Bandersnatch não é a quinta temporada de Black Mirror

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Bandersnatch, o recém-lançado filme interativo do seriado distópico Black Mirror, não é o equivalente à quinta temporada da série e sim um aperitivo de como pode funcionar sua próxima safra de episódios, que serão lançados ainda em 2019, como confirmou o serviço Netflix à revista Ars Tecnica. Lançado de surpresa na última sexta-feira, o filme permite que se tome uma série de decisões diferentes à medida em que sua história vai se desenvolvendo.

Como os velhos jogos de RPG ou quadrinhos do Almanaque Disney, você tem diferentes finais a cada decisão diferente que você toma em relação ao personagem principal – mas é seu metarroteiro (que faz com que o espectador sinta-se tão preso a escolhas fixas e simplistas quanto o próprio protagonista do filme) que torna sua viagem tão eficaz – principalmente por colocar nos anos 80 o início desta realidade alternativa que tanto se parece com a nossa. Ao ser bem executado no longa metragem, este aspecto de jogo pode ser aplicado nos próximos episódios de Black Mirror, fazendo o seriado ir para um inusitado lado menos pessimista, que é o tom característico da série. “Estamos fazendo histórias e episódios mais otimistas, mais do que os distópicos e negativos”, disse o criador e produtor da série Charlie Brooker ao New York Times. “Queremos manter o programa interessante para nós”.

Não há mais nenhuma outra informação sobre a próxima temporada da série, mas a cantora pop Miley Cyrus já contou que participará de um episódio.

Black Mirror este mês

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A terceira temporada do seriado distópico inglês de Charlie Brooker estreia ainda em outubro no Netflix – assista ao trailer com trechos dos seis episódios inéditos lá no meu blog no UOL.

A série inglesa Black Mirror tem tudo para deixar 2016 ainda mais tenso – pois sua nova temporada chega com seis episódios simultaneamente pelo Netflix, ao contrário das duas anteriores (com três episódios cada), que foi espalhando-se lentamente pelo planeta. O trailer desta terceira temporada mostra flashes desses seis universos fictícios que flutuam entre a realidade digital de hoje e a ficção científica distópica de alguns anos adiante, imaginados pela equipe liderada pelo controverso Charlie Brooker.

E a série estreia este mês, dia 21.

É oficial: Netflix vai produzir Black Mirror

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Confirmado: a série do autor inglês Charlie Brooker terá 12 novos episódios bancados pelo serviço de vídeos online – mais detalhes lá no meu blog no UOL.

Black Mirror poderá ser produzida pelo Netflix

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Um dos melhores seriados de hoje em dia, o Além da Imaginação do século 21 pode ganhar um público ainda maior. Escrevi sobre isso lá no meu blog do UOL.

O Manifesto Neotroglodita de Jarvis Cocker

Escrevi sobre o Manifesto Neo-Troglodita do Jarvis Cocker, O Círculo de Dave Eggers e sobre o episódio do final do ano de Black Mirror (o White Christmas) lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/16/de-que-adianta-se-desconectar-da-internet/

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Jarvis Cocker, vocalista da banda Pulp e um dos comentaristas culturais mais importantes da da virada do século, lançou o “Nu-Troglodyte Manifesto” (Manifesto Neo-Troglodita) na edição deste mês da revista AnOther, um manifesto quase grunhido contra a onipresença da tecnologia e a volta para a idade da pedra. Traduzo-o abaixo:

“Onde você pode encontrar paz?
Onde você pode encontrar silêncio total?
Escuridão completa?
Aqui.
Sem sinal de celular.
Sem wi-fi.
Sem TV.
Sem rádio.
Este é o som de verdade do submundo: (porque, sabe, estamos no submundo de verdade)
Nenhuma influência de fora.
Uma tela em branco.
Quer dizer, não exatamente em branco – olhe para essas paredes: o que você vê quando olha pra lá? Você vê rostos? Padrões? Eles não estão lá, você sabe – do mesmo jeito que não há nenhum escorpião, urso ou caçadores sobrevoando o céu à noite. O universo é aleatório: só o homem que tenta estabelecer um padrão. Fazer que possa significar algo.
Mas esses padrões não são bons o suficiente como são? Sem nenhuma interpretação? E você não adoraria poder fazer algo tão lindo quanto isso? Claro que sim. Mas ninguém fez: apenas aconteceu.
Estalagmites
Estalactites
Qual é qual?
“Tights come down” * (uma maneira crua mas eficaz de lembrar)
Essas coisas levaram 20 mil anos para se formar, sabe.
E eu pensei que eu fosse lento no trabalho…
É uma coinciência que o clube que viu nascer o grupo musical mais influente e significante do século passado chamase-se “A Caverna”?
Não acho.
E por que as melhores casas noturnas ficam em porões escuros e sombrios com tetos baixos?
Fácil:
Porque nos lembra de estar lá… De volta às cavernas, digo – vamos lá: por que você acha que era chamado de música da pedra (rock music) em primeiro lugar?
Foi aqui que tudo começou.
Um antepassado da sua família morou aqui certa vez.
O Des-Res original **
Agora é hora de voltar pra casa
Hora de voltar à fonte
Hora de escapar da tagarelice constante infinita sem sentido que lhe distrai de quem realmente você é e o que você realmente quer fazer.
Não há lugar pra pensar aqui
Lugar pra viver
Entre (cuidado com a cabeça)
Sente-se
Olhe para uma pedra
Vamos começar tudo de novo.”

Jarvis clama para uma volta às raízes da natureza humana quando o homem sequer era homo sapiens, uma espécie de romantismo extremo, transformando a caverna pré-histórica em uma Arcádia bruta e animalesca. Na verdade ele canaliza uma sensação recorrente a todos nós: somos bombardeados por tantos contatos, fotos, mensagens, vídeos e links que a única solução que parece ser possível é largar tudo e fugir para vender coco na praia ou construir seu próprio chalé no campo, longe das barbaridades do século 21.

É um tema cada vez mais frequente na cultura atual – a onipresença da tecnologia em nossas vidas e a ascensão do capitalismo eletrônico criaram um híbrido distópico que reúne os piores pesadelos do século 20. Nem George Orwell em seu 1984 conseguiu imaginar uma sociedade em que as pessoas carregam câmeras e localizadores nos próprios bolsos, deixando rastros digitais por onde andam, sem nem cogitar fugir do Grande Irmão (nome de um dos programas mais populares atualmente). E nem Aldous Huxley conseguiria cogitar distrações tão inacreditáveis em seu Admirável Mundo Novo quanto as que tomam conta de nossa rotina digital, em bipes e luzes nos celulares, números que se acumulam nas redes sociais, abas abertas com todo o tipo de conteúdo disponível, de planilhas de valores a fotos NSFW.

Um dos livros mais importantes de 2013, traduzido ano passado para o Brasil, é O Circulo, de Dave Eggers (Companhia das Letras). É uma distopia disfarçada de entrevista de emprego ou comercial de departamento de RH, em que acompanhamos ascensão e queda de duas amigas no trabalho. Ambas trabalham na empresa que batiza o livro, uma startup que conseguiu ultrapassar Google e Facebook num futuro próximo ao criar um sistema de identificação que aposenta o conceito de senhas e muda nossa relação com a internet – de novo. O livro descreve o maravilhoso campus da empresa – cool, clean, hi-tech e cheio de regalias – ao mesmo tempo em que mostra que a rotina de trabalho dos funcionários se mistura cada vez mais com o tempo livre, tornando a participação social uma exigência quase compulsória. A trajetória das duas principais personagens – Annie e Mae – se diverge à medida em que nos afundamos nos segredos e inovações tecnológicas de uma empresa que tem como lemas frases como “segredos são mentiras”, “compartilhar é cuidar” e “privacidade é roubo”.

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O Círculo é pessimista com o mesmo sorriso que as pessoas dão quando tiram selfies. Seu final assustador mostra que estamos só arranhando uma superfície de perigo, mexendo em campos minados que podem mudar completamente a história de nossas vidas.

(Pra quem já leu o livro, um agrado – viu que lançaram o SeeChange da vida real?)

Ainda mais pessimista foi o especial de natal que a série inglesa Black Mirror, produzida pela BBC, exibiu no final do ano passado. Criado pelo genial Charlie Brooker, um dos críticos culturais mais ácidos na Inglaterra atualmente, a série não conta uma história, apenas pequenos contos sobre nosso relacionamento com a tecnologia. São duas temporadas, cada uma com três episódios com pouco mais de meia hora, que contemplam a alienação, a violência, o deleite, o nojo e a opressão causada pela comunicação digital, em contos tétricos e de um humor pessimista e bizarramente hilário. O título da série é uma referência às telas que olhamos diariamente quando são desligadas, revelando um espelho negro que reflete todos nossos anseios. É o mais próximo de um Além da Imaginação produzido para o século 21 que se tem notícia.

O especial de natal, batizado de Black Mirror: White Christmas, é especialmente aterrador. Mistura realidade aumentada, implantes nos olhos, armazenamento externo de lembranças pessoais, serviços de relacionamento, inteligência artificial, prevenção de crimes, ordens de restrição. Protagonizado pelo Don Draper de Mad Men (o ator Joe Hamm), o episódio se passa num futuro próximo mas faz referências a várias tecnologias que já estão sendo usadas em nosso dia a dia. Ele apenas cogita a possibilidade de popularização destas, quando todas as pessoas usarem tudo que já é disponível hoje – além de um tiquinho de ficção científica.

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Mais livros, filmes e discos (e sites e perfis em redes sociais e aplicativos e plugins) surgirão para nos alertar sobre os perigos do mundo digital, a insegurança da vida na internet, a necessidade de desconexão da rede. É uma mudança inevitável. Não dá para desplugar a internet ou voltarmos às máquinas de escrever, telefones fixos e fotos que precisavam ser reveladas sem que colocar o mundo em colapso. As vantagens da era eletrônica justificam sua existência até agora, mas precisamos aprender a usá-la.

Tiramos fotos de nós mesmos sem parar, postamos tudo que fazemos nas redes sociais, usamos aplicativos pra tudo em qualquer instante porque são novidades que nos foram apresentadas agora. Estamos nos lambuzando de tecnologia e de internet porque até outro dia tais facilidades não existiam. É como se estivéssemos gastando o que dá antes que tudo se acabe.

Mas é uma questão de hábito, uso e educação – esse é o nosso desafio para com as ferramentas digitais que estão moldando sim uma nova cultura. Não há escapatória – este novo romantismo é tão reacionário quanto o primeiro, que achava que a era industrial ia destruir uma paz no campo que só existe na cabeça de quem nunca morou no campo. Já escrevi inclusive sobre como essa venda de cocos na praia ou essa choupana rural é ilusória se isolada do resto da sociedade. Esse Walden só é possível mentalmente e talvez seja isso que Jarvis Cocker esteja pregando no manifesto neo-trogolodita: a volta para a caverna da mente.

* Duas N. do T. em relação ao texto de Jarvis Cocker: A frase “tights come down” (“calças caem”) não faria sentido ao ser traduzida literalmente porque é parte de uma brincadeira fonética em inglês para decorar a diferença entre estalagmites (que saem do chão) e estalactites (que saem do teto). A expressão completa é “Mites come up, tights come down” e é traduzida literalmente como “insetos sobem, calças descem” para lembrar a direção de ambas formações a partir de seu sufixo: “mites” lembra “estalagmite” e “tight” lembra “estalactite”.
** A segunda nota se refere ao acrônimo “Des-Res”, usado pelo mercado imobiliário inglês para explicitar que determinado imóvel (especialmente após reformas) é uma “residência desejável” (“desirable residence”, “des res”).

Black Mirror de natal

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Enquanto a terceira temporada de Black Mirror não dá as caras, ficamos com um especial de natal com Jon Hamm, Rafe Spall e Oona Chaplin, numa trama que mistura, pra variar, tecnologia, paranóia e (in)segurança, com aquele clima irônico e amargo típico das produções de Charlie Brooker.

O programa vai ao ar na semana que vem. E se você ainda não viu o Além da Imaginação de nossa era, faça-se esse favor…

Impressão digital #147: Black Mirror s02

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Minha coluna no Link de hoje é um comentário – sem spoilers – sobre a segunda temporada de Black Mirror, que cada vez torna-se mais importante.

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O ‘Além da Imaginação’ do novo século digital
Black Mirror: série pode ser melhor produção de TV no ano

Há meio século, quando a televisão era novidade, o formato seriado foi um dos primeiros a propor uma linguagem típica da nova mídia, diferente de programas de auditório e de notícias que imitavam fórmulas consagradas no rádio. A nova mídia já havia se consolidado em lares norte-americanos e logo invadiria as salas de estar pelo mundo. A caixa luminosa e falante aos poucos descobriu as maravilhas da fita gravada, transmitindo pequenos filmes semanalmente para um público que ainda se acostumava ao novo aparelho e à sua linguagem.

O seriado imitava a fórmula narrativa das peças de teatro que já havia sido absorvida pelo cinema e, nos anos 1950, foi adaptada para a televisão. A principal diferença era o fato de que a TV, muito mais do que o cinema e o teatro, falava com milhões de pessoas ao mesmo tempo. Então era preciso diluir a produção para que as histórias fossem simples – e atingir cada vez mais gente.

Mas, há 50 anos, um contador de histórias começou a mexer neste formato. Depois da consolidação do seriado, ele passou a ser submetido a novas possibilidades – e um dos primeiros a puxar a mudança foi o escritor e roteirista Rod Serling. Cansado das restrições que sofria devido aos patrocinadores, resolveu partir para a ficção científica. E assim criou The Twilight Zone (A Zona do Crepúsculo, como bradava seu título original em inglês), conhecido no Brasil como Além da Imaginação.

O seriado aproveitava a novidade que era a TV para propor novos dilemas e situações pitorescas ao cogitar mudanças absurdas ou surreais em cada novo episódio. Histórias com meia hora de duração (chegaram a ter uma hora, mas só na quarta temporada) retratavam perfeitamente o clima da época.

O início dos anos 60 estava ensanduichado entre a década de 50 – que viu a ascensão da classe média norte-americana ao mesmo tempo em que se vivia a paranoia anticomunista, traduzida em histórias de horror e ficção científica – e o nascer do novo decênio, que, ainda sob a sombra da Guerra Fria, assistiu a mudanças nos direitos civis e no tratamento à mulher, além da popularização de substâncias de expansão da consciência e de celebridades em escala global.

Vivemos hoje uma época parecida com o início dos anos 60. A novidade não é mais a TV, mas a internet. Passamos já da fase de deslumbramento com o fato de estarmos em contato com o mundo inteiro instantaneamente. Mas… cadê o nosso Além da Imaginação?

Está na TV – mas ainda não passou na TV brasileira, nem tem previsão, como confirmei com a assessoria de imprensa do canal inglês BBC por aqui. Black Mirror, criado por Charlie Brooker, já comentado neste espaço, teve sua segunda temporada exibida mês passado. São só três curtos episódios, mas que pegam na veia – e no estômago – quando usam, como Além da Imaginação, nossa relação com novas tecnologias e mídias como metáfora para nos atentar para problemas que nos afligem em escala aparentemente menor.

Não vou contar as histórias nem as surpresas (e são muitas) dos episódios Be Right Back, White Bear e The Waldo Momento, mas insisto que merecem atenção, pois talvez sejam a melhor produção na TV em 2013 até agora.

O ano começou há dois meses, mas vai ser difícil alguém tirar este trunfo do seriado de Brooker. Ele aborda temas como política, violência, alienação, amor, marketing, justiça, inteligência artificial, relações familiares, vingança, morte, reality show, mercantilização da experiência humana, parques temáticos e televisão. Tudo filtrado por TVs de plasma enormes, telefones portáteis, redes sociais, transmissões ao vivo, vida digital e avatares. Talvez só não seja perfeito porque não foi criado para a própria nova mídia, como o Além da Imaginação era em seu tempo.

Mas, por outro lado, como assistir a um programa de TV inglês que só foi exibido oficialmente em seu país? Quem sabe, sabe.

Impressão digital #141: Black Mirror

Minha coluna desta semana no Link foi sobre a segunda temporada de Black Mirror, que foi anunciada na semana passada.

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Se a tecnologia é um vício, quais são os efeitos colaterais?
‘Black Mirror’, série critica efeitos da tecnologia na sociedade

Uma voz monótona repete frases sem emoção: “Viva mais. Conecte-se mais. Viaje mais. Compartilhe mais. Procure mais”. Pessoas sorriem em situações cotidianas com seus tablets ou celulares. A iluminação é perfeita, a fotografia é de publicidade. Todos são lindos.

De relance, um outdoor eletrônico transforma empolgação em ameaça – “O futuro que você merece” – e seguem os imperativos: “Consuma mais. Pense mais. Experimente mais. Lembre mais. Veja mais. Compartilhe mais. Aprenda mais. Faça mais. Lute mais. Faça mais. Conecte-se mais”. As imagens mudam, os sorrisos tornam-se falsos e celulares filmam cenas violentas – confrontos, espacamentos – vistas por uma criança debaixo de seu cobertor.

“Deixe de ser você”, diz a voz robótica antes de surgir uma avenida tomada por pedestres que filmam, sem reação e com seus celulares, uma enorme nuvem de poeira que vem em sua direção. É inevitável a associação com a mórbida nuvem que tomou as ruas de Nova York depois da queda do WTC.

“O futuro está quebrado.” É o trailer da nova temporada de Black Mirror (espelho preto), do jornalista inglês Charlie Brooker, anunciada semana passada. Eu já havia comentado sobre a série em uma Impressão Digital no fim de 2012, mas apenas comentei a força de seu título, mais do que seu tema.

Black Mirror não é um seriado, mas três pequenos filmes exibidos pela Canal 4 da BBC inglesa. Seu autor, Charlie Brooker, é um notável crítico de mídia conhecido por sua abordagem nada sutil e pela franqueza agressiva que usa para expor suas opiniões, uma espécie de Michael Moore menos bonachão. É um inglês cínico cujo sotaque é tão pesado quanto a forma como ele trata os temas que escolhe. Ele explora como burrice, vaidade, ganância e banalidade derretem nossa civilização ao tratar inteligência como excentricidade e aparência como lastro de confiança.

O que une os três primeiros episódios de Black Mirror, exibidos no fim de 2011, é um dos principais alvos das críticas de Brooker – a tecnologia. Sua abordagem é simples: a tecnologia é a droga mais consumida do mundo hoje e estamos todos viciados nela. Todo o ecossistema criado pela internet e novos aparelhos não apenas nos permite consumir conteúdo em qualquer lugar como também faz que nossas vidas possam ser transformadas em conteúdo para ser consumido. A partir desta constatação, Brooker quer descobrir quais são os efeitos colaterais desse vício.

Em três episódios, três choques: no primeiro (Hino Nacional) o primeiro-ministro inglês vê-se chantageado para fazer sexo com um porco em cadeia nacional. No segundo (15 Milhões de Méritos), um operário de uma fábrica do futuro – que parece uma academia de ginástica – tenta ajudar uma desconhecida a comprar sua vaga em um programa de reality show. No terceiro (Toda a História de Você) uma tecnologia permite que você grave e reveja as próprias lembranças e isso pode ser catastrófico para as nossas relações.

Black Mirror ainda é inédita no Brasil e o canal BBC HD, recém-lançado no País, poderia nos presentear com sua exibição (como já fez com a excelente série Sherlock, adaptada pelo bamba Steven Moffat), antes de os três episódios da próxima temporada – que começam a ser filmados no mês que vem e ainda não têm data de exibição – irem ao ar no Reino Unido.

Do pouco que se sabe dos próximos episódios, num deles o namorado de uma viciada em redes sociais consegue voltar a ter contato com ela depois de sua morte graças à internet; no outro, um personagem de programa infantil concorre a um cargo político e começa a soar menos estúpido que seus concorrentes; e no último, uma mulher acorda numa casa em que não conhece para descobrir que as pessoas se tornaram voyeurs sem motivo, filmando os outros o tempo todo e não fazem mais nada.

Não parece tããããão diferente da nossa própria realidade…

Impressão digital #132: O espelho preto

Minha coluna desta edição de segunda-feira do Link (a primeira em que deixo o cargo de editor para assinar apenas como colunista) pega o gancho do título do seriado de Charlie Brooker para comentar nossa relação com as telas que nos cercam…

Como desligar o espelho preto que carregamos no bolso
Fixados à tela, fingimos que nada mais importa

O jornalista, diretor e comentarista inglês Charlie Brooker é uma das melhores cabeças do Reino Unido no século 21. Conhecido por seus comentários ácidos sobre mídia, ele ataca principalmente a televisão em séries produzidas pelos diferentes braços da emissora estatal BBC. No fim da década passada, os episódios de Newswipe, Screenswipe e Gameswipe (sobre, respectivamente, notícias, cinema e videogame) culminaram na série How TV Ruined Your Life (Como a TV Arruinou a Sua Vida, com episódios sobre medo, amor, conhecimento, progresso, aspirações e o ciclo da vida), de 2010. Em 2008, ironizou os reality shows e a mania de zumbis com Dead Set e no fim do ano passado dedicou-se à ridicularizar nossa obsessão pela tecnologia em Black Mirror.

São três histórias independentes que abordam os efeitos que a tecnologia causa ao comportamento humano se a compararmos com uma droga. “Black mirror” é o espelho preto que nos observa e observamos toda vez que uma tela é desligada. Desligamos a TV, o celular, o computador e vemos o nosso próprio rosto em diferentes dimensões, em molduras escurecidas que parecem espelhos em negativo do eu de cada um, como uma espécie de retrato de Dorian Gray de nossos sentimentos.

Desligamos aparelhos e nos vemos mirando para um vazio emocional que parece um abismo, anseios e esperanças refletidos do avesso, mas, ao contrário não é o monstro nietzscheano nos olhando de volta, o desconhecido consciente. É apenas um vazio, como se estivéssemos nos tornando robôs, fazendo o caminho inverso de Roy Batty em Blade Runner.

Não culpe o digital: a tela preta já nos hipnotizava desde os primórdios do cinema e passou a nos refletir a partir da televisão. O computador funcionou como um grilhão da mesa de escritório, uma prisão em forma de horas de trabalho, cuja ilusão de liberdade veio com a chegada dos smartphones.

E chegamos à segunda década do século sem nem sequer olharmos na cara um do outro. Se antes do smartphone uma mesa de bar já poderia criar círculos paralelos de conversa graças à telefonia móvel, com a internet à mão reuniões, encontros e refeições são celebrações de um individualismo autista, em que os presentes fingem presença mas fogem momentaneamente para a porta de entrada de seu umbigo, na palma de sua mão. Fingimos checar as horas e responder um SMS quando, na verdade, estamos vendo reações ao que fizemos nas redes sociais. O espelho negro só reflete aquilo que consideramos “vida” – todo o resto fingimos que não importa não existe, não está lá.

Por isso sonho com um restaurante cujo luxo é não ser interferido por ninguém mexendo no celular. Da mesma forma como deixamos o carro no manobrista ou os sapatos na porta de entrada, poderíamos ter a opção – mesmo que na marra – de deixarmos nossos celulares antes de comer. O restaurante me parece a opção mais viável, mas poderia ser uma academia de ginástica ou uma casa de shows. Nada de fotos, SMS, ligações, redes sociais, notícias, vídeos ou jogos – ficaríamos à disposição daquilo que é nos oferecido. Que, por isso, receberia maior cuidado e atenção.

Acho que isso é uma utopia possível, mas não vejo como regra. Da mesma forma que há restaurantes que não contam com TVs em suas paredes (ainda bem!), cogito a possibilidade de que haja outros que nos despluguem da matrix, mesmo que por algumas horas, para nos conectarmos à vida de fato.

***

Esta é a primeira coluna que assino depois de deixar o Link – a partir de hoje, começo uma nova jornada, no comando da redação da revista Galileu, da editora Globo. Troco de pontes (do Limão para o Jaguaré), de marginais (do Tietê para o Pinheiros) e de foco (de tecnologia para ciência), por isso deixo a análise das notícias em segundo plano e passo a dar ênfase à forma como a tecnologia mexe em nossa cultura.