Cactu na ferida

A princípio parece só um amontoado de palavras: “Lixo quiche rixa husky pixe risco rímel rumo rouge haxixe concha jaca cacho Reykijavik Vaporub mirra marreta mojito lixa lesma caixote”, cospe Tulipa Ruiz por cima de um groove tenso e quadrado, eletrônico e funky ao mesmo tempo em que soa pesado e raivoso, conduzido por seu irmão, o produtor Gustavo Ruiz, e Rica Amabis, metade da dupla de produção Instituto. Mas superpostas às imagens conduzidas por Alexandre Orion, que mistura diferentes facetas do nosso apocalipse diário em doses nada sutis de justaposição, o projeto Cactu, que os quatro mostraram no final da quarta temporada do projeto Palavras Cruzadas, ganha uma forte carga política, bem como pede este bizarro 2020. Criado a partir do convite do curador Marcio Debellian, os quatro criaram o show para duas únicas apresentações em 2015, no Rio de Janeiro, mas existia a intenção de ir além. Ressuscitado pela quarentena, o novo grupo começa a se mostrar a partir desta segunda, quando o primeiro single, “Chorume”, chega às plataformas digitais. O quarteto deve lançar outro single ainda este ano e o disco fechado fica para o início de 2021.

Tulipa Ruiz em cartaz

Foto: Erika Garrido

Foto: Erika Garrida

“É uma aglutinação de linguagens, o que sempre resulta em novidade, não é? A situação não permite previsões, tédio e invenção andam de mãos dadas e nos puxam”, me explica por email Tulipa Ruiz quando lhe pergunto se Tulipa Noire, que ela apresenta neste sábado às 21h (mais informações aqui), é uma evolução do conceito de shows transmitidos pela internet. O concerto acontece na Casa de Francisca e é o primeiro show dirigido pela cineasta Laís Bodanzky, diretora do filme Bicho de Sete Cabeças, que foi convidada pelo capo da mágica casa, Rubens Amatto, para assumir a curadoria de cinema do local em tempos de pandemia, elevando as lives a outro patamar.

A cantora conta que estava esperando o momento certo para trabalhar neste formato. “Nossa proximidade com o Rubão e a Casa de Francisca é antiga e sabíamos que a qualquer momento ia acontecer alguma coisa entre a gente nesse momento live. Quando o nome da Laís entrou na jogada, tudo ficou mais saboroso. Vivo com a Tulipa Noire, o filme do Delon, marcado na alma. A associação era inevitável, noir-noire-cinema-Laís. Mesmo assim uma associação solar – o filme original era colorido!”, conta, fazendo referência ao filme que inspirou seu pai, o mestre guitarrista Luiz Chagas, a batizá-la com este nome.

Pouquíssimas pessoas estarão presentes no evento, apenas a cantora, seu irmão Gustavo Ruiz no violão, a diretora Laís e a fotógrafa Thaís Taverna. A única certeza é que será em preto e branco. Tulipa nem sabe o que fará com o show depois de ele ter acontecido. “É algo a ser pensar. Será meu primeiro registro cinematográfico. Vou decupar essa ideia”, conta.

Pergunto como ela está atravessando a quarentena e ela tasca que “como a maioria das pessoas que tem a oportunidade de ficar em suas casas, esse negócio de ‘tempo livre’ é bobagem. Nunca estive tão ocupada em minha vida, nem que seja para não fazer nada ou dormir. Isso te ocupa muito”. Ela também menciona lives que a emocionaram: “Várias, a começar pelo João Donato que introduziu muita vida na dele; Teresa Cristina, maravilhosa; o Gil, divino; o Curumim e a Anelis fazem umas aqui na esquina de casa, mas que parecem vindas da Lua. “

Ava Rocha no Centro Cultural São Paulo

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A cantora carioca Ava Rocha leva seu sensacional Trança para o palco da Adoniran Barbosa no Centro Cultural São Paulo nesta quinta, acompanhada de Tulipa e Gustavo Ruiz (mais informações aqui).

CCSP: Fevereiro de 2019

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A programação de fevereiro no Centro Cultural São Paulo está quente! Dá uma sacada:

2, às 19h – Young Lights + Oceania, duas bandas indies da nova cena mineira
3, às 18h – Phill Veras, lançando seu disco Alma
7, às 21h – Saulo Duarte, lançando seu disco Avante Delírio
9, às 19h – Hurtmold com o músico Panda Gianfratti e abertura de Philip Somervell
10, às 18h – Magnolia Orquestra, com Bruno Morais e Tika, cantando músicas dos anos 40 e 50
14, às 21h – Síntese e Lucio Maia, juntos no mesmo show
16, às 19h – Maurício Pereira, lançando seu disco Outono no Sudeste
17, às 18h – Mãeana, direto do Rio de Janeiro
21, às 21h – Ava Rocha, lança seu disco Trança com a participação de Tulipa e Gustavo Ruiz
23, às 19h – Karnak apresenta a ópera-rock Nicodemus
24, às 18h – Forgotten Boys, fazendo uma retrospectiva em sua carreira
28, às 21h – Holger e Raça, bandas paulistanas com novos trabalhos

Mais informações lá no site do Centro Cultural São Paulo

Chagas chegando

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Pai de Tulipa e Gustavo Ruiz e guitarrista do Isca de Polícia, a mítica banda de Itamar Assumpção, o mestre Luiz Chagas finalmente começa a revelar seu faceta solo a partir das 20h desta quinta-feira, no Itaú Cultural, quando mostra músicas que vinha guardando na gaveta num show chamado Música de Apartamento acompanhado de uma banda que conta com Fábio Sá no baixo, Biel Basile na bateria, o filho Gustavo no violão e Chicão Montofarno nos teclados, além da presença de Ná Ozzetti, Suzana Salles, Gustavo Galo, Juliana Perdigão, Tulipa Ruiz, Felipe Cordeiro e Manoel Cordeiro (mais informações aqui). Conversei com o seu Luiz sobre esta nova fase de sua carreira.

Como surgiu a ideia de começar um novo trabalho a partir de um show?

O que é “Música de Apartamento”?

Quem é a banda que tocará contigo neste show?

Você já irá gravar o disco ou é um processo que está sendo maturado ao vivo?

A volta do Isca de Polícia foi determinante para este novo trabalho?

Como este trabalho conversa com o seu trabalho com a Tulipa e o Isca de Polícia?

Quais os próximos passos a partir deste show de quinta-feira?

Maurício Pereira 2018: “Achar a graça é a nossa missão”

Foto: Rui Mendes

Foto: Rui Mendes

Prestes a lançar seu sétimo álbum nas vésperas de uma Copa do Mundo, Maurício Pereira não esconde sua paixão pelo futebol e dedica uma faixa inteira de seu Outono no Sudeste, que será lançado ainda este mês, ao belo jogo. “Eu adoro futebol”, me escreve o Pereirão. “Mas o futebol como ele é hoje, veloz, racional, às vezes me enche um pouco o saco. Não sou nostálgico, mas sinto falta de um pouco de fuleiragem, sonho, molecagem.”

“Então um dia – um pouco antes do famoso 7 a 1 – catei um groove do Tonho Penhasco e viajei em cima dele. Pensei no Tião, parceiro clássico do Rivelino no meio campo do Corinthians. Bola no chão, olhar no infinito, cadência, respiro. No arranjo, um toque precioso do Gustavo: a bateria do Biel (Basile) e o baixo do Henrique (Alves) é que iam conduzir o groove, deixando espaço vazio pra a conversa do piano do Pedro (Montagnana) com o violão do Tonho. Nos coros, novamente os Pereirinhas (os filhos de Maurício: Tim, Chico e Manuela) – e de quebra ainda matei a vontade de fazer uma locução de futebol nos moldes do mestre Fiori Gigliotti.”

Ele mostra a futebolística “Quatro Dois Quatro” em primeira mão no Trabalho Sujo – e a ação nas quatro linhas é só mais uma canção que usa o futebol como metáfora para a vida em versos como “buscar o espaço, se apresentar”, “levantar a cabeça e imaginar”, “sentir que tudo tem seu tempo”, “coração é o nosso escudo e um par de asas, o único peso que devemos carregar”, “beber com o inimigo”, “atirar todo o dinheiro pela janela e depois sair correndo atrás dele feito louco”, “perder o medo de perder”, “bola pra frente, sem nostalgia nenhuma”, entre outras pérolas líricas.

O disco foi produzido por Gustavo Ruiz – sugerido por seu filho Tim – e ainda conta com parcerias de Maurício com Skowa, Edson Natale, Lu Horta (a já lançada “Mulheres de Bengalas“) e Arthur de Faria. Eis a capa (da artista plástica Biba Rigo) e a ordem das músicas do novo disco:

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“A Mais (Rubião Blues)”
“Tudo Tinha Ruído”
“Cartas Pra Ti”
“Florida”
“Os Amigos ou O Coração é Um Órgão”
“Mulheres de Bengalas”
“Outono no Sudeste”
“Não Me Incommodity”
“Piquenique no Horto”
“Quatro Dois Quatro”
“Maldita Rodoviária”
“Uma Pedra”

Tulipa 2017: “A tecnologia mais de ponta é o ser humano”

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Encontrei com os irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz na véspera do lançamento de seu novo disco, batizado apenas como Tu, e eles ainda estavam decidindo questões de última hora. Tulipa me mostrava a capa recém-mudada do disco (“sem as bolinhas”, dizia lembrando da versão anterior) enquanto Gustavo se orgulhava da contracapa que havia acabado de ser fechada, bem como o lançamento físico do disco. Entendo errado e pergunto se havia entrado uma versão de “Físico”, um dos carros-chefes do disco mais recente, Dancê, de última hora no disco, mas eles falavam do lançamento em CD. “Ia ser só digital, mas as pessoas começaram a pedir o CD, então a gente resolveu fazer CD”, emenda a cantora. Me espanto com o “só digital” e eles entendem na hora: “Não, vinil a gente sempre vai querer fazer”, respondem quase juntos e rindo, concordando.

Os dois são uma unidade de trabalho, que dividiu-se em duas metades por questões práticas: uma delas expande-se protagonista, a outra retrai-se coadjuvante. Mas são o mesmo ser, a divisão é natural: Tulipa foi para os holofotes e Gustavo manteve-se coautor, músico e, principalmente, produtor. A união torna-se evidente a partir do próprio conceito do novo disco, que apesar de ser batizado a partir do apelido de Tulipa, também fala da parceria ao ser nomeado como o pronome da segunda pessoa e também com a sonoridade de dois, em inglês.

Tu é um disco a dois, apenas de voz e violão. “Ia ser um disco de releituras com as minhas zonas de conforto, mas o processo levou a gente pra outro lugar”, explica Tulipa, que conta que este formato em dupla com o irmão no violão vem sendo testado desde o início de suas apresentações, antes do lançamento de seu primeiro disco, em 2010. “Principalmente quando íamos para o exterior”, completa Gustavo.

“No ano passado a gente fez bastante esse formato, que eu chamo de ‘nude'”, conta Tulipa, a partir de variações da banda que a acompanhou no lançamento de seu terceiro disco, Dancê, de 2015. “Tínhamos três formatos, o full, com a metaleira, o redux, só com a banda, e o nude. E a gente começou a fazer muito show nesse formato e as músicas foram ficando diferentes, maduras ao mesmo tempo em que elas voltavam a ser como elas já tinham sido, voltando pra sua essência, que era quando compúnhamos a dois. Ficamos com a vontade de gravar esse disco, tirar uma foto desse momento.”

TU2017

“Nossa intenção era gravar isso no México, que a gente tem ido com frequência, e lançar um disco ao vivo num teatro”, continua Gustavo. Mas um terceiro elemento entrou na equação e ajudou a mexer no destino daquele disco, que ainda era uma ideia.

“Desde quando fazíamos esse formato na época do Efêmera (seu primeiro disco), o Stepháne (San Juan, cantor, compositor e percussionista) falou que queria gravar a gente daquele jeito. Ele sempre esteve muito próximo da gente nos três discos, dando pitacos inclusive além da música, na arte. E ele sempre nos lembrava que esse formato era muito forte e aos poucos íamos percebendo isso, que ele tem uma força que chega mais perto do que com a banda, nas letras, na melodia”, lembra a cantora. “Daí o encontramos esse ano e ele está numa ponte Rio de Janeiro-Nova York porque agora ele é percussionista da banda do Bernard Purdie (um dos bateristas de James Brown) e ele tá nesse trânsito, terminando o disco dele com o Scotty Hard (produtor nova-iorquino que já trabalhou com a Nação Zumbi e Mamelo Sound Sytem). E, durante um almoço ele nos falou sobre isso e falou sobre gravar nesse formato, da conexão com o Scotty e, de repente, ‘por que a gente não grava nós três?'”

Os irmãos assentiram na hora – e estamos falando de agosto deste ano, três meses atrás. “Eu só começo a pensar em disco novo depois que acaba a turnê”, lembra Tulipa, explicando que a turnê do Dancê ainda tem shows marcados pra fevereiro do ano que vem. “E de repente aconteceu isso de um disco novo aparecer enquanto o outro disco ainda não tinha acabado. E no ano que vem eu quero gravar disco com banda de novo, por isso se a gente não gravasse aquilo ali, na hora, o momento ia passar. Era um negócio 1-2-3 e já, grava agora, lança agora. Porque depois pode ser que nem faça mais sentido.” Ela também gostou de ter anunciado um disco de surpresa, sem criar expectativas ou publicar foto que é o primeiro dia de gravação. “Isso parece que faz as pessoas cansarem do disco antes de ele sair. Eu mesmo canso!”

Mas o disco acabou ganhando outros contornos. “Achei que fosse ser um disco intermediário, um projeto intermediário só de releituras entre dois discos de inéditas, mas aos poucos ele foi ganhando corpo de quarto disco”, explica, enquanto lembra que, na semana anterior à ida para Nova York, ela e Gustavo compuseram cinco novas músicas. “Elas surgiram ainda aqui, na semana que a gente ia viajar” e lembra como compuseram a música em espanhol “Terrorista del Amor” durante um paad-thai oferecido por Ava Rocha em sua casa, que contou com a presença de Saulo Duarte e da fotógrafa Paola Alfamor.

“A gente tinha um monte de música a mais que íamos gravar, mas elas foram caindo. E também culpa desse 2017 transformador e difícil, que pautou muito a gente e ajudou a definir os critérios pra entender quais músicas que estariam no disco. Por conta desse momento difícil e conservador eu sabia que tinha que cantar ‘Pedrinho’ e ‘Desinibida’ de novo, que aliás são as mesmas pessoas, só que em corpos diferentes. Eu preciso me cercar desses personagens, ter eles do meu lado. A mesma coisa ‘Dois Cafés’ e ‘Algo Maior’, que têm coisas que a gente precisa dizer novamente.”

Esta última, gravada com o Metá Metá no finzinho de Dancê, nunca foi tocada ao vivo, à exceção de uma única apresentação, no Loki Bicho, quando os irmãos tocavam neste formato. “A Juçara (Marçal, do Metá Metá) estava lá e eu chamei ela na hora. E foi tão bonito, eu tava com dúvida na letra, postei a letra no Instagram e todo mundo cantou junto. Ela é uma espécie de mantra que é importante repetir, repetir, repetir…”

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A entrada de Stepháne no novo disco, gravado no estúdio de Scotty no Brooklyn nova-iorquino, foi crucial para enxugar ainda mais as gravações. “É um disco falso simples”, continua Tulipa. “Ele só tem uma voz, sem coro, e eu adoro cantar coro. Ele só tem um violão. É muita síntese. A gente criou uma série de regras e ficou meio assustado, mas ficou assim, desse jeito, e o Stepháne foi muito importante nisso, pra me fazer achar uma voz, um jeito mais flat de cantar”. Só há overdubs de percussão em todo o disco e a única participação externa do disco é a de Adan Jodorowsky, filho do mago cineasta Alejandro, que Tulipa conheceu em duas oportunidades no México, num festival de literatura e outro de cinema, sempre recebendo homenagens pelo pai. Ao gravar em espanhol, ela queria entrar no idioma com um anfitrião nativo, para não parecer intrometida, e a sugestão do nome de Adan também surgiu às vésperas da gravação. E ao conectar Adan a uma música composta com Ava, ela não deixa de notar a conexão entre os pais cineastas, ambos românticos idealistas de outra época – “terroristas del amor”, afinal.

“O disco também vem de uma necessidade de fazer as coisas de um jeito mais simples. Precisei fazer um disco olho no olho, com o máximo de verdade e amor. A gente tá cansado, o colesterol tá alto nas hipernarrativas de tudo, as produções são todas megalomaníacas, e a linguagem, que é o básico, sempre fica por último”, continua a cantora. “Tu vem dessa necessidade de, no simples, ser muito legal. Nossa tecnologia mais de ponta é o humano”.

Tu já tem shows agendados para esse ano no Rio de Janeiro (dia 21 de novembro no Teatro Net), em São Lourenço (cidade mineira onde os dois foram criados, dia 8 de dezembro, em praça pública) e em São Paulo (no Sesc Pinheiros, dias 9 e 10 de dezembro) e no ano que vem em Salvador (no Teatro Castro Alves, dia 26 de janeiro) e no Psicodália (festival em Rio Negrinho, Santa Catarina, dia 13 de fevereiro).

Tulipa Ruiz chega chegando

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Tulipa Ruiz foi pra Nova York e de lá voltou com um disco: Tu foi anunciado sem aviso e sai agora em novembro, antecipado pela faixa “Game”, que brinca com a sonoridade das palavras e seus sentidos. A música foi composta ao lado do parceiro de sempre, o irmão Gustavo Ruiz, e produzida por um novo integrante na trupe, o percussionista Stéphane San Juan, que, como Gustavo, toca e assina a produção da faixa, gravada no estúdio do produtor Scotty Hard, no Brooklyn nova-iorquino.

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A faixa segue a vibe astral de seu disco mais recente, Dancê, de 2015, mas há menos cores (como sugere a arte do single) e um tom mais sério, mesmo que de brincadeira.

Resta saber o que mais vem por aí…

Tudo Tanto #30: Lanny Total

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Outra coluna da Caros Amigos atualizada por aqui – esta da edição do mês de março, sobre o incrível show em homenagem ao mestre Lanny Gordin. Abaixo, os vídeos que fiz desse show:

Reverência ao mágico
Guilherme Held, Tulipa e Gustavo Ruiz reúnem ícones do pop brasileiro para saudar a importância do guitarrista Lanny Gordin

O que une “Chocolate” de Tim Maia a “Kabaluerê” de Antônio Carlos e Jocafi? Os discos Expresso 2222 de Gilberto Gil e o primeiro disco de Jards Macalé? “Atrás do Trio Elétrico” e “Não Identificado”? Além de ícones da música brasileira, todos eles contaram com o toque elétrico de um dos grandes instrumentistas brasileiros, o guitarrista Lanny Gordin. Comumente referido como “o Jimi Hendrix da Tropicália”, Lanny, felizmente, é muito mais do que isso. Mas, infelizmente, como a maioria dos músicos no Brasil, não tem o reconhecimento público de sua importância, o que inevitavelmente se traduz em condições financeiras. E a aposentadoria do músico – quando ela acontece – quase sempre é precária, devido a inúmeros percalços da prática que não se enquadram exatamente nas leis trabalhistas. Se o artista já anda na corda bamba entre o prazer e a remuneração, a arte e o comércio, o músico é quem mais sofre nesta dicotomia, quase sempre a linha de frente desta batalha.

Lanny não é reconhecido como compositor, mas por sua personalidade musical. O timbre elétrico rasgado até poderia ser característico dos grandes guitarristas de sua geração, mas Lanny o temperava com música brasileira, música erudita, free jazz e músicas do leste europeu, o que torna o título que o compara ao grande guitarrista da história do rock limitado. Enquanto Hendrix buscava as profundezas do blues de forma vertiginosa, Lanny ampliava o horizonte de sua paleta, mais próximo de um guitarrista de jazz do que de rock. Mais do que o timbre gritado ou os voos audazes que o músico fazia pelas cordas de seu instrumento, era o fraseado pontual, solos transformados em melodias (e vice-versa), riffs que praticamente abriam um diálogo com o resto da canção. Era uma voz presente que, uma vez percebida, torna-se uma das assinaturas musicais mais importantes daquele período, entre os anos 60 e 70, da música brasileira.

Um de seus discípulos, o guitarrista Guilherme Held, resolveu mexer-se para consertar esta falha da história. Em vez de esperar o reconhecimento póstumo que é caracteristicamente reservado a grandes artistas que morrem no ostracismo, o jovem músico começou a pensar numa homenagem em vida ao músico com quem morou junto em dois endereços diferentes – na Vila Mariana e em Perdizes -, além de ter tido uma banda com o mestre, no início do século.

A homenagem contou com a adesão imediata de outro discípulo ferrenho, o também guitarrista Gustavo Ruiz, irmão da cantora Tulipa Ruiz, e responsável pela presença do próprio Lanny no disco mais recente da irmã, Dancê, de 2015, produzido por Gustavo. É de Lanny o solo de “Expirou”, registro mais recente do guitarrista até agora, que está impossibilitado de tocar devido a problemas de saúde. Gustavo chamou a irmã de bate-pronto e em menos de um mês, os três levantaram o show Lanny Total, a homenagem hiperbólica que o músico merecia.

A vida de Lanny Total começou em um show na antiga choperia do Sesc Pompeia – que agora chama-se de Comedoria – que aconteceu em duas noites. Só a banda base já era de arregalar os olhos: Guilherme e Gustavo cada um com uma guitarra, Fábio Sá no baixo, Sérgio Machado na guitarra, Pepe Cisneros nos teclados, José Aurélio (que foi da banda de Lanny e Held, Projeto Alfa, no início da década passada) e Maurício Badé na percussão, além dos metais que incluíam Thiago França (sax alto e barítono), Amilcar Rodrigues (trompete e flugel), Filipe Nader (sax alto e barítono) e Allan Abbadia (trombone). Além destes subiram no palco Chico César, Mariana Aydar, Negro Leo, Péricles Cavalcanti, Rômulo Fróes, o irmão de Lanny Tony Gordin e Tulipa Ruiz, acompanhados também por Arnaldo Antunes, o hermano Rodrigo Amarante e Edgard Scandurra no primeiro show – o que assisti – e Heraldo do Monte, Juçara Marçal e Kiko Dinucci, no segundo. A discotecagem de abertura ficou por conta do DJ Nuts, um dos maiores especialistas em música brasileira do país, e a apresentação da banda a cargo do apresentador Luiz Thunderbird, além de uma performance do artista Aguillar.

No repertório, uma aula de psicodelia brasileira: “Back in Bahia” de Gilberto Gil, “Eu Vou Me Salvar” de Rita Lee, a versão que Caetano fez de “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo” de Monsueto em seu Araçá Azul e várias de Gal Costa, de quem Lanny era uma espécie de arma secreta durante sua fase de ouro – “Hotel das Estrelas”, “Não Identificado” e “Love ,Try and Die”, além de composições de Lanny com os novos músicos, como “O Peixinho Triste” com Rômulo Fróes, “Evaporar” com Rodrigo Amarante e a já citada “Expirou” de Tulipa Ruiz.

Mas a descrição do espetáculo não chega próximo da intensidade do sentimento. Mais do que celebrar a personalidade de um músico ímpar, o que acontecia naquele palco era uma conexão intensa com a música em si. Todos os envolvidos canalizados e conectados tanto com a musa – entidade maior que parece magnetizar músicos e espectadores – como entre si. A catarse mútua do rompante dionísico da canção de Monsueto transformava Scandurra, Arnaldo, Rômulo, Péricles e Amarante numa mesma voz. Tulipa e Mariana Aydar canalizavam a energia mais roqueira de Rita Lee e a mesma Tulipa hipnotizava o público num dueto jazzy com Negro Leo. O público se esbaldava extasiado com aquele delírio coletivo. A impressão que dava era que todo mundo ia sair se abraçando.

A última música – “Chocolate”, de Tim Maia – foi cantada por todos os convidados inclusive por um Criolo penetra, que não havia sido escalado oficialmente mas deixou-se levar pela força da música. Todos com seus maiores sorrisos, surfando na onda boa que o mestre guitarrista provocou há décadas. E agora o show pode ir para outros palcos e outras praças, tornando mais gente consciente da importância deste músico mágico.

The Copan Connection: Bixiga 70 inna dub style

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Em comemoração ao Record Store Day, o grupo Bixiga 70 entregou algumas faixas de seu terceiro disco, lançado no ano passado, ao produtor Victor Rice para que ele desse aquele tratamento especial característicos de seus dubs. O resultado é o disco The Copan Connection, que será lançado neste sábado, na loja Patuá Discos, em tiragem limitada em vinil. A capa foi feita pelO MZK, que assina todas as capas do grupo, e que também estará discotecando no lançamento, que começa às 15h e vai até à noite. Além do Zk, também discotecam Magrão, Ramiro Z (da Patuá), Peba Tropikal e Maurício Fleury (do Veneno Soundsystem – e Maurício é tecladista e guitarrista do Bixiga). O evento é de graça e a Patuá fica na Rua Fidalga, 516, Vila Madalena (mais infos no 11-2306-1647). Ouça abaixo a versão que Rice fez para a faixa “Machado”.

E aproveito pra linkar os vídeos que fiz do Baile do Bixiga, no final do mês passado, quando o grupo apresentou-se do lado da Tulipa Ruiz e de seu irmão Gustavo. Foi quente!