Reprogramando o cérebro para andar de bicicleta

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Destin Sandlin, do Smarter Everyday, aceitou o desafio de aprender a dirigir uma bicicleta com o guidão invertido, que vai para a direita quando você vira para a esquerda e vice-versa, apenas para mostrar que andar de bicicleta é um algoritmo implantado no cérebro que não necessariamente nos explica como andar de bicicleta. Veja só.

A cor que eu chamo de vermelho é igual à cor que você chama de vermelho?

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Uma velha pergunta que toda criança já se fez segue sem resposta – e está associada à chamada “teoria da mente”. Já ouviu falar disso?

Galileu – Abril de 2013

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A edição deste mês da revista Galileu traz na capa uma matéria do repórter Rafael Tonon sobre como o que chamamos de livre-arbítrio talvez possa não existir, hipótese cogitada por três livros que estudam o comportamento biológico do cérebro humano. Há também o dossiê sobre o futuro da indústria do tabaco, uma matéria sobre como o TED conseguiu espalhar-se pelo mundo usando o formato TEDx, outra sobre o sucesso do grupo Porta dos Fundos na internet, a entrevista que fiz com o filósofo Slavoj Žižek em sua passagem pelo Brasil, um infográfico que disseca o trabalho escravo no Brasil e uma matéria sobre porque escovar os dentes faz bem para todo o corpo, não só para a boca. Abaixo, a Carta ao Leitor que escrevi na edição deste mês.

Coincidências

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REVISTA EM MÃOS: Žižek folheia a edição do mês passado após entrevista realizada pelo diretor de redação Alexandre Matias

Uma das melhores coisas de se trabalhar numa publicação como a GALILEU é constatar a amplitude dos temas abordados. À medida que vamos pensando em diferentes pautas e matérias — seja na versão impressa ou no site —, nos damos conta de que qualquer tema pode ser abordado por nós, desde que dentro da ótica da ciência e do conhecimento, nossas principais bandeiras. E, justamente por isso, é curioso perceber como, mesmo falando de temas tão amplos e distantes entre si, alguns assuntos acabam se interconectando.

A edição deste mês reuniu uma série destas coincidências. Fui entrevistar o filósofo esloveno Slavoj Žižek, que veio a São Paulo participar de um seminário sobre marxismo, mas queria ouvi-lo falar sobre ciência e tecnologia, e, sem que eu perguntasse nada que pudesse remetê-lo ao tema, em pouco tempo ele começou a falar sobre a conexão entre homens e máquinas e como ela acaba questionando nossa noção de livre-arbítrio, colocando em xeque até mesmo a possibilidade de não ser o nosso consciente quem decide as escolhas que fazemos em nosso dia a dia. Justamente o tema da capa desta edição.

A matéria, escrita pelo colaborador Rafael Tonon, foi conduzida por Priscilla Santos, uma das editoras da revista, que também tomou conta de outra grande matéria desta edição, a tradução que fizemos da reportagem que a revista norte–americana Wired fez sobre o sucesso dos chamados TEDx. Essas conferências-satélite são filhotes do evento-mãe TED (acrônimo para Tecnologia Entretenimento e Design), que acontece há décadas nos EUA, mas que desde 2006 começou a se espalhar: primeiro via web, com íntegras de suas curtas palestras em vídeo, e depois para o mundo offline, por meio dessas franquias que se espalharam por todo o planeta — inclusive por aqui. E aí outra coincidência da edição: o marido de Priscilla, Helder Araújo, não só assiste há seis anos as conferências originais nos EUA como também ajudou a organizar o primeiro TEDx no Brasil, em São Paulo, além do TEDx na Amazônia. Assim, foi inevitável o chamarmos para dar um depoimento que daria um sabor pessoal e brasileiro à matéria estrangeira.

Aproveito a deixa da colaboração do casal na revista para parabenizá-los em público por outra colaboração dos dois, já que em breve serão pais. Congratulações a eles.

Esta edição também é a última que conta com a participação do editor Diogo Sponchiato, que deixou o Jaguaré rumo aos velhos “novos desafios”. Boa sorte, Diogo!

Por aqui, seguimos mudando. Sempre, afinal, as novidades não param. Vamos lá!

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Impressão digital #114: Chip no cérebro

Na edição de segunda do Link, falei da relação entre os óculos do Google e a nova série de Bryan Singer, H+

O dia em que iremos usar chips implantados no cérebro
Do Google Glasses à nova série de Bryan Singer

Há três semanas, o Google mostrou que tem anos de vida pela frente ao desvendar, entre suas novidades, sua linha de hardware. O tablet Nexus 7 já era especulado. E a central de mídia Nexus Q, por mais diferente que fosse seu design esférico, é um hub digital como muitos que já existem no mercado.

O Google Glass apareceu na cara de Sergey Brin e o cofundador do Google explicou que abriria a geringonça para os desenvolvedores que quisessem criar ferramentas para aprimorar seu uso. De fora, os óculos parecem diferentões – fazem as vezes de câmera, computador e monitor. Dá para filmar sem usar as mãos, além de obter informações, na própria “lente”, sobre o que se vê através dos óculos. No futuro, usando o Google Glass, você olharia para uma rua qualquer e, pela parte de dentro das “lentes”, seria possível identificar os estabelecimentos sem sequer ler as suas fachadas.

Imagine este futuro próximo cheio de pessoas usando óculos que permitem que elas se comuniquem sem falar ou usar as mãos; que façam buscas online só com o olhar; que filmem e tirem fotos sem que se mexam. Quem reclama da onipresença e do vício de duas ou mais gerações de telefones celulares tem motivos de sobra para se preocupar com esse futuro. Que, inevitavelmente, nos leva à assustadora profecia em que chips serão instalados nas pessoas.

Profecia literalmente apocalíptica: “E fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas / Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome”, é o que diz o Apocalipse de São João, no capítulo 13, versículos 16 e 17.

O detalhe que não foi lembrado na apresentação do Google Glass é que tanto Brin quanto o outro fundador da empresa, Larry Page, já haviam cogitado uma versão ainda mais sinistra destes óculos ao jornalista Steven Levy, que escreveu um dos livros-chave sobre a ascensão do Google, In the Plex, que ainda não foi lançado no Brasil.

“Isto será colocado dentro do cérebro das pessoas”, disse Page. “Quando você pensar em algo e não souber muito sobre aquilo, você receberá mais informações automaticamente.” “É verdade”, continuou Brin, “no final, vejo o Google como uma forma de acrescentar o conhecimento do mundo ao seu cérebro. Hoje você liga o computador e digita uma frase, mas dá para imaginar como isso será mais fácil de fazer no futuro quando tivermos dispositivos acionados pela voz ou computadores que prestam atenção no que acontece ao redor deles.” Page completa. “No fim, teremos um implante em que basta você pensar em algo para que ele lhe traga a resposta.”

Assustador é pouco. (Mas pode ser que haja um certo medo reacionário em relação ao novo, ativado por nosso cérebro reptiliano, que só pensa em atacar ou fugir.) Ao mesmo tempo, parece encantadora a ideia de não precisar de um smartphone para consultar os horários do cinema mais próximo ou ligar o computador para checar a grafia de um sobrenome estrangeiro. O problema não está na nossa aparentemente inevitável evolução ciborgue, mas no fato de que esta tecnologia, maravilhosa na teoria, pode dar errado na prática.

É a premissa do seriado H+, do diretor Bryan Singer (o mesmo de Os Suspeitos e dos primeiros X-Men). Um futuro próximo em que as pessoas implantam um chip na nuca que as permitem viajar por mundos virtuais sem que isso seja percebido como uma não-realidade. Na série, que estreia em agosto e apenas na web, um vírus infecta a rede e as pessoas que possuem o chip implantado simplesmente morrem.

Mas há outra opção: a de nos atermos tanto aos mundos virtuais que nem sequer fazemos mais distinção entre o que é realidade e o que não é.

Parece radical? Sim. Mas não é preciso esperar os chips chegarem. Afinal, muitos já usam a internet como uma forma de se descolar da realidade. O problema, como sempre, não é a tecnologia, mas o que fazemos com ela.

Miguel Nicolelis e eu

Conversei com o cientista mais importante do Brasil hoje pra capa da edição do Link dessa segunda:

‘Ninguém associa ciência com soberania nacional’
O neurocientista Miguel Nicolelis fala com exclusividade ao Link sobre a próxima etapa de seu projeto para transformar a criação de um exoesqueleto robótico em um programa de educação e saúde para estimular o desenvolvimento tecnológico e científico do País

“A renúncia a um investimento maciço de formação de um corpo de cientistas e de atuação em diferentes áreas – tecnologia de informação, microengenharia, biomedicina, nanotecnologia, engenharia biomédica… – é uma renúncia à soberania do País.”

Miguel Nicolelis, um dos cientistas mais importantes do Brasil, é enfático sem se exaltar. Mesmo quando fala do Palmeiras – uma de suas paixões, que havia perdido de virada para o arquirrival Corinthians no dia anterior à entrevista, realizada no bairro de Higienópolis há uma semana –, ele mantém a calma e a clareza características de quando expõe suas ideias. Até quando reclama de como seu time achou que o jogo estivesse ganho no intervalo do clássico.

Futebol à parte, a conversa foi sobre outras duas paixões: ciência e educação. E ele conta, com exclusividade ao Link, mais um passo de seu projeto Câmpus do Cérebro – o início de uma parceria entre o Hospital Sabará, de São Paulo. “Com a abertura da Escola do Câmpus do Cérebro, no ano que vem, vamos poder fechar o ciclo completo, unindo o Centro de Saúde Anita Garibaldi à escola”, explica.

Ele se refere ao trabalho que iniciou há seis anos no Rio Grande do Norte, que começa pelo tratamento de mulheres grávidas no Centro de Saúde (e que reduziu a mortalidade materna da região de Natal e Macaíba a zero) para garantir que os futuros alunos de sua escola possam ser acompanhados desde antes do nascimento. “As crianças que nascem lá já são alunas da escola no pré-natal. Depois elas entram no berçário e seguem estudando em período integral até o ensino médio”, diz.

José Luiz Setúbal, presidente da Fundação Hospital Sabará e responsável pela aproximação do hospital a Nicolelis, explica que a parceria começa com a troca de experiências em saúde materna e de recém-nascidos, mas Nicolelis frisa que não deve parar por aí. “Estamos discutindo a possibilidade de evoluirmos a relação para uma parceria clínica.” O que, na prática, significaria que o hospital paulistano é candidato a ser o primeiro lugar em que o projeto dos sonhos de Nicolelis, o Walk Again, possa ser testado em humanos.

Andar de novo. Walk Again é o projeto de criar um exoesqueleto robótico controlado pelo cérebro. O grande sonho de Nicolelis é fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial no primeiro jogo da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, como disse em entrevista ao Link no ano passado. “Testamos um protótipo nesta semana que são pernas mecânicas. Vestimos um macaco e elas se mexeram, não com o pensamento, mas com um programa de computador”, explica. “O próximo passo é anestesiar a medula espinhal do macaco, para, finalmente, testarmos se a veste consegue fazer movimentos. Faremos isso até o meio do ano. E, mais ou menos no ano que vem, nesta época, já estaremos trabalhando com pacientes em potencial. Mas isso ainda está em fase de discussão.”

Mas o Walk Again não é um fim em si mesmo. Nicolelis o compara ao programa espacial norte-americano, que estabeleceu a meta de levar o homem à Lua, mas que, no processo, alavancou outras tecnologias que surgiram durante a pesquisa. “Há várias aplicações que surgem desta meta, que chamamos de ‘spinoffs’. Até mesmo para entretenimento, como o videogame. Quando os executivos da indústria de games veem um macaquinho imerso num mundo virtual jogando videogame com a mente, eles veem o futuro.”

E antecipa, sem entregar: “Eu não posso contar agora, mas estamos perto de divulgar três novas ideias que ninguém nunca tinha tido – e que não tínhamos a menor ideia que iriam acontecer. As grandes descobertas são acidentes. Na hora em que a gente estava fazendo um experimento com macacos, vimos isso e pensamos ‘não é possível’… Essas novas ideias são tão fora do esquadro que quando a gente publicar as pessoas vão achar que estão num filme de ficção científica.”

Mas Nicolelis quer menos ficção e mais ciência. E reforça a importância do Walk Again em seu projeto científico-educacional. “O Walk Again é a semente de uma nova indústria no Brasil, a da tecnologia de reabilitação. Gostaríamos de usar o Walk Again como projeto-âncora para lançá-la aqui no Brasil com a construção da infraestrutura do parque neurotecnológico do Câmpus do Cérebro”, diz.

O projeto visa criar uma geração de cientistas no Brasil para tratar futuros alunos no pré-natal e ensinar ciência, na prática, numa escola de período integral. “Nossa abordagem de ensino de ciência é prática. As crianças aprendem a lei de Ohm descobrindo como funciona um chuveiro. E contratamos nossos ex-alunos para trabalhar conosco. Na prática, estamos pegando crianças que nunca tiveram contato com ciência, colocando-as em um programa de educação e em cinco anos elas estão trabalhando em um laboratório de ponta. E são crianças que, até os 10 anos, não tiveram oportunidades. Imagina quando pegarmos as crianças que tiveram um pré-natal ótimo…”

Isso tudo é para reverter o quadro científico brasileiro. “Nossa situação é dramática. O déficit de engenheiros que o Brasil tem é gigantesco. E esse é um assunto estratégico. A indústria deste século, sem dúvida, é a do conhecimento e estamos em grande desvantagem. Se não acordarmos agora, não precisamos mais acordar. A janela de oportunidade está se fechando – e rápido.”

Contudo, o neurocientista é otimista. “As coisas estão mudando. Esta nossa conversa seria impossível há dez anos. O governo federal está ouvindo. Presido uma comissão – a Comissão do Futuro – que está preparando um relatório para mostrar todos os indicadores internacionais sobre a verdadeira situação do ensino de ciência e da produção científica brasileira. O relatório deve ficar pronto em junho.”

E conclui: “Meu intuito diz respeito à criação de uma nova geração de brasileiros. Produzindo não apenas cidadãos – muito mais felizes, engajados, competentes – mas também engenheiros, médicos, cientistas, professores… Pessoas que têm outra visão de mundo. E de Brasil.”

Todos os sentidos de Oliver Sacks

O legal dessa série de relançamentos dos livros clássicos do Oliver Sacks é quando você junta as seis capas

4:20

“O cérebro acredita no que ele quer acreditar”

No Wall Street Journal:

Michael Shermer, the founder and editor of Skeptic magazine, has never received so many angry letters as when he wrote a column for Scientific American debunking 9/11 conspiracy theories. Mr. Shermer found himself vilified, often in CAPITAL LETTERS, as a patsy of the sinister Zionist cabal that deliberately destroyed the twin towers and blew a hole in the Pentagon while secretly killing off the passengers of the flights that disappeared, just to make the thing look more plausible.

He tells this story in his fascinating new book, “The Believing Brain.” In Mr. Shermer’s view, the brain is a belief engine, predisposed to see patterns where none exist and to attribute them to knowing agents rather than to chance—the better to make sense of the world. Then, having formed a belief, each of us tends to seek out evidence that confirms it, thus reinforcing the belief.

This is why, on the foundation of some tiny flaw in the evidence—the supposed lack of roof holes to admit poison-gas cans in one of the Auschwitz-Birkenau gas chambers for Holocaust deniers, the expectant faces on the grassy knoll for JFK plotters, the melting point of steel for 9/11 truthers—we go on to build a great edifice of mistaken conviction.

I say “we” because, after reading Mr. Shermer’s book and others like it, my uneasy conclusion is that we all do this, even when we think we do not. It’s not a peculiarity of the uneducated or the fanatical. We do it in our political allegiances, in our religious faith, even in our championing of scientific theories. And if we all do it, then how do we know that our own rational rejections of conspiracy theories are not themselves infected with beliefs so strong that they are, in effect, conspiracy theories, too?

Continua .

O último Link antes das férias

Saí oficialmente de férias no sábado passado, mas só desligo o Trabalho Sujo na quinta-feira, quando estarei embarcando rumo ao Reino Unido lá pelas 16:20. Enquanto isso, tiro minha onda com o caderno dessa semana, seguindo o mantra “it’s getting better all the time”. A matéria de capa, sobre o tal dinheiro virtual chamado BitCoin, foi assinada pelo Filipe e contou com a diagramação do Thiago (cadê o Flickr, porra?) e o infográfico do Asta. Na outra grande matéria da edição, ainda traduzimos um artigo do New York Review of Books que conecta três livros diferentes, todos os três abordando a fusão iminente do cérebro com a internet. A arte é do Jairo. A edição ainda traz uma análise do David Pogue sobre o problema de capacidade de banda que a tal “computação em nuvem” (ele também tem birra com o rótulo) pode enfrentar daqui a pouco, uma matéria da Carla sobre o tal Lulz Sec (uma mistura de Anonymous com 4chan) e um perfil que a Tati fez com o diretor do vídeo Copyright Cops, que vale um post à parte. E assim me despeço do caderno até a edição do dia 18 de julho. Até lá o barco do Link tá nas melhores mãos possíveis – da minha querida co-pilota Helô. Guentaê, Helô, já volto, pira não.

Link – 20 de junho de 2011

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