precisar esconder os hits. Depois sacou o protesto “Beds Are Burning” do Midnight Oil (que precisão cirúrgica de escolha de repertório) e enfileirou outras versões no percurso: “I’m Free” dos Rolling Stones, “Walk on the Wild Side” de Lou Reed e uma versão dilacerante para “After the Goldrush”, acompanhada apenas ao teclado, no momento mais intenso do show até pouco antes do fim. Passou por suas “Free Money”, “Pissing in the River” e “Because the Night”, alternando entre violão, guitarra e as próprias mãos, que gesticulavam com toda a epicidade que seu ar de poeta romântica exigia. Mas ao falar com o público, sorria apaixonada, como se estivesse encontrando netos – e, claro, netas – que nunca tinha visto pessoalmente.

Acenava falando “oi pessoal” sorrindo feito uma tia boba, só faltou fazer o coraçãozinho com as mãos. Estava feliz por nos fazer feliz, livre por ser o agente daquela nossa breve liberdade.

Mesmo quando ia para o outro extremo daquela mundanidade – catarrando no chão, tossindo, errando a letra de Neil Young e rindo constrangida – mostrava que sentia-se em casa, entre sua família, dançando descalça, pronta para girar. E como girou… Sempre nitidamente emocionada, o que deixou o final do show, quinze minutos entre “Land” e “Gloria: In Excelsis Deo”, os dois principais momentos de seu grande disco Horses, ainda mais intenso.

Aliás, não dá nem pra tentar descrever o que foi este momento.

O show de Patti Smith foi um evento à parte do ótimo Popload Festival. Se não contássemos Patti no elenco, o já seria um bom eveto, reunindo boas apresentações ao vivo.

O destaque ficou por conta do Hot Chip, com um show preciso e cheio de hits, praticamente um New Order deste século – que nem precisava apelar pra fazer cover de Beastie Boys, mas tudo bem.

Antes deles, o trio instrumental Khruangbin hipnotizou a plateia, a sueca Tove Lo jogou pra galera (e eram muitos fãs) e o Cansei de Ser Sexy fez um show à altura da expectativa – será que elas vão continuar em turnê pelo Brasil? Deveriam.

Depois do Hot Chip vieram os Raconteurs de Jack White e Brendan Benson, um rock genérico setentista que funciona no palco mas emociona menos que os Black Crowes (além de ter um único hit). E quando colocado em perspectiva do show que veio a seguir, ninguém nem lembrava do que aconteceu antes…

Mark E. Smith (1957-2018)

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Que bordoada essa notícia da morte do Mark E. Smith. Um dos maiores ícones do rock inglês, o dono do Fall era um desses sérios candidatos ao posto de maior inglês vivo (Alan Moore e Charlie Brooker são os outros dois) e sua carreira parecia interminável da mesma forma que parecia existir desde sempre. Dezenas de discos lançados um atrás do outro, influenciando gerações e gerações de artistas em todo o mundo com um único lema: “foda-se tudo”. Era um artista que nunca imaginei que poderia vê-lo ao vivo, até que o acaso me sorriu no ano passado, quando fui pra Liverpool e minha querida amiga Megssa (ex-vocalista dos Fish Lips, quem sabe, sabe) me interceptou para Manchester assistir a um festival que tinha Royal Trux, Swans e… The Fall! Nem pestanejei e peguei o trem em seguida, para presenciar uma apresentação em que Mark mandava tudo à merda, como reza sua lenda: balbuciava os vocais como se tivesse dando um esporro no público, desligava e ligava os amplificadores, deixando os músicos (todos mais novos que ele) putos ou rindo, cantando com dois microfones ao mesmo tempo, tocando a bateria com um dos microfones antes de atirá-lo na plateia. A apresentação ia do humor ao terror em segundos e a sensação de periculosidade no palco era palpável – a qualquer minuto o velho Mark poderia fazer qualquer coisa, como sair do palco do meio do show, forçando a banda a buscá-lo na marra. Eis o vídeo que fiz do histórico show (pelo menos para mim):

Obrigado, Sir Smith. Com sua morte, o mundo fica menos divertido e caótico, mas seu legado é imbatível.

Lee Ranaldo e a canção da resistência

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Tocando apenas com o violão e pedais, Lee Ranaldo passou pelo repertório de seus três discos solo nesta quinta-feira, no Sesc Bom Retiro, mas não deixou de desconstruir o instrumento acústico como fazia com a guitarra nos tempos do Sonic Youth, tocando-o com um arco, efeitos, ecos e distorções. No centro de tudo estavam as canções, guiadas por sua voz, cada vez mais firme, bem como sua intimidade, agora sozinho, com o palco e com seu novo instrumento, nitidamente setentista mas obviamente pós-punk. E a beleza de suas composições, realçadas pelo violão, dão o tom de toda a noite. A única vez que fugiu desse tom foi quando tocou “Thrown Over the Wall”, comentando sobre a política nos EUA, no Brasil e no mundo antes de começar a tocar a música. “Não é onde eu vivo, nem onde você vive, está em todo o lugar”, ele falou, “a ideia é olhar para frente – é isso que eu tenho frisado. Vamos olhar para daqui a cinquenta anos, setenta e cinco anos, não vamos ficar olhando pra trás, setenta cinco anos pra trás, para 1950, 1920 ou 1939…”

Tudo Tanto #31: Lô Borges

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Mais uma coluna minha na revista Caros Amigos, esta da edição de abril deste ano, quando falei sobre o primeiro show que Lô Borges fez de seu primeiro disco solo, 45 anos depois. E, claro, os vídeos que fiz desta apresentação.

De volta à estrada
Lô Borges retoma seu mítico “disco do tênis” ao vivo, 45 anos após seu lançamento

O pequeno Salomão tinha dez anos de idade quando, ao subir pelas escadas do pequeno prédio onde morava com sua família, ouviu um timbre de voz que ecoava pelas paredes acompanhado por um violão sutil e rebuscado. Correu em direção àquele som, encantado pelo puro poder da música e viu Milton, alguns anos mais velho, tocando sozinho em um quarto na casa de seus pais. Aquele encontro mudaria a história da cultura no Brasil.

Era um encontro inevitável. Milton era amigo do irmão mais velho de Salomão, Márcio, e juntos eles eram alguns dos poucos jovens em Belo Horizonte que eram igualmente apaixonados pela bossa nova brasileira e pelos Beatles. Um grupo de amigos – Fernando, Ronaldo, Wagner, Toninho e tantos outros que o tempo esqueceu – que se descobriam músicos por sua paixão pela música. O próprio Lô, apelido familiar de Salomão, tocava com uma banda cover de Beatles ainda no início dos anos 60, ao lado de outro menino chamado Beto. O grupo The Beavers era uma sensação pop local por ser formado por pré-adolescentes que faziam os intrincados vocais de John, Paul e George com perfeição. Mas os Beavers eram de uma geração anterior à dos amigos de Milton, embora este tivesse desenvolvido uma afeição pelo menino, sempre perguntando por ele quando não o encontrava na casa da família.

Até que um dia o encontrou na porta do prédio em que haviam se conhecido e, como Marcio não havia chegado, Milton convidou Lô para esperar por seu irmão juntos em um bar ali perto. Pediu uma batida de cachaça com limão e um guaraná para o irmão do amigo, mas ficou surpreso quando o menino, então com 17 anos, disse preferir uma caipirinha como a do amigo. Foi quando Milton percebeu que o irmão de Marcio já não era um menino. Que pôs-se a lamentar, dizendo que sentia-se excluído do grupo de amigos do irmão, que tinham os mesmos interesses que ele, mas que o tratavam de forma menor, como se não fizesse parte da turma. Milton o ouviu atentamente e, fascinado, percebeu o quanto havia perdido por não ter conversado antes com Lô. Seguiram falando sobre música até o prédio onde tinham se encontrado, subiram no apartamento dos Borges e começaram a brincar com voz e violão. A delicada jam session que os dois improvisaram de olhos fechados depois seria batizada de “Clube da Esquina Nº2”, no álbum que lançaram coletivamente com os amigos dois anos depois.

Àquela época Milton já era um artista estabelecido. Deixara Belo Horizonte para conquistar o Rio de Janeiro e sempre voltava para a capital mineira para reencontrar os amigos. Até o final dos anos 70, seu nome, Milton Nascimento, já tinha ultrapassado a fase inicial da carreira musical ao gravar discos com o Tamba Trio (logo sua estreia) e Eumir Deodato (no exterior, a convite do mesmo), tendo composto uma de suas obras-primas, “Travessia”, e sendo requisitado por diferentes intérpretes por composições inéditas.

Mas a volta a Belo Horizonte o fazia retomar contato com seu amor inicial, o contato com a música puramente pelo sentimento, longe das amarras do mercado fonográfico, que até então estava a seu favor. Mas sentia-se melhor no grupo de amigos que aos poucos tomava as calçadas da esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza. O pessoal se reunia na rua e tocava violão até alta noite, apresentando composições próprias e músicas alheias, clássicos daquela geração, Beatles e Chico Buarque, um pé no Brasil e outro no mundo. Foi quando Milton decidiu capturar aquela atmosfera em disco e, quando a gravadora pediu um novo disco, ele decidiu fazê-lo com aquela turma de sua cidade. Especificamente com Lô Borges, que tinha apenas 17 anos e com quem tinha uma afinidade mágica, uma amizade intensa que criaria canções eternas.

Lô tinha dois desafios antes de aceitar o convite: convencer os pais e o exército, pois havia sido convocado para servir as forças armadas às vésperas de passar para a maioridade. Peitou ambos e foi para o Rio. Lá chegando, Milton e Lô se instalaram em uma casa em Niterói, na praia de Piratininga, e Lô, marinheiro de primeira viagem no showbusiness, dezenove anos recém-completos e visto como uma exigência inusitada de um nome em ascensão na música brasileira, pediu para não ir só e convocou o amigo Beto para ajudá-lo na viagem. Na casa de praia, os três compunham de uma forma peculiar: Lô compunha suas músicas em um quarto, Milton no outro e Beto Guedes indo de um cômodo a outro para sugerir harmonias, melodias, solos, instrumentações. As canções surgiam quase naturalmente e então eram entregues aos letristas que pairavam ao redor daquele grupo: Fernando Brant, Márcio Borges, Ronaldo Bastos. Dali iam para os músicos, que rearrajavam as canções entre a música brasileira pós-bossa nova, o jazz, o rock psicodélico, a música caipira, o folk e uma sensação quase barroca, de esmero e cuidado, característica da musicalidade mineira. Além dos músicos da turma de Belo Horizonte que eventualmente iam para Niterói ou que já moravam no Rio – como Wagner Tiso, Nelson ngelo, Toninho Horta, Tavito, Robertinho Silva – até a músicos estabelecidos – como Eumir Deodato, Alaíde Costa e Paulo Moura. Tudo regido por Milton, o veterano da turma, o maestro daquele clube.

O disco Clube da Esquina surgiu a partir do encontro de Milton e Lô e trazia para o país parte da sonoridade pop que tomava conta do mundo: folk rock, rock progressivo, jazz funk e rock psicodélico caminhavam lado a lado de canções bucólicas, devaneios lisérgicos, sonoridades pastoris e ecos latinos. Como o clube que o originara – que de clube não tinha nada, afinal era uma esquina a céu aberto – aquele disco duplo (que, por pouco, não foi o primeiro disco duplo da história da música brasileira, perdendo para o clássico ao vivo de Gal Costa, Fa-Tal, lançado meses antes) era um convite ao encontro, uma obra aberta que chamava o ouvinte para dentro de um mundo imaginário, emotivo e sentimental. Tão amplo quanto sua concepção, um dos primeiros discos brasileiros a creditar todos os músicos envolvidos em sua ficha técnica e em que músicos não ficavam restritos aos instrumentos que lhes foram delimitados. Todo mundo toca um pouco de tudo e até hoje há controvérsias sobre quem toca o quê em que faixa.

Lançado no início de 1972, o grupo impulsionou também a carreira do novo parceiro de Milton. A gravadora sem pestanejar pediu um disco solo para Lô que, da mesma forma, topou. Clube da Esquina havia sido um sucesso e o jovem músico despertava interesses e curiosidade. O único problema: ao gravar suas principais composições até aquela idade em seu primeiro registro fonográfico – o Clube, dividido com Milton – Lô havia esgotado seu repertório. Sem músicas novas, entrou em um processo de composição, arranjo e gravação quase industrial. Acordava, escrevia uma música, passava para o irmão que colocava a letra à tarde e, à noite, encontravam-se no estúdio, tentando colocar a canção de pé. Foi um processo convulsivo de composição, uma jam session em câmera lenta que reuniu quase todos os músicos que participaram do Clube da Esquina para firmar um disco composto por músicas curtíssimas que formavam uma colcha de retalhos psicodélicos sem par na história da música brasileira.

O disco ficou pronto e aquilo era o fim para Lô. Viu um horizonte tenso em que havia que compor músicas na marra para lançar mais um novo disco num futuro próximo e a sensação de que sua carreira musical poderia se tornar apenas aquilo lhe causou preocupação. Quando cogitaram colocar sua foto na capa do disco, que foi batizado apenas com seu nome, ele sugeriu que tirassem uma foto de seu par de tênis gasto. Era um código interno para avisar que estava pendurando as chuteiras e que iria colocar o pé na estrada. Para compor era preciso viver – e Lô desistiu da carreira fonográfica para viajar de carona pelo Brasil. Por cinco anos viveu como hippie, cruzando o país da Bahia ao Rio Grande do Sul, dormindo em comunidades, tocando música – e compondo sem parar. Quando resolveu parar, já tinha experiência e material para compor vários discos, como fez, a partir de seu segundo álbum solo, Via Láctea, lançado em 1979, retomando sua carreira musical profissional.

Mas seu disco de estreia – conhecido pela capa por “disco do tênis” – havia ficado intacto no passado. Depois de lançado no mercado, não teve show, não teve campanha de lançamento, ficou esquecido com o tempo. Até 2017. Ao completar 45 anos, Lô reuniu uma banda de jovens músicos para recriar seu clássico disco no palco pela primeira vez. Como a duração do álbum é curta (pouco mais de meia hora), foram incluídos no repertório músicas que Lô gravou para o primeiro Clube da Esquina, transformando o show – que foi lançado em janeiro em São Paulo e deve percorrer o país durante o ano – em uma celebração àquele mítico 1972.

Tudo Tanto #30: Lanny Total

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Outra coluna da Caros Amigos atualizada por aqui – esta da edição do mês de março, sobre o incrível show em homenagem ao mestre Lanny Gordin. Abaixo, os vídeos que fiz desse show:

Reverência ao mágico
Guilherme Held, Tulipa e Gustavo Ruiz reúnem ícones do pop brasileiro para saudar a importância do guitarrista Lanny Gordin

O que une “Chocolate” de Tim Maia a “Kabaluerê” de Antônio Carlos e Jocafi? Os discos Expresso 2222 de Gilberto Gil e o primeiro disco de Jards Macalé? “Atrás do Trio Elétrico” e “Não Identificado”? Além de ícones da música brasileira, todos eles contaram com o toque elétrico de um dos grandes instrumentistas brasileiros, o guitarrista Lanny Gordin. Comumente referido como “o Jimi Hendrix da Tropicália”, Lanny, felizmente, é muito mais do que isso. Mas, infelizmente, como a maioria dos músicos no Brasil, não tem o reconhecimento público de sua importância, o que inevitavelmente se traduz em condições financeiras. E a aposentadoria do músico – quando ela acontece – quase sempre é precária, devido a inúmeros percalços da prática que não se enquadram exatamente nas leis trabalhistas. Se o artista já anda na corda bamba entre o prazer e a remuneração, a arte e o comércio, o músico é quem mais sofre nesta dicotomia, quase sempre a linha de frente desta batalha.

Lanny não é reconhecido como compositor, mas por sua personalidade musical. O timbre elétrico rasgado até poderia ser característico dos grandes guitarristas de sua geração, mas Lanny o temperava com música brasileira, música erudita, free jazz e músicas do leste europeu, o que torna o título que o compara ao grande guitarrista da história do rock limitado. Enquanto Hendrix buscava as profundezas do blues de forma vertiginosa, Lanny ampliava o horizonte de sua paleta, mais próximo de um guitarrista de jazz do que de rock. Mais do que o timbre gritado ou os voos audazes que o músico fazia pelas cordas de seu instrumento, era o fraseado pontual, solos transformados em melodias (e vice-versa), riffs que praticamente abriam um diálogo com o resto da canção. Era uma voz presente que, uma vez percebida, torna-se uma das assinaturas musicais mais importantes daquele período, entre os anos 60 e 70, da música brasileira.

Um de seus discípulos, o guitarrista Guilherme Held, resolveu mexer-se para consertar esta falha da história. Em vez de esperar o reconhecimento póstumo que é caracteristicamente reservado a grandes artistas que morrem no ostracismo, o jovem músico começou a pensar numa homenagem em vida ao músico com quem morou junto em dois endereços diferentes – na Vila Mariana e em Perdizes -, além de ter tido uma banda com o mestre, no início do século.

A homenagem contou com a adesão imediata de outro discípulo ferrenho, o também guitarrista Gustavo Ruiz, irmão da cantora Tulipa Ruiz, e responsável pela presença do próprio Lanny no disco mais recente da irmã, Dancê, de 2015, produzido por Gustavo. É de Lanny o solo de “Expirou”, registro mais recente do guitarrista até agora, que está impossibilitado de tocar devido a problemas de saúde. Gustavo chamou a irmã de bate-pronto e em menos de um mês, os três levantaram o show Lanny Total, a homenagem hiperbólica que o músico merecia.

A vida de Lanny Total começou em um show na antiga choperia do Sesc Pompeia – que agora chama-se de Comedoria – que aconteceu em duas noites. Só a banda base já era de arregalar os olhos: Guilherme e Gustavo cada um com uma guitarra, Fábio Sá no baixo, Sérgio Machado na guitarra, Pepe Cisneros nos teclados, José Aurélio (que foi da banda de Lanny e Held, Projeto Alfa, no início da década passada) e Maurício Badé na percussão, além dos metais que incluíam Thiago França (sax alto e barítono), Amilcar Rodrigues (trompete e flugel), Filipe Nader (sax alto e barítono) e Allan Abbadia (trombone). Além destes subiram no palco Chico César, Mariana Aydar, Negro Leo, Péricles Cavalcanti, Rômulo Fróes, o irmão de Lanny Tony Gordin e Tulipa Ruiz, acompanhados também por Arnaldo Antunes, o hermano Rodrigo Amarante e Edgard Scandurra no primeiro show – o que assisti – e Heraldo do Monte, Juçara Marçal e Kiko Dinucci, no segundo. A discotecagem de abertura ficou por conta do DJ Nuts, um dos maiores especialistas em música brasileira do país, e a apresentação da banda a cargo do apresentador Luiz Thunderbird, além de uma performance do artista Aguillar.

No repertório, uma aula de psicodelia brasileira: “Back in Bahia” de Gilberto Gil, “Eu Vou Me Salvar” de Rita Lee, a versão que Caetano fez de “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo” de Monsueto em seu Araçá Azul e várias de Gal Costa, de quem Lanny era uma espécie de arma secreta durante sua fase de ouro – “Hotel das Estrelas”, “Não Identificado” e “Love ,Try and Die”, além de composições de Lanny com os novos músicos, como “O Peixinho Triste” com Rômulo Fróes, “Evaporar” com Rodrigo Amarante e a já citada “Expirou” de Tulipa Ruiz.

Mas a descrição do espetáculo não chega próximo da intensidade do sentimento. Mais do que celebrar a personalidade de um músico ímpar, o que acontecia naquele palco era uma conexão intensa com a música em si. Todos os envolvidos canalizados e conectados tanto com a musa – entidade maior que parece magnetizar músicos e espectadores – como entre si. A catarse mútua do rompante dionísico da canção de Monsueto transformava Scandurra, Arnaldo, Rômulo, Péricles e Amarante numa mesma voz. Tulipa e Mariana Aydar canalizavam a energia mais roqueira de Rita Lee e a mesma Tulipa hipnotizava o público num dueto jazzy com Negro Leo. O público se esbaldava extasiado com aquele delírio coletivo. A impressão que dava era que todo mundo ia sair se abraçando.

A última música – “Chocolate”, de Tim Maia – foi cantada por todos os convidados inclusive por um Criolo penetra, que não havia sido escalado oficialmente mas deixou-se levar pela força da música. Todos com seus maiores sorrisos, surfando na onda boa que o mestre guitarrista provocou há décadas. E agora o show pode ir para outros palcos e outras praças, tornando mais gente consciente da importância deste músico mágico.

Tudo tanto #28: BR-135

BR-135

Atualizando mais uma rodada de republicações das minhas colunas na Caros Amigos, resgato a coluna que escrevi para a edição de janeiro deste ano, sobre o festival maranhense BR-135, que aconteceu no final do ano passado. Antes do texto, os vídeos que fiz durante a passagem por lá:

Reerguer o Maranhão
Há cinco anos, o Festival BR-135 ocupa o centro histórico de São Luís e ajuda a cultura independente local a ganhar voz

O centro histórico de São Luís, uma das cidades mais antigas do Brasil, padece. O lugar é o centro nervoso da capital maranhense e ali ficam algumas das principais instituições da cidade – a prefeitura, a junta comercial, a capitania dos portos, o centro de criatividade, o mercado, o teatro João do Vale, a igreja matriz. Construções coloniais seculares, erguidas entre ruas de calçamento numa cidade fundada por franceses no século 17, completamente abandonadas pelo poder público e político, convertida em uma região em que poucos se arriscam após a noite, devido à falta de segurança que caracteriza os centros de dezenas de cidades de grande porte no Brasil.

Mas durante alguns dias de novembro, este mesmo centro foi tomado por populares de todas as idades, classes, etnias e gêneros. Uma autêntica mistura humana espalhava-se pelas pequenas ruas de um bairro outrora abandonado sem o menor tumulto, sem o menor alarde. Por trás daquela motivação erguia-se um festival de música que, por três dias, trouxe artistas veteranos e novatos, locais e de outras cidades, para dois pequenos palcos colocados em dois pontos estratégicos daquele centro, além de promover rodadas de negócios entre agentes, empresários e bandas, debates e palestras, exibição de documentários, discotecagens e apresentações de costumes tradicionais da cultura local. Uma transformação brusca e feliz, espalhando boas vibrações para esquinas da capital maranhense que normalmente se evita.

E tudo isso começou por conta da vontade de um casal. “Nós começamos na raça, na camaradagem e vontade coletiva de fazer algo”, explica Luciana Simões, metade da dupla Criolina, responsável pela criação e produção do festival BR-135. “Cobrávamos um ingresso de R$ 10 no Circo da Cidade para pagar um bom som e organizávamos cada edição conforme a adesão dos artistas. O bacana dessa época é que reuníamos a velha guarda e os jovens artistas, brechó, poesia, cultura popular. Era um palco para quem tinha trabalho pra mostrar.”

Nesta fase, o BR-135 era um projeto local e mensal – tinha foco no futuro, mas Luciana e seu parceiro Alê Muniz sabiam que era preciso começar no trabalho de base. E ela continua, praticamente ditando um manual de como sondar uma cena e criar algo com corpo. “Ali era também um laboratório para melhorar. Iniciamos sabendo que reunir a cena era o mais urgente, então fizemos dois anos sem convidados de fora, apenas identificando a cena local, fortalecendo e tentando conectar as bandas novas aos mestres da cultura popular. Nesses dois anos homenageando compositores antigos, resgatando com shows temáticos álbuns antigos que fazem parte da nossa formação musical como o Bandeira de Aço, disco de Papete, lançado em julho de 1978, pela Discos Marcus Pereira, e show em homenagem a João do Vale interpretado pela nova cena local.”

Mas há três anos, o festival deu um salto e deixou de ser uma atração mensal para tornar-se um grande evento anual. “No terceiro ano percebemos que já conseguíamos reunir a cena e contribuir para que nossa música entrasse no mapa. Convidamos as pessoas de outros estados para conhecer o que estava acontecendo aqui, oferecendo um ambiente de encontro, de troca de ideias, de discussões e espaço para shows”, continua. “Em 2014, abrimos com show de Céu, pela primeira vez em São Luís, no Teatro Arthur Azevedo, e nos dias seguintes ocupamos duas praças do centro histórico reunindo maranhenses e artistas convidados de outros cantos do país: os paraenses Felipe Cordeiro e Dona Onete, a banda pernambucana Mombojó, além de 14 grupos selecionadas entre 273 inscritas. Paralelamente começamos o Conecta Música, com palestras, workshops, oficinas e rodada de negócios. Chamamos Roger de Renor, do Ocupe Estelita, o músico Marcelo Yuka e Maurício Bussab, da Tratore, além de André Martinez, da Aprax e Marcelo Arêde, do conexão Vivo. Nos anos seguintes: Arnaldo Antunes,Orquestra brasileira de Música Jamaicana, Siba e Curumim. No Conecta Música recebe os jornalistas Patrícia Palumbo, Otávio Rodrigues e Roberta Martinelli, os produtores musicais Melina Hickson, Otávio Argento, Paulo André, Marcelo Damaso e Anderson Foca”.

Fui convidado para participar de uma das mesas da edição deste ano – e para conferir a visível transformação que o casal está impondo à própria cidade. Criada em 2006, a dupla Criolina nasceu em São Paulo, quando os dois maranhenses Luciana Simões e Alê Muniz começaram a compor juntos para “fazer um som que desinfetasse os ouvidos da musica maçante e corriqueira da velha MPB e MPM – a música popular maranhense”, explica Luciana. A dupla lançou seu primeiro disco em 2006, talvez o ano mais complicado para quem trabalha com música desde a explosão do download livre na virada do sécul. “A Criolina nasceu na época da quebra das gravadoras e da mudança do formato de CD pra MP3, pirataria, etc. Aí veio a angústia de querer saber como a banda iria entrar em contato com o público, uma banda independente, sem contrato com gravadora, sem lenço, sem documento. Não havia estrutura pra circular, levar a gente de um lugar para outro. Aí pensamos numa saída que se mostrasse viável: formar bandas com músicos das cidades por onde a gente desejava passar, incorporando a cultura desses locais e conhecendo o país de uma forma mais profunda.”

A transformação começou lentamente e localmente, primeiro com os shows mensais e depois com o festival anual. A edição de 2016 reuniu nomes de peso tanto da velha guarda, quanto da música contemporânea e do novíssimo pop brasileiro, além de várias bandas locais. Assim, pude ver shows do veterano Di Melo, do duo Strobo, da poderosa Nação Zumbi (tocando seu clássico Afrociberdelia na íntegra), dos chapados Du Souto, a dupla de DJs Venga Venga, a cantora Lei Di Dai e da sensação Liniker e os Caramellows, que fechou o festival levando o público ao delírio. Entre as atrações de fora, locais como Nubia, Nathalia Ferro, Beto Ehongue, O Vórtice, Royal Dogs e números tradicionais como o Boi de Santa Fé, o Tambor de Crioula de Mestre Felipe, a Orquestra de Berimbaus Mandigueiros do Amanhã e o High Vibes Sound System, comandado por Tarcisio Selektor, misturavam-se a um mercado de produtos independentes, barracas de comida local, artistas de rua, performances e DJs. Tudo sob um calor firme de trinta e quase quarenta graus e um clima de paz e tranquilidade, entre pessoas de todas idades, classes sociais e orientações sexuais. “Nos surpreendemos com o público que sempre entendeu e abraçou a proposta do festival e que só cresce a cada ano”, comemora Luciana, contando quase 50 mil pessoas nos três dias de festival. “Percebemos que as pessoas estão sedentas por ver seus artistas preferidos, de perfil independente, que nunca vieram aqui e que dificilmente viriam” – e, principalmente, no centro esquecido da capital. “Escolhemos ocupar o centro histórico por ser a alma da cidade, um território cultural querido e à margem. Era uma forma de conectar as pessoas à esse espaço através da música, da arte”, conclui a produtora e artista, fazendo planos para 2017. “Ano que vem queremos ampliar a ocupação do centro histórico de São Luís e aumentar a programação, crescendo sem perder a identidade de promover diálogos, trazer a cena do Brasil e apresentar a nossa, sempre com uma festa de som, amor e paz, mantendo o diferencial de convidar artistas nacionais importantes e valorizar a cena local contemporânea que tem uma identidade rica e diversa, destacando o reggae e a cultura popular, principalmente bumba meu boi e tambor de crioula.”

“Temos muita admiração pela luta dessas cidades que conseguiram essa sinergia, como Recife, Salvador e Belém”, explica. “Por isso nos preocupamos em estimular diálogos com produtores, gestores e jornalistas desses lugares. Temos consciência de que ainda não chegamos no nível deles. Mas São Luís pela força da sua cultura popular e a vocação cultural pode num período curto ser tão conhecido quanto essas cidades. Nós temos uma voz própria e ela há de ser ouvida num tempo muito mais curto do que muita gente imagina. O Festival BR135 briga por isso e acreditamos e estimulamos em nossas falas que qualquer artista pode e deve assumir um papel de protagonismo, como vem acontecendo com outros artistas e seus projetos , outros projetos devem acontecer para fortalecer e validar a cena.”

Ruído/mm no CCSP

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A banda curitibana Ruído/mm volta a São Paulo, desta vez para despedir-se do disco Rasura num show na Sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural São Paulo, neste sábado, cedo, às 19h (mais informações aqui). Abaixo, os vídeos que fiz quando o grupo lançou o disco, um dos melhores de 2014, em março do ano retrasado.

Tudo Tanto #26: Satélite 061

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Continuando o resgates das minhas colunas da Caros Amigos para o Trabalho Sujo, segue o texto que escrevi para a edição de dezembro do ano passado sobre o festival brasiliense Satélite 061, que reuniu Elza Soares e Gal Costa debaixo da mítica torre de TV da capital do país.

Duas estrelas sob a Torre
Festival brasiliense Satélite 061 superou os problemas de produção com dois shows históricos de Elza Soares e Gal Costa

“Vida dura de quem trabalha acreditando na arte independente e que faz na raça mesmo”, ri Marta Carvalho, presidenta da Ossos do Ofício, associação multicultural que realiza o festival Satélite 061, a cuja quinta edição pude comparecer no final do mês de setembro, em Brasília. Ela ri quando peço para que ela conte a história de que ouvi falar, sobre como ela conseguiu pagar os artistas que se apresentaram em seu festival dois anos antes. “No ano de 2014, o festival contava somente com um pequeno patrocínio da Petrobras e para que acontecesse eu tinha que utilizar verba da Secretaria de Cultura para estruturas e cachês artísticos”, conta.

“Logo após o festival, o governo contingenciou as verbas para cultura inclusive vetando os pagamentos de eventos já executados. Sem opção, me uni a vários artistas do movimento cultural do Distrito Federal e fi zemos um plano radical: entramos na Secretaria de Fazenda do DF e nos acorrentamos. Só sairíamos de lá após termos as datas concretas da liberação dos recursos. Foi difícil, mas necessário para que pudéssemos honrar com os nossos compromissos.”

O festival também passou por maus bocados na edição deste ano, quando uma improvável tempestade no início da primavera – época em que não chove em Brasília –, danificou o equipamento no primeiro dia, atrasando a programação. “Com o atraso, tivemos que cancelar o show do BaianaSystem, mas que já marcamos nova data para acontecer. Será dia 18 de novembro, no Museu da República, dentro da programação do Festival Favela Sounds, que eu contribuo com a direção artística”, explica Marta. A queda do BaianaSystem da programação foi um baque num elenco maravilhoso.

O festival, que reunia várias bandas da cidade, entre grupos de rap, bandas de rock e sambistas, tinha escalado uma seleção de artistas que fazia a ponte entre a tradicional música brasileira e a atual música independente moderna, fazendo um contraponto ao outro grande festival da cidade, o Porão do Rock, por não se basear no rock como gênero-base. Assim, tínhamos o veterano Di Melo ao lado do novato Fióti, o irmão de Emicida, que agora lança sua carreira como soulman (com direito a participação do irmão como percussionista e vocalista de apoio ele só foi rimar em “África Nossa”, versão para o hino da diva caboverdiana Cesária Évora). O rock dos Autoramas – que agora é um quarteto – e o rap / R&B de Drik Barbosa. O free jazz elétrico do trumpetista Guizado e a MPB teatral de As Bahias e a Cozinha Mineira.

O raggatech samba-reggae do BaianaSystem seria a liga perfeita para misturar estes diferentes gêneros ancestrais e modernos, principalmente pelo fato do grupo estar lançando um dos melhores discos deste ano, o elétrico Duas Cidades. Mas as duas maiores estrelas do festival foram dois monstros sagrados de nossa música popular, duas divas de histórias díspares que vivem momentos semelhantes nesta segunda década do século 21.
“Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas”

Elza Soares e Gal Costa têm biografias distintas, mas nunca tiveram seus títulos colocados em xeque, estrelas de dois Rios de Janeiros e de dois Brasis de épocas diferentes, encarnações de mulheres fortes relativas a recortes específicos de nossas culturas. As duas tiveram um ótimo 2015 quando, cercadas de novos músicos, fizeram álbuns ousados para suas carreiras: Elza Soares cercou-se da nova vanguarda paulistana (Rômulo Froes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, Celso Sim, José Miguel Wisnik, Thiago França, Douglas Germano, os metais do Bixiga 70 – todos sob a batuta do percussionista Guilherme Kastrup) para lançar o poderoso Mulher do Fim do Mundo, talvez o disco brasileiro mais importante desta década.

Gal fez seu Estratosférica um oposto solar, diurno e carioca do disco paulista de Elza, reunindo composições de Céu, Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Lirinha, Alberto Continentino, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes e Caetano Veloso, sob a produção de Kassin e Moreno Veloso. Elza trouxe seu espetáculo pleno, inclusive o cenário de Anna Turra que a coloca central, num trono, cantando a íntegra de seu disco intenso, além de músicas clássicas de seu repertório, como “A Carne” e “Malandro”. Gal foi intimista e, em vez da apresentação de seu novo disco, preferiu desfi lar seu rosário de clássicos ao lado do músico Guilherme Monteiro, no espetáculo Espelho D’Água. É uma sequência de clássicos sem par na música brasileira – “Baby”, “Vaca Profana”, “Tigresa”, “Negro Amor”, “Coração Vagabundo”, “Passarinho”, “Folhetim”, “Sua Estupidez”, “Meu Nome é Gal”, “Dom de Iludir”, “Tuareg” – todas entre a guitarra e o violão e voz intacta da cantora, que completava 71 anos (“54”, brincou) naquele mesmo 26 de setembro.

O público, entregue à sua majestade, não acreditava no que assistia e cantou parabéns para a baiana no palco mais de uma vez. Satisfeita com o resultado da quinta edição do festival, que mesmo com o tropeço do sábado conseguiu reunir 50 mil pessoas aos pés da monumental Torre de TV de Brasília, um dos cartões postais da cidade, a organizadora Marta nem acredita o quanto já conseguiu neste tempo, mas esquiva-se da modéstia. “Esse ano eu fui bem além e vi que é possível ir cada vez mais”, comemora, cravando a sexta edição do festival para o ano que vem, sonhando com dois grandes nomes: o rapper ganês Blitz The Ambassador e o cantor Ney Matogrosso. “Afi nal sonhar não me custa nada”, conclui, rindo.

Verocai + Criolo + Mano Brown

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O mestre Arthur Verocai, um dos maiores arranjadores de nossa música, está lançando um dos raros discos com seu próprio nome, que segue a linha do único – e cultuado – álbum de 1972. No Voo do Urubu reúne nomes como Seu Jorge, Danilo Caymmi, Vinícius Cantuária, Mano Brown e Criolo e os dois últimos puderam comparecer nos shows de lançamento que o maestro fez neste fim de semana, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, ao lado de uma pequena orquestra de cordas e sopros. Filmei o momento em que Brown e Criolo dividiram o palco com o mestre.

No Voo do Urubu é um dos grandes discos de 2016.