Slavoj Zizek @ OccupyWallStreet

Ouça o que ele tem a dizer (e, de novo, se alguém se dispuser a traduzir, reproduzo aqui) e agradeça a tradução feita pela Mariana, pelo Fred e pelo Daniel. Valeu mesmo, guys:

[…] “[Eles estão dizendo] que nós somos perdedores, mas os verdadeiros perdedores estão lá em Wall Street. Eles foram afiançados por bilhões do nosso dinheiro. Nós somos chamados de socialistas, entretanto, aqui há, de fato, socialismo – para o rico. Eles dizem que nós não respeitamos a propriedade privada. Mas na crise de 2008, mais propriedades obtidas através de trabalho duro foram destruídas do que todos nós estamos estamos aqui para destruir, noite e dia, por semanas. Eles te dizem que nós somos sonhadores; os verdadeiros sonhadores são aqueles que pensam que as coisas podem ir adiante indefinidamente da forma em que estão. Nós não somos sonhadores; nós estamos acordando do sonho que está se transformando em pesadelo. Nós não estamos destruindo nada; nós estamos apenas testemunhando como o sistema destrói a si próprio. Nós todos sabemos [inaudível] de desenhos animados. O gato alcança o precipício, mas continua caminhando, ignorando o fato de que não há nada abaixo de seu chão. Só quando ele olha pra baixo e percebe isso, ele cai. Isso é o que nós estamos fazendo aqui. Nós estamos dizendo para os caras lá em Wall Street, ‘Hey, olhem pra baixo!’

[inaudível] “…Em 2011, o Governo Chinês proibiu, na TV, em filmes e novelas, todas as histórias [inaudível – algo sobre realidades alternativas ou viagem no tempo]. Esse é um bom sinal para a China; isso significa que as pessoas continuam a sonhar com alternativas, ainda que atacados e proibidos, continuam sonhando. Aqui nós não pensamos em proibições, porque [inaudível – “a história”?] oprimiu nossa capacidade de sonhar. Olhem para os filmes que nós vemos a todo o tempo. É fácil imaginar o fim do mundo – um asteróide destruindo toda a vida, e assim por diante – mas nós não podemos imaginar o fim do capitalismo. Então, o que é que estamos fazendo aqui? Deixe me contar a vocês uma velha piada, dos tempos do Comunismo. Um cara foi enviado para trabalhar no leste alemão, vindo da Sibéria. Ele sabia que suas cartas seriam lidas pelos censores, então ele disse a seus amigos: “Vamos estabelecer um código. Se a carta que eu enviar etiver escrita em caneta azul, é verdade o que eu digo; se estiver escrita em caneta vermelha, é falso.” Depois de um mês, seus amigos receberam a primeira carta. Tudo estava escrito em azul. Dizia a carta: “Tudo é maravilhoso aqui. As lojas estão cheias de boa comida, os cinemas passam bons filmes do oeste, os apartamentos são grandes e luxuosos. A única coisa que não se pode encontrar é uma caneta vermelha.” É assim que nós vivemos. Nós temos todas as liberdades que queremos, mas o que está nos faltando é uma caneta vermelha: a linguagem para articular nossa não-liberdade. A forma como somos ensinados a falar sobre liberdade, ‘guerra ao terror’, e assim por diante, falsifica a liberdade. E isso é o que vocês estão fazendo aqui: Vocês estão dando a todos nós uma caneta vermelha.

Há um perigo: Não se apaixonem por si mesmos. Nós temos um momento lindo aqui. Mas se lembrem: Carnavais vêm facilmente. O que importa é o dia seguinte, quando nós temos que retornar à vida normal. Haverá mudanças, então? Eu não quero me lembrar desses dias, você sabe, como ‘Oh, nós éramos jovens, aquilo foi lindo…’ Lembrem-se que a nossa mensagem básica é, ‘Nos é permitido pensar sobre alternativas’ Um tabu é quebrado. Nós não vivemos no melhor mundo possível. Mas ainda há uma longa estrada. Existem questões realmente difíceis, que nos confrontam. Nós sabemos o que nós não queremos, mas o que nós queremos? Que organização social pode substituir o capitalismo? Que tipo de novos líderes nós queremos? Lembram-se: O problema não é a corrupção ou a ganância; o problema é o sistema que te empurra para a corrupção. Tema não só os seus inimigos, mas também seus amigos que estão trabalhando para diluir esse processo, da mesma forma que você toma café sem cafeína, cerveja sem álcool, sorvete sem gordura. Eles tentarão transformar isso em um protesto moralmente inofensivo, um protesto descafeinado. Mas a razão pela qual nós estamos aqui é que nós temos o suficiente do mundo para reciclar garrafas de Coca Cola para dar dois dólares para caridade, ou comprar um capuccino da Starbucks, do qual 1% vai para as crianças famintas do Terceiro Mundo pra nos sentirmos bem. Depois da terceirização do trabalho e da tortura [inaudível – chama por “mic check”] …Nós podemos ver isso por um longo tempo, nós permitimos que nosso engajamento político também seja terceirizado. Nós o queremos de volta.

“Nós não somos Comunistas, se Comunismo significar o sistema que entrou em colapso em 1990. Lembrem-se que hoje, aqueles Comunistas são os mais eficientes, implacáveis capitalistas. Na China, hoje, nós temos um capitalismo que é ainda mais dinâmico que o seu capitalismo norte-americano, porém, não precisa de democracia, o que quer dizer, quando vocês criticam o capitalismo, não permitam que insinuem que vocês são “contra a democracia”. O casamento entre capitalismo e democracia acabou. Uma mudança é possível.”

“Agora, que nós consideramos possível hoje – apenas siga a mídia. Em uma mão há a tecnologia e a sexualidade – tudo parece ser possível. Você pode viajar para a Lua, você pode se tornar imortal pela biogenética, você pode ter sexo com animais, ou qualquer outra coisa. Mas olhem para o campo da economia – lá, quase tudo é considerado impossível. Você quer aumentar um pouco os impostos para os ricos, eles te dizem que é impossível. Nós perdemos competitividade. Você quer dinheiro pra cuidados com a saúde, eles te dizem “Impossível!” Isso significa um Estado Totalitário.’ Há algo errado com o mundo, onde lhe é prometido ser imortal, mas eles não podem gastar um pouco mais com a saúde? Talvez nós tenhamos que configurar nossas prioridades direito. Nós não queremos padrões de vida mais altos; nós queremos melhores padrões de vida. O único sentido no qual nós somos Comunistas é porque nós nos importamos com os comuns; os comuns da natureza, os comuns do que é privatizado pela propriedade intelectual dos biogeneticistas. Para isso, e só para isso, nós devemos lutar.

O Comunismo falhou em absoluto; mas os problemas dos comuns estão aqui. Eles estão nos dizendo que você não é americano aqui, mas os fundamentalistas conservadores, que se intitulam os ‘verdadeiros’ americanos têm de ser lembrados de algo: O que é Cristianismo? É o Espírito Santo. O que é o Espírito Santo? É uma comunidade igualitária de crentes, que são unidos pelo amor que tem uns pelos outros e só possuem sua liberdade e a responsabilidade de fazer isso. Nesse sentido, o Espírito Santo está aqui agora, e lá em Wall Street tem milhões [?] que estão adorando ídolos blasfêmicos. Então, tudo o que precisamos é de paciência.

“A única coisa da qual eu tenho medo é de que nós, algum dia, apenas voltaremos para nossas casas, e então nos encontrem uma vez por ano, bebamos cerveja e nostalgicamente lembremos o quão lindo foi o momento que vivemos aqui. Prometamos a nós mesmos, que isso não será perseguido. Vocês sabem que as pessoas frequentemente desejam algo, mas não querem aquilo de fato. Não tenham medo de querer aquilo que vocês desejam.”

A transcrição saiu daqui, de uma dica da Sereia.

Corações lisboetas

A querida Sereia se apaixonou por Lisboa (ah, Portugal…) e começou a ver coraçõesinhos por aí – mas não estava vendo coisas, apenas cruzou com um grafiteiro anônimo e romântico (todos não o são?) que distribuiu o emoticon apaixonado pelas paredes do pequerrucho bairro de Alfama, uma espécie de Vila Madalena/Santa Cecília lusitana – ou seja, divida qualquer possibilidade de agito por cem. Ela conta:

Em Lisboa, depois de uma febre catártica pós-réveillon _coisa de ferver aos 39,5 C_ consegui ficar de pé só no dia 4, quando o calor desceu da testa ao coração… Resolvi dar um simpático rolê pelas ruelas de Alfama, olhando o Tejo cada hora por um ângulo, sentindo o peso do 2010, procurando a espessura de um 2011 melhor. Coloquei no ipod a música-trilha oficial dessa viagem da qual não quero voltar (“San Solomon“, do Balmorhea) e me deixei perder toda melancólica nas úmidas vielinhas lisboetas, depois de uma sequência de dias desastrosos e especiais. Na hora exata do meu pensamento mais açucarado, um coração em stencil na parece de um jardim de infância. Achei auspicioso e marejei (EMO!) Uns vinte passos mais tarde, outro. Dessa vez eu ri… Em cinco minutos mais um e outro e outro… Mudei meu caminho, passei a seguir os stencils de coração espalhados pelos muros e paredes, achei mesmo que era a melhor coisa a fazer, rs. Acabei num mirante, fumei um cigarro, tomei um café, escrevi um poema e voltei pra casa. Na volta, me despedi do último coração, o da escada, que confirmou vários pensamentos. Pode parecer idiota e meloso demais, mas achei se tratar de um bom presságio, uma promessa boa. Só queria esquecer da volta, esquecer minha casa em SP, largar tudo, fugir de novo… Pra virar um azulejo português ou uma dessas pedras úmidas que forram o chão da cidade-caos que me deixou tão apaixonada.

Tunguei da Dani.

É TETRA!

Só mesmo a Sereia pra arrumar isso…