Chico Science entre o pós-punk e o hip hop

bomtomradio

E essa versão demo de “A Cidade”, gravada na versão pré-histórica da Nação Zumbi chamada Bom Tom Rádio? O grupo era formado por Chico Science, Jorge du Peixe e o produtor H.D. Mabuse. Entre o pós-punk e o hip hop oitentista, dava o recado com a música que depois se tornaria hit nos anos 90, mas com a vibe oitentista que adubou o caminho para o surgimento do mangue beat.

Que pérola.

Mangue 8-bit

moogbeat

“O Moogbeat começou como um desafio musical, de recriar em um único sintetizador monofônico de toda aquela mágica sonora da Nação”, me explica Carlos Trilha, por email, sobre o recém-lançado Moogbeat – Nação Zumbi para Minimoog, em que o ex-colaborador da Legião Urbana, Carlos Trilha, reinventa clássicos da banda pernambucano no formato analógico retrô que parece voltar no tempo dos primeiros videogames. “Foi um estudo, uma forma de entender a sonoridade e de se apropriar de alguma maneira daquela força, um presente pra eles, queria impressioná-los”, continua o músico, conhecido pela parceria nos dois únicos discos solo de Renato Russo.

“No começo não tinha a intenção de fazer um álbum, pois não sabia como soaria, mas quando a primeira música ficou pronta e mostrei pro Pupillo, que me chamou de louco por conta da quantidade de detalhes que sintetizei no Moog, que e sugeriu que eu fizesse um álbum inteiro, é que percebi a riqueza sonora e artística do que estava nascendo”, continua Trilha, referindo-se à versão que fez para “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada”. Depois partiu para “Prato de Flores” e aos poucos foi mostrando para o grupo. “A banda curtiu de cara a ideia do álbum e cada música nova que eu fazia era um festival de comentários e mensagens que foram me dando muita satisfação durante o processo. Quando eles sabiam que eu havia começado alguma música nova, ficavam cheios de curiosidade e me cobravam que terminasse logo para eles ouvirem.”

O projeto começou como uma brincadeira mas já começa a render frutos além do disco – e Trilha já está fazendo shows deste novo formato. “Muitas ideias surgiram, não sabia se montaria uma orquestra de Moogs ou se simplesmente colocaria tudo em uma MPC e deixaria algumas linhas para tocar ao vivo”, lembra. “Até que cheguei na forma do Concerto para Sintetizadores, onde toco clássicos da Synthesizer Music, composições próprias e músicas do Moogbeat. Nestes, os sons gerados originalmente no Moog foram substituídos por outros doze sintetizadores clássicos que ficam no meu ‘cockpit’ de máquinas sonoras.” Trilha não descarta fazer projetos do tipo com outros artistas, mas por enquanto quer focar neste novo formato ao vivo, o Concerto para Sintetizadores, que terá parte de seu repertório extraído do Moogbeat.

Chico vive!

chicoscience

Vinte anos após sua morte, o legado de Chico Science está mais vivo do que nunca. Escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

“Modernizar o passado é uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enchem a imaginação de domínio
São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade
Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os Panteras Negras
Lampião, sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”

Não importa o que poderia ter acontecido com Chico Science se ele não tivesse morrido vinte anos atrás no trágico acidente daquele 2 de fevereiro, um dia de domingo, entre Olinda e Recife. Todas as hipóteses cogitadas são meros exercícios de imaginação e o personagem criado por Francisco França para sublinhar sua mensagem poderia seguir destinos bem diferentes, como cada um de nós, independentemente de sua vontade. O que importa é o que Chico Science fez enquanto esteve vivo, sua marca emblemática nos rumos da música – e da cultura – brasileira desde que entrou no imaginário mental do Brasil. Ele hoje é mais importante do que nunca.

Pois vivemos num mundo – e num país – antevisto por Chico em sua versão brasileira do cyberpunk. O movimento de ficção científica criado pelos escritores William Gibson e Bruce Sterling nos anos 80 cogitava um futuro próximo completamente distante do futuro Jetsons imaginado pela geração anterior. A crise ambiental, a superpopulação, as megalópoles e, claro, a presença do computador e da internet como sistema nervoso de um planeta decadente, tornava a aurora do século 21 sombria e aquela distopia unia obras que adubaram o inconsciente coletivo vindo de diferentes artistas em diferentes mídias – do Akira de Katsuhiro Otomo ao Blade Runner de Ridley Scott, passando pelo Tron da Disney, o Incal de Jodorowsky e o Robocop de Paul Verhoeven -, criava uma realidade totalitária e alienante como a que vivemos hoje. Uma mistura do 1984 de George Orwell com o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley embebedida pela internet e por dispositivos de vigilância portáteis (nossos celulares).

O mangue beat, criado no Recife por Chico Science, sua Nação Zumbi, e pelo Mundo Livre S/A de Fred Zero Quatro, trazia este futuro para o sol de rachar da linha do Equador. O cyberpunk era urbano, sombrio, meio gótico, meio romântico (impossível não notar a semelhança entre o movimento musical liderado pelo Duran Duran – o New Romantic – com o marco-zero do cyberpunk – Neuromancer). O mangue beat era diurno, à praia, pés na areia – e na lama -, o horizonte é o mar. Ao criar um personagem que funcionava como um narrador daquele novo universo, Chico Science conectava a distopia cyberpunk ao terceiro-mundismo sonoro que une o reggae ao bhangra, o raï ao hip hop. Plugava o Brasil à aldeia global de Marshall McLuhan antes mesmo da ascensão da web – e pela cultura da favela global, de países subdesenvolvidos.

Conheci Chico um pouco antes de ele tornar-se um nome nacional, quando a importância do movimento que puxava a partir do Recife ganhava reconhecimento em todo o país, mas ainda nas entranhas, no meio independente que outrora conhecíamos como underground. Estava começando minha carreira no jornalismo quando pude entrevistá-lo pouco antes do lançamento de seu primeiro CD, lançado pela Sony. A gravadora havia o contratado ao lado de sua Nação Zumbi sem nem entender direito o que estava acontecendo e a prova disso é que a primeira vez que os encontrei foi no camarim da boate Pachá, em Campinas, quando o grupo pernambucano foi escalado para abrir o show da banda de eurodance Culture Beat, cujo hit robótico e sem alma “Mr. Vain” era o extremo oposto do groove vivo, intenso e de protesto puxado por Chico. A banda divertia-se com o choque dos extremos, enquanto Chico ficava tentando entender quem era o público que estava assistindo àqueles dois shows tão diferentes.

Era uma característica que pude perceber nele das outras vezes que nos encontramos – ele sempre estava tentando entender algo que não entendia. Buscava o contexto, tornava-se aluno. Gostava de conversar e de contar histórias, mas, diferente da maioria dos artistas, também gostava de ouvi-las. Arregalava os olhos e arqueava as sobrancelhas, concordando com a conversa enquanto ouvia.

Depois botava aquilo tudo pra fora. Ao colocar os óculos escuros, tirar a camisa, botar o chapéu e abrir o sorriso de lado, Chico virava o arquetípico mangue boy, criava o b-boy nordestino cujo semblante hoje é tão forte quanto os de Bob Marley, Che Guevara e Raul Seixas – um personagem que certamente foi influenciado pelos de Angeli, repare. A partir deste púlpito, narrava sagas de vida e morte pelo sertão, crônicas violentas nas favelas, dias de preguiça na praia. E aos poucos redesenhava um país de contrastes, que já havia sido desenhado pelos modernistas nos anos 20 e pelos tropicalistas dos anos 60. Repensava a Casa Grande e a Senzala com um satélite na cabeça, contextualizava globalmente os tristes trópicos.

Chico viu, há mais de vinte anos, o país que vivemos hoje. As caricaturas dos contrastes, a truculência no traquejo social, a violência sob a superfície fanfarrona, o sorriso aberto que fecha-se num segundo em uma carranca. Suas letras são alegorias que usam arquétipos e ícones estabelecidos para falar sério em frases de efeito cujo significado vai além do mero slogan. É só prestar atenção. “Há fronteiras nos jardins da razão”, “em cada morro uma história diferente que a polícia mata gente inocente”, “cerebral, é assim que tem que ser”, “o de cima sobe e o debaixo desce”, “no caminho é que se vê a praia melhor pra ficar”, “é o povo na arte, é arte no povo e não o povo na arte de quem faz arte com o povo”.

Líder de uma banda de protesto para dançar, Chico Science foi ele mesmo a antena cravada no mangue, no caso, o Brasil. O impacto de sua breve passagem por nossas vidas não deve ser lembrado apenas com tristeza ou saudade, mas pela importância e força representadas nos poucos anos que viveu conosco durante os anos 90. Sua influência é presente, contínua. Chico está vivo.

Psicoacústica e o mangue beat

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Aproveitando o relançamento dos três primeiros vinis do Ira!, o site Azoofa (esse nome é muito feio, broder) fez uma longa entrevista com o Nasi, que comentou sobre a relação do Psicoacústica com o nascimento do mangue beat:

“Foi um disco que decepcionou não só as rádios e a gravadora, mas também parte da crítica, que classificou o Psicoacústica como um disco pretensioso. Tipo: ‘Quem são esses caras aí pra misturar maracatu com rap e rock?’. Até hoje vejo o cara que falou isso aí assinando diversas resenhas. Mas de certa forma, despretensiosamente, Advogado do Diabo acabou sendo a base do manguebeat. Não que fizemos a música e dissemos: “Estamos aqui inaugurando o manguebeat!”. Não, mas eu falei pro André: “Você é pernambucano, conhece a levada do maracatu, faz no pandeiro! Vamos fazer um rap, vamos colocar guitarra, um scratch!” Na época eu chamei o Thomas Pappon, ex-baterista do Voluntários e que hoje é jornalista da BBC, pra fazer o release do Psicoacústica. Ele fez um release todo cheio de frescura, mas um outro jornalista me disse que o Thomas riu pra caralho do disco, que achou uma bosta! Lembro de ir com o André na casa dele, picar o release e jogar na cara dele. Vai se fuder, você não e obrigado a gostar! Se você não gostou, não faz um release falando da rebimboca da parafuseta! Tudo isso é só pra dizer que é um disco que não passou batido! (…) Quando nós conhecemos o Chico Science, não existia Nação Zumbi. Conheci o Chico quando ele tinha o Loustal ainda (embrião da Nação Zumbi, formada em 1989 por ele, Lúcio Maia e Dengue). Ele trabalhava, inclusive, num balcão da Vasp, ainda! Eu já trabalhava com rap e ele veio falar, certa vez: ‘Sou fã de rap, gosto do Thaíde, que você produziu…’.”

Leia a entrevista inteira lá no site deles.

Mundo Livre S/A x Nação Zumbi

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Mundo Livre S/A e Nação Zumbi subiram juntos durante essa semana para apresentar o disco em que tocam músicas uns dos outros no palco do Sesc Pompéia. Foi a oportunidade que o Radiola Urbana encontrou para inaugurar seu canal no YouTube, fazendo os dois vídeos abaixo no show de terça-feira (a foto acima, da Piky, é do show de quarta). Sugiro que você se inscreva no canal porque semana que vem tem o 73 Rotações e é inevitável que eles subam vídeos relacionados aos shows…


Mundo Livre S/A – “A Praieira”


Nação Zumbi – “Pastilhas Coloridas”

Mundo Livre S/A toca Nação Zumbi que toca Mundo Livre S/A

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E vocês viram esse disco que tá pra sair, em que a Nação Zumbi toca músicas do Mundo Livre S/A e vice-versa? Olha duas amostras aí embaixo…


Nação Zumbi – “O Velho James Browse Já Dizia”


Mundo Livre S/A – “Samba Makossa”

Seria foda mesmo se as duas bandas fizessem uma turnê desse disco fazendo shows juntos, como já fizeram.

Antimangue: “Imitar um finado é uma transação comercial”

E o João Marcelo aproveita a discussão entre a banda Volver e o mangue beat para resgatar essa pérola que os Playboys tocavam pela virada do milênio…

Contra o mangue beat: “Eu não consigo viver nessa lama com vocês”

Com a faixa “Mangue Beatle”, a banda pernambucana Volver traçou uma linha que os separa da cena que recolocou Recife no mapa no pop brasileiro nos anos 90 e está causando confusão no estado, como conta o Helal do Megazine:

“Em Pernambuco, o movimento manguebeat é considerado uma instituição acima de qualquer crítica. Sou fã de Mundo Livre S/A, mas acho que o meu estado é grande demais para comportar só carangueijos. Eu adoro a cultura indígena, mas isso não quer dizer que eu quero morar numa oca”, comenta o vocalista do Volver, Bruno Souto. Próxima estação é o terceiro CD da banda. O primeiro desde que o quinteto se mudou para São Paulo.

“O fanatismo é tão grande que as pessoas acham que criticar qualquer aspecto do mangue é o mesmo que xingar o estado de Pernambuco. Gravamos o clipe com a bandeira para mostrar que somos pernambucanos até a alma. Mesmo assim, muita gente achou que fizemos isso para provocar. Tudo bem. Artista não tem só que agradar. Precisa cutucar um pouco também.”

Tá certo. E o disco novo do Volver já saiu pra download. Não que eu recomende, mas há quem goste. Olhaê o clipe:

Ocupação Chico Science

E o Carneiro pautou o Clemente para dar uma sacada na Ocupação Chico Science que está acontecendo no Itaú Cultural até o dia 4 de abril e trombou com a quadrilha que armou o mangue beat: Fred Zero Quatro, Jorge Du Peixe, DJ Dolores, Rogê, Paulo André… Só gente fina.

Entrevista: H.D. Mabuse

Enquanto nomes como Chico Science, Fred Zero Quatro, Renato Lins (o “ministro da informação”), Otto e Jorge Du Peixe são naturalmente associados ao mangue beat, o webdesigner H.D. Mabuse ainda é uma figura conhecida apenas nas internas. Uma pena, afinal, ele é uma das personagens mais ativas no movimento, ainda mais se o assunto é tecnologia e internet. Foi ele quem colocou o mangue pela online primeira vez (com o e-zine MangueBit), divulgou a trilha sonora do movimento nas ondas da rede (na rádio Manguetronic), acessora uma imensidão de sites pernambucanos, dá pitacos nos projetos C.E.S.A.R. e Porto Digital , media a lista de discussão [Palíndromo] e agora ataca como músico, ao lado do DJ Tarzan, com o projeto Re:Combo. Multimídia de espírito, informática na cabeça e coração pernambucano, H.D. Mabuse falou sobre a interrelação entre Recife, cultura e tecnologia.

Recife é uma cidade de alma tecnológica?
Creio que sim. A relação pernambucana com tecnologia é antiga, data dos idos de 1630 com a presença batava no Recife, representados por Maurício de Nassau, e desde essa época os holandeses trouxeram o gosto pelo crossover entre tecnologia e arte. No seu séquito, o príncipe João Maurício de Nassau-Siegen trouxe artistas e cientistas, Naquele período, Recife talvez tenha sido a mais moderna cidade das Américas, pelo seu desenvolvimento urbanístico. De lá pra cá vale a pena dar um pulo na história e cair no Centro de Física da UFPE, que participou ativamente do desenvolvimento de hardware da região. A tradição de tecnologia se refletiu na prefeitura em 1963 quando entrou em funcionamento o primeiro computador eletrônico de Pernambuco, um IBM 1401, na Seção de Mecanização da Prefeitura do Recife. Em 1983, foi lançado o Corisco, um PC totalmente desenvolvido e produzido em Pernambuco, como resposta ao preço alto pra caralho dos equipamentos importados. Um dos agentes de mudança que está associado a isso tudo desde o inicio é Cláudio Marinho, atual secretário de ciência e tecnologia. O site pessoal dele, apesar de não ser atualizado desde 97 é do caralho. Outra peça chave dessa onda tecnologia é Silvio Meira, idealizador do Centro de Estudos Sociais Avançados do Recife.
É importante notar tambem como a periferia absorve, recombina e transfere a tecnologia que fica disponível. Os sinais vão desde os esforços da comunidade de Águas Compridas, onde existe o maracatu Leão Coroado, que tem até site e já foi citado na revista Wired, até os mais de 400 artistas de graffiti formados pela Subgraf.

Como a cidade reage a esta alma tecnológica?
Toda referência às tecnologias – internet, a imagem da parabólica enfiada na lama, as teorias do Caos e Imprevisibilidade, fractais, linguagem virótica, memes – sempre foram bem recebidas e assimiladas pelo povo da cidade. Acho que houve uma surpresa maior do sul do país com o fato de se desenvolver música e tecnologia – afinal ciência é cultura! – com tanta qualidade e de uma forma tão vanguarda aqui no Nordeste, enquanto, por outro lado, a velocidade absorção dessas tecnologias no Recife é extremamente rápida. Você encontra escritores de software, programadores de ritmos e loops, batuqueiros de samples por todo lado. Experiências como o Maracatu Leão Coroado tem mostrados faces interessantes, como a tentativa embrionária de transformar a estrutura de computadores para a internet que eles dispõem através do C.D.I., em micro-estúdios digitais. É guerrilha digital pura nos baque da periferia.

Recentemente, a tecnologia tem estado tanto em evidência quanto a cultura, em projetos como o C.E.S.A.R. e o Porto Digital. Como a cidade tem sentido esta nova invasão?
Pessoalmente, sinto a mesma vibe que sentia no início do mangue, só que agora com tecnologia e negócios na cidade. As empresas de fora do país mandam comitivas para conhecer uma instituição como o C.E.S.A.R. ou o Porto Digital ao mesmo tempo que os contatos são feitos daqui para fora. Quanto à relação da cidade com a suposta “invasão”, creio que isto acontece para fora da cidade, a integração da comunidade tecnológica com a comunidade cultural é total. No C.E.S.A.R, num universo de 300 pessoas trabalhando, pelo menos 50 tem atividade forte em algum maracatu, banda pop ou dá uma de DJ. O próprio presidente do C.E.S.A.R, Silvio Meira, toca em um ou dois maracatus.

Fale sobre o site MangueBit e a relação com o mangue beat.
Em meados de 1994, fui convidado por Cláudio Marinho para participar da criação do site da Rede Cidadão, que foi a primeira freenet da América Latina, um serviço de acesso gratuito à internet da prefeitura do Recife, através da Emprel. Junto a essa proposta mandei um projeto para colocar no ar o MangueBit, site oficial do movimento. Foi nesse cenário, com o desenvolvimento da internet na cidade no inicio dos anos 90, bem antes da Internet comercial, que paralelamente apareceu toda a historia de mangue beat. Um ano depois, em abril de 1996 entrou no ar o Manguetronic, que é o primeiro programa de rádio feito exclusivamente para a internet na América Latina. Os dois são produtos estratégios de comunicação do mangue. Na época que começamos a criar o MangueBit, havia um jornalista que estava escrevendo a “história do mangue” e havia um certo temor da parte de todos que a história fosse manipulada, o que seria bastante natural. O site apareceu para dar a versão dos envolvidos, antes que houvesse alguma deturpação. No caso do Manguetronic, basta dizer que foi o veiculo de comunicação de massa escolhido para colocar no ar o segundo manifesto do mangue, após a morte de Chico.

E qual é o legado de Chico Science nesta discussão?
Chico tinha um puta feeling para as tendências que passavam ao seu redor. Uma frase que hoje é extremamente considerada no meio dessa história toda é: “think globally, act locally”, sem provavelmente conhecer a frase, Chico traduziu a essência como “Pernambuco embaixo dos pés e minha mente na imensidão.”

O que a cidade – e o estado – prometem nesta área para 2002?
Esse é o ano do pontapé inicial do Porto Digital, e desde o início já existe uma ligação muito forte entre os esforços em business e tecnologia com cultura e movimentos da cidade. O ano vai ser bem quente 🙂